Publicamos em nossa edição de hoje um extenso comentário sobre as notas do Sr.
De Valera, do Sr. Roosevelt e do Reich acerca da
questão do bombardeio de Roma, procurando, quanto possível, chegar a convicções
precisas e claras sobre a situação da Santa Sé, e elucidando a confusão que se
vai tornando neste assunto cada vez mais densa e constante.
Para isto, temos duas razões.
Neste delicadíssimo assunto, procurando
sistematicamente não ser pessimista, isto é, evitar dar crédito às notícias
alarmantes e infundadas que muitas vezes se tentou por em circulação a respeito
da situação do Santo Padre. Entretanto, também evitamos com o maior cuidado
qualquer otimismo tolo. Enquanto não haja notícias fidedignas de que o Santo
Padre está inteiramente fora de qualquer risco, nosso zelo não encontrará
repouso, nossas preces não terão solução de continuidade. O Pontífice Romano é
o cerne da Igreja Católica, e a devoção ao Papa é a manifestação mais sensível
e tangível, da vitalidade de nossa Fé. Precisamos cultivar em nós essa devoção
como a flor mais delicada que brota de nossa Fé. Precisamos resguardá-la, como
quem resguarda o mais alto e rico dos tesouros. Por mais longa que seja a
provação, devemos perseverar na oração com firmeza, humildade e evangélica
importunidade. O Céu se abrirá, por fim, clemente aos rogos dos fiéis
verdadeiramente devotos do Sumo Pontífice. E se os pessimismos
de qualquer natureza diminuem a confiança, os otimismos
infundados fazem esmorecer a oração. A verdadeira piedade se nutre da verdade.
Se queremos ser úteis ao Papa, devemos procurar ver a situação com
objetividade, como ela é.
* * *
Ora, se estamos longe de considerar Roma perdida,
julgamos ridículo que se dê por afastado qualquer risco, com exclusivo
fundamento em uma afirmação... nazista, ou seja mentirosa por definição.
Achamos, pois, de suma importância mostrar a nossos leitores que o próprio
conteúdo da nota germânica, bem como as circunstâncias que cercaram sua
divulgação, tudo enfim nos leva a não dar crédito à afirmação de que Roma já
foi desmilitarizada.
E, para isto, nos move outra preocupação.
* * *
Mithridates, Rei de Ponte, receando ser envenenado por seus inimigos,
teve a idéia de habituar seu organismo aos venenos mais violentos,
habituando-se a absorver doses deles, inicialmente pequenas, e ao cabo de muito
tempo fortíssimas. Com isto, não havia o que matasse. É ao menos o que se
conta... É o que se chama "mithridatização".
Em matéria de mithridatização,
a opinião pública é muito sensível, ou antes, muito insensível. A princípio, a
idéia de que o Papa pudesse sofrer qualquer coisa alvoroçou todo o mundo. A
medida que o tempo corre, que o perigo continua a pairar nos ares sem se
consumar, que ninguém fica sabendo ao certo se o Papa está ou não está correndo
risco, as sensibilidades se vão embotando ou "mithridatisando"
e o que há alguns meses parecia crime horripilante, começa a parecer certamente
monstruoso, mas não muito surpreendente...
Nada concorre mais para esse amortecimento do que a
confusão. Um perigo prolongado transforma o receio em hábito. Um perigo incerto
e prolongado transforma o receio em displicência. Hábito e displicência acabam
por embotar os sentimentos mais delicados.
É preciso que a imprensa católica se esforce, pois,
por dissipar qualquer confusão em tema que tão altamente afeta toda a opinião
católica.
* * *
Acerca da notícia de que S. Excia.
Revma., o Sr. Dom Jaime de Barros Câmara, Arcebispo Metropolitano do Rio de Janeiro,
iria benzer um brilhante encontrado em jazidas deste país, o “Estado” publicou
o seguinte telegrama:
Foi noticiado que D. Jaime Câmara, Arcebispo do Rio
de Janeiro, benzeria o diamante “Osvaldo Aranha”, encontrado no Estado de Minas
e pertencente a um grupo de comerciantes.
Agora, falando a “A Notícia”, o Secretário de D.
Jaime Câmara informa que o Sr. Arcebispo não dará a bênção à referida pedra
preciosa, tendo declarado àquele vespertino o seguinte: “De fato, fui procurado
por um senhor que me consultou a respeito da bênção a ser dada pelo Sr.
Arcebispo a uma pedra preciosa, à qual declarou o interessado pertencer a uma
família católica. Nada mais natural. Prontifiquei-me assim a dar os passos
necessários nesse sentido junto ao Sr. Arcebispo. Depois, o fato tomou um
caráter público e, mais do que isso, uma feição puramente comercial. Nosso
desejo era deixar o noticiário de imprensa morrer por si mesmo, mas tal não
aconteceu. Seu próprio jornal, no outro dia, fez um comentário em torno do
caso. Diante disso, comuniquei o que se estava passando ao Sr. Arcebispo, e
este resolveu continuar não tomando conhecimento do fato, de vez que a sua real
atitude já era de completo alheamento de um assunto que não tinha nenhum
caráter espiritual. Assim, posso garantir que o referido diamante não foi, nem
será de maneira alguma benzido”.
* * *
O almirante Horty, figura sinistra que sempre impediu a restauração da
monarquia austro-húngara e foi por isto um dos grandes responsáveis pela
expansão nazista na Europa Central, é sem dúvida um dos protegidos das forças [...]
que manipulam os grandes meios de comunicação.
Para salvar seu governo de um colapso, Horty declarou que aceitaria a invasão germânica. Depois,
como Pétain, retraiu-se continuando embora
comodamente em seu posto.
E em torno dele se fez uma verdadeira cortina de
fumaça, de boatos, de contradições, que visam preparar o terreno para a
afirmação de que ele - tanto quanto Pétain - era um
inocente.
Esperemos que o mundo de amanhã não creia nisto.