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O universo é uma catedral([1])

Ao Leitor

Il donne de la vie à tout

parce quil ne met de l’art à rien

 

Um dos paradoxos do mundo moderno está em que, à medida em que ele se globaliza, seus horizontes tendem a estreitar-se.

Basta dizer que hoje se fala seriamente em “fim da História”. É de temer que, quando essa globalização se torne total, o confinamento dos horizontes também seja completo, levando ao auge a terrível calamidade que os franceses denominam com propriedade panne d’horizonts..

Neste ambiente de indisfarçável acanhamento mental, um som puro se faz ouvir ao longe. Trata-se da clarinada que representam o exemplo, a obra e o pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira.

Este brasileiro que, pela primeira vez em nossa História, exportou ideologia, estruturou essa ideologia a partir da Fé e da densa maravilha constituída por seus horizontes. Esses horizontes, por sua vez, impregnaram toda sua vida.

“Ele comunica vida a tudo porque não coloca artifício em nada” (Philip Mansel, “Charles-Joseph de Ligne, le charmeur de l’Europe”. Stock, 1992, p. 234).

Foi a vida do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira um tecido de lutas, dissabores, vitórias e espinhos. Entretanto, estivesse ele contente ou descontente, preocupado ou não, todos os que o conheceram o viram sempre animado, animando os outros e lhes comunicando compenetração, zelo, dinamismo.

Esta capacidade de manter-se sobranceiro e jovial mesmo nas piores adversidades pede uma explicação. Ela não provinha, como se poderia pensar, de um esforço, mas de uma visão: uma visão do Universo, como ele mesmo explicava. É que ele contemplava continuamente algo de tão alto, tão grande, tão belo, que os mil problemas de todos os dias não o apoquentavam e eram vistos sempre de cima.

Que visão era esta? Quais panoramas tiveram a capacidade de encher essa vida extraordinária, dentro deste mundo de nossos dias, prosaico e em panne d’horizonts?

Este livro terá cumprido sua finalidade na medida em que contribuir para dar uma resposta, ainda que parcial, a esta questão.

*   *   *

A maior parte dos fragmentos que compõem a presente obra foi retirada de conferências. Trata-se somente de amostras, e nem poderia ser de outra forma, uma vez que sua produção intelectual é composta de nada menos que dezesseis livros(*), 2500 artigos e manifestos, e mais de vinte mil conferências anotadas, quase sempre feitas de improviso. Desse conjunto escachoam pensamentos como os que publicamos.

 

* Geralmente traduzidos para as principais línguas vivas e por vezes com várias edições nesses idiomas.

 

De modo muito especial, era em conversas ou em palestras que aflorava sua visão do Universo. O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira era um incomparável causeur, e mesmo fazendo conferências, proseava. Até seus artigos, muitas vezes, eram conversas. As frases, num vocabulário rico e muito próprio dele, iam pintando rapidamente a realidade e a interpretando. Coisa rara: a elevação da linguagem e a naturalidade aliavam-se maravilhosamente em sua maneira de exprimir. Por isso, certamente se aplica a ele, na perfeição, o que a Mme. de Stael disse do Príncipe de Ligne: Il donne de la vie à tout parce quil ne met de l’art à rien.

*   *   *

Mas... uma simples sentença pode realmente ser de proveito? Uma coletânea de fragmentos não resulta em algo muito... fragmentário? Não seria melhor publicar logo de uma vez um corpus doutrinário, estruturado e completo?

Sem dúvida. Mas, enquanto esse corpus, de proporções monumentais,  não vem a lume, uma coletânea de coruscações pode ser de grande utilidade. Sobretudo em nossa terra, pois o brasileiro, povo muito intuitivo, apanha por vezes a realidade melhor através de lampejos, do que numa estrutura articulada, completa e acabada.

O espírito humano é feito de tal maneira, que muitas vezes uma simples frase tem o dom de produzir conseqüências insondáveis. O próprio Prof. Plinio Corrêa de Oliveira o atesta, em confidência que fez para seus mais chegados.

“Eu era professor na Faculdade Sedes Sapientiae da Universidade Católica de São Paulo. E, habitualmente, terminadas as aulas, passava pela capela, fazia uma pequena oração diante do Santíssimo Sacramento e saía.

Num dia em que estava numa provação das mais agudas, rezei, levantei-me e rumei para a porta de saída. Era uma tarde ainda clara, a luz entrava pelos vitrais aos borbotões e, num movimento irrefletido, eu deitei os olhos nos vitrais.

Dois deles me chamaram especialmente a atenção. Um tinha estes dizeres: ‘Nam, et si ambulavero in medio umbrae mortis, non timebo mala’ (Ainda que eu caminhe nas sombras da morte, não temerei os males)([2]). Quer dizer, confiarei em Deus, e até se eu estiver morto, ainda confiarei nEle.

E outro vitral imediatamente contíguo continha estas palavras: ‘In lumine autem Tuo videbimus lumen’ (Na vossa luz veremos a luz)([3]).

Saí reverdejado do contato com estas frases, que eram um estímulo à confiança.

Soava-me como: confie, porque ainda se você estiver morto, Nossa Senhora o ajudará.

Equivale a dizer: ainda que você pareça completamente derrotado, a vitória será sua.

E neste segundo vitral (In lumine autem Tuo videbimus lumen) estava representado Nosso Senhor ressuscitado. Quer dizer, na luz de Cristo nós veremos a solução, veremos o bom caminho para as coisas.

Poucos dias depois, toda a perseguição dos adversários estava desfeita, e minha vida continuava tranqüila. Nossa Senhora me tinha dado a graça de confiar([4]).

*   *   *

“Saí reverdejado do contato com essas frases”. Este depoimento é expressivo como comprovação da utilidade que podem ter belas e verdadeiras sentenças, mesmo quando não articuladas e concatenadas entre si. Só cabe, pois, augurar que do contato com estes pensamentos do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, possam os leitores entrever algo do prodigioso lumen que se irradia de sua pessoa, de sua história, e também de seus pensamentos.

 

*   Por razões de ordem editorial, deixamos de indicar as fontes de onde foram extraídas as sentenças. Entretanto, todos os dados, na devida ordem, estão à disposição dos que se interessarem.

 

Advertência

 

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, com certeza ordenaria que se colocasse explícita menção a sua enlevada disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito do Autor dos pensamentos contidos neste livro,  cuja ilibada ortodoxia, aliás, nunca foi contestada por quem quer que seja:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.


([1]) O Universo é uma Catedral

Morceaux choisis do pensamento de

Plinio Corrêa de Oliveira

recolhidos por Leo Daniele

PRIMEIRA SÉRIE

 

Edições Brasil de Amanhã

São Paulo, 1997

 

Impressão:

Artpress Indústria Gráfica e Editora Ltda.

Rua Javaés 681 - CEP 01130-010 São Paulo - SP

 

[2] Sl. 22, 4

[3] Sl. 35, 10

[4] Narração feita em 13-5-94