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1. Relatório de Dom Sigaud à Nunciatura: grande estardalhaço
Entre fevereiro e maio de 1977, Dom Geraldo Sigaud,
Arcebispo de Diamantina, e Dom José Pedro Costa, então Arcebispo-Coadjutor
de Uberaba, denunciaram a expansão do comunismo entre os católicos
brasileiros.
Burburinho! [176]
Convivi com Dom Sigaud longos anos, em tempos que
ainda não iam tão longe. E tive ocasião de lhe apreciar de perto a
inteligência e a cultura. Isto era o bastante para aquilatar quanto ele
terá posto de força concludente, quer na seleção dos documentos que
apresentou à Nunciatura Apostólica, quer na argumentação em que se terá
esteado [177].
Um cotidiano dos de maior circulação no
País, o Jornal do Brasil, publicou três páginas inteiras do
relatório (em São Paulo, transcrito de ponta a ponta por O Estado de S.
Paulo) em que Dom Sigaud argumentava em apoio da acusação de
comunistas que dirigiu aos Bispos de São Félix do Araguaia e Goiás Velho
[178].
Pena é que em São Paulo não tenha tido igual
divulgação o texto lúcido e inteligentemente matizado, preciso e
episcopalmente corajoso do Sr. Arcebispo Coadjutor de Uberaba. Qualquer
brasileiro que acompanhasse com olhar e coração católicos a tragédia da
Igreja contemporânea no Brasil só podia sentir admiração e reconhecimento
pela intervenção franca e oportuna de S. Excia. [179].
A Santa Sé instaurou então um inquérito do qual
incumbiu Dom José Freire Falcão, Arcebispo de Teresina. O inquérito, ao
que parece, morreu no silêncio [180].
2. Desconcerto da CNBB
Outra entretanto foi a reação da CNBB.
Toda a atmosfera emanada do organismo episcopal a
propósito da valente atitude de Dom Sigaud fazia sentir uma surpresa que
tocava às raias do desconcerto. "Como, então há Bispos comunistas? E
como um Bispo ousa dizer isto de dois colegas?" Era o que me parecia
sentir em todas as declarações da CNBB [181].
O Cardeal Dom Vicente Scherer, Arcebispo de Porto
Alegre, e Dom Afonso Niehues, Arcebispo de Florianópolis, por exemplo,
deram como argumento que Dom Casaldáliga e Dom Tomás Balduino não eram
comunistas... porque é inacreditável que um Bispo possa ser comunista
Só isto! Quando qualquer aluno de
Catecismo sabe que, individualmente, um Bispo pode cair em heresia. E,
portanto, pode ser comunista.
Ademais, qualquer homem medianamente
informado sobre a História da Igreja conhece numerosos casos — insisto:
numerosos! — de Bispos que ao longo dos séculos caíram em heresia. Por que
não poderia acontecer o mesmo nos anos 70, a algum Sr. Bispo do Brasil?
Esperavam realmente os dois autores dessas
“refutações” a Dom Sigaud que alguém se deixasse convencer por elas?
Outros Srs. Bispos reagiram de modo
diferente: limitaram-se a dizer que Dom Casaldáliga e Dom Tomás Balduino
não eram comunistas, simplesmente... porque não eram*.
* A lista dos
Prelados que assim reagiram é considerável: Cardeal Dom Aloisio
Lorscheider, Arcebispo de Fortaleza e presidente da CNBB, Dom Ivo
Lorscheiter, Bispo de Santa Maria e secretário geral da CNBB, Dom José
Maria Pires, Arcebispo de João Pessoa, Dom João Batista da Motta e
Albuquerque, Arcebispo de Vitória, Dom José Brandão de Castro, Bispo de
Propriá, Dom Quirino Adolfo Schmitz, Bispo de Teófilo Otoni, Dom Jaime
Luís Coelho, Bispo de Maringá, Dom Frederico Didonet, Bispo de Rio Grande,
Dom Moacir Grechi, Bispo do Acre-Purus, Dom Alano Pena, Bispo Auxiliar de
Marabá, Dom Lelis Lara, Bispo Auxiliar de Itabira.
Dom Aloisio Lorscheider, Dom José Maria Pires e Dom
Frederico Didonet acrescentaram uma pequena variante: os dois Bispos
incriminados não devem ser tidos por comunistas porque eles, Dom Aloisio,
Dom Pires e Dom Didonet, os conhecem pessoalmente e sabem que não o são. O
que Dom Tomás Balduino e Dom Casaldáliga teriam dito em conversas privadas
com Dom Aloisio, Dom Pires e Dom Didonet bastaria, portanto, para derrubar
toda a argumentação séria e até impressionante de Dom Sigaud [182].
* *
*
A respeito da posição doutrinária do Sr. Bispo Dom
Pedro Casaldáliga, o que eu teria que dizer estava dito de sobejo no meu
estudo
A Igreja ante a escalada da ameaça comunista. Fui o primeiro
a dar divulgação em nosso País às rimas do irrequieto Prelado.
Mas Dom Sigaud, ao abordar em várias ocasiões o tema
Dom Casaldáliga-Dom Balduino, omitiu qualquer referência à minha
publicação.
Ponho de lado a idéia de que nisto tenha entrado uma
mesquinharia que em tantos anos de convívio não lhe conheci.
Há de ter tido outras razões. Respeitando-as, não
quis intervir no debate até o extremo limite em que meu silêncio fosse
ficando inexplicável aos olhos de nem sei quantos amigos que me
distinguiam com sua confiança por esse Brasil afora.
Assim premido, e só depois de muito premido, acabei
por falar* [183].
* Dr. Plinio
abordou o tema nos artigos
Desconcerto desconcertante
(Folha de
S. Paulo, 26/4/77) e
Não é, não é, não é
(Folha de S. Paulo,
28/5/77). E também na
entrevista concedida ao
Jornal do Brasil de
8/5/77.
* *
*
Em agosto de 1977, no Correio Braziliense, Dom
Antonio de Castro Mayer propõe a publicação de uma Pastoral coletiva do
Episcopado brasileiro contra o comunismo. A sugestão esbarra em um muro de
silêncio, e rola para o olvido [184].
3. “Mexer com Dom Casaldáliga é mexer com o Papa”
Não era crível que, sem a interferência de Paulo VI,
males como esses pudessem encontrar remédio.
E não se via que ele tivesse o ânimo voltado para
intervir* [185].
* Lembremos mais
uma vez que o Cardeal-Arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, ao chegar de
Roma, declarara ter ouvido do próprio Paulo VI que “mexer com Dom Pedro
Casaldáliga seria mexer com o próprio Papa” (cfr.
A Igreja ante a
escalada da ameaça comunista, cit.).
* *
*
De então até esta data, a influência comunista nos
meios católicos não deixou de crescer. Mas foi tomando facetas novas
sumamente preocupantes. Uma dessas facetas era o ideal indigenista
comuno-missionário que despontava. Tratarei mais abaixo do tema.
NOTAS
Índice da "Parte X"
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