Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Minha

 

Vida Pública

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Parte X

Livros e Campanhas de grande repercussão na década de 1970

 

Capítulo XI

Dom Sigaud e Dom José Pedro Costa acusam Dom Pedro Casaldáliga e Dom Tomás Balduíno: a reação da CNBB

1. Relatório de Dom Sigaud à Nunciatura: grande estardalhaço

Entre fevereiro e maio de 1977, Dom Geraldo Sigaud, Arcebispo de Diamantina, e Dom José Pedro Costa, então Arcebispo-Coadjutor de Uberaba, denunciaram a expansão do comunismo entre os católicos brasileiros.

Burburinho! [176]

Convivi com Dom Sigaud longos anos, em tempos que ainda não iam tão longe. E tive ocasião de lhe apreciar de perto a inteligência e a cultura. Isto era o bastante para aquilatar quanto ele terá posto de força concludente, quer na seleção dos documentos que apresentou à Nunciatura Apostólica, quer na argumentação em que se terá esteado [177].

Um cotidiano dos de maior circulação no País, o Jornal do Brasil, publicou três páginas inteiras do relatório (em São Paulo, transcrito de ponta a ponta por O Estado de S. Paulo) em que Dom Sigaud argumentava em apoio da acusação de comunistas que dirigiu aos Bispos de São Félix do Araguaia e Goiás Velho [178].

Pena é que em São Paulo não tenha tido igual divulgação o texto lúcido e inteligentemente matizado, preciso e episcopalmente corajoso do Sr. Arcebispo Coadjutor de Uberaba. Qualquer brasileiro que acompanhasse com olhar e coração católicos a tragédia da Igreja contemporânea no Brasil só podia sentir admiração e reconhecimento pela intervenção franca e oportuna de S. Excia. [179].

A Santa Sé instaurou então um inquérito do qual incumbiu Dom José Freire Falcão, Arcebispo de Teresina. O inquérito, ao que parece, morreu no silêncio [180].

2. Desconcerto da CNBB

Outra entretanto foi a reação da CNBB.

Toda a atmosfera emanada do organismo episcopal a propósito da valente atitude de Dom Sigaud fazia sentir uma surpresa que tocava às raias do desconcerto. "Como, então há Bispos comunistas? E como um Bispo ousa dizer isto de dois colegas?" Era o que me parecia sentir em todas as declarações da CNBB [181].

O Cardeal Dom Vicente Scherer, Arcebispo de Porto Alegre, e Dom Afonso Niehues, Arcebispo de Florianópolis, por exemplo, deram como argumento que Dom Casaldáliga e Dom Tomás Balduino não eram comunistas... porque é inacreditável que um Bispo possa ser comunista

Só isto! Quando qualquer aluno de Catecismo sabe que, individualmente, um Bispo pode cair em heresia. E, portanto, pode ser comunista.

Ademais, qualquer homem medianamente informado sobre a História da Igreja conhece numerosos casos — insisto: numerosos! — de Bispos que ao longo dos séculos caíram em heresia. Por que não poderia acontecer o mesmo nos anos 70, a algum Sr. Bispo do Brasil?

Esperavam realmente os dois autores dessas “refutações” a Dom Sigaud que alguém se deixasse convencer por elas?

Outros Srs. Bispos reagiram de modo diferente: limitaram-se a dizer que Dom Casaldáliga e Dom Tomás Balduino não eram comunistas, simplesmente... porque não eram*.

* A lista dos Prelados que assim reagiram é considerável: Cardeal Dom Aloisio Lorscheider, Arcebispo de Fortaleza e presidente da CNBB, Dom Ivo Lorscheiter, Bispo de Santa Maria e secretário geral da CNBB, Dom José Maria Pires, Arcebispo de João Pessoa, Dom João Batista da Motta e Albuquerque, Arcebispo de Vitória, Dom José Brandão de Castro, Bispo de Propriá, Dom Quirino Adolfo Schmitz, Bispo de Teófilo Otoni, Dom Jaime Luís Coelho, Bispo de Maringá, Dom Frederico Didonet, Bispo de Rio Grande, Dom Moacir Grechi, Bispo do Acre-Purus, Dom Alano Pena, Bispo Auxiliar de Marabá, Dom Lelis Lara, Bispo Auxiliar de Itabira.

Dom Aloisio Lorscheider, Dom José Maria Pires e Dom Frederico Didonet acrescentaram uma pequena variante: os dois Bispos incriminados não devem ser tidos por comunistas porque eles, Dom Aloisio, Dom Pires e Dom Didonet, os conhecem pessoalmente e sabem que não o são. O que Dom Tomás Balduino e Dom Casaldáliga teriam dito em conversas privadas com Dom Aloisio, Dom Pires e Dom Didonet bastaria, portanto, para derrubar toda a argumentação séria e até impressionante de Dom Sigaud [182].

*   *   *

A respeito da posição doutrinária do Sr. Bispo Dom Pedro Casaldáliga, o que eu teria que dizer estava dito de sobejo no meu estudo A Igreja ante a escalada da ameaça comunista. Fui o primeiro a dar divulgação em nosso País às rimas do irrequieto Prelado.

Mas Dom Sigaud, ao abordar em várias ocasiões o tema Dom Casaldáliga-Dom Balduino, omitiu qualquer referência à minha publicação.

Ponho de lado a idéia de que nisto tenha entrado uma mesquinharia que em tantos anos de convívio não lhe conheci.

Há de ter tido outras razões. Respeitando-as, não quis intervir no debate até o extremo limite em que meu silêncio fosse ficando inexplicável aos olhos de nem sei quantos amigos que me distinguiam com sua confiança por esse Brasil afora.

Assim premido, e só depois de muito premido, acabei por falar* [183].

* Dr. Plinio abordou o tema nos artigos Desconcerto desconcertante (Folha de S. Paulo, 26/4/77) e Não é, não é, não é (Folha de S. Paulo, 28/5/77). E também na entrevista concedida ao Jornal do Brasil de 8/5/77.

*   *   *

Em agosto de 1977, no Correio Braziliense, Dom Antonio de Castro Mayer propõe a publicação de uma Pastoral coletiva do Episcopado brasileiro contra o comunismo. A sugestão esbarra em um muro de silêncio, e rola para o olvido [184].

3. “Mexer com Dom Casaldáliga é mexer com o Papa”

Não era crível que, sem a interferência de Paulo VI, males como esses pudessem encontrar remédio.

E não se via que ele tivesse o ânimo voltado para intervir* [185].

* Lembremos mais uma vez que o Cardeal-Arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, ao chegar de Roma, declarara ter ouvido do próprio Paulo VI que “mexer com Dom Pedro Casaldáliga seria mexer com o próprio Papa” (cfr. A Igreja ante a escalada da ameaça comunista, cit.).

*   *   *

De então até esta data, a influência comunista nos meios católicos não deixou de crescer. Mas foi tomando facetas novas sumamente preocupantes. Uma dessas facetas era o ideal indigenista comuno-missionário que despontava. Tratarei mais abaixo do tema.

 


NOTAS

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