Plinio Corrêa de Oliveira

 

Tribalismo Indígena,

ideal comuno-missionário

para o Brasil no século XXI

 

 

Editora Vera Cruz Ltda – São Paulo – Brasil - 7ª edição – junho de 1979

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Conteúdo

 

Cochilando, às vezes se ouve e se aprende... 1

Capítulo I – A concepção católica tradicional das Missões. 6

1. Conceito de Missão. 6

2. Fim supremo da Missão: essencialmente religioso – a glória de Deus e a bem-aventurança eterna. 6

3. Efeitos da Missão na vida temporal 7

4. Missão e índios. 7

5. Para o missionário, uma solução impossível: abster-se. 8

Capítulo II – Concepção “aggiornata” e progressista da Missão.. 9

1. Meta capital da missiologia “aggiornata”: uma ordem nova para a sociedade terrena. 9

2. Qual a ordem nova desejada pela missiologia “aggiornata”?. 9

3. Sobre o homem e o egoísmo: contraste entre o ensino tradicional e a nova missiologia. 11

4. Egoísmo e sociedade contemporânea. 12

5. “Um abismo clama por outro abismo” (PS. 41, 8): da exacerbação do egoísmo, a sociedade contemporânea chegou ao coletivismo. 12

6. E o novo abismo atrai um terceiro: do comunismo à anarquia. 13

7. Na selva brasileira missiologia “aggiornata”. 13

8. Concepções neotribais a respeito da família. 15

9. Nova catequese: catequizar é secundário, e até supérfluo. 15

10. Alcance do estudo da missiologia “aggiornata”. 15

11. Catequese e agitação. 16

Capítulo III – Vozes missionárias “aggiornate”. 18

Secção I – Comunidade de bens. 18

1. “Os índios já vivem as bem-aventuranças: não conhecem a propriedade privada, o lucro, a competição”  18

2. Elogio da comunidade de bens existente no sistema tribal – invectivas contra a propriedade privada  19

3. Menosprezo da Pátria e apologia do coletivismo tribal 19

4. Uma “Igreja-Nova”, de inspiração comunista, onde a propriedade é a heresia e o proprietário o herege  20

5. A propriedade privada apresentada como fonte de todos os males. 21

6. Visão comunista da caridade. 21

Secção II – Vida tribal em condições não selváticas. 22

7. Saudades do primitivismo tribal de nossos índios. 22

8. Utopia, sim; mas ideal para o qual se deve tender continuamente. 22

Secção III – Liberdade sexual.. 24

9. Sociedades primitivas estão mais próximas do ideal 24

10. Elogio da nudez dos índios, “global e natural”. 24

Secção IV – Descrição idílica e “evangélica” da vida do índio.. 24

11. Um paraíso tribal, onde é coletiva a propriedade dos meios de produção e não existe autoridade. 25

12. “Sem perder seus valores comunitários, religiosos e tribais”. 26

13. “Só temos a aprender com os índios”. 27

14. Índios são modelos para nossa sociedade. 27

15. A missiologia “aggiornata” inspira uma transformação radical de nossa sociedade. 28

16. Missão do índio: “fazer com que os civilizados reencontrem a civilização”. 28

Secção V – A evangelização não é necessária.. 28

17. Vivendo em regime comunitário, os índios não precisam da Igreja. 29

18. A principal missão da Igreja não é converter os índios à Religião de Jesus Cristo, mas conservar-lhes o estado tribal 29

19. Catequese “atualizada”: trazer à tona da consciência a mensagem religiosa que o índio traz no subconsciente  29

20. Evangelização é secundária para missionários que menosprezam o trabalho de Anchieta. 30

21. Os povos indígenas são os verdadeiros evangelizadores do mundo. 30

Secção VI – Catequese nova.. 30

22. Não se pode considerar o índio como possuidor de características psíquicas e culturais indesejáveis  30

23. A surpreendente catequese “científica”. 31

24. Para que a catequese?. 31

25. Catequese quase sem esperanças. 31

26. “Sem nenhuma pretensão de catequese”... 32

27. Erros dos missionários: ensinar a ter vergonha da nudez, a usar roupa, a repudiar a vida coletiva da aldeia  32

28. Catequistas: o tradicional e o progressista, em face das abominações e crimes dos silvícolas. 33

29. A Igreja: até João XXIII cúmplice do colonialismo. 34

Secção VII – Contra a civilização.. 35

30. Os métodos de Anchieta e Nóbrega acarretariam a desagregação e morte dos índios. 35

31. Tanto vale conhecer medicina quanto saber fazer tinta de genipapo. 35

32. “O preço de cada passo de nosso progresso é a ruína de mais uma tribo”. 36

33. “Vede como eles são: envergonham-se do próprio corpo e cobrem a pele”. 37

Secção VIII – Índio, proprietário único.. 37

34. O índio americano é o único e verdadeiro senhor das terras. 38

35. “Os índios são os primeiros posseiros das terras brasileiras”. 38

Secção IX – A questão indígena, espoleta de uma crise agrária no País. 39

36. Índios e posseiros devem empenhar-se em promover uma agitação agrária no País. 39

37. Sob pretexto do caso de Meruri “radical Reforma Agrária” em todo o País. 39

38. A solução do problema dos índios exige “uma radical e profunda transformação da estrutura agrária brasileira”  40

Secção X – Luta contra os brancos. 40

39. Os brancos, cristãos, vieram para dominar, desprezar, espoliar e desclassificar o índio. 40

40. Anchieta, agente colonialista?. 40

41. Nossa Senhora das Vitórias, não; Nossa Senhora das Desgraças... 41

42. Índio: contestação viva do capitalismo e da civilização cristã. 41

43. Missionários vêem nos índios sinal profético para questionar a Igreja e a Sociedade. 41

Secção XI – Ataque aos bandeirantes. 42

44. Bandeirantes, os maiores predadores e matadores de índios. 42

45. Descobridores e bandeirantes: malfeitores. 42

Secção XII – “Independência ou morte!” proclamada no Brasil, contra o Brasil.. 43

46. Proclamação de independência dos índios em relação ao Brasil?. 43

47. Índio, matéria-prima para a agitação comunista. 44

Secção XIII – “Mexer com D. Casaldáliga”... 44

48. Crateras nas selvas, fagulhas nas cidades. 44

Relação dos documentos. 45

Documentação Suplementar.. 47

 

 

Cochilando, às vezes se ouve e se aprende...

 

Aproveitando o mês de férias, um turista recostado em cômoda poltrona de hotel, cerra os olhos para uma sesta, no esparramado far-niente de uma estação de repouso.

Suavemente, deixa ele rolar a memória à procura de recordações que distendam e convidem ao sono.

Mas a imaginação é quase sempre caprichosa. E todo capricho, por natureza, é teimoso. As imagens que se lhe apresentam – lá sabe o turista por que, talvez em razão da bela mata que se vê ao longe – são fotos, audiovisuais, filmes que viu, em diferentes ocasiões, sobre os índios, seus costumes, suas moradias, seus ritos de festa, de luto e de guerra.

O candidato à sesta consegue escapar, por fim, à perseguição indígena, pouco propícia à distensão, e de pálpebras baixadas, na insistente procura do sono, vai fazendo emergir da memória, mansa e suavemente, a lembrança de alguma grande cidade do Ocidente: Paris, Veneza, Roma, Londres ou Nova York. Se não, São Paulo, Rio ou Buenos Aires.

Nosso turista se distende. Sente que o sono se vai acercando. Mas, por seus ouvidos a dentro penetra o que dizem pessoas próximas instaladas em um grupo de cadeiras no mesmo salão do hotel. São duas as vozes que conversam.

Por rara coincidência – telepatia? – o tema da prosa parece um comentário aos primeiros quadros selváticos que haviam importunado o infeliz caça-sesta. Uma voz indaga:

-          “Qual é, então, o tipo de conglomerado que deve servir de modelo para o habitat humano: a taba ou a grande cidade?”

Entre surpreso e indolente, o turista se pergunta, ainda de olhos cerrados, qual a pessoa que levanta uma questão cuja inevitável resposta é banal, à força de tão óbvia.

Com isto não perde ele a esperança da sesta. A banalidade é soporífera por natureza. Quem sabe se o ajudará a adormecer?

Mas, logo em seguida, ouve outra voz, que responde enfática à primeira:

-          “A tribo é o modelo do futuro. Ela representa para o homem um estilo de ser, pensar, querer e agir, que deve modelar as sociedades em fase de esboroamento do século XX, e sobretudo as sociedades que se formarão ao longo de muitos outros séculos vindouros.

-          “As grande aglomerações urbanas da civilização de consumo, que ainda hoje encantam ou empolgam tanta gente, representam, pelo contrário, o passado, a decrepitude e a morte. Enfim, tudo quanto deve desaparecer”.

O turista desta vez não agüentou. Abriu os olhos à procura do “louco”, e não conseguiu mais dormir.

* * *

Entrementes, a voz enfática continuava:

-          “Não sou só eu que penso assim. No Brasil, o que há de mais moderno na atividade missionária pensa precisamente do mesmo modo. Já ouviu falar nos missionários aggiornati?”

-          “Não. O que vem a ser isso?”

- “Pois é bom que vá sabendo. Aggiornato vem de giorno, que em italiano quer dizer dia. Aggiornato é portanto, o missionário que se proclama em dia com a Igreja-Nova, pós-conciliar”.

-          “E então?”

-          “Os missionários aggiornati querem proteger contra o risco de serem anexadas pela “civilização” atual, as populações indígenas que ainda vivem felizes nas suas tabas, disseminadas aqui e acolá no fundo das selvas. Restos de um imemorial passado, é certo. Mas sobretudo lições vivas para um sapientíssimo futuro...

-          “Na tribo dita selvagem, não há mandões, nem chefões. O cacique é tão só um líder-conselheiro. Tudo se resolve com o consenso de todos. Não há, entre os índios, fazendeiros nem colonos, patrões nem empregados, proprietários nem marginalizados, ricos nem pobres; não há leis, regulamentos, repartições, taxas, impostos, toda esta inferneira que você conhece. Em suma, nada há do que divide, hierarquiza e jugula. A espontânea nudez de ambos os sexos é completa, ou quase tanto. Todos andam inteiramente à vontade pela selva, procurando petiscos para comer: peixe, ave, besouro ou fruta. De volta, repartem com as famílias tudo que pegaram. Ninguém quer se mais do que ninguém, nem pensa muito no dia de amanhã. É, enfim, o paraíso na terra”.

Sem estranhar o inesperado ditirambo, o outro interlocutor pergunta:

-          “E nós? Continuaremos atados a esta vida que levamos?”

A resposta ainda desta vez não tarda:

-          “Você não percebeu? Também no mundo dos brancos é preciso acabar com esta mania de dinheiro, de capital, de lucro, de luxo, de status e de desigualdades. O futuro está em dividir tudo por igual, acabar com as competições, as “carreiras”, liquidar as imensas estruturas econômicas, políticas, administrativas e sociais. Dissolver as megalópoles e os países, de modo que venham a formar galáxias de pequenos grupos autônomos, espontâneos, livres, iguais e irmãos. O índio, em suma, é muito mais um modelo para nós, do que o somos nós para ele”.

-          “É então um desmantelamento geral, que você prega?”

-          “Sim. Mas um desmantelamento construtivo. Porque dele nascerá um mundo novo”.

-          “E como fazer este desmantelamento?”

-          “Sei que muita gente já quer isto. E gente grossa. Sábios, pensadores e escritores de renome internacional. Você já ouviu falar em Lévi-Strauss por exemplo? É um etnólogo famoso, atualmente catedrático da cadeira de antropologia no Collège de France, de Paris, líder do pensamento estruturalista em nossos dias. Para ele, a sociedade indígena, por ter “resistido à História” e haver fixado a forma de viver do período pré-neolítico, é a que mais se aproxima do ideal humano. E é para esse tipo de sociedade que devemos retornar.

-          “Quando for majoritário o número dos que quiserem isso, será irreversível que vençam. Aliás, nem é preciso tanto. Bastará que, em determinado momento, fique moda querer isto. Quantas revoluções atingiram o topo da vitória porque se fizeram carregar pelos ventos da moda?”

-          “Mas, afinal, além da sumidade de que V. falou, quem o apoia desde já?”

-          “Olhe, eu conheço mais especialmente o que se passa na Igreja, porque sou Padre missionário”.

Cruzando as pernas metidas em bermudas tão curtas que indicam uma tendência à tanga, o jovem enfático puxa do cigarro uma longa baforada, e continua em tom mais baixo:

-          “São Padres e Freiras, alguns leigos também, que a gente vai convencendo. São Bispos, muito notadamente. Mas não me pergunte seus nomes”.

-          “Sim, percebo. Vocês são comunistas e não querem encrenca com a polícia”.

-          “Que bobagem! Comunismo como está na Rússia é velheira! Ditadura do proletariado, capitalismo de Estado, redes administrativas de dimensões elefantisíacas, tudo isso também tem que acabar. Em certo sentido, somos comunistas, é claro. Mas não paramos aí. Veja, por exemplo, o capitalismo de Estado: coisa ultrapassada, já que não queremos capitalismo nem Estado. Vamos além destas velheiras...”.

Definitivamente, o pobre caça-sesta não consegue mais dormir. Quer fugir do pesado noticiário que já lhe dói nos ouvidos, mas a curiosidade o acorrenta. Muitas perguntas lhe assaltam o espírito. É fácil imaginar quais sejam...

* * *

Para responder a tais perguntas, nada melhor do que ouvir vozes eclesiásticas, e especialmente vozes missionárias, das mais às menos graduadas.

A fim de facilitar ao leitor o trabalho, ao mesmo tempo atraente e complexo, de analisar o que dizem essas vozes, apresenta-se a seguir primeiramente a concepção tradicional da Missão católica (Capítulo I) e, depois, a condensação do que pensam os missionários “atualizados”  (Capítulo II).

Feito esse confronto, o leitor se sentirá inteiramente à vontade para interpretar as próprias vozes – ou seja, os próprios textos – desses missionários, que são oferecidos a seguir, no Capítulo III.

À vista de tais textos, não corra, então, o leitor. Detenha-se diante de cada um e meça com precisão os abismos para os quais convidam. Ouça-os que pregam o desmantelamento da família e da sociedade contemporânea, a extinção do pudor e a morte de toda a tradição cristã. Ouça-os que acusam de tirano, opressor, sanguinário e ladrão o branco que aqui veio ter. Que destratam os bandeirantes e missionários dos séculos idos. Que nem sequer poupam com suas críticas a obra sagrada do grande Anchieta, cujo perfil moral quase sobre-humano alcançou junto aos indígenas tão magnífico êxito missionário. Ouça-os conclamar a juventude dos seminários, dos conventos, do País inteiro, para esse “neocomunismo” tribal, que se ufana de mais comunista do que o próprio comunismo. Considere esta coorte de demolidores utopistas, e em sua linha de vanguarda dois Bispos, D. Pedro Casaldáliga e D. Tomás Balduino.

E compreenda, por fim, que este é um perigo real para os índios, mas menos para eles do que para os civilizados. É, em última análise, uma investida de eclesiásticos contra a Igreja. E de civilizados contra a civilização.

O que é o pobre índio, em tudo isto? – Mais uma vez, um pomo de discórdia, de lutas entre civilizados. Civilizados que querem conservar a civilização, alguns recristianizando-a, outros afundando-a nos erros que a agitam. E outros, ainda, tentando arrasá-la.

* * *

E, lido isto, o que fazer?

Resista, brasileiro, a menos que tenha morrido em sua alma a fibra do cristão e do desbravador dos outros tempos.

Se essa fibra tiver morrido, não há mesmo remédio: os demolidores brancos chegarão, num ato de suicídio, a arrasar a obra de seus maiores. Com vantagem, bem entendido, de novas formas de propaganda do imperialismo vermelho.

Será esta uma conseqüência inevitável de tal situação, uma vez que mesmo os melhores não tenham tido mais nem a Fé nem a fibra de antanho.

Cumpre esperar que até este ponto não hajam caído as coisas. Pois muitas e alentadoras razões há de esperança.

Leitor, interesse-se. Divulgue de todos os modos, em torno de si, o conhecimento da investida “neocomunista”. E lhe caberá a glória de ter contribuído, com sua voz, para o grande brado de alerta que pode salvar o Brasil.

Capítulo I – A concepção católica tradicional das Missões

-          Como fim, evangelizar.

-          Evangelizando, civilizar.

-          Civilizando, fazer o bem

 

Se o leitor correr os olhos, ainda que em diagonal, pelos textos do Capítulo III – emanados na maior parte de fontes missionárias “atualizadas” – notará ali ou acolá conceitos que o chocarão. O que certamente não terá ocorrido se, há anos atrás, teve oportunidade de tomar contato com a literatura missionária não aggiornata. O contraste provém de uma radical modificação na doutrina das missões. Tal modificação penetrou largamente, de tempos a esta parte, em ambientes missionários brasileiros, onde se propaga com a discrição e a rapidez da mancha de azeite.

Como se verá, esta transformação não interessa apenas a especialistas, mas afeta profundamente o futuro da Igreja e da Pátria. Assim devem estar atentos para ela todos os brasileiros.

Pois ela visa estender uma perigosa ondulação no mundo das selvas incultas. E, ainda mais, conectar esta ondulação com outra maior, a ser efetuada no mundo dos campos cultivados e das cidades.

Selvas incultas, campos cultivados, cidades em franca expansão: é bem o Brasil inteiro que assim pode ser atingido...

1 . Conceito de Missão

Na doutrina missiológica da Igreja, velha de cerca de vinte séculos, o conceito de Missão católica, seus fins e seus métodos, está perfeitamente definido. E coincide com o modo de  ver e de sentir do leitor brasileiro médio.

Por isto, pode-se estar certo, de antemão, que os próximos parágrafos não chocarão ninguém. Pelo contrário, parecerão tudo quanto há de mais normal.

Missão vem do vocábulo latino “missio”, de “mitto”, isto é, “eu envio”. O missionário é pois um enviado (Bispo, Sacerdote – e, por extensão, também uma Religiosa ou um leigo).

Enviado, o missionário o é pela Igreja, em nome de Jesus Cristo, a Quem representa junto a povos não católicos, com o fim de os trazer para a verdadeira Fé.

2 . Fim supremo da Missão: essencialmente religioso – a glória de Deus e a bem-aventurança eterna

Ensina a Igreja que a via normal para o homem se salvar consiste em ser batizado, crer e professar a doutrina e a lei de Jesus Cristo.

Trazer os homens para a Igreja é, pois, abrir-lhes as portas do Céu. É salvá-los. É este o fim da Missão.

Esta salvação tem por supremo fim a glória extrínseca de Deus. Salva-se a alma que tenha alcançado assemelhar-se a Ele pela observância da Lei nos embates desta vida. E que assim Lhe dará glória por toda a eternidade.

Toda semelhança é, em si, um fator de união. A alma dessa maneira unida a Deus alcança a plenitude da felicidade.

3 . Efeitos da Missão na vida temporal

a ) A ordem

A glória de Deus e a perpétua felicidade dos homens são fins missionários da mais alta transcendência. Isto não impede que a Missão tenha efeitos terrenos, também dos mais elevados.

Com efeito, Deus criou o universo numa ordem sublime e imutável. E, sendo o homem o rei do universo, tal ordem é sobretudo admirável no que toca a ele.

Os preceitos da ordem natural se exprimem nos dez Mandamentos da Lei de Deus (cfr. SANTO TOMÁS, Suma Teológica, Ia. IIae., q. 100, aa. 3 e 11), confirmados por Nosso Senhor Jesus Cristo (“não vim dissolver a lei, mas cumpri-la” – Mt. 5, 17), e por Ele aperfeiçoados (Mt. 5, 17 a 48; Jo. 13, 34).

Ora, a observância da ordem, em qualquer esfera do universo, é a condição não só para a conservação desta, como para seu progresso, o que é sobretudo verdadeiro para os seres vivos, e mais especialmente para o homem.

b ) A grandeza e o bem-estar dos povos

Daí decorre que a Lei de Deus é o fundamento da grandeza e do bem-estar de todos os povos (cfr. S. AGOSTINHO, Epist. 138 al. Ad Marcellinum, cap. II, n. 15).

Cristianizar e civilizar são, pois, termos correlatos. É impossível cristianizar seriamente sem civilizar. Como, reciprocamente, é impossível descristianizar sem desordenar, embrutecer e impelir de volta, rumo à barbárie.

4 . Missão e índios

a ) O contato com Jesus Cristo

Ser missionário, no Brasil, é principalmente levar o Evangelho aos índios. É levar-lhes também os meios sobrenaturais para que, pela prática dos dez Mandamentos da Lei de Deus, alcancem seu fim celeste. É persuadi-los de que se libertem das superstições e dos costumes bárbaros que os escravizam em sua milenar e infeliz estagnação. Em conseqüência, é civilizá-los.

Cabe insistir: enquanto é próprio ao homem cristianizado e civilizado progredir sempre no reto e livre exercício de suas atividades intelectuais e físicas, o índio é escravo de uma imobilidade estagnada, a qual de tempos imemoriais lhe tolhe todas as possibilidades de reto progresso.

Apresentando-se ao índio, está o missionário de Jesus Cristo no direito de lhe dizer: “cognoscetis veritatem, et veritas liberabit vos – conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo. 8, 32).

b ) O contato com o neopaganismo moderno

Bem entendido, o contato com os missionários traz forçosamente, para o índio, o contato com a civilização. Não com uma civilização quimérica, descida das nuvens. Mas com a civilização ocidental como ela é concretamente. Na medida em que esta possui ainda fermentos autenticamente cristãos, a civilização será rica, para os indígenas, em benefícios espirituais e até materiais. E na medida em que nela trabalhem os germes de decadência e do neopaganismo, há o risco de que ela seja ocasião para que os índios se poluam na alma e no corpo.

c ) Problema desconcertante

Essa circunstância cria para as missões contemporâneas dificuldades desconcertantes. Como podem elas evitar que, levando Jesus Cristo aos índios, não Lhe siga o passo muito de perto o Anticristo, ou seja, o neopaganismo moderno?

5 . Para o missionário, uma solução impossível: abster-se

a ) O poder de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre as almas retas

O problema, por mais intrincado que seja, não pode servir de razão para que o missionário não vá aos índios. Não lhes levar Nosso Senhor Jesus Cristo sob a alegação de que o Anticristo moderno virá logo após Ele, é ignorar o poder e a bondade do Salvador. Em todas as almas retas, e entre os índios obviamente também as há, Nosso Senhor Jesus Cristo é infinitamente mais poderoso do que o Anticristo.

b ) o contato com a civilização ocidental

Ao tratar da presente temática, é preciso não confundir grosseiramente o neopaganismo moderno com a civilização ocidental. Esta última foi cristã durante mais de mil anos, e embora por desdita já não se possa dela dizer tal, ainda conserva muito do caráter cristão de outrora. Como certos edifícios de pedra expostos ao dardejar do sol durante o dia inteiro conservam, horas depois de entrada a noite, o calor acumulado, assim também a civilização ocidental, sem mais poder dizer-se cristã, e a despeito da decadência omnímoda em que se vai afundando, ainda está quente da ação benfazeja recebida, durante os séculos da antiga fidelidade, do Sol de Justiça (Malc. 4, 2) que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

De onde se deve concluir que seria irrefletido, simplista, e até fanático pretender que, em contato com a civilização ocidental, os índios só têm a perder e nada a lucrar.

c ) Influência do verdadeiro Sacerdote

Quando vive na civilização atual, o verdadeiro Sacerdote tem por missão a luta. Luta a favor de tudo quanto procede de Jesus Cristo e a Ele conduz. Luta contra tudo que procede do mal, e de Jesus Cristo aparta.

Se o índio nota no missionário esta atitude valorosa, de discernimento e de luta, terá as graças e o bom exemplo para beneficiar-se dessa civilização, sem nela se corromper.

d ) Problema bizantino

Ademais, na realidade concreta em que vivemos seria perfeitamente bizantino discutir sobre se convém aos índios receber, com a presença dos missionários, também a influência de nossa civilização. Esta, em seu vertiginoso desenvolvimento técnico, os estará alcançando a todos muito em breve, com ou sem missionários. E melhor será para os índios que, junto com a civilização neopagã, vão também os missionários de Jesus Cristo.

e ) O agitador comunista, missionário de Satã

Tanto mais quanto, onde for, a civilização neopagã levará consigo, o mais das vezes, o que ela mesma tem de pior, isto é, o agitador comunista, o “missionário”  de Satã.

O exemplo da África mostra quanto o comunismo internacional se empenha em tirar proveito das tribos aborígenes. Quem poderá garantir que, hoje ou amanhã, ele não empreenderá o mesmo entre os índios não civilizados, ou os que venham a sê-lo?

Mais ainda. Quanto dói dizê-lo! Como poderá quem quer que seja garantir que, utilizando a infiltração ideológica em meios católicos, o comunismo não aproveite para infiltração esquerdista entre os índios, Bispos, Padres ou Religiosos cuja simpatia e cooperação tenha conquistado?

Em conseqüência, por todas as razões, convém que vá ao índio o bom missionário. Até para prevenir contra o “missionário” comunista.

Capítulo II – Concepção “aggiornata” e progressista da Missão

-          Como fim, retroceder, tomando o aborígene por modelo.

-          Para retroceder, desmantelar.

-          Para desmantelar, difamar, separar e guerrear.

 

BEM DIFERENTE da concepção católica tradicional das missões é a “missiologia” que se jacta de aggiornata e progressista.

É o que se pode constatar pela análise de alguns dos principais aspectos, tais quais se depreendem da leitura dos textos junto (Capítulo III), colhidos principalmente nos documentos episcopais e órgãos da propaganda missionária (1).

(1) A respeito da missiologia aggiornata, veja-se o ensaio El marxismo en la teologia de misiones no livro El marxismo en la Teologia (Speiro, Madrid, 1976), do Pe. Miguel Poradowski, Prof. da Universidade Católica de Valparaiso (Chile), bem conhecido do público brasileiro pelas memoráveis conferências que aqui fez sobre a infiltração comunista na Igreja.

 

1 . Meta capital da missiologia “aggiornata”: uma ordem nova para a sociedade terrena

A meta capital alegada pelo missionário “atualizado” consiste em instaurar uma ordem de coisas global, justa e prática, da sociedade humana.

Tal ordem de coisas tem uma finalidade terrena: uma vez constituída, deve modelar a existência dos homens de maneira a evitar a desordem e assegurar todo o bem-estar terreno.

Quem queira dar a esta nova situação uma interpretação religiosa, pode encará-la como o Reino de Deus na terra. Pois os princípios enumerados a seguir (cuja observância é o conteúdo da ordem nova) são considerados pela neomissiologia como a própria essência do evangelho.

2 . Qual a ordem nova desejada pela missiologia “aggiornata”?

A análise da posição do homem perante a situação que os missionários “atualizados” visam implantar, torna fácil de perceber o nexo entre a futura ordem e o suposto Reino de Deus.

Tal análise, segundo teses contidas nos documentos apresentados no Capítulo III – umas explícitas, outras insinuadas, outras dedutíveis logicamente das primeiras ou das segundas – pressupõe antes de tudo uma crítica ao proprietário atual. É este denunciado como um egoísta, mantenedor e fruidor de um privilégio injusto, ou seja, a propriedade. Este privilégio é, por sua vez, ponto de partida de muitas outras injustiças.

- Inversão de valores entre o indivíduo e a sociedade

O adversário capital da ordem futura é o egoísmo, que opera uma completa inversão de valores entre o indivíduo e a sociedade. Essa inversão – segundo a neomissiologia – dá-se sempre que o homem, rompendo sua inteira vinculação com a coletividade, toma por meta da existência criar para si uma situação: A) fruitiva, B) apropriativa e C) competitiva:

A ) Fruitiva, isto é, que lhe proporcione deleites, não enquanto membro da sociedade, mas enquanto pessoa individualmente considerada. Isto o leva facilmente a prejudicar a sociedade em vantagem própria.

B ) Apropriativa, enquanto o egoísta produz mais do que lhe é necessário para a vida de cada dia. E, em lugar de destinar a sobra para o uso coletivo, a acumula para sua exclusiva vantagem. O que o torna mais provido e mais “assegurado” do que os demais. A apropriação nasce pois do egoísmo, e por sua vez o estimula. Ela é um ultraje à igualdade, forma suprema da justiça, e opera portanto uma dilaceração no bom convívio social.

Mais detalhadamente:

a ) O egoísmo é um vício. Isto é, um defeito moral transformado em hábito. Se bem que os primeiros surtos dele tenham gerado quiçá apropriações meramente efêmeras, a partir do momento em que o egoísmo passou a ser um vício estável, ele gerou uma instituição, ou seja, a propriedade privada, pela qual o homem se apossa – com exclusão dos outros e da sociedade – de determinados bens. Bens não só de consumo, mas de produção. O homem exerce seu trabalho por meio de seus bens, para alcançar uma produção mais abundante;

b ) Assim se forma a semente remota do capitalismo. O homem não ganha apenas pelo trabalho de seus braços, mas também pela produtividade dos bens de que se tornou egoisticamente proprietário. É o lucro. Segundo a justiça, a diferença entre o valor de seu trabalho e o valor dos bens produzidos, não lhe deveria tocar só a ele, mas a todos os que trabalham;

c ) Para fazer valer os bens de que se assenhoreou, o proprietário compra o trabalho de quem não tem bens. E dá a este apenas o necessário para que subsista. É o salário. O salário também é injusto, porque reserva para o “capitalista” todo o restante do valor da produção. E dá ao assalariado só o indispensável para sobreviver trabalhando. Este não participa do lucro;

d ) O poder exclusivo do proprietário sobre a propriedade faculta-lhe excluir de qualquer função deliberativa o assalariado. Este não participa da direção;

e ) Tal situação – injusta porque pejada de privilégios para o proprietário, exclusivista, e não participativa – decorre naturalmente da injustiça primeira, que é a apropriação egoística (letra “b”): o assalariado não participa da propriedade sobre a qual exerce o seu trabalho;

f ) Em matéria de bens, o nome da injustiça é roubo, e o nome do roubo é propriedade (letras “a” e “b”);

g ) Em matéria de dignidade, o nome da injustiça é “exploração” e “alienação”. Roubado (letras “b” e “c”), excluído da participação, trabalhando para a vantagem do outro, mandado por outro (letras “d” e “e”), o assalariado é escravo, “alienado” (do latim “alienus” – “alheio”, isto é, que não se pertence, mas a outrem).

C ) Competitiva. O proprietário, movido pelos impulsos egoísticos, fruitivos e apropriativos, não se contenta em ter muito, ele quer tudo. Daí a competição, pela qual ele procura tornar-se dono, através da produção, da troca e do dinheiro, do que pertence a outros “proprietários-ladrões”, e à sociedade. A vida econômica de nossos dias, com o micro, o médio e o macrocapitalismo, constituiu uma estrutura levada ao auge de sua complexidade. E também de seu poder malfazejo. Pois a competição tende a concentrar cada vez mais os bens nas mãos de poucos e marginaliza multidões de “alienados”.

- O egoísmo gerou uma sociedade injusta

Resumindo, o egoísmo gerou desse modo uma estrutura que não pode criar senão novas injustiças: privilégios, desigualdades, alienações, marginalizações etc. É preciso desmantelar essa estrutura injusta e reprimir o egoísmo (2).

(2) A doutrina socialista assim exposta é diametralmente o contrário da escola liberal dita manchesteriana. Pio XI define, com admirável sabedoria, a posição católica ante ambos os erros, liberal e socialista:

É certo que por muito tempo pode o capital arrogar-se direitos demasiados. Todos os produtos e todos os lucros, reclamava-os ele para si, deixando ao operário unicamente o bastante para restaurar e reproduzir as forças. Apregoava-se que, por fatal lei econômica, pertencia aos patrões acumular todo o capital, e que a mesma lei condenava e acorrentava os operários a perpétua pobreza e vida miserável. É bem verdade que as obras nem sempre estavam de acordo com semelhantes monstruosidades dos chamados princípios liberais de Manchester: não se pode, contudo, negar que para elas tendia com passo certeiro e constante o regime econômico e social. Por isso, não é para admirar que estas opiniões errôneas e estes postulados falsos fossem energicamente atacados, e não só por aqueles a quem privavam do direito natural de adquirir melhor fortuna.

“De fato, aos operários assim maltratados, apresentaram-se os chamados “intelectuais”, contrapondo a uma lei falsa um não menos falso princípio moral: “os frutos e rendimentos, descontado apenas o que basta para amortizar e reconstituir o capital, pertencem todos de direito aos operários”. Erro mais capcioso que o de alguns socialistas, para os quais tudo o que é produtivo deve passar a ser propriedade do Estado ou “socializar-se”; mas, por isso mesmo, erro muito mais perigoso e próprio a seduzir os incautos: veneno suave que tragaram avidamente muitos, a quem o socialismo sem rebuço não pudera enganar” (Encíclica Quadragesimo Anno, de 15 de maio de 1931, Vozes, Petrópolis, Documentos Pontifícios, fasc. 3, nos. 54-55 – o negrito é nosso).

 

 

3 . Sobre o homem e o egoísmo: contraste entre o ensino tradicional e a nova missiologia

a ) O homem tem um fim imediato em si mesmo e outro transcendente em Deus

Segundo a concepção católica tradicional, o homem tem uma tendência para o egoísmo, porém ele não é todo egoísmo. O egoísmo não é senão uma disformidade moral dele.

O uso que o homem faz de sua inteligência, de sua vontade e de sua sensibilidade para prover ao próprio bem individual, em conformidade com a Lei de Deus e a ordem natural, não é condenável, mas virtuoso. É um corolário do fato de o homem ser inteligente e dotado de vontade – uma pessoa, pois, e não uma coisa – com um fim transcendente, e portanto dono de si mesmo.

O homem tem, certamente, deveres para com o próximo, e, consequentemente, para com a família e a Pátria. Mas ele não vive só nem principalmente para uma ou para outra. Fundamentalmente vive para Deus e para si.

E ainda que o assunto fosse considerado do mero ponto de vista do bem comum, cada homem provê ao bem comum antes de tudo provendo diretamente a si próprio.

b ) Para a neomissiologia, o homem é como uma peça que vive para o todo

Pelo contrário, na nova concepção, que aqui se estuda, o homem não é visto como uma pessoa que tem uma finalidade imediata em si mesmo, e outra transcendente em Deus. Mas como a peça em um todo. A peça vive para o todo. Destacada do todo, ela nada vale e, por assim dizer, nada é. Do todo lhe vem por inteiro a inspiração, o impulso, quase se diria, a vida.

c ) Povo e massa, na descrição de Pio XII

O contraste entre as duas concepções foi magnificamente exposto por Pio XII quando descreveu a diferença entre povo e massa:

O Estado não contém em si e não reúne mecanicamente num dado território uma aglomeração amorfa de indivíduos. Ele é, e na realidade deve ser, a unidade orgânica e organizadora de um verdadeiro povo.

Povo e multidão amorfa, ou, como se costuma dizer, “massa”, são dois conceitos diversos. O povo vive e se move por vida própria; a massa é de si inerte, e não pode ser movida senão por fora. O povo vive da plenitude da vida dos homens que o compõem, cada um dos quais – em seu próprio posto e a seu próprio modo – é uma pessoa consciente das próprias responsabilidades e das próprias convicções. A massa, ao invés, espera o impulso de fora, fácil joguete nas mãos de quem quer que desfrute seus instintos ou impressões, pronta a seguir, vez por vez, hoje esta, amanhã aquela bandeira. Da exuberância de vida de um verdadeiro povo a vida se difunde, abundante, rica, no Estado e em todos os seus órgãos, infundindo-lhes com vigor incessantemente renovado a consciência da própria responsabilidade, o verdadeiro senso do bem comum. Da força elementar da massa, habilmente manejada e utilizada, o Estado pode também servir-se: nas mãos ambiciosas de um só ou de vários que as tendências egoísticas tenham agrupado artificialmente, o mesmo Estado pode, com o apoio da massa, reduzida a não mais que uma simples máquina, impor seu arbítrio à parte do verdadeiro povo: em conseqüência, o interesse comum fica gravemente e por largo tempo atingido e a ferida é bem freqüentemente de cura difícil” (Pio XII. Radiomensagem de Natal de 1944 – Discorsi e Radiomessaggi, vol. VI, págs. 238-239).

4 . Egoísmo e sociedade contemporânea

a ) As grandes babéis nascidas da técnica moderna

Parece inegável que a descrição da massa, feita por Pio XII, corresponde ao modo de ser das multidões nas grandes babéis contemporâneas. A do povo, aos conglomerados humanos – sobretudo aos de formação cristã – anteriores às babéis.

Por sua vez, também parece inegável que a formação dessas ciclópicas concentrações urbanas decorreu, entre outros fatores, do uso, pejado por graves faltas de sabedoria e temperança, que a partir do século XIX os homens fizeram correntemente da máquina e dos outros progressos técnicos. Embora em graus diversos, estes resultados apareceram em todas as sociedades do Ocidente. Contribuíram para isto os que manejam o poder político ou a economia, de modo exclusivamente egoístico, movidos pelo desejo desenfreado do mando e do lucro. E também as grandes multidões, pelo fascínio da vida trepidante e aliciante dos centros superpopulosos, para os quais afluem inconsideradamente.

b ) Falsa solução da missiologia “aggiornata”

Ante esta situação, cuja causa mais profunda é a influência crescente do neopaganismo em nossa civilização, e a consequente decadência moral, o ensinamento tradicional da Igreja sobre o homem, o trabalho, a propriedade e o capital continua intacto. O homem não atendeu a esse ensinamento e se precipitou na crise atual. O curso errado dos acontecimentos históricos – a massificação urbana, por exemplo – conduziu, pois, a uma situação que, a agravar-se, ficará insustentável.

A solução não consiste, como quer a nova missiologia, em alterar a doutrina reta para coonestar, no extremo oposto, o desatino de que adiante se falará. Mas em renunciar a toda espécie de desatinos e voltar à reta doutrina.

5 . “Um abismo clama por outro abismo” (PS. 41, 8): da exacerbação do egoísmo, a sociedade contemporânea chegou ao coletivismo.

Com efeito, diante da crise ciclópica em que estamos, não faltou quem procurasse uma solução, não revertendo à prática dos princípios da Sabedoria eterna, mas levando às últimas conseqüências os erros cometidos.

a ) Confusão entre pessoa e egoísmo

Há nas megalópoles quem, atribuindo com razão ao egoísmo humano a situação em que estamos, recusa a justa distinção, no homem, entre a sua pessoa e o seu egoísmo. Para quem assim pensa, a pessoa é o egoísmo. É, pois, o inimigo. A salvação do bem comum consiste em que a pessoa seja totalmente absorvida, padronizada e dirigida pela coletividade. Seria o único meio de nos evadirmos do caos infernal do egoísmo.

b ) Concepção comunista

Bem se vê quanto esta concepção tem de afim com a do comunismo, isto é, a sociedade massificada, sem personalidade, sem classes, sujeita à ditadura do proletariado anônimo.

6 . E o novo abismo atrai um terceiro: do comunismo à anarquia

a ) O “neocomunismo”  visa o desmantelamento do Estado

Entretanto, é notório que o regime russo não reúne em torno de si, como até há pouco, a totalidade dos que querem uma sociedade inteiramente coletivizada.

Muitos “novos” do comunismo opinam que a imensa estrutura estatal russa não escapa a muitos dos inconvenientes da sociedade capitalista.

Assim querem com veemência o desmantelamento do Estado e de todos os superorganismos que o integram. O Estado, conforme asseguram, deve desfazer-se em uma galáxia de grupos ou corpúsculos mais ou menos justapostos, e tão autônomos quanto possível.

No interior desses corpúsculos, em rigor de lógica, deverá permanecer a fobia contra o indivíduo, suposto sempre e necessariamente egoísta. E, portanto, também será lógico que persevere o empenho em cercear ao máximo as liberdades naturais e legítimas que a doutrina católica reconhece à pessoa humana.

É de se prever que o ideal comunista, igualitário e massificante, subsistiria assim inteiramente fiel aos seus princípios mais intrínsecos, nestes corpúsculos, com a única diferença de que seria posto em prática em organismos de proporções não macroscópicas mas microscópicas.

b ) Os “clássicos” comunistas já previam essa “evolução”

O aparecimento de inovadores que aspirariam a esse “neocomunismo” não é surpresa para os continuadores dos comunistas “clássicos”: estava nas previsões destes últimos, os quais vaticinavam, segundo seus mais fundamentais doutrinadores, que, para além do capitalismo de Estado e da ditadura do proletariado, surgiria, no decurso evolutivo da História, uma nova fase em que o Estado seria por sua vez liquidado (3).

(3) Cfr., por exemplo, ENGELS, em “A origem da família, da propriedade privada e do Estado” (Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 3ª ed., 1977, pp. 195-196):

Portanto, o Estado não tem existido eternamente. Houve sociedades que se organizaram sem ele, não tiveram a menor noção do Estado ou de seu poder. Ao chegar a certa fase de desenvolvimento econômico, que estava necessariamente ligada à divisão da sociedade em classes, essa divisão tornou o Estado uma necessidade. Estamos agora nos aproximando, com rapidez, de uma fase de desenvolvimento da produção em que a existência dessas classes não apenas deixou de ser uma necessidade, mas até se converteu num obstáculo à produção mesma. As classes vão desaparecer, e de maneira tão inevitável como no passado surgiram. Com o desaparecimento das classes, desaparecerá inevitavelmente o Estado. A sociedade, reorganizando de uma forma nova a produção, na base de uma associação livre de produtores iguais, mandará toda a máquina do Estado para o lugar que lhe há de corresponder: o museu de antiguidades, ao lado da roca de fiar e do machado de bronze”.

 

7 . Na selva brasileira missiologia “aggiornata”

Todas as considerações anteriores eram necessárias para aclimatar o leitor ao quadro – estonteante para o homem de bom senso – que em seguida se lhe apresentará.

Muitos missionários, vários deles ainda jovens, penetraram nas selvas do Brasil imbuídos, em grau maior ou menor, de progressismo e esquerdismo difusos. Ou seja, nos mais moderados dentre eles, de tendências genéricas e de opiniões esparsas inspiradas no progressismo e no esquerdismo. Umas e outras, porém, se reunidas num vasto mosaico doutrinário, formam, pelo menos em suas grandes linhas, o quadro que se acaba de debuxar.

a ) Organização tribal, obra prima de sabedoria antropológica

Não espanta, pois, que – sob a influência de tais tendências e opiniões – esses missionários tenham formado uma noção absolutamente surpreendente acerca das condições de vida dos indígenas, marcada entre outros traços pela crueldade, pelo mais elementar primitivismo, pela mais melancólica estagnação: o índio lhes pareceu um sábio, sua organização tribal uma obra-prima de sabedoria antropológica, em suma, o modelo a ser seguido pelos civilizados de nosso mundo (4).

(4) A propósito do Primeiro Encontro Pan-Amazônico de Pastoral Indigenista, convocado pelo Departamento de Missões do CELAM e pela CNBB, e realizado em Manaus, de 20 a 25 de junho deste ano, assim se exprimiu o Pe. Cesareo de Armellada, capuchinho, delegado da Venezuela no referido Encontro: “Nos relatórios de certos missionários aparecem uns povos indígenas adornados com toda a espécie de virtudes, capazes de provocar a inveja dos Anjos. É claro que, com este pressuposto, nós não podemos desempenhar outro papel senão o de serpentes no paraíso. Um dos Bispos me disse: Gostaria que me nomeassem Visitador nesses paraísos, que não tive a ventura de achar em parte nenhuma, apesar de ter andado em tantos lugares” (“La Religión”, Caracas, 7-7-77).

 

b ) Vida tribal e sociedade comunista

Razão? – As analogias entre a vida em tribo e a vida da sonhada sociedade comunista: a comunidade de bens da tribo, a ausência completa de lucro, de capital, de salários, de patrões, de empregados e de instituições de qualquer espécie. Só a tribo, a absorver todas as liberdades individuais desse pequeno grupo humano não fruitivo, por isso mesmo fracamente produtivo, nem um pouco competitivo, e no qual os homens vivem satisfeitos e sem problemas, porque se despojaram de seu “eu”, de seu “egoísmo”.

E, seja dito en passant, um mundo mais do que arcaico, categoricamente pré-histórico. Um mundo feito de incontáveis pequenos mundos sem personalidades e realce, isto é, de tribos sem autênticos vôos do espírito, sem élan ascensional, sem ideais definidos, em que os anos se escoam invariáveis e monótonos no ritmo cadenciado dos dias iguais, das músicas tristes ou excitadas, e dos rituais uniformes.

c ) Índios, comunistas?

Nossos índios podem ser qualificados de comunistas? A pergunta só pode despertar o sorriso.

Do comunista, o índio nada tem. Nem a doutrina, nem a mentalidade, nem os desígnios.

O estado em que ele se encontra apresenta apenas traços de analogia com o regime comunista. Por um desses jogos de coincidências que aparecem, freqüentes, quando se faz a comparação entre os estágios primitivos e os de decadência. Entre a infância e a velhice, por exemplo.

Não é porque seja doutrinariamente contrário à propriedade privada, que o primitivo tem (ou quase só tem) a propriedade comum.

Pela mesma razão porque o homem da era da pedra lascada, se não usava a pedra polida, não era de modo algum porque pensasse que não a devia usar. Mas simplesmente porque não a tinha inventado.

Nessa perspectiva, o índio não pode ser equiparado ao “civilizado”, que conhece a propriedade privada, a família monogâmica e indissolúvel, e tudo quanto dessas fecundas instituições nasceu e floresceu, mas tem aversão a esses troncos e a seus frutos. Este “civilizado” lhes quer pôr o machado na raiz.

Em suma, uma nação indígena pode ser comparada a uma planta que não cresceu, mas ainda poderá crescer. O adversário da família e da propriedade, nostálgico do comunitarismo ou do comunismo (classifique-o cada um como melhor entenda) tribal, é um demolidor...

8 . Concepções neotribais a respeito da família

Qual o papel da família nas galáxias tribais do mundo futuro, que para nós preparam estes sonhos, ou melhor se poderia dizer, estes delírios?

a ) Superficialidade desinibida e parcimônia enigmática

Não se trata de indagar qual o papel que a família desempenha nas tribos existentes ou que existiram no Brasil. Mas o que lhe é atribuído pelas concepções neotribais que afloram em nossa atual propaganda missiológica (cfr. Capítulo III, texto 7).

Como tantos outros assuntos capitais, também este é tratado pela neomissiologia com uma superficialidade desinibida.

E, ainda, com um laconismo enigmático, que destoa da insistência com que são abordados outros assuntos: os supostos inconvenientes da propriedade privada, por exemplo.

b ) Comunidade sexual, corolário da comunidade de bens

Os textos nos. 7 a 11, se interpretados à luz do mais explícito, pormenorizado e característico dentre eles (no. 7), deixam ver uma tendência ao que se poderia chamar uma calma promiscuidade sexual.

Não há o que espante nisso, se se atender a que a comunidade sexual é um corolário da comunidade de bens.

9 . Nova catequese: catequizar é secundário, e até supérfluo

Catequizar? Semear o Evangelho? Para quê? – pergunta-se a si mesma a missiologia aggiornata.

O Evangelho – pondera – é o antiegoísmo. E assim – segundo os missionários “atualizados” – o Evangelho já impregna tão completamente a esfera tribal, que não é necessário anunciá-lo às coletividades indígenas.

a ) Metas do missionário “atualizado”: livrar o índio do “contágio” da civilização – “Conscientização”

Quais, então, as metas do missionário “atualizado”? Consistem em defender estas comunidades indígenas ainda “limpas” do contágio de nossa civilização, isto é, da civilização do egoísmo. “Conscientizá-las” para a excelência da situação em que vivem e para a necessidade de recusarem o estado ao qual as chamam os homens que hoje vão à cata de riquezas e de mão de obra índia na mata, levando dinheiro, cachaça, vícios, máquinas, leis, estruturas etc. de recusarem especialmente o macrocapitalismo multinacional, que quer cultivar a terra e negociá-la.

A todo preço – alegam tais missionários – cumpre que os índios não sofram, em nosso século, o que já sofreram seus maiores, quando os nossos antepassados brancos aqui vieram ter, e entraram em contato com eles.

b ) O “erro” dos missionários e colonizadores

Os portugueses colonizadores e os missionários – diz a nova missiologia – cometeram o erro de incorporar os índios à nossa estrutura. Quando os primeiros não os dizimavam.

Anchieta, por exemplo, foi um artífice do referido erro (cfr. Capítulo III, textos 20, 28, 30 e 40).

Para evitá-lo, os índios e os missionários deverão resistir à invasão dos colonizadores que os desejam incorporar ao Brasil moderno, ainda que para tanto tenham de lhes bradar como bradou o Brasil oprimido, às Cortes revolucionárias lusas: “Independência ou morte!”.

10 . Alcance do estudo da missiologia “aggiornata”

Essa, em síntese, a missiologia aggiornata de que se tem conhecimento pesquisando, articulando num todo lógico, e analisando o material de propaganda e divulgação missionária disponível: livros, revistas, boletins, folhetos, noticiário jornalístico, entrevistas, declarações, comunicados etc.

a ) Neomissiologia e estruturalismo

Bem entendido, não seria difícil aprofundar a conexão de tal pensamento com o estruturalismo e outras correntes do pensamento mais moderno sobre a matéria.

Porém, isso desviaria do objeto imediato do presente estudo, que não é a filosofia estruturalista, mas apenas alguns aspectos do que pensam e escrevem os neomissionários. Esses aspectos importam especialmente a quem se interessa por nosso País. Pois a literatura missionária corre caudalosa em nossos meios católicos.

Ou seja, em meios culturalmente desiguais – nos quais uma ponderável maioria não sabe definir o que sejam o estruturalismo, o esquerdismo e o progressismo – e que acolhem sem desconfiança quanto os missionários lhes instilam na alma.

b ) A propósito de dissertar sobre os índios, preparam o advento da sociedade comunista

Do espírito segundo o qual se exerce essa influência poderá defender-se o leitor médio analisando os textos a seguir. Poderá ele aquilatar então quanto a literatura neomissionária é voltada contra a propriedade privada e contra as decorrências desta. E de que maneira muitos autores missionários, a propósito de dissertar sobre os índios e seus problemas, estão preparando o espírito dos leitores para a aceitação da grande tese sócio-econômica do comunismo utópico de outrora, como do comunismo dito científico de nossos dias: “A propriedade, eis o roubo” (Proudhon).

11 . Catequese e agitação

a ) Vale a pena perder tempo com estes devaneios insensatos?

Valeria realmente a pena expor com tanto pormenor o devaneio de missionários endoidecidos? Sem dúvida, podem ser eles nocivos aos índios junto aos quais atuam. Por certo criarão problemas nessa zona. Mas em uma quadra histórica tão cheia de problemas maiores, vale a pena perder tanto tempo na solução desta questão, a qual, de um modo ou de outro, a penetração vitoriosa da civilização resolverá? – São objeções que, a este trabalho, se poderiam fazer.

b ) Absurdos que se estiolam e absurdos que se propagam

A responsabilidade dos brasileiros para com o irmão índio justifica que lhe consagrem a atenção necessária para ler este rápido estudo.

Na realidade, porém, uma questão muito maior emerge por detrás do que se poderia chamar a questão neomissionária. O pensamento que os missionários brasileiros (e os estrangeiros que aqui atuam), autores dos textos junto, erigem em regra de conduta e de vida, para si e para as tribos que “evangelizam”, é sem dúvida absurdo. Não se deduza daí que está necessariamente fadado a morrer sem história.

Enquanto há absurdos que, nas épocas de serenidade, se estiolam e morrem precisamente porque são absurdos, há também absurdos que, especialmente nas épocas de crise, se propagam, adquirem influência, assolam e devastam precisamente porque absurdos.

Este pode bem ser um deles. Pois tem pronunciadas afinidades, pelo menos em suas linhas gerais, com uma corrente de pensamento de profundas repercussões no campo sócio-econômico, como é o estruturalismo (5).

(5) Para um relacionamento mais aprofundado deste estudo com a corrente estruturalista de pensamento – que hoje em dia abrange etnólogos, psicanalistas, marxólogos, semiólogos, filósofos, lingüistas, epistemólogos etc. – interessam especialmente as obras de LÉVI-STRAUSS, considerado como fundador da “antropologia estrutural”, que se afasta da etnologia até há pouco ensinada por minimizar e mesmo negar a evolução.

Lévi-Strauss esteve no Brasil em 1935, onde foi o primeiro regente da cadeira de sociologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Dirigiu várias expedições científicas no Mato Grosso e Amazônia meridional. Ensinou em Nova York, foi conselheiro cultural da embaixada da França nos EUA, função da qual se demitiu em 1947, para consagrar-se a trabalhos científicos nos “Museu do Homem”, e na “Escola de Altos Estudos”. Atualmente é catedrático da Cadeira de Antropologia no Collège de France.

Suas principais obras são: La Pensée Sauvage; Les Structures Élémentaires de la Parenté; Le Totemisme Aujourd´hui; Le Cru et le Cult; Antrhopologie Struturale.

Outros autores estruturalistas e respectivas obras: MICHEL FOUCAULT, Les Mots et les Choses; Histoire de la Folie à l´Áge Classique; L´Archéologie du Savoir; ALGIRDAS JULIEN GREIMAS, Du Sens – Essaies Sémiotiques; Sémantique Structurale; LOUIS HJELMSLEV, Prolegomènes à une Théorie du Langage; LOUIS ALTHUSSER, Du Capital à la Philosophie de Marx; L´Object du Capital; JACQUES DERRIDA, Nature, Culture, Ecriture; JULIA KRISTEVA, La Sémiologie – Théorie d´ensemble; BERNARD POITIER, Presentation de la Linguistique; JACQUES LACAN, Écrits.

 

c ) Um Bispo que se declara transcomunista

E, olhando para dentro de nossas fronteiras, quando um D. Pedro Casaldáliga, Bispo de São Félix do Araguaia, se declara ideologicamente situado para além do comunismo (cfr. nosso estudo A Igreja ante a escalada da ameaça comunista – Apelo aos Bispos Silenciosos, Vera Cruz, São Paulo, 4ª ed., 1977, 51º milheiro, p. 22) até que ponto ele – tão festejado e apoiado na CNBB e em altas rodas do Episcopado – afirma sua consonância com estes devaneios? – É uma pergunta...

d ) Como pôde esgueirar-se esta filosofia na Igreja?

O maior problema suscitado por esses delírios não está nos próprios missionários, nem nos índios, cumpre repetir. Está em saber como, na Santa Igreja Católica, pôde esgueirar-se impunemente essa filosofia, intoxicando seminários, deformando missionários, desnaturando missões. E tudo com tão forte apoio eclesiástico de retaguarda. Pelo que, a transferência do Bispo que se declara “além do comunismo” – conquanto indispensável – está sendo mais difícil do que o cerco de Tróia. “Mexer com D. Pedro Casaldáliga, bispo de S. Félix, seria mexer com o próprio Papa”, consta até que afirmou Paulo VI ao Cardeal Arns (cfr. “O São Paulo”, órgão oficioso da Arquidiocese paulopolitana, 10 a 16 de janeiro de 1976 – ver também a mesma informação no órgão “Alvorada”, da Prelazia de São Félix do Araguaia, de novembro de 1975).

Esta erupção do que talvez se chamasse adequadamente comuno-estruturalismo missionário indica a existência de uma considerável infiltração na própria estrutura católica do Brasil.

Como explicar a existência e a influência dessa infiltração na Igreja? Essa é uma grande e difícil questão.

e ) A Igreja e a Pátria em perigo

Enfim, não é sobretudo dos índios nem dos missionários que se trata.

É da Igreja e do Brasil.

E a pergunta que se põe é até onde este e aquela poderão ser arrastados se a infiltração comuno-estruturalista continuar infrene e altamente prestigiada nos meios católicos.

Com efeito, bastaria que tal câncer se manifestasse no setor missionário da Igreja para justificar ou até impor outra pergunta: não será esse câncer mera metástase de outro tumor localizado em pontos mais decisivos, dentro dos organismos não missionários da Santa Igreja?

Por todo o País notam-se, há décadas, em diversos campos da atividade católica, impulsos que, clara ou veladamente, tentam conduzir a opinião pública a uma posição sempre mais receptiva à doutrina comunista. E que, a este título, são para o comunismo de inapreciável apoio.

Com estas ou aquelas designações, as “reformas de base” esquerdistas, e notadamente a Reforma Agrária, socialista e confiscatória, são sempre propugnadas pela “esquerda católica”.

Ora, os missionários “endoidecidos” dos quais se trata aqui, sentem-se parcela de toda essa imensa agitação nacional (cfr. Capítulo III, textos n.os 36 a 38).

Estudar esta parcela constitui subsídio indispensável para outro estudo quão mais importante: o dessa imensa agitação.

Capítulo III – Vozes missionárias “aggiornate”

O Leitor desejará, por certo, tomar conhecimento de textos em que instituições, personalidades e órgãos missionários exprimam diretamente seu pensamento sobre os importantes assuntos expostos nos Capítulos anteriores.

Do vasto material compilado, foram selecionados, e são a seguir apresentados, 48 textos, extraídos de 36 documentos, cuja relação aparece nas últimas páginas deste trabalho.

Foram esses textos classificados em Secções, de acordo com o tema que se procurou ressaltar em cada caso. Como vários textos versam sobre mais de um assunto e, ademais, os autores missionários se repetem muito, o leitor não estranhará que temas já tratados em uma Secção reapareçam nas Secções seguintes.

Secção I – Comunidade de bens

Nos tópicos desta Secção são enunciados e elogiados diversos conceitos sobre matéria sócio-econômica que constituem elementos essenciais da doutrina comunista: negação da propriedade privada, da iniciativa individual, do lucro, da caridade etc. (6)

(6) Os destaques em negrito nos textos citados são sempre nossos.

Se a missiologia “atualizada” elogiasse a comunidade de bens implantada nos países comunistas, expor-se-ia sem dúvida a críticas e refutações incômodas.

Esquivando, pois, o perigoso assunto, ela faz a apologia do sistema de vida dos índios. A tal propósito, exalça a comunidade de bens inerente ao sistema, e aproveita a ocasião para invectivar a propriedade privada, em prática nas nações civilizadas do Ocidente.

Perguntar-se-ia que efeito concreto resulta desse procedimento, para a missiologia aggiornata. Pois dos textos dela aflora claramente uma tendência doutrinária pró-comunista.

O fato, porém, é que o elogio torrencial da missiologia aggiornata à propriedade comum vigente nas tribos indígenas nem de longe levantou entre nós a celeuma que a apologia das sociedades comunistas de além cortina de ferro provocaria.

1 . “Os índios já vivem as bem-aventuranças: não conhecem a propriedade privada, o lucro, a competição”

Conclusões da 1ª Assembléia Nacional de Pastoral Indigenista:

Os índios ainda não estão corrompidos por este sistema em que vivemos. A Igreja precisa trazer uma esperança real para o oprimido. ´Eram irmãos, tinham tudo em comum´. Isso responde às exigências do pobre. Os índios já vivem as bem-aventuranças. Não conhecem a propriedade privada, o lucro, a competição. Possuem uma vida essencialmente comunitária em equilíbrio perfeito com a natureza. Não são depredatórios, não atentam contra a ecologia. Vivem a harmonia. As comunidades indígenas são uma profecia futura para esse jeito novo de viver, onde o mais importante é o homem (doc. 1, p. 7).

 

COMENTÁRIO

Os índios já vivem as bem-aventuranças”. A sentença, desconcertante, clama por uma explicação, que vem logo a seguir: eles “não conhecem a propriedade privada, o lucro, a competição”. Ou seja, o documento opõe estes três elementos ao perfeito status temporal e espiritual do homem, definido por Nosso Senhor Jesus Cristo no Sermão da Montanha.

Mas o que é uma sociedade humana sem propriedade privada, sem lucro e sem competição senão uma sociedade comunista?

Os Bispos, Padres, Religiosos e Religiosas presentes à 1ª Assembléia Nacional de Pastoral Indigenista prevêem a vitória dessa forma tribalista de vida como solução para os problemas humanos: afirmam eles que as comunidades indígenas são “uma profecia futura para esse jeito novo de viver, onde o mais importante é o homem”.

Outra pergunta, embora um pouco à margem do assunto, entretanto se impõe. As bem-aventuranças foram ensinadas por Nosso Senhor Jesus Cristo como a quintessência do Cristianismo. Se os índios as possuem, qual a necessidade da presença dos missionários entre eles?

2 . Elogio da comunidade de bens existente no sistema tribal – invectivas contra a propriedade privada

Artigo do “Boletim do CIMI” [Conselho Indigenista Missionário] comentando o VIII Encontro de Estudos sobre Pastoral Indigenista:

Foi observado que os povos Kaingang, Guarani e Xokleng possuem um sistema de valores diferente do nosso. Esses povos colocaram através dos séculos, como meta principal da própria existência, o homem. Por isso, vivem de maneira comunitária e as pessoas recebem uma educação permanente para a responsabilidade dentro do grupo. O valor da terra está essencialmente ligado ao homem, por isso é propriedade comum.

O índio dono dessa imensa riqueza que é a de viver em fraternidade, repartindo os bens numa sociedade onde os marginalizados não existem, defronta-se com a sociedade civilizada. Nesta, o lucro, o acúmulo de bens, a propriedade são o centro do universo, e não o homem. Esta sociedade justifica, pelas próprias características que tem, a exploração de uma imensa maioria, por uma minoria. Fazem parte dessa maioria explorada, os grupos indígenas. Como esses grupos não se rendem, não abdicam de sua forma natural de viver, são tutelados, considerados “menores” pela nossa sociedade. São considerados assim para melhor serem explorados economicamente. Para continuarem fazendo parte da imensa camada dos marginalizados e melhor servirem a interesses que não visam o homem, mas o lucro” (Doc. 2, pp. 16-17).

COMENTÁRIO

Um comunista não faria afirmações diversas:

a ) O sistema tribal é elogiado como ideal, abstração feita de qualquer consideração sobre Deus (a “meta principal da existência” é “o homem”, diz o CIMI), e pela nota comunista que o texto nele aponta: na sociedade tribal os bens são repartidos e a propriedade é comum;

b ) Pelo contrário, a sociedade capitalista é acusada de inumana, de ter por “centro do universo” o lucro, o acúmulo de bens, a propriedade. Ela consiste na “exploração de uma imensa maioria por uma minoria”;

c ) A inclusão dos índios na categoria de “menores” obedeceria aos mais negros intuitos capitalistas.

3 . Menosprezo da Pátria e apologia do coletivismo tribal

Homilia de D. Tomás Balduíno, Bispo de Goiás e Presidente do CIMI:

A terra é para ele [o índio] como a nossa Pátria, ou mais do que isso (porque afinal de contas, essa história de Pátria...). É peça de sua vida, é ligação do grupo ao seu passado, aos seus antepassados. [...].

“Pois bem, eles [os índios] vivem uma vida diferente. Eles vivem uma vida em comunhão com a natureza. Eles vivem uma vida de comunidade, de respeito mútuo, eles vivem uma perfeita distribuição de bens entre si, sem acumulação. [...].

“Estes caminhos [da História] estão sendo mudados. Há várias coisas acontecendo por aí, apesar de nosso sistema econômico, desse rolo compressor que está procurando realizar a sua última inverstida contra os pobres, os marginalizados, os índios” (doc. 3, pp. 26-27).

COMENTÁRIO

O menosprezo ou a negação do conceito de Pátria é elemento essencial da doutrina comunista.

A propriedade tribal não é individual mas coletiva. Para D. Tomás Balduíno, os índios “vivem uma vida de comunidade, de respeito mútuo, eles vivem uma perfeita distribuição de bens entre si, sem acumulação”. E este é exatamente o elogio que a propaganda comunista faria da sociedade russa, cubana ou de qualquer outro país satélite.

4 . Uma “Igreja-Nova”, de inspiração comunista, onde a propriedade é a heresia e o proprietário o herege

Comunicado Povo de Deus no sertão, distribuído por ocasião da inauguração da Catedral de São Félix do Araguaia, Prelazia da qual é Bispo D. Pedro Casaldáliga:

Somos uma Igreja Particular, com jeito próprio e já com um pouco de história. Somos a PRELAZIA DE SÃO FÉLIX.

Uma Igreja de famílias de retirantes. Uma Igreja metida na luta e na esperança dos índios, dos posseiros e dos peões.

“Uma Igreja pequena, a serviço, sem honrarias e sem poder. Uma Igreja contra o latifúndio e contra toda escravidão e, por isso, perseguida pelos donos do Dinheiro, da Terra e da Política. Uma Igreja na qual não cabem nem os tubarões, nem os exploradores, nem os traidores do Povo. Porque ninguém é Povo de Deus se esmaga os filhos de Deus; ninguém é Igreja de Cristo se não cumpre o Mandamento de Cristo” (doc. 4, pp. 711-712).

COMENTÁRIO

Uma “Igreja Nova” modelada pela inspiração comunista. Sua luta é só por uma classe: a “dos índios, dos posseiros e dos peões”. Sua “esperança” é em favor deles.

(7) O conceito de classe na linguagem corrente parece não coincidir, de modo preciso, com o da linguagem comunista. Assim, a luta branco-índio é para os comunistas uma luta de classes. Na linguagem corrente, tal luta poderia tomar acidentalmente esse caráter, mas seria essencialmente uma luta de raças.

 

De fora ficam os latifundiários, e os que vivem – segundo o Comunicado – de escravizar os outros, ou seja, a classe dos proprietários, os “donos do Dinheiro, da Terra e da Política”.

Em suma, uma Igreja transformada em instrumento da revolução social.

Como se vê, para essa “Igreja-Nova” a propriedade privada é a heresia, e o proprietário o herege. O texto deixa claro que uma possível proliferação da “Igreja-Nova” é implicitamente uma proliferação do espírito pró-comunista.

A condenação do latifúndio, como sendo intrinsecamente injusto, se encontra em todos os autores comunistas. A doutrina católica, pelo contrário, o considera essencialmente justo: e injusto apenas per accidens, quando a grande propriedade se torna nociva ao bem comum. Pio XII, por exemplo, depois de elogiar a classe dos pequenos proprietários na Itália, advertiu que “isto não importa em negar a utilidade e freqüentemente a necessidade de propriedades agrícolas mais vastas” (Discurso de 2 de julho de 1951, ao Congresso Internacional sobre os problemas da Vida Rural – Discorsi e Radiomessaggi, vol XIII, pp. 199-200).

A afirmação de que o pecador que “não cumpre o Mandamento de Cristo” por isto mesmo deixa de pertencer à Igreja, é contra a Fé e o Direito Canônico. Só sai da Igreja quem incorre em heresia pertinaz, apostasia ou cisma, ou é fulminado com a sentença de excomunhão.

5 . A propriedade privada apresentada como fonte de todos os males

Da História do Trabalhador Brasileiro, estampada no boletim “Grito do Nordeste”, de responsabilidade da equipe “Animação dos Cristãos no Meio Rural”, da Arquidiocese de Recife:

“[Entre os índios] todos eram iguais. A terra onde a tribo estava localizada pertencia a todos os membros da mesma tribo [...].

“Todos participavam igualmente no trabalho e tinham os mesmos direitos na divisão do produto do trabalho. Entre os índios não existiam pobres e ricos, como também não existiam classes sociais. Todos eram iguais entre si. Por isso, não havia entre eles a prática do roubo, nem o crime, nem a prostituição. A miséria e todos os problemas comuns à “civilização”, que nós nos habituamos a dizer que existem desde que Deus criou o mundo, não aconteciam entre os indígenas” (doc. 5, p. 8).

COMENTÁRIO

O claro pressuposto de quanto está aqui dito é que a propriedade privada é a fonte de todos os males.

Um comunista não poderia ser mais radical.

Os frutos do trabalho são distribuídos segundo o princípio comunista: “De cada um segundo suas capacidades; a cada um segundo suas necessidades” (MARX, Crítica del Programa de Gotha, Editorial Progreso, Moscou, s. d., p. 15).

A sociedade sem classes é ideal caracteristicamente comunista e portanto contrário à doutrina católica. Assim escreve Leão XIII: “Por isso, a Igreja, pregando aos homens que eles são todos filhos do mesmo Pai celeste, reconhece como uma condição providencial da sociedade humana a distinção das classes; por essa razão Ela ensina que apenas o respeito recíproco dos direitos e dos deveres, e a caridade mútua darão o segredo do justo equilíbrio, do bem-estar honesto, da verdadeira paz e da prosperidade dos povos” (LEÃO XIII, Alocução de 24 de janeiro de 1903, Bonne Presse, Paris, tomo VII, pp. 169-170).

6 . Visão comunista da caridade

Historieta intitulada Satoko – Maria da aldeia das formigas, publicada na revista missionária “Sem Fronteiras”:

“ – Por que diz que auxiliar o próximo é orgulho? – rebateu Satoko profundamente ferida por aquela afirmação.

“ – Quando se fala em ajudar, o que ajuda está sempre por cima e o que é ajudado por baixo. O ajudado é portanto rebaixado. Não é esta a autêntica caridade. A caridade torna tudo igual, ao mesmo nível, na alegria e na tristeza. Vós, cristãos, sois todos fariseus: dizeis que quereis ajudar os pobres, que nos quereis auxiliar a nós, farrapeiros, mas na prática o vosso auxílio é só desprezo por nós.

“Satoko ficou fulminada por aquela revelação; queria defender-se, defender os cristãos, mas compreendia toda a verdade que havia nas palavras do professor.

“ – Perdoe-me, professor, a culpa foi toda minha” (doc. 6, pp. 55-56).

 

 

COMENTÁRIO

A caridade, pressupondo que um tenha legitimamente mais do que outro, contraria a igualdade e infringe a justiça: tese caracteristicamente comunista.

Secção II – Vida tribal em condições não selváticas

Como se verá, as afirmações dos missionários “atualizados” sobre a vida tribal dos índios na selva brasileira apresentam semelhança digna de nota com o que dizem escritores católicos aggiornati e esquerdistas não missionários, mas afeitos ao estudo de uma hipotética vida tribal fora das selvas.

7 . Saudades do primitivismo tribal de nossos índios

Rose Marie Muraro, coordenadora da coleção “Presença do Futuro”, da Editora Vozes, dos franciscanos de Petrópolis, em livro publicado pela mesma editora:

Está para sempre perdido o conhecimento do comportamento sexual do homem pré-histórico. Não o conhecemos senão através do estudo da vida sexual e familiar das tribos que ainda hoje vivem em estado selvagem. Por esses estudos sabemos que o primitivo era um homem “sexualmente desinibido e intelectualmente inibido”, segundo a expressão de McLuhan [...].

“Após a descoberta da agricultura, a vida sexual muda completamente de aspecto. O homem fixado à terra tem que trabalhar para sobreviver (ao contrário do primitivo que era nômade e só trabalhava esporadicamente para comer, caçando ou pescando). A dura luta pela sobrevivência originou a disputa das terras em que era possível plantar. Estas tiveram que ser repartidas, nascendo daí os vários regimes de propriedade, principalmente a propriedade privada, em que a terra passava a pertencer ao mais forte, ao mais capaz de guardá-la. Nasce assim, no mundo tradicional, uma forma competitiva de vida (o primitivo não era competitivo, não lutava com outras tribos pela comida). [...]

No plano individual gerou um novo tipo de moral que o primitivo não conhecia: a moral do senhor e do escravo. Uns, os proprietários usufruindo do fruto do trabalho dos outros, os escravos ou servos. [...].

“No plano individual, o tempo que deveria ser consagrado ao trabalho era obviamente retirado de outras atividades, entre as quais a sexual. Assim, com o progresso da civilização foi-se impondo uma repressão da vida sexual (livre no primitivo). Pouco a pouco essa repressão foi adquirindo regras, códigos morais cada vez mais rígidos. Com o correr do tempo esse códigos foram sendo assumidos pelo pensamento religioso, que os tornava mais suportáveis com a promessa de uma vida feliz após a morte. Isto permitia ao homem suportar tanto a dominação como a repressão sem revoltar-se” (doc. 7, pp. 25-27).

COMENTÁRIO

O texto leva o arcaísmo a um requinte espantoso, pois deixa transparecer saudades de uma hipotética era de ouro anterior à agricultura, a do nomadismo.

Estabelecida a agricultura, daí se teriam desdobrado múltiplas conseqüências, das quais a primeira seria o estabelecimento da propriedade privada.

No decorrer da leitura, percebe-se que essas conseqüências formam uma verdadeira cascata de infelicidades... E nasce a sociedade contemporânea.

Todo o pensamento aqui expresso deve logicamente conduzir ao entusiasmo pelos aspectos comunistas que também os neomissionários aplaudem no primitivismo tribal de nossos índios.

8 . Utopia, sim; mas ideal para o qual se deve tender continuamente

Considerações de um ensaio publicado na coleção “Estudos da CNBB”:

Será interessante ainda chamar a atenção para um exemplo muito ilustrativo, ocorrido preferentemente na Escandinávia, embora muito esparso e ainda pouco estudado: as comunas familiares. Várias famílias, suficientemente conscientizadas, decidiam realizar mais ou menos o ideal da comunidade. [...] Geralmente o começo se dava em uma casa suficientemente ampla para acolher um número proporcional de famílias (5 a 10), geralmente composto de casais jovens do meio intelectual.

“De início colocavam-se em comum alguns objetos apenas: casa, mesa, carro etc. Numa etapa mais alta, colocava-se em comum também todo o salário, de tal sorte que, se alguém ganhasse mais, isto não lhe dava o direito de dispor de mais. Tentava-se, então, também uma educação comum dos filhos. Na mais alta etapa, que foi poucas vezes tentada e sempre fracassou com rapidez, colocava-se formalmente tudo em comum, inclusive a intimidade pessoal, de tal forma que desapareceria a distinção dos próprios casais. A idéia básica normalmente veiculada é a de que os filhos nascidos das uniões livres teriam como pais e mães o grupo todo, cabendo a todo o grupo a responsabilidade total de educação. Aos filhos não seria também revelado quem seria a mãe carnal.

“Isto coloca uma série de problemas. Antes de mais nada, somos da opinião de que uma experiência deste teor é muito mais fácil de ser ridicularizada do que de ser imitada. É uma leviandade querer ver nisto apenas uma aberração sexual, embora ela muito bem possa existir [...]. Seja como for, a primeira questão seria, se o filho do grupo já se poderia qualificar de “homem novo”, nascido de homens velhos [...]. É impossível responder a esta questão com alguma precisão, já porque a experiência nunca teve até hoje efeito aproximativo, especialmente porque não durou o suficiente (não se ultrapassou ainda a duração de 2 a 3 anos). A segunda questão seria, se é possível preservar a novidade deste homem contra o ambiente adverso de fora [...].

“Ademais, os próprios pais sucumbiam a seus problemas velhos: egoísmos, ciúmes, rejeições..., já que a capacidade de doar sua intimidade a qualquer pessoa do grupo sem distinção alguma supõe um tal espírito de renúncia, próximo à mutilação pessoal” [...].

“De qualquer maneira, o fracasso constante da experiência não destrói sua verve crítica e sua boa intenção. Seu valor está sobretudo em que tentou viver a comunidade, não só como forma de coesão entre os membros, mas como forma concreta de associação humana.

“Abstraímos aqui de qualquer ponto de vista ético, que, conforme as várias concepções, poderia repelir de antemão a experiência escandinava, por ferir valores considerados mais básicos na personalidade humana. O exemplo conserva, contudo, seu valor, porque se quis uma das formas mais radicais de comunitarização [...]. Não é, porém, da competência do sociólogo discutir a qualidade ética de tais enfoques.

“ [...] a comunidade é uma genuína utopia. Não cessa de atrair os homens e é capaz de injetar neles um entusiasmo sem precedentes. É um fermento que a história não perde, mas renova. Sob as agruras da vida diária, cheia de problemas e misérias, lateja continuamente um movimento de estranha profundeza e que se perde em esperanças absolutas irrealizáveis: a saudade por um mundo melhor, por homens mais humanos, por sociedades mais igualitárias; o anseio por um paraíso perdido, mas talvez recuperável a certa altura da história [...]” (doc. 8, pp. 104-107).

COMENTÁRIO

A formação de pequenas “repúblicas comunistas” no interior de um Estado fortemente socializado como na península escandinava, pode teoricamente fazer-se por etapas. Sobre tais etapas, as realizações e as frustrações que nela ocorreram, e as esperanças que ainda deixam, este texto é muito ilustrativo: a tentativa levada a efeito pelos “grupos” importa numa verdadeira experiência tribal em condições não selváticas.

O comentário do estudo publicado pela CNBB se caracteriza por um amoralismo que ressuma simpatia.

Mais notável porém é o modo por que o autor desse estudo responde a uma pergunta já formada por certo no espírito de vários leitores: toda essa tribalização não passará de uma utopia?

Sim, responde o texto, mas utopismo é saúde para a alma. É muito louvável tender para ele continuamente, infatigavelmente, sem jamais alcançá-lo inteiramente, mas ao mesmo tempo conseguindo chegar cada vez mais próximo dele.

Para o homem de bom senso – cumpre ponderar – nada mais perigoso do que guiar o Estado, não rumo a sua finalidade verdadeira e natural, mas rumo a uma finalidade confessadamente utópica e portanto irreal e inatingível.

Nas coletividades como nos indivíduos, a boa ordem só pode resultar da tendência de todas as partes para o fim verdadeiro. A tendência para a utopia é um fermento de desordem. Vitoriosa essa tendência, só pode sobrevir o fracasso.

Secção III – Liberdade sexual

9. Sociedades primitivas estão mais próximas do ideal

Do livro já citado de Rose Marie Muraro:

O mundo da dominação [a sociedade atual] condena quase tudo o que possa fazer o homem feliz ou sentir prazer. Boa comida, boa bebida, sexo, substâncias que possam alargar a área da percepção ... [...]

“A grande maioria das sociedades primitivas, contudo, estavam muito mais próximas de sua humanidade, com suas danças sagradas, sua permissividade sexual, seus rituais mágicos, sua integração emotiva com a natureza. Assim, possuíam um equilíbrio psíquico e físico que hoje, e só hoje, estamos redescobrindo” (doc. 7. P. 57).

10 . Elogio da nudez dos índios, “global e natural”

Ainda do mesmo livro de Rose Marie Muraro:

Na sociedade primitiva [...] a nudez é uma forma de adaptação à vida e não apenas resultado da ignorância de confecção de roupas. [...]

“A criança acostuma-se com a nudez desde o momento que nasce. A cada instante toma contato com a nudez global. [...]

O mundo civilizado é um mundo de cisões, de paredes; desde que nascemos as roupas nos separam do nosso corpo, assim como, na infância, as paredes da escola separam as crianças das diversas idades, e até as de sexo diferente, como as paredes dos escritórios, das repartições, das fábricas separam os seres humanos das diversas classes... [...].

Na sociedade ocidental, pois, a diferença entre os sexos tem a ver apenas com diferenças de roupas, de papéis, de privilégios. Mas na sociedade em que a diferença dos sexos é baseada na evidência física, a criança se assume profunda e inconscientemente através de seu sexo. [...].

“A nudez erótica e clandestina ainda é fruto da negação do corpo. A nudez aceita, global e natural, abre caminho para a aceitação de si e do mundo, de uma maneira por nós ainda desconhecida” (doc. 7, pp. 62-63 e 66).

COMENTÁRIO

A nudez dos índios, tão censurada pelos catequistas tradicionais, é vista, também ela, através de vidros róseos pelos aggiornati. E daí partem para novos ataques à civilização atual.

Que dizer da frase da Escritura que consigna como conseqüência do pecado original a vergonha da nudez? – “Ora, um e outro, isto é, Adão e sua mulher, estavam nus; e não se envergonhavam” (Gen. 2, 25) – antes do pecado. Logo depois, envergonharam-se por se verem nus. E Deus aprovou esta vergonha, pois fez vestes para eles (Gen. 3, 21).

Secção IV – Descrição idílica e “evangélica” da vida do índio

A descrição idílica das sociedades indígenas feita pelos missionários aggiornati lembra, embora eles se defendam disso, o mito do “bom selvagem” com que Rousseau encantou, pôs em delírio e incendiou a França de fins do século XVIII.

No bojo dos elogios ditirâmbicos da vida tribal, estes textos deixam entrever a propensão ao comunismo, bem como o desejo de inspirar nas sociedades primitivas o mundo novo.

11 . Um paraíso tribal, onde é coletiva a propriedade dos meios de produção e não existe autoridade

Y-Juca-Pirama – O índio: aquele que deve morrer, “Documentos de Urgência” assinado pelos bispos de Cáceres (MT), D. Máximo Biennès; Viana (MA), D. Hélio Campos; Marabá (PA), D. Estevão Cardoso de Avellar; São Félix (MT), D. Pedro Casaldáliga; Goiás Velho, D. Tomás Balduíno, e Palmas (PR), D. Agostinho José Sartori, e mais seis missionários:

“Sem assumir a visão idílica de Rousseau, sentimos a urgente necessidade de reconhecer e publicar certos valores que são mais humanos, e assim, mais evangélicos do que os nossos “civilizados” e constituem uma verdadeira contestação a nossa sociedade:

“ 1º Os povos indígenas, em geral, têm um sistema de uso da terra, baseado no social, não no particular, em profunda consonância com todo o ensinamento bíblico, não só no Antigo mas no Novo Testamento, sobre a posse e o uso da terra (DOM FRANZONI – “La Terra è di Dio”). Corta-se assim pela raiz a possibilidade de dominação de uns sobre os outros à base da exploração particular de meios de produção. Nota Antônio Cotrim Neto que “com a chegada do branco, estabelece-se o conceito de propriedade particular, surgindo os conflitos na aldeia” (ESTADO DE S. PAULO – 20/8/1972).

“2º Toda a produção, fruto do trabalho ou do aproveitamento das riquezas da natureza e portanto toda a economia é baseada nas necessidades do povo, não no lucro. Produz-se para viver e não se explora o trabalho para lucrar. “O índio não se preocupa com acumular bens de qualquer natureza – ensina o jesuíta Adalberto Pereira – nem possui o estímulo econômico no sentido de adquirir prestígio ou elevação do “status” social. Não conhece competição econômica e nem atitudes de ambição. Vive o sistema comunitário de produção e consumo, com divisão de trabalho segundo o sexo” (ADALBERTO HOLANDA PEREIRA – “Questões de Aculturação” in ESSA ONÇA – Univ. Fed. De Mato Grosso – 1973 § 18).

“ 3º A organização social tem como única finalidade garantir a sobrevivência e os direitos de todos, não os privilégios de alguns. O comunitário prevalece sobre o individual. Toda expressão cultural visa celebrar e aprofundar este senso de comunidade. Eis a fonte da paz e da harmonia de que têm saudades os sertanistas: “nossos irmãos da selva – diz Cláudio Villas Boas – sem possuírem toda esta sofisticação tecnológica, são plenos e felizes, vivendo uma vida equilibrada e harmoniosa (ESTADO DE S. PAULO – 29/4/1973). Francisco Meireles sonha: “Intimamente gostaria que eles pudessem ser mantidos em suas aldeias e que nós, civilizados, ao invés de incutir-lhes nossos padrões culturais, aprendêssemos com os índios que sempre vivem em harmonia não só no grupo tribal mas com a própria natureza” (ESTADO DE S. PAULO – 26/6/1973).

“4º O processo de educação caracteriza-se pelo exercício da liberdade. “Aprendem a ser livres desde a infância – diz Luiz Salgado Ribeiro – pois um pai nunca obriga o filho a fazer o que ele não quer. Um pai nunca bate no filho, por maior que tenha sido a sua travessura.” [...] “O índio é acima de tudo um homem livre. Não depende de ninguém para o sustento de sua família – ele mesmo caça e pesca enquanto sua mulher cuida da pequena lavoura de subsistência – e isso lhe dá condições de não dever favor ou obrigação a ninguém. Nem a seu pai, nem ao chefe da tribo” – (A VOZ DO PARANÁ – 29/9-6/10/1973).

“5º A organização do poder não é despótica mas compartilhada. “Assim o chefe não é aquele que manda, mas sim o sábio que aconselha o que deve ser feito... Se os índios seguem ou não seus conselhos, o problema não é do chefe. Ele apenas é um líder que aconselha; não um patrão que determina o que tem de ser feito. Mesmo no caso de uma guerra, o chefe nunca poderá determinar que todos os homens participem da luta”. Isto significa que, entre eles, a autoridade é realmente um serviço à comunidade, não dominação. Claro que nestas condições não há lugar para instituições de policiamento e coerção.

“6º As populações indígenas vivem em harmonia com a natureza e seus fenômenos, em contraposição à nossa integração com as diferentes poluições, destroços de uma natureza arrasada e substituída pelo habitat em que vivemos: ‘Os índios, ao contrário dos brancos, sempre conviveram em perfeita harmonia com a natureza, não havendo casos de tribos que tenham destruído a fauna ou a flora de qualquer região por eles habitada. Esta é a posição de antropólogos e especialistas em indigenismo’ (ESTADO DE S. PAULO – 5/3/1972).

“7º A descoberta, evolução e vivência do sexo entram no ritmo normal da vida do índio, num clima de respeito, sem as características de tabu ou de ídolo que se manifestam em nossa sociedade e tanto a condicionam.

“Essa enumeração de valores não pretende ser exaustiva nem eles se realizam uniformemente, mesmo porque cada grupo indígena constitui um povo, com suas características peculiares, cuja expressão maior é a língua. Não ignoramos que também no homem indígena há sinais da sombra do pecado que, sob formas diferentes do egoísmo comum, embaraçam a plena realização e autêntica integração desses valores humanos” (doc. 9, pp. 21/23).

COMENTÁRIO

A nota comunista é frisante neste texto, que fala por si.

Registre-se apenas a carga feita contra a “exploração particular de meios de produção”; contra a propriedade particular, apontada como responsável pelo surgimento de “conflitos na aldeia”; contra o justo desejo de melhorar o status social etc. É de notar ainda a simpatia pelos aspectos coletivistas e igualitários que os autores vêem no regime tribal (“o comunitário prevalece sobre o individual”), onde, segundo eles, não há qualquer forma de autoridade, sequer a paterna.

12 . “Sem perder seus valores comunitários, religiosos e tribais”

Entrevista de D. Tomás Balduíno, Presidente do CIMI, ao jornal “Panorama” de Londrina:

As posições de Dom Tomás, porém, não são somente dele, mas de todo o CIMI que, no início deste mês, participou de um seminário com a Funai em Manaus [...]. Na ocasião, voltou a ser levantada a opinião de que as missões também exerciam um efeito pernicioso sobre os índios; à medida que tentavam impor sobre eles uma nova religião e padrões morais completamente diferentes dos que possuíam. Dom Tomás:

“ – Eu concordo com essa opinião. Mas desde quando o CIMI começou a existir, há quatro anos, que estamos instruindo a todas as missões católicas para corrigirem esta função catequética, respeitando a organização dos índios. [...]

“ [...] o ideal seria que eles pudessem conviver com nossa civilização, mas sem perder seus valores comunitários, religiosos e tribais; sem perder o direito de construir suas casas, de continuarem plantando da forma que sempre plantaram; e sem serem engolidos pela voracidade da civilização de consumo, onde o interesse particular e financeiro está acima de tudo”. [...]

“ – Os índios estão se marginalizando, perdendo o seu lugar, esta é a verdade. Essa integração que o governo pretende só os transformará em párias da sociedade, o que é lastimável, sabendo que eles hoje têm um “status” social muito superior a vários agrupamentos da nossa sociedade. Eles são realizados, seus chefes são verdadeiros chefes mas com a consciência de que são chefes de povos oprimidos. [...].

“ – Este não é o pior, porém: mais hostil é a ganância. O que querem mesmo não é exterminar os índios, mas ocupar as terras deles, a qualquer custo. Houve até tentativas de envenenamento de tribos. [...] Estava explicado o ódio mortal pelos brancos. [...]

“ – No tempo da descoberta do Brasil, eles eram mais de 2 milhões. Hoje calculam por volta de 100 mil, ou 150 mil, apesar deste último dado ser muito otimista” (doc. 10).

13 . “Só temos a aprender com os índios”

Declarações do Pe. Egydio Schwade, assessor do Conselho Indigenista Missionário (CIMI):

A nossa civilização é que está falida, condenada, e não a do índio”. Com estas palavras, o padre Egydio Schwade, assessor do Conselho Indigenista Missionário – CIMI, comentou ontem, em São Paulo, as declarações do sertanista Orlando Villas Boas, que afirmou anteontem que o fim da civilização do índio é inevitável, e o próprio índio está consciente disso.

“O padre Schwade disse que “confrontando os valores da sociedade indígena com os de nossa sociedade, dita civilizada, vemos que só temos a aprender com eles. A marcha da História que é irreversível, aponta, em tantos exemplos que já começam a se ver no mundo contemporâneo, que as sociedades humanas estão se abrindo para aqueles valores que sempre foram os dos índios, como o espírito comunitário, a solidariedade e o respeito pelo próximo”.

“Schwade acha que “quanto mais procuramos respeitar, defender e preservar física, cultural e até ecologicamente a identidade dos povos indígenas, mais chance teremos também de nos salvarmos e nos encontrarmos a nós mesmos, superando a alienação em que o ritmo de vida de nossa sociedade civilizada nos submerge”.

“O assessor do CIMI comentou que “o mundo inteiro revoltou-se, e com justiça, contra a recente condenação de cinco homens à morte. Com muito mais razão a consciência nacional e mundial deve levantar sua voz contra o extermínio dos nossos índios, que têm uma história tão digna e sagrada quanto a história sagrada do povo de Deus, reverenciada por judeus e cristãos” (doc. 11).

COMENTÁRIO

Os disparates contidos neste documento desconcertam. Por exemplo: os que vivem em “nossa sociedade, dita civilizada”... têm a aprender com os índios.

Ou seja, tudo quanto há entre os índios é lição para os civilizados. Um exemplo? “O espírito comunitário, a solidariedade e o respeito pelo próximo”.

Transparece neste tópico a admiração que certos missionários “atualizados” tributam ao caráter mais ou menos comunista que vêem na vida das tribos indígenas.

Depois deste elogio de sociedades tão primitivas, e a depreciação da civilização atual, causa riso a afirmação de que “a história é irreversível”.

A afirmação de que a história dos índios é “tão digna e sagrada quanto a história sagrada do povo de Deus” conduz às seguintes perguntas: de que lucram então os índios em serem evangelizados? Para que há missionários?

14 . Índios são modelos para nossa sociedade

Declarações de D. Fernando Gomes, Arcebispo de Goiânia:

As comunidades indígenas devem ser recebidas como evangelizadoras, para que se tornem modelo à nossa sociedade que muito tem a aprender com elas” – afirmou ontem o arcebispo Dom Fernando Gomes de Oliveira, de Goiânia, ao abrir o curso sobre “Perspectivas da integração do índio na comunhão nacional”, organizado pelo Conselho Indigenista Missionário e Instituto de Pesquisas Sócio-Econômicas da Universidade Católica de Goiás. [...].

“Dom Fernando Gomes [...] discorreu sobre a importância do encontro, mostrando sua necessidade para a formação de melhor visão da Igreja no campo indígena, frisando o fato de suas comunidades serem recebidas como evangelizadoras, no sentido de que se tornem modelos para nossa sociedade” (doc. 12).

COMENTÁRIO

Se as pequenas “comunidades indígenas” devem ser modelo para nossa sociedade, pergunta-se como esse modelo pode ser imitado pelas ciclópicas sociedades contemporâneas, senão mediante a instauração de um regime mais ou menos comunista... ou quiçá inteiramente comunista.

Pelo menos se se admitir como verídica a imagem das sociedades indígenas que a missiologia “atualizada” apresenta.

15 . A missiologia “aggiornata” inspira uma transformação radical de nossa sociedade

Do documento Y-Juca-Pirama – O índio: aquele que deve morrer, assinado por Bispos e missionários:

Se tivéssemos a corajosa humildade de aprender com os índios, talvez fossemos levados a transformar nossa mentalidade individualista e as correspondentes estruturas econômicas, políticas, sociais e religiosas para que, em lugar da dominação de uns sobre os outros, pudéssemos construir o mundo solidário da colaboração” (doc. 9. p. 24).

COMENTÁRIO

Uma solidariedade horizontal, à margem do princípio de autoridade, em vigor nas sociedades tribais, é o ideal que os índios nos ensinam.

Esse igualitarismo, que envolve a comunidade de bens, a ausência de classes sociais etc., se transposto para as grandes concentrações humanas modernas, traduz-se em termos de comunismo.

Até a estrutura religiosa, instituída santamente hierárquica por Nosso Senhor Jesus Cristo, tem que nivelar-se sob o rolo compressor da “sabedoria” indígena.

16 . Missão do índio: “fazer com que os civilizados reencontrem a civilização”

Artigo do Pe. Antonio Iase S.J., Secretário-executivo do CIMI

O índio tem uma missão a cumprir: fazer com que os civilizados reencontrem a civilização. [...]

O problema não está do lado do índio, mas na sociedade nacional. Não é o índio que deve ser condicionado, mediante um sistema de educação alienado de sua cultura e de sua história, mas a sociedade nacional é que deve preparar-se para aceitar o índio como ele é; para compreender e respeitar o mundo do índio e não pressioná-lo a vir para o nosso mundo [...]” (doc. 13, pp. 20 e 22).

Secção V – A evangelização não é necessária

É tão alto o conceito que, para os catequistas “atualizados”, merece a vida tribal, que o Evangelho – e a civilização cristã dele decorrente – ficam relegados por eles a um segundo plano (7).

(7) O Cardeal D. Vicente Scherer, Arcebispo de Porto Alegre, manifestou seu desacordo com esta posição da neomissiologia. Disse o purpurado: “Nota-se uma tendência a restringir a ação dos missionários à defesa do índio [...], deixando de lado com certo menosprezo o objetivo essencial de lhes iluminar a inteligência com a luz do Evangelho e de levá-los a integrar-se na comunidade da fé” (cfr. “Correio do Povo”, 25-10-77).

Já apareceram sintomas disso nos textos nos. 11 a 16. Mas é possível apresentar, nesse sentido, diversos outros pronunciamentos missionários, tão ou mais significativos ainda.

17 . Vivendo em regime comunitário, os índios não precisam da Igreja

Entrevista de D. Tomás Balduíno, Bispo de Goiás e Presidente do CIMI, ao semanário “Opinião”:

“Hoje a atividade missionária descobre na cultura indígena valores evangélicos, de tal forma que o índio não só é evangelizado, mas também é capaz de nos evangelizar, pelo relacionamento fraterno entre si, pela valorização do fraco e da criança, pela educação para a liberdade, pela ligação com o religioso. O mundo do índio não é fechado em si, ao contrário, se abre para um mundo de mistério, o que traz um grande equilíbrio para os grupos tribais”. [...]

“A evangelização é capaz de descobrir a presença de Cristo no grupo tribal, o qual vive de maneira mais cristã do que nós, com o nosso batismo e com a nossa prática religiosa. Sem professar o nome de Cristo, os índios vivem muito mais na plenitude de vivência anunciada pelo Cristo como uma boa-nova de libertação, do que nós que vivemos como pagãos uns em relação aos outros” (doc. 14).

COMENTÁRIO

Tendo o regime comunitário, os índios não precisam de nada. Nem da Igreja, pois já têm a plenitude da vivência evangélica.

A se admitir que as coisas fossem como as descreve D. Tomás Balduíno, seria o caso de perguntar do que adianta a catequese.

Talvez por isto a catequese é apresentada como puramente voltada para uma tarefa terrena, que é a de conservar o estado tribal, como se vê no texto seguinte.

18 . A principal missão da Igreja não é converter os índios à Religião de Jesus Cristo, mas conservar-lhes o estado tribal

Plano pastoral dos Bispos da Amazônia

Os Bispos defendem a tese de que a principal missão da Igreja não é catequizar e converter o índio mas garantir os seus valores e encaminhar o seu processo cultural de modo a evitar choques e sincretismos” (doc. 15).

19 . Catequese “atualizada”: trazer à tona da consciência a mensagem religiosa que o índio traz no subconsciente

Entrevista de D. Tomás Balduíno, Bispo de Goiás e Presidente do CIMI, ao jornal “Voz do Paraná”:

Não entendemos a catequese como antigamente: a transmissão de uma doutrina em vista da entrada em determinado período – iniciação para o culto, para o batismo, para receber os sacramentos, etc. Hoje entendemos a catequese como uma maneira global, em que prevalece o aspecto evangelizador, que está mais orientado para a restauração da imagem de Deus no homem do que para o enquadramento do indivíduo dentro de uma determinada religião. Então, em vez de atrair-se proselitisticamente para o grupo ou a confraria religiosa, vai-se ao índio e faz-se com que a mensagem, que já está nele, seja vivida, seja consciente. Isso é, como dizia, “estar ao lado”. Fazê-lo entender que ele pode ser o anúncio e a denúncia para esta sociedade. Que, embora se dizendo religiosa, católica e não sei que lá mais, é egoísta, individualista, hedonista, gananciosa. Quanto ao índio, ele não: ele dá a vida pelo outro”.

 

 

COMENTÁRIO

A catequese “atualizada” consiste muito mais em trazer à tona da consciência do índio a mensagem religiosa que já está em seu subconsciente, do que em ensinar-lhe a Boa-Nova trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo a todos os povos.

20 . Evangelização é secundária para missionários que menosprezam o trabalho de Anchieta

Reportagem sobre o Segundo Encontro Regional Norte de Mato Grosso do CIMI:

Paralelamente, o trabalho de “pacificação e catequese” – reconhecem hoje os próprios missionários – desenvolvidos com base no espírito de Anchieta, sem levar em conta a necessidade da preservação da cultura indígena, também contribui para infundir no índio um menosprezo fatalista por seus valores culturais. [...].

“Os participantes do Encontro de Diamantino colocaram essa revitalização de valores tribais como fundamental, defendendo como primeiro passo uma melhor preparação dos missionários, reafirmando que, no processo de integração, é vital que toda a estrutura cultural dos grupos seja respeitada e que a evangelização seja apenas parte secundária desse processo (doc. 17).

COMENTÁRIO

Compreende-se que os missionários “atualizados” considerem com descaso a obra do grande Anchieta. Este último não fazia da catequese “parte apenas secundária” de sua missão.

21 . Os povos indígenas são os verdadeiros evangelizadores do mundo

Depoimento de D. Tomás Balduíno, Bispo de Goiás e Presidente do CIMI:

A convicção profunda dos missionários ligados à Igreja é que estes povos (e eu estou pensando, por exemplo, nos povos indígenas) são os verdadeiros evangelizadores do mundo. Nós, os missionários, não vamos a eles como quem leva uma doutrina ou uma evangelização que o Cristo nos trouxe e confiou, e que nós revestimos com ritos civilizados e cultos. Mas vamos a eles sabendo que o Cristo já nos antecedeu no meio deles, e que lá estão as “Sementes do Verbo”. Temos a convicção de que eles vivem o Evangelho da Boa-Aventurança. E de que por isso se impõe a nós uma conversão às suas culturas, sabedores de que a Boa Nova do Evangelho se encarna em qualquer cultura. E a partir dos mais marginalizados e oprimidos ela se torna a Boa Nova Universal, com valor de profecia para todos os homens” (doc. 18, p. 16).

Secção VI – Catequese nova

22 . Não se pode considerar o índio como possuidor de características psíquicas e culturais indesejáveis

Do “Diretório Indígena” elaborado pela Missão Anchieta, de Mato Grosso, e aprovado pela CNBB (segundo o resumo do “Jornal do Brasil”):

A aculturação dos indígenas [...] deve ser feita sem precipitações e mesmo os traços que nós dizemos ser atentatórios à natureza humana, como o infanticídio ou a poligamia, devem ser erradicados apenas quando e na medida em que o índio possa compreender o que existe de negativo nesses mesmos traços” [...]

“A Missão Anchieta destaca [...] que não se pode considerar o índio como um ser primitivo, possuidor de características biológicas, psíquicas e culturais indesejáveis” (doc. 19).

 

COMENTÁRIO

O segundo parágrafo do texto leva às últimas conseqüências o pensamento que se vislumbra no primeiro parágrafo: os índios não possuem nenhuma “característica biológica, psíquica e cultural indesejável”. E o infanticídio? E a poligamia? As perguntas saltam aos lábios: não resultam de “características psíquicas e culturais indesejáveis”?

O texto insinua que não, quando, ao referir-se a uma e outra aberração, as qualifica de “traços que nós dizemos ser atentatórios à natureza humana”. “Nós dizemos” convida para uma dúvida: serão mesmo atentatórios à natureza humana?

23 . A surpreendente catequese “científica”

Reportagem de “O Globo” sobre a Missão Anchieta, que atua na Prelazia de Diamantino, sob a orientação do Bispo D. Henrique Froehlich S.J.:

Por esta época já haviam cessado as comunhões, os trabalhos de doutrinação, as missas coletivas no meio das tribos. O trabalho religioso foi deixado de lado e os índios passaram a ser tratados cientificamente.

“ – Nós descobrimos [é um dos Padres da Missão quem fala] que os princípios religiosos dos próprios índios eram naturais e o que é natural é de Deus. Portanto, do modo deles, com suas idéias, suas cerimônias, eles amavam a Deus e assim não havia razão para nós mudarmos tudo em sua cabeça só para que eles passassem a amar a Deus pelo nosso modo” (doc. 20).

COMENTÁRIO

A catequese “científica” reserva surpresas para quem está habituado à catequese tradicional!

24 . Para que a catequese?

De outra reportagem de “O Globo” sobre a Missão Anchieta, da Prelazia de Diamantino:

A Missão Anchieta ficou conhecida por sua posição de vanguarda no relacionamento com os índios. Em 1969, depois de muitos estudos e debates, seus Sacerdotes decidiram abandonar a catequização dos índios, deixando-os ficar com sua própria cultura.

“ – Descobrimos que os índios tinham uma religião apoiada no que é natural, espontâneo, e o que é natural vem de Deus. Não adiantava nada darmos a eles uma forma civilizada de amar a Deus se a deles era mais pura (Doc. 21).

COMENTÁRIO

Na Igreja Católica, as almas batizadas recebem a vida sobrenatural da Graça e participam do Corpo Místico de Cristo.

Segundo o texto, todos esses tesouros “não adiantam nada”, pois constituem uma “forma civilizada de amar a Deus”. A religião dos índios “que é natural” é também “mais pura”.

E lhes basta inteiramente.

Essa depreciação do sobrenatural em relação ao natural, e da Religião de Jesus Cristo em relação ao paganismo indígena, importa evidentemente em heresia e blasfêmia.

25 . Catequese quase sem esperanças

Conferência do Pe. Tomás de Aquino Lisboa, Vice-Presidente do CIMI, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, segundo notícia do “Boletim do CIMI”:

O Pe. Tomás foi especialmente assediado por indagações e questionamentos sobre seu trabalho de vivência pura e simples com uma tribo recém-contatada, e sobre sua experiência religiosa frente ao universo mítico dos índios. Ele contou que sua atitude tem sido de respeito e observação, sem nenhuma pretensão, a curto e médio prazo, de qualquer tipo de catequese:

“ – Talvez um dia, daqui a muitos anos, surja o momento de lhes revelar o Cristo. Na verdade, nem sei se eu vou ver chegar esse dia. [...]

“ – A Missa é boa para nós. Para os índios, a expressão desse mesmo impulso religioso se faz dançando com um maracá pintado de urucum.

“E revelou ele próprio ter participado dessa liturgia münkü” (doc. 22, p. 11).

COMENTÁRIO

Por isso a catequese se desenvolve com delongas quase sem esperanças, que a ação fulgurante de tantos grandes missionários não fazia necessárias.

A Igreja ensina que o Sacrifício da Missa é a renovação incruenta do Sacrifício do Calvário. No penúltimo parágrafo, o texto parece reduzi-lo à “expressão”  de um “impulso religioso”. Neste sentido, ela “é boa para nós”. Isto é, exprime nossos impulsos. Mas pode perfeitamente ser substituída entre os índios por outras cerimônias. Pois o “mesmo impulso religioso” que exprimimos na Missa, eles o exprimem “dançando com um maracá, pintado de urucum”.

É difícil ser mais ultrajante para com a Santa Missa. Ademais, se a “liturgia münkü” eqüivale a esta, qual a razão religiosa de uma Missão católica?

26 . “Sem nenhuma pretensão de catequese”...

Entrevista de D. Tomás Balduíno, Bispo de Goiás e Presidente do CIMI:

Nossa visão, no CIMI, é de que o índio deve ser o autor de seu próprio futuro, e protagonista de sua luta. NÃO se trata de fazer para ele, mas com eles. E não como querem fazer: criar programas que se voltam para o índio, em que eles são os últimos a saber. Ou seja: manipular o índio como se fosse um objeto”.

“A força desta Pastoral é que ela nasce da base. Não é ciência elaborada em laboratórios de teólogos, sociólogos, antropólogos paternalistas. Mas está nascendo da experiência despretensiosa e simples de alguns sacerdotes que optaram por outro modo de viver. Como as Irmãzinhas de Jesus, que vivem há 20 anos com os índios Tapirapés sem nenhuma pretensão de catequese, sem querer construir coisa alguma, ou realizar algum programa assistencialista; querem apenas conviver com eles, ao nível deles, com a mesma agricultura, a mesma habitação, o mesmo conviver. Resultado: este é um dos poucos grupos que adquiriu confiança em si próprio, mantendo um perfeito relacionamento tribal, recuperando valores perdidos por influências da sociedade envolvente, e tendo agora um bom relacionamento com os sertanejos da vizinhança. O que demonstra que se o índio for respeitado por nossas leis e governantes, saberá respeitar a todos... podendo contribuir com soluções para nossos problemas” (doc. 18, p. 17).

COMENTÁRIO

Trata-se da aplicação exata da tese de que o índio é portador, tanto quanto os católicos – e mais do que muitos católicos – de valores autenticamente cristãos. As “Irmãzinhas de Jesus”, em longo convívio na promiscuidade tribal, não procuram outro resultado senão fazer com que os índios sejam eles mesmos, que caminhem nos seu rumos próprios, pagãos, sem qualquer auxílio da Revelação e da Graça.

27 . Erros dos missionários: ensinar a ter vergonha da nudez, a usar roupa, a repudiar a vida coletiva da aldeia

Participando das concepções da missiologia “atualizada”, Frei Betto, o dominicano tristemente conhecido por sua atuação no “caso Marighela”, e posteriormente condenado a dois anos de reclusão pelo Supremo Tribunal Federal, escreveu em seu livro Cartas da Prisão, o que segue:

Se dentro de alguns anos não houver mais índios no Brasil, a Igreja terá de reconhecer sua parte de culpa nisso. No passado nossos missionários internaram-se na selva sem preparo e contaminaram os índios com o seu caldo de cultura europeizada. Creram que civilizar era ensinar o índio a ter vergonha da nudez e usar roupa, a repudiar a vida coletiva da aldeia, a aprender nossas línguas e adquirir nossos costumes. Muitos missionários abriram caminho para os mascates que exploraram o índio, comprando seu artesanato e sua mulher por uma garrafa de álcool. Sob o pretexto de anunciar o Evangelho contribuímos para o extermínio da raça. Levamos a morte onde havia vida.

São raros os missionários que respeitaram a cultura do índio e tudo fizeram para preservá-la. Raros os que se tornaram índios com os índios. Mas felizmente eles existem” (doc. 23, p. 118).

COMENTÁRIO

Já foram indicadas as tendências pró-comunistas da missiologia “atualizada”. Importa registrar aqui as tendências em favor da nova missiologia, do frade subversivo.

Significativa reciprocidade...

A hostilidade aos missionários do passado é flagrante no texto de Frei Betto.

28 . Catequistas: o tradicional e o progressista, em face das abominações e crimes dos silvícolas

De um livro publicado sob a orientação do Pe. Eduardo Hoornaert, professor do Instituto de Teologia do Recife:

“O que significava na realidade esta catequese? Qual seu verdadeiro sentido?

Há um fato interessante ocorrido na aldeia do Espírito Santo, no Recôncavo baiano, em 1560, que nos informa a respeito. O Padre Luiz da Grã, naquele ano, convocou uma reunião de chefes indígenas na referida aldeia e os fez jurar quatro compromissos cristãos:

Não ter senão uma mulher.

Não se embebedar.

Não dar ouvidos aos pajés.

Não matar nem comer carne humana.

Reconhecemos nestes quatro mandamentos exatamente o processo de redução do outro (do indígena) a si mesmo (o colonizador europeu), que caracteriza a cultura colonial. A catequese era uma série ininterrupta de discursos cujo significado era a integração dos indígenas na sociedade colonial cristã. As palavras tratavam de Deus, da salvação, do céu, da santidade etc., mas o sentido das palavras tratava de integração” (doc. 24, p. 336).

A conseqüência mais grave da identificação entre catequese e doutrinação consiste no fato que ela é concebida como um movimento ativo, que parte dos colonizadores em direção aos colonizados. Os colonizadores não discutem o lugar a partir do qual catequizam os outros, a catequese não é vista como um movimento em direção ao “outro” absolutamente diferente e por isso mesmo misterioso e revelador de Deus, mas como um movimento integrante, englobante e redutor. Daí o caráter maquinal e repetitivo, passivo e rotineiro que a catequese conserva até hoje, pelo menos dentro dos quadros de referência que são os da redução religiosa, da redução do “outro” ao “mesmo”.

Este tipo de catequese não estabelece uma verdadeira comunicação, antes a impede. Escreve Anchieta em 1555:

“Uma coisa desejamos cá todos e pedimos muito a Nosso Senhor, é que esta terra toda seja mui povoada de cristãos que a tenham sujeita, porque a gente é tão indômita e está tão encarniçada em comer carne humana e isenta em não reconhecer superior, que será mui dificultoso ser firme o que se plantar, se não houver este remédio, o qual continuamente pedem cá os padres e os irmãos”.

Como estabelecer comunicação humana, tendo estes preconceitos na mente?” (doc. 24, pp. 119-120).

COMENTÁRIO

Uma diferença radical entre os métodos de catequese empregados no Brasil até a irrupção do progressismo, e os métodos que o progressismo vai introduzindo, pode ser notada em ambas essas apreciações do livro publicado sob a orientação do Pe. Hoornaert (8).

(8) A posição injusta assumida pelo Pe. Hornaert contra os evangelizadores tradicionais foi censurada também pelo Pe. Sellitti (cfr. “O Lutador”, Belo Horizonte, 4 a 10-9-77).

 

Segundo sempre se fez na Igreja, desde os tempos apostólicos, o missionário deve ensinar ao gentio a doutrina de Jesus Cristo: “Ide, pois, e ensinai todas as gentes [...] ensinando-as a observar tudo que vos tenho mandado” (Mt. 28, 18-19).

O missionário zeloso deve adaptar quanto possível a forma desse ensino à psicologia do catequizando, e às múltiplas peculiaridades do ambiente em que este se move. Mas a substância do ensino é imutável. Foi dada por Jesus Cristo, e ninguém a poderá alterar até o fim dos séculos.

Sem dúvida, as reações dos catequizandos podem variar em toda a gama que vai da conversão imediata, profunda e heróica, até a agressão e o assassinato do catequista. Nem por isto a substância do ensino pode ser alterada. E como alteração não se entende apenas a introdução de elementos estranhos a ele, como a omissão de partes essenciais dele.

Quanto a este ponto, o catequista porta-voz de Jesus Cristo, oficial ou não, está imóvel junto ao Divino Mestre, e procura atrair a Ele os catequizandos. Tal tarefa pode parecer impossível, e realmente o seria sem o auxílio da Graça. Mas esta nunca falta. Cabe ao homem aceitá-la ou recusá-la.

Os métodos de catequese de Anchieta e do Pe. Luís da Grã são a tradução desses princípios em ato. Colocados diante das abominações e das aberrações dos infelizes silvícolas, não lhes ocultam quanto é diversa a Moral católica. E pedem formalmente aos índios que abandonem seus vícios.

É claro que tal coerência, tal firmeza de princípios não pode compaginar-se com a mentalidade progressista. Assim, não causa surpresa que o Pe. Hoornaert e sua equipe lhes façam as objeções constantes do presente texto.

29 . A Igreja: até João XXIII cúmplice do colonialismo

Declarações de D. Tomás Balduíno, Bispo de Goiás e Presidente do CIMI:

Nós temos que bater o mea culpa pois durante muito tempo, pelo [menos] até João XXIII a Igreja mais serviu ao colonialismo, ignorando os princípios que hoje defende. Mas aquelas missões eram sucedâneas de seu tempo. Hoje estamos tomando um novo rumo, do etnocentrismo ao respeito.(doc. 25).

COMENTÁRIO

A incompreensão para com a tradição missionária da Igreja, o Bispo de Goiás Velho a afirma com certa truculência: durante quatrocentos anos, isto é, “pelo [menos] até João XXIII, a Igreja mais serviu ao colonialismo”, com óbvio desdouro para sua missão.

De imediato, a crítica de D. Tomás Balduíno se circunscreve à ação da Igreja no Brasil, desde o descobrimento “pelo [menos] até João XXIII”. Mas ele não pode ignorar que os mesmos métodos missionários, a Igreja os empregou pelo mundo inteiro. Sua crítica não pode deixar de ferir fundo a Santa Igreja Católica, que lhe incumbe defender.

Pois é difícil compreender como possa tal crítica não atingir a autoridade doutrinária e a santidade da Igreja vista como um todo.

Secção VII – Contra a civilização

É compreensível que, divergindo tão profundamente da tradição missionária católica, os missiólogos “atualizados” formulem graves objeções contra ela.

Bem como contra o glorioso corolário, que era sua ação civilizadora.

30 . Os métodos de Anchieta e Nóbrega acarretariam a desagregação e morte dos índios

Do documento Y-Juca-Pirama – O índio: aquele que deve morrer, assinado por Bispos e missionários:

Todos hão de concordar que “em nome de uma política de integração, que não integrou nem mesmo os civilizados, não se pode violentar uma cultura que, embora primitiva, tem garantido a subsistência secular desses povos. A sociedade civilizada só terá o direito de falar em integração do índio no dia em que, em seu meio, não houver ninguém morrendo de fome” (O POPULARGoiânia22/11/1973).

Há séculos – afirmam os irmãos Villas Boas sobre os índios – sobrevivem graças à caça, à pesca e a uma rudimentar agricultura. São felizes com suas crenças e seus rituais belíssimos. Por que então destruir essa cultura secular? Apenas para impor nosso sistema de vida aos índios? Civilizar para que? Destruir a organização tribal existente e depois deixar os índios marginalizados na nossa sociedade?(O ESTADO DE S. PAULO – 7/11/1972). [...]

Devemos reconhecer que frequentemente faltou esta visão e consciência sócio-política às entidades cristãs, preocupadas mais em “prestar assistência” aos índios. Em conseqüência, sob equívocos pretextos de uma caridade alienada, não raro traíram sua missão evangélica de defendê-los tenazmente da morte física e cultural ou de respeitar sua liberdade e dignidade de pessoa humana.

Os próprios padres católicos – é afirmado em recente artigo da imprensa – após mais de 400 anos de catequese, viram-se obrigados a mudar de tática, pois se continuassem no mesmo propósito de Anchieta e Nóbrega (sic) o que iriam conseguir não seria mais do que a desagregação, marginalização, destruição e morte do que resta dos grupos indígenas brasileiros. E essa mudança de tática foi justamente no sentido de respeitar o indígena com suas crenças e seu modo de vida, valorizar a sua cultura ao invés de procurar impor a cultura dos civilizados” (O POPULAR – Goiânia – 22/11/1973)” (doc. 9, pp. 18-19).

COMENTÁRIO

Nem tudo é erro nesta descrição. Mas quanta unilateralidade, quanto exagero, quanta injustiça.

Compare-se o surrealismo sombrio desse texto com o irrealismo róseo da descrição da vida tribal.

31 . Tanto vale conhecer medicina quanto saber fazer tinta de genipapo

Do livro Cartas da Prisão, de Frei Betto:

“Outro dia, conversando com P., perguntei a ele:

-          Quem tem mais cultura, um médico ou um índio?

-          O médico, é claro – respondeu-me.

-          Por que o médico?

-          Porque o médico foi à escola, leu muitos livros, aprendeu a curar doenças e fazer operações, tirou um diploma.

-          Então me diga uma coisa: o médico sabe pescar com arco e flecha, fazer tinta de genipapo, reconhecer o grito da capivara, distinguir plantas medicinais, transformar tronco de árvore em canoa, cultivar mandioca e milho, tecer a fibra de buriti, acender fogo sem fósforo, caminhar na mata sem bússola e preparar a carne sem sal?

O companheiro pensou um pouco e meio surpreso respondeu:

-          É, não sabe não.

-          Como é então que você diz que o médico tem mais cultura que o índio?

-          Pelo que vejo o médico tem sua cultura de médico e o índio tem sua cultura de índio.

A partir desse momento P. passou a compreender algo que a grande maioria das pessoas diplomadas em universidades ignora (apesar da obra monumental de Levi-Straus): que não existem homens mais cultos que outros, existem culturas paralelas(doc. 23, p. 116).

COMENTÁRIO

Frei Betto não considera aqui dois indivíduos concretamente existentes, o médico “x” e o indígena “y”. Se o fizesse, poderia eventualmente ter razão. Pois ninguém nega a possibilidade de um determinado indígena in concreto ter uma elevação de alma e um senso artístico – por exemplo – maiores do que os de um determinado médico. Ora, a elevação de alma e o senso artístico são valores culturais. E debaixo desse ponto de vista, um determinado índio privilegiado e excecional pode – até mesmo no estado silvícola – alçar-se muito sobre seus congêneres.

Frei Betto, pelo contrário, considera situações genéricas. Isto é, um médico corrente como ele costuma ser, e um selvagem também corrente e como costuma ser.

É claro que, no texto acima, ele nega a superioridade cultural do médico sobre o selvagem. E desinibidamente afirma que os conhecimentos da medicina – considerados enquanto tais – valem tanto quanto “fazer tinta de genipapo, reconhecer o grito da capivara, preparar carne sem sal” e coisas quejandas. O que, com ou sem apoio no que ele designa como “a obra monumental de Lévi-Strauss”, aberra absolutamente do mais elementar bom  senso. Essa posição, o frade subversivo a toma em nome de um princípio também absurdo, isto é, que as “culturas paralelas” não são suscetíveis de serem comparadas umas com as outras. E que soa falso a afirmação de que uns homens são mais cultos do que outros. Em última análise, Frei Betto nega a possibilidade de qualquer hierarquia social. A natureza só comporta o horizontalismo. Precisamente como o comunismo recusa qualquer verticalismo na sociedade.

Bem entendido, em nome desse princípio é fácil atacar a benemérita ação civilizadora inerente à missiologia católica tradicional.

Mas, para esta última, quanta glória, em receber ataque tal...

32 . “O preço de cada passo de nosso progresso é a ruína de mais uma tribo”

Do livro Cartas da Prisão, de Frei Betto:

O fato de a raça branca julgar como cultura só aquilo que ela sabe, levou-a a “pacificar” os índios. A quem fazem mal os “selvagens”? A ninguém. Vivem a sua vida, a sua cultura, a sua história. Mas nós os brancos nos julgamos uma raça superior (e este complexo nos levou a dizimar os Vermelhos, isolar os Amarelos e subjugar os Negros). Cremos que cultura e civilização é aquilo que constitui o nosso patrimônio. Esquecemos que o índio tem sua própria civilização, que em muitos aspectos é mais avançada que a nossa (vide aztecas e maias). E com a nossa amnésia continuamos nos embrenhando pela floresta adentro, poluindo o ar e a água, subornando o índio com presentes de grego e corrompendo-o com promessas ilusórias. O preço de cada passo de nosso progresso é a ruína de mais uma tribo (doc. 23, pp. 116-117).

COMENTÁRIO

A tese das “culturas paralelas” está subjacente a este trecho de Frei Betto. De onde a extensão, para os índios, dos bens de nossa civilização, lhe parecer inútil para estes. E até nociva, sob vários aspectos.

Espanta a pergunta: “A quem fazem mal os selvagens?” – E a poligamia? E o infanticídio, que o texto n.o 22 reconhece existir entre eles? Não são nocivos, especialmente para os mais fracos dentre eles?

Sobre os benefícios especificamente cristãos da obra civilizadora do missionário, e a defesa que esses benefícios proporcionam contra a influência neopagã de nossa civilização, cfr. Capítulo I, n.os 4 e 5.

33 . “Vede como eles são: envergonham-se do próprio corpo e cobrem a pele”

Do livro Cartas da Prisão, de Frei Betto:

Às vezes imagino o cacique reunindo a tribo assustada para explicar o que se passa: ‘Irmãos, procurai estar sempre atentos, porque a qualquer momento estes caras-pálidas selvagens podem alcançar-nos. Até a presente lua temos gozado da mesma paz e prosperidade em que viveram os nossos antepassados. Temos guardado nossa inocência, sem que o nosso coração se deixasse contaminar pela ambição e pela malícia; temos vivido com o que a natureza nos fornece, sem necessidade de apoderar-nos dos bens da terra ou de delimitar nosso território, graças aos nossos deuses jamais conhecemos a doença, a fome e a inimizade; nossos jovens são fortes e corajosos, nossas mulheres férteis e puras. Eis que agora os selvagens quebram nossa secular tranquilidade. Ameaçam-nos com seus paus-de-fogo e suas lâminas de ferro; assustam-nos com seus pássaros metálicos e nos armam ciladas com bugigangas sem as quais temos vivido luas e luas de felicidade. Vede como eles são: envergonham-se do próprio corpo e cobrem a pele, caminham devastando a mata, afugentando animais e secando as plantas. Querem aprisionar-nos e confinar-nos em seus parques para que possam destruir a nossa terra e a nossa tribo. Contudo, não vos submeteis sem lutar. A terra que pisamos conheceu o homem quando aqui chegaram os nossos antepassados, que a legaram aos filhos de seus filhos. A nós ela pertence e por ela, que nos dá vida e alimento sem exigir trabalho, combateremos até o limite de nossas forças’” (doc. 23, pp. 117-118).

COMENTÁRIO

Frei Betto procura ver no selvagem o civilizado, e no civilizado o selvagem.

Neste texto, de uma unilateralidade desconcertante, os “cara-pálidas” – os civilizados – são vistos única e exclusivamente como malfeitores.

Que os houve entre os civilizadores, como negá-lo? Mas que todos os civilizadores tenham sido isso, como afirmá-lo?

Se bem que o texto se refira especificamente a “um grupo japonês” que “acaba de instalar-se no Brasil para exportar produtos de artesanato indianista”, várias das críticas que ele contém são alusivas in concreto a todos os civilizadores que têm atuado aqui. Alusivas também, portanto, aos grandes missionários civilizadores que são uma das glórias de nossa História. Pois se eles não usavam armas de fogo, nem faziam tropelias, entretanto ensinavam o pudor, a agricultura, etc.

Secção VIII – Índio, proprietário único

Ao contrário da posição infensa que assume face à propriedade privada na atual sociedade, a missiologia “atualizada” é extremamente ciosa da propriedade coletiva das tribos de índios.

O indígena, mesmo quando sedentário, não explora a terra de maneira a garantir um aproveitamento satisfatório dela para o bem comum do País. Sem embargo, a nova missiologia reivindica com a maior energia a propriedade das tribos indígenas sobre vastas extensões de terra. E chega mesmo a insinuar, nos textos a seguir, que o branco aqui aportado foi desde logo ladrão do índio.

Esta contradição entre as posições da missiologia aggiornata sobre o direito de propriedade do índio e o direito de propriedade que existe em nossa sociedade, parece estritamente inexplicável.

Mas ela facilmente se explica se se tomar em consideração que a propriedade do branco é individual, e portanto mal vista, quando não formalmente condenada pelo esquerdismo. Ao passo que a propriedade do índio é comunitária, segundo afirmam os novos missionários, e portanto cabe dentro dos padrões esquerdistas.

34 . O índio americano é o único e verdadeiro senhor das terras

Declaração do CIMI:

“É comum se ouvir dizer que, por se constituírem em pouco mais de 0,1 % da população do país, os índios brasileiros “não teriam necessidade de tanta terra”. Quem assim pensa se esquece de que o índio foi o primeiro habitante das Américas. Como concluiu o Parlamento Índio Americano do Cone Sul, reunido em San Bernardino, Paraguai, em outubro de 1974, ´o índio americano é o dono milenar da terra; a terra é do índio. O índio é a própria terra. O índio é o dono da terra, com títulos de propriedade ou sem eles ´ ” (doc. 26, p. 560).

COMENTÁRIO

Tão infensos e restritivos em relação à propriedade individual, os novos missionários chegam ao fanatismo ao afirmar aqui, de modo mais irrestrito e absoluto, a propriedade coletiva das tribos sobre as zonas em que vivem. Assim, o índio americano lhes parece o único e verdadeiro senhor das terras.

35 . “Os índios são os primeiros posseiros das terras brasileiras”

Declaração da Comissão Pastoral da Terra [ligada à linha 3 da CNBB] a propósito dos acontecimentos do Meruri:

Os índios são os primeiros posseiros das terras brasileiras, desde antes da chegada de nossos pais e avós. E eles têm muita coisa a nos ensinar, principalmente sobre o modo evangélico de amar e trabalhar a terra e o modo de viver junto com os outros. Não seria por isso que desejamos liquidá-los, por terem um modo de viver e amar a natureza que vai contra o nosso, cheio de individualismo, dominação e exploração?”  (doc. 27, p. 3).

COMENTÁRIO

Nada pode haver de mais violento do que acusar alguém de exterminador das sociedades indígenas. E máxime por motivo tão ignóbil, ou seja, pelo ódio às virtudes delas.

Ademais acusar a que? À estrutura sócio-econômica vigente? A misteriosos grupos capitalistas? O caráter vago de uma acusação é sempre uma lacuna grave. Tanto mais grave quanto mais grave for a acusação.

Segundo as praxes da demagogia, as provas estão ausentes...

É dispensável, por já feito anteriormente, qualquer comentário quanto ao exclusivismo com que se afirma, no texto, o direito de propriedade dos índios sobre as vastidões pelas quais perambulavam.

Secção IX – A questão indígena, espoleta de uma crise agrária no País

A multiplicidade dos pronunciamentos em favor da Reforma Agrária, a propósito da questão indígena, provoca espanto. A ponto de sugerir a idéia de que o desejo de impulsionar a Reforma Agrária socialista e confiscatória talvez seja a causa de se agitar tanto o problema dos índios em nossos dias. A seguir são apresentados exemplos característicos desses pronunciamentos.

36 . Índios e posseiros devem empenhar-se em promover uma agitação agrária no País

Declaração da Comissão Pastoral da Terra [ligada à linha 3 da CNBB] a propósito dos acontecimentos do Meruri (MT):

Precisamos colaborar para que os camponeses sem terra ou com pouca terra, que são mais de 11 milhões de famílias, descubram que a causa dos índios, na luta pela defesa da sua terra, é a sua causa. Eles também têm direito à terra, precisam conquistá-la. O inimigo é o mesmo: o dinheiro que compra as terras, os poucos ricos que cada dia têm mais terra. Precisamos evitar que os camponeses sejam usados pelos fazendeiros para tirar a terra dos índios. O correto é que os camponeses exijam que a terra, na mão de tão poucos proprietários, seja distribuída com justiça (doc. 27, pp. 3-4).

COMENTÁRIO

O tópico sustenta de modo implícito a tese comunista de que o contrato de trabalho e o regime de assalariado são intrinsecamente injustos, e que o trabalhador rural só não é vítima de injustiça quando é dono da terra na qual trabalha. De onde é um direito dos camponeses “exigir” a distribuição da terra.

E este “direito” é o ponto de partida para toda uma reboldrosa agrária no País. Nesta reboldrosa devem empenhar-se tanto os índios quantos os posseiros.

37 . Sob pretexto do caso de Meruri “radical Reforma Agrária” em todo o País

Da mesma declaração da Comissão Pastoral da Terra:

Por fim, estamos certos de que nenhuma solução será possível se não for feita uma mudança geral, uma transformação da estrutura agrária. E isso só é possível se for decidida e encaminhada uma radical Reforma Agrária, não só na Amazônia mas em todo o País. [...].

“A raiz dos problemas envolvendo posseiros e donos de terra, ou grileiros, em todo esse País, é a mesma que nós descobrimos no acontecido em Meruri: a ganância pela terra contra a consciência de que os que ficam sem terra, no Brasil, estão condenados a uma morte lenta, fato amplamente comprovado pelas condições de vida e trabalho dos bóias-frias e dos índios já “integrados”. O povo está resistindo e disposto a morrer para conseguir seu direito à terra. É isto que está acontecendo em Arenápolis, no Mato Grosso, na PA 70, Pará, em todo o Maranhão, no Paraná e em todo o Brasil. Quando será que os donos do capital e das terras reconhecerão este direito? quando será que a política nacional será definida e executada levando em conta as necessidades de toda a população, e não só de uma minoria?” (doc. 27, p. 4).

COMENTÁRIO

Documento eminentemente ambíguo e demagógico. Demagógico em razão de seu extremismo e de seu tom exacerbado: pede uma mudança geral, uma transformação da estrutura agrária”, e para isto aspira a uma “radical Reforma Agrária”.

Afirma que os que ficam sem terra (o que é ficar sem terra? Não ser proprietário?) No Brasil estão condenados a uma morte lenta”. Afirmação gravíssima para a qual o documento se limita a dar uma prova mais do que rudimentar: as condições de vida e trabalho dos bóias-frias e dos índios já integrados. Nenhuma demonstração estatística capaz de convencer espíritos sérios.

Toda esta demagogia só tem por efeito provocar a luta de classes. E é para onde caminha o documento quando afirma fantasiosamente que o povo está resistindo e disposto a morrer para conseguir seu direito à terra” etc.

38 . A solução do problema dos índios exige “uma radical e profunda transformação da estrutura agrária brasileira”

Declaração do CIMI:

Existem, no Brasil, mais de 700 mil posseiros ameaçados, com os índios, em seu direito à terra. Eles se situam entre os 10 milhões de famílias de trabalhadores rurais brasileiros sem terra.

Por isso, vemos o problema das áreas indígenas situado no contexto mais amplo da distribuição irracional da terra em nosso país. Só com uma radical e profunda transformação da estrutura agrária brasileira, que beneficie a todos os trabalhadores rurais sem terra, será possível abrir o caminho para o reconhecimento pacífico do direito dos povos indígenas à terra” (doc. 28, pp. 33-34).

Secção X – Luta contra os brancos

A agitação agrária – autêntica luta de classes – não é a única que ameaça saltar de dentro da questão indígena manipulada pelos missionários-agitadores. Ei-los que estimulam também a luta entre índios e brancos, apresentando a estes – com injusta e descabida generalização – como espoliadores, réus de genocídio etc.

39 . Os brancos, cristãos, vieram para dominar, desprezar, espoliar e desclassificar o índio

Celebração Eucarística – Missa – do 3º dia do IX Congresso Eucarístico Nacional (Manaus):

LOCUTOR: Como é que ignoramos nosso irmão mais velho, brasileiro antes de o Brasil ser batizado, dono destas terras e destas matas antes de chegar aquele que se chama “irmão e cristão”, mas que entendeu de lhe dar um nome estranho: ÍNDIO... para dominá-lo, desprezá-lo, desclassificá-lo como “não gente”, ou meio gente, raça inferior, “primitivo”, selvagem?

“COMENTARISTA: E assim o tratamos, tirando-lhe a terra e a cultura própria, impondo-lhe nossa cultura defeituosa e viciada... dizimando-o sem dó nem piedade, através dos tempos...

“LOCUTOR: Não nos escondamos como Caim, não nos justifiquemos como os condenados do juízo final... Não podemos ignorar ... desinteressar-nos...” (doc. 29, p. 63).

40 . Anchieta, agente colonialista?

Entrevista de D. Pedro Casaldáliga ao jornal “De Fato”:

“D. PEDRO: [...] Anchieta foi até certo ponto um transmissor de um evangelho colonizador. A Igreja deve se penitenciar [...]. É evidente que a descoberta da América foi em muitos aspectos um crime colonialista. E que a evangelização tem sido excessivamente vinculada a uma cultura e, por isto mesmo, a um domínio. Ultimamente, nos setores mais conscientes da Igreja – e eu gostaria de destacar aqui no Brasil sobre este particular o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) – se pode observar uma vontade apaixonada de refazer o que se fez e de encontrar uma linha nova de evangelizar, respeitando ao máximo a cultura do povo em questão. A fé não é uma cultura, ela cabe em todas as culturas. A fé também não é propriamente uma religião, mas pode se expressar de um modo religioso.

“ [...] todos esses países colonialistas tinham, de fato – a partir dos juristas, dos estrategistas militares e com freqüência a partir também dos próprios teólogos da época – uma assessoria que se transformava numa espécie de CIA, isto é verdade” (doc. 30, p. 6).

COMENTÁRIO

Como em textos anteriores (n.os 20, 28 e 30) reaparece, nessa falsa imputação histórica, a animadversão para com Anchieta.

41 . Nossa Senhora das Vitórias, não; Nossa Senhora das Desgraças...

Da mesma entrevista de D. Pedro Casaldáliga:

D. PEDRO: [...] Reunidos em Vitória, numa assembléia dessa Igreja que nasce do povo, celebramos uma noite a morte do Padre Rodolfo, e a do índio Bororo Simão, acontecidas em Meruri, no Mato Grosso.

“DE FATO: Foram vítimas de que?

“D. PEDRO: Vítimas dos fazendeiros e da política Regional, e digamos da política nacional, que esmaga o índio já faz muitos séculos, como foi um dia a política colonial etc. E nessa celebração, que foi fundamentalmente penitencial, todos nós nos penitenciávamos de um modo pessoal. Lembrou-se então que a cidade de Vitória se chama “Vitória” por causa dos milhares de índios que se conseguiu matar. E o nome original de Vitória era: Nossa Senhora das Vitórias. Um sertanejo mineiro, aliás, que mora atualmente em Goiás, passou a noite sem dormir, impressionado por esta celebração. Escreveu uma carta maravilhosa aos índios bororos de Meruri, que possivelmente aparecerá em alguma publicação do CIMI etc. Ele dizia que “aquela não foi Nossa Senhora das Vitórias e sim Nossa Senhora das Desgraças”. Essa expressão do lavrador simbolizaria muito bem a atitude da Igreja nesta hora. Reconhecemos um pouco tarde o que houve de erro fatal, o que houve de colaboração com o colonialismo. A partir da própria fé, da antropologia, da história, reconhecemos que foi a evangelização, em muitos aspectos, errada” (doc. 30, p. 7).

42 . Índio: contestação viva do capitalismo e da civilização cristã

Do documento Y-Juca-Pirama – O índio: aquele que deve morrer, assinado por Bispos e missionários:

“O que seria o Brasil, se contasse positivamente com o índio? É bem possível que muitas autoridades brasileiras de mentalidade capitalista e imperialista tremam diante desta pergunta, o que mostra que, consciente ou inconscientemente, apoiam a extinção dessas populações que constituem, por seus valores positivos, uma contestação viva do sistema capitalista assim como dos tais “valores” da pretensa “civilização cristã” (doc. 9, p. 20).

43 . Missionários vêem nos índios sinal profético para questionar a Igreja e a Sociedade

Comunicado da Regional Sul do CIMI:

“Os índios aqui do sul, depois de séculos de extermínio e exploração, reduzidos a um punhado, estão tomando consciência de sua situação de povo e iniciaram a luta de libertação. E para nós estão sendo um sinal profético, ajudando-nos a questionar toda uma estrutura da igreja e sociedade e exigindo uma transformação radical” (doc. 31, p. 3).

COMENTÁRIO

... ajudando-nos a questionar toda uma estrutura de igreja e sociedade”. Nós”, no plural, abrange, segundo tudo leva a crer, o conjunto dos missiólogos atualizados e empenhados no “questionamento” da estrutura da Igreja e do Estado; “uma” indica que, na perspectiva da Regional Sul do CIMI, a estrutura da Igreja e da Sociedade são vistas como um todo só. Não que haja, no texto, uma negação da distinção dos campos espiritual e temporal. Porém há, mais ou menos implícita, a afirmação de que essas estruturas, no que têm de análogo, chegam a constituir um só todo para o olhar da Regional Sul do CIMI.

Qual é esta analogia? – Para quem se colocar na ótica da missiologia aggiornata – entusiasta da horizontalidade das comunidades indígenas rudimentares e sem hierarquia – a resposta é fácil. É o caráter hierárquico da estrutura eclesiástica e da estrutura sócio-econômica vigente baseada na propriedade individual, que se trata, para a Regional Sul do CIMI, de “questionar”.

A conclusão não espanta. Progressismo e esquerdismo são fermentos que trabalham a fundo a missiologia atualizada. E é característica comum a ambos os fermentos – há outras – o igualitarismo. Não espanta, portanto, que a ação deles se traduza num simultâneo “questionamento” da hierarquia espiritual e temporal.

É por isso que se pode dizer que o “esquerdismo católico”, é a sociologia dos progressistas. E o progressismo é a teologia dos “católicos esquerdistas”.

Secção XI – Ataque aos bandeirantes

Antitradicionais, os novos missionários não poderiam deixar de referir-se com brutal unilateralidade aos bandeirantes.

44 . Bandeirantes, os maiores predadores e matadores de índios

Nota do boletim “CIC – Centro Informativo Católico”, comentando o V Encontro do Regional Sul do CIMI:

“Os participantes [do Encontro], representantes de diversos postos de áreas indígenas do Estado paulista, puderam melhor sentir a situação em que vivem cerca de 700 índios Guarani, Caigangue e Terena, “sobreviventes, dizem eles, dos latrocínios, espoliações e toda a espécie de injustiças de que foram vítimas nesta terra de onde partiram, outrora, os maiores predadores e matadores de índios – hoje considerados heróis nacionais – os bandeirantes!” (doc. 32).

45 . Descobridores e bandeirantes: malfeitores

Da autobiografia de D. Pedro Casaldáliga:

Acabei, por fim, de entender, e até de sentir, toda a ganga de superioridade racista, de domínio endeusado e de exploração inumana com que foram descobertos, colonizados, e, muitas vezes, evangelizados os novos mundos. “Colonizar” e “civilizar” já deixaram de ser para mim verbos humanos. Como não o são, aqui onde vivo e sofro, as novas fórmulas colonizadoras de “pacificar” e “integrar” os índios. Imperialismo, Colonialismo e Capitalismo merecem, no meu “credo”, o mesmo anátema. Repugnam-me os monumentos aos descobridores e aos bandeirantes. O monumento a Anhanguera em praça pública em Goiânia me dói fisicamente” (doc. 33,  p. 176).

COMENTÁRIO

Sem dúvida a colonização, na América como fora dela, venceu por vezes mediante a prática de crimes execráveis.

Isto não obstante, é absurdo afirmar que a colonização é intrinsecamente má. E mais ainda, que o são os descobrimentos.

É contra a verdade histórica sustentar que na colonização das Américas tudo não foi senão crime. E que dela não decorreram para a humanidade vantagens consideráveis.

A unilateralidade das apreciações de D. Casaldáliga se patenteia especialmente nas duas últimas frases do tópico, as quais não apontam nos “descobridores” e “bandeirantes” senão malfeitores.

Secção XII – “Independência ou morte!” proclamada no Brasil, contra o Brasil

O brado histórico de “Independência ou morte!” os clérigos agitadores o querem transformar num brado de revolta e separação dos indígenas contra os proprietários brancos, para depois fazer dele um lema de revolução social dos operários contra os patrões.

Tudo isso num clima onde o conceito de pátria brasileira, una e pujante, parece esmaecer-se (cfr. texto n.o 3).

Não se vê bem como esse movimento indígena pode chegar a seus fins, expondo até a vida dos seus integrantes, e ao mesmo tempo abster-se de usar armas. Visará realizar uma insurreição pacífica à maneira de Gandhi?

46 . Proclamação de independência dos índios em relação ao Brasil?

Escrito atribuído ao índio Txibae Ewororo, amplamente divulgado nas revistas missionárias e em publicações católicas em geral:

“Vou apresentar a vocês as palavras dos meus irmãos, dos que somos chamados “Índios”. Não sei se por ignorância, por desprezo ou simplesmente, para dar um nome às coisas, pois para muita gente nós somos apenas uma coisa. Essas palavras vão contar para vocês a última parte do drama, que nós estamos vivendo, desde que os homens de outra raça, de outra cultura, de outro mundo puseram os pés em nossas terras. O Homem branco, aquele que se diz civilizado, pisou duro não só na terra, mas na alma do meu povo e os rios cresceram e o mar se tornou mais salgado porque as lágrimas da minha gente foram muitas.

“Disse que as palavras que vocês vão ler são a narração do final de um drama, mas não sei exatamente como vai terminar esse drama. Só sei que nós estamos animados de uma grande esperança e estamos resolvidos a mudar os caminhos da nossa história.

“De onde nos vem essa esperança? Os civilizados se tornaram mais humanos? Não, infelizmente, não! Nós é que queremos ser tratados como seres humanos e não como coisa. E como vamos mudar os caminhos da nossa história? Vamos tomar armas? Vamos enfrentar os brancos como eles nos enfrentaram? Não, os verdadeiros cristãos não fazem isso porque isso seria igualar-se a eles e as armas não resolvem os problemas. As armas são o argumento dos covardes. Nós não queremos imitar os brancos naquilo de que eles mais teriam que se envergonhar: o uso de armas para matar seus semelhantes! Nós vamos nos unir, vamos morrer se for preciso mas não vamos aceitar mais a imposição da vontade dos outros. Vamos exigir que todos, desde o governo até o nosso vizinho, nos tratem como gente livre, sem depender de ninguém.

O povo brasileiro não disse um dia: “Independência ou morte?” Vamos também nós dizer isso, não apenas com palavra mas com nossa atitude. Quando o índio quer, ele sabe ser independente. Nós preferimos morrer livre e não viver como escravo” (doc. 34, pp. 35-36).

COMENTÁRIO

O documento, visivelmente redigido sob influência missionária (o índio a quem é atribuída sua autoria é membro do CIMI, cfr. “Boletim do CIMI”, Ano IV, n.o 22, julho-agosto de 1975), ressuma a subversão. E deixa ver a tendência categórica a proclamar a independência dos índios em relação ao Brasil.

Neste sentido, trata-se de um documento subversivo enquanto separatista.

Aliás, os movimentos separatistas indígenas de há muito figuram entre os objetivos da Revolução Comunista Internacional, como se vê pelo documento que segue.

47 . Índio, matéria-prima para a agitação comunista

Escreve Walter Kolarz, da BBC de Londres, conhecido especialista em assuntos do comunismo:

A Segunda Declaração de Havana invocou o caso dos índios, dos mestiços, dos negros e dos mulatos na esperança de encontrar, nesses grupos raciais, um poderoso exército de reserva da revolução. [...]. Essas questões raciais estavam sendo suscitadas na Declaração de Havana com especial persistência, e as passagens em apreço lembram várias declarações sobre a América Latina feitas pela Internacional Comunista de antes da guerra na qual o problema dos índios costumava ocupar lugar importante.

Já em 1928, por ocasião do Sexto Congresso da Internacional Comunista, os partidos da América Latina foram instruídos para elaborarem “toda uma série de medidas especiais relativas à autodeterminação para as tribos de índios, à propaganda especial nas próprias línguas deles e aos esforços especiais para conquista de elementos importantes entre eles”. Em resposta a essa orientação geral, os comunistas peruanos advogaram a formação das repúblicas de Quechuan e Aymaran, e até o Partido Comunista do Chile exigiu a criação da república de Arauco, embora houvesse apenas uns poucos mil índios araucanos nas partes meridionais do país. Já em 1950 os comunistas mexicanos lançavam o “slogan”: “autonomia na administração local e regional” para os povos indígenas.

Não obstante as asserções contidas na “Declaração de Havana”, os comunistas não eram mais pró-negros ou pró-índios do que eram pró-tibetanos, pró-guineenses, pró-húngaros ou pró qualquer outro povo. Negros, mulatos, índios e mestiços destinavam-se simplesmente a ser usados como matéria-prima sociológica e política para promover a ascensão dos partidos comunistas latino-americanos ao poder” (doc. 35, p. 99).

Secção XIII – “Mexer com D. Casaldáliga”...

Até que ponto encontram remédio na Igreja esses males que normalmente ela poderia sanar?

Não é crível que, sem a interferência de Paulo VI, males como estes possam encontrar remédio.

E não se vê que ele tenha o ânimo voltado para intervir. Ao menos a se dar crédito à seguinte informação publicada na folha “Alvorada”, da Prelazia de D. Pedro Casaldáliga, e divulgada também pelo órgão oficioso da Arquidiocese de São Paulo (cfr. “O São Paulo” de 10 a 16 de janeiro de 1976):

48 . Crateras nas selvas, fagulhas nas cidades

“O Papa mostrou-se [ao receber o Cardeal Arns] muito sensibilizado e solidário com o Povo de Deus destes sertões e com o seu Bispo perseguido.

“Ao final, disse o Papa a Dom Paulo Evaristo que os bispos e missionários que trabalham nestas regiões do interior são verdadeiros heróis e que mexer com o bispo de São Félix seria mexer com o próprio Papa”  (doc. 36, p. 1).

COMENTÁRIO

Estas expressivas palavras de apoio de Paulo VI a D. Pedro Casaldáliga (comunicadas à imprensa, aliás, de modo extra-oficial) eram de molde a influenciar o leitor em favor do Bispo de São Félix do Araguaia, pesando, pois, sensivelmente, nas polêmicas a que este estava exposto.

O que leva à convicção de que, sem um filial mas generalizado clamor do povo brasileiro a Paulo VI, não será possível limitar o foco, ou talvez, antes, a cratera de agitação missionária que parece estar conquistando as nossas selvas como pretexto para encher de fagulhas as nossas cidades (9).

(9) O caráter subversivo da neomissiologia foi denunciado pelo Pe. José Vicente Cesar, Presidente do Instituto “Anthropos do Brasil”, o qual declarou que discordava da nova orientação do CIMI em parte destinada a usar o índio para contestar o atual sistema político e sócio-econômico brasileiro” (cfr. “O Globo”, 25-1-77). E igualmente por Júlio Fleichman, no artigo O Governo brasileiro, os Bispos brasileiros e os índios brasileiros, in “Permanência / Boletim”, ano I, n.o 1, 1977, mimeografado.

* * *

Que probabilidades há de que seja ouvido este clamor?

Não são elas grandes, se se levar em conta um antecedente expressivo. No ano de 1968, a TFP coletou 1.600.368 assinaturas para uma mensagem a Paulo VI em que ela pedia providências que coibissem a infiltração comunista na Igreja.

Esse abaixo-assinado – o maior da História nacional – foi entregue por portador de confiança no Vaticano. E ficou sem resposta...

Concomitantemente, sem resposta ficaram análogas mensagens a Paulo VI das TFPs da Argentina, Chile e Uruguai, somando quatrocentas mil assinaturas.

De então até esta data, a influência comunista nos meios católicos não deixou de crescer. E no Chile ela foi o fator decisivo para a ascensão do marxista Allende à presidência da República.

Nem por isso devem diminuir as esperanças de uma solução. É preciso que os brasileiros oponham ao “esquerdismo católico” – inclusive à neomissiologia progressista e esquerdista – todos os obstáculos lícitos ao seu alcance. Isto feito, a Providência fará o que faltar.

Não é em vão que Nossa Senhora Aparecida foi coroada Rainha do Brasil em 1931, pelo Episcopado nacional. É possível que, para os espíritos superficiais, essa coroação tenha parecido mera cerimônia vazia e inconsistente. Não é assim, porém, que Nossa Senhora considera os preitos de amor de seus filhos. Estes podem contar com Ela.

Desde que, porém, não esmoreçam na luta, e tendam para a vitória com o melhor de sua eficácia e de seu ardor.

* * *

Relação dos documentos

Doc 11ª Assembléia Nacional de Pastoral Indigenista: em debate a situação indígena em nível nacional. “Boletim do CIMI”, ano 4, no. 22, julho-agosto de 1975.

Doc. 2Encontro discute situação indígena da Região Sul, “Boletim do CIMI”, ano 4, no. 22, julho-agosto de 1975.

Doc. 3Homilia de Dom Tomás Balduíno, Presidente do CIMI, “Boletim do CIMI”, ano 5, no. 30, julho de 1976.

Doc. 4 – “A Prelazia de São Félix, povo de Deus no Sertão”, “Revista da Arquidiocese”, Goiânia, ano XVIII, no. 10, outubro de 1975.

Doc. 5História do Trabalhador Brasileiro, “Grito do Nordeste”, Recife, ano X, no. 38, abril/junho de 1976, mimeografado.

Doc. 6Satoko – Maria da aldeia das formigas, “Sem Fronteiras – Revista Missionária do Brasil”, no. 34, agosto de 1975.

Doc. 7 – ROSE MARIE MURARO, Libertação Sexual da Mulher, Vozes, Petrópolis, 1975.

Doc. 8 – PEDRO DEMO, Problemas Sociológicos da Comunidade, in Comunidades: Igreja na Base, Estudos da CNBB-3, Paulinas, São Paulo, 1975, pp. 65/110.

Doc. 9Y-Juca-Pirama – O índio: aquele que deve morrer / Documento de Urgência de Bispos e Missionários, Natal de 1973.

Doc. 10Dom Tomás fala de um povo oprimido, “Panorama”, Londrina, 31 de maio de 1975.

Doc. 11Cimi nega fim da civilização do índio, “O Estado de S. Paulo”, 29 de novembro de 1975.

Doc. 12Iniciado curso sobre a integração dos índios, “O Popular”, Goiânia, 13 de julho de 1976.

Doc. 13 – ANTONIO IASI, Integração ou extinção?, “Revista de Cultura Vozes”, Petrópolis, ano 70, no. 3, abril de 1976.

Doc. 14Índio ensina ao branco os valores cristãos, entrevista de D. Tomás Balduíno ao semanário “Opinião”, apud “CIC – Centro Informativo Católico”, Vozes, Petrópolis, ano XXV, no. 1279, 22 de fevereiro de 1977.

Doc. 15Igreja na Amazônia vai mudar, “O Estado de S. Paulo”, 26 de maio de 1972.

Doc. 16Os indígenas à beira da morte, “Voz do Paraná” de 18 a 24 de abril de 1976, apud “SEDOC – Serviço de Documentação”, Vozes, Petrópolis, vol. 9, no. 97, dezembro de 1976.

Doc. 17Cimi defende o direito dos índios à autodeterminação, “O Estado de S. Paulo”, 1º de fevereiro de 1976.

Doc. 18 – “Este povo veio para ser o sal, o fermento e a luz”, “Versus”, São Paulo, ano 2, no. 12, julho-agosto de 1977.

Doc. 19CNBB sugere aculturação lenta do índio, “Jornal do Brasil”, 23-24 de abril de 1972.

Doc. 20Deixar o índio com sua cultura, o novo método missionário, “O Globo”, 8 de março de 1973.

Doc. 21Padre denuncia crime contra os Cintas Largas, “O Globo”, 28 de março de 1973.

Doc. 22Semana “O homem e a terra”, “Boletim do CIMI”, ano 5, no. 28, maio de 1976.

Doc. 23 – FREI BETTO, Cartas da Prisão, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1977.

Doc. 24 – EDUARDO HOORNAERT E OUTROS, História Geral da Igreja na América Latina, Tomo II, História da Igreja no Brasil, Primeira Época, Vozes, Petrópolis, 1977.

Doc. 25Dom Tomás Balduíno, bispo de Goiás Velho: - Um contato imperialista da Funai com o indígena, “Zero Hora”, Porto Alegre, 28 de abril de 1977.

Doc. 26Declaração do CIMI, “Revista da Arquidiocese”, Goiânia, ano XIX, no. 8, agosto de 1976.

Doc. 27Posição da Comissão Pastoral da Terra diante do acontecido em Meruri, “Boletim da Comissão Pastoral da Terra”, ano II, no. 5, julho-agosto de 1976.

Doc. 28Declaração do CIMI, “Boletim do CIMI”, ano 5, no. 30, julho de 1976.

Doc. 29IX Congresso Eucarístico Nacional – Manual do Congressista, Manaus, 16 a 20 de julho de 1975.

Doc. 30Dom Pedro Casaldáliga, “De Fato”, Belo Horizonte, ano I, no. 6, setembro de 1976.

Doc. 31Comunicado do Conselho Indigenista Missionário – Regional Sul, “Boletim do CIMI”, ano 5, no. 25, janeiro-fevereiro de 1976.

Doc. 32A Pastoral Indigenista no Estado de São Paulo, “CIC – Centro Informativo Católico”, Vozes, Petrópolis, ano XXIV, no. 1225, 10 de fevereiro de 1976.

Doc. 33 – D. PEDRO CASALDÁLIGA, ¡Yo creo en la justicia y en la esperanza!, Desclée de Brouwer, Bilbao, Espanha, 1976.

Doc. 34 – TXIBAE EWORORO, A voz dos que não tinham voz, “Revista de Cultura Vozes”, Petrópolis, ano 70, no. 3, abril de 1976.

Doc. 35 – WALTER KOLARZ, Comunismo e Colonialismo, Dominus, São Paulo, 1965.

Doc. 36 – “Alvorada”, Folha da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), novembro de 1975, p. 1, mimeografado.

 

Documentação Suplementar

 

É abundante a documentação própria a demonstrar as afirmações contidas no presente estudo. Nela os conceitos se repetem. De sorte que pareceu sem proveito para o leitor alongar, no corpo do estudo, o número das citações.

Quem desejar mais ampla documentação poderá recorrer às seguintes fontes:

1)      Uma catequese nova, “Kosmos – Folha mensal de Animação Missionária no Brasil”, São Paulo, ano 2, no. 18, dezembro de 1975 (Declaração do Pe. Adalberto Pereira, responsável pelo Diretório Indigenista da Prelazia de Diamantino, Mato Grosso).

2)      Respeito ao índio, também ser humano, “CIC – Centro Informativo Católico”, Vozes, Petrópolis, ano XXV, no. 1272, 4 de janeiro de 1977 (excerto de artigo do boletim “O Semeador”, da Arquidiocese de Maceió).

3)      CIMI denuncia violências de índios, “SEDOC – Serviço de Documentação”, Vozes, Petrópolis, vol. 9, no. 99, março de 1977, cols. 935/939 (Comunicado final do encontro da Coordenação do CIMI-Sul realizado em Xanxerê, Santa Catarina, nos dias 1 e 2 de setembro de 1976).

4)      O CIMI e a terra dos índios, “Boletim do CIMI”, ano 6, no. 36, abril de 1977, pp. 7/20 (Depoimento de D. Tomás Balduíno, Bispo de Goiás e Presidente do CIMI, na CPI da Terra, no dia 23 de março de 1977).

5)      Entre as ruínas, a carta que é um desabafo do índio brasileiro, “Folha da Manhã”, Porto Alegre, 20 de abril de 1977 (Mensagem de 26 caciques de todo o Brasil ao fim da 8ª Assembléia de Chefes Indígenas e por ocasião do Dia do Índio de 1977 – dia 19 de abril – nas ruínas de São Miguel, Rio Grande do Sul).

6)      Funai precisa se reformular. O paternalismo traz prejuízos para os índios, “Folha da Manhã”, Porto Alegre, 28 de abril de 1977 (Declarações de D. Tomás Balduíno, Bispo de Goiás e Presidente do CIMI).

7)      D. Tomás: mudança nos estatutos do índio, “Diário de Notícias”, Porto Alegre, 28 de abril de 1977 (Declarações de D. Tomás Balduíno, Bispo de Goiás e Presidente do CIMI).

8)      A Igreja também precisa mudar em relação ao índio, “Folha da Manhã”, Porto Alegre, 30 de abril de 1977 (Declarações do Pe. Egon Heck, S.J., missionário em Xanxerê, Santa Catarina, e diretor do CIMI-Sul, por ocasião do seminário O índio brasileiro: um sobrevivente, realizado em Porto Alegre de 25 de abril a 15 de maio de 1977).

9)      Sua sobrevivência depende da sociedade que sempre o explorou, “Folha da Tarde”, Porto Alegre, 2 de maio de 1977 (Declarações do Pe. Egon Heck, S.J., diretor do CIMI-Sul).

10)  Índios aos universitários de jornalismo: antes da integração queremos é liberdade, “Zero Hora”, Porto Alegre, 2 de maio de 1977 (Debate de estudantes da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com a presença de dois caciques e do Pe. Egon Heck, S.J., diretor do CIMI-Sul).

11)  A mesma miséria em qualquer parte, “Zero Hora”, Porto Alegre, 3 de maio de 1977 (Declaração do índio Tupã-y, de Mato Grosso, levado ao seminário O índio brasileiro: um sobrevivente, pelo Pe. Egon Heck, S.J.).

12)  Associação de Apoio ao Índio defende D. Tomás, “Folha da Manhã”, Porto Alegre, 13 de maio de 1977 (Nota oficial da Associação Nacional de Apoio ao Índio, de solidariedade aos Bispos D. Tomás Balduíno e D. Pedro Casaldáliga).

13)  Documento denuncia o extermínio dos índios. E exige uma nova consciência, “Folha da Manhã”, Porto Alegre, 16 de maio de 1977 (Manifesto de fundação da Associação Nacional de Apoio ao Índio – ANAI).

14)  Pastoral Indígena em Surumu (Prelazia de Roraima), “Boletim do CIMI”, ano 6, no. 37, maio de 1977, pp. 23/25 (Relação anual apresentada na Assembléia de programação da Prelazia de Roraima).

15)  Integração e colonização, “SEDOC – Serviço de Documentação”, Vozes, Petrópolis, vol. 9, no. 101, maio de 1977, col. 1156 (Entrevista de D. Cândido Padim, Bispo de Bauru, ao “Jornal do Brasil” de 9 de fevereiro de 1977).

16)  Bispos mostram na Câmara a marginalização do índio, “A Notícia”, Manaus, 25 de junho de 1977 (Declaração de D. Pedro Casaldáliga na Câmara Municipal de Manaus, sobre o I Encontro Panamazônico de Pastoral Indígena).

17)  Bispos: índios estão sendo marginalizados, “A Crítica”, Manaus, 25 de junho de 1977 (Declaração de D. Pedro Casaldáliga na Câmara Municipal de Manaus).

18)  Bispos pedem mais pelo índio, “Jornal do Brasil”, Rio de Janeiro, 25 de junho de 1977 (Declarações de D. Milton Corrêa, Arcebispo-Coadjutor de Manaus, e de D. Pedro Casaldáliga, Bispo de São Félix, na Câmara Municipal de Manaus).

19)  Conclusões da Pastoral Indígena, “Folha de S. Paulo”, 29 de junho de 1977 (Conclusões do I Encontro Panamazônico de Pastoral Indígena).

20)  Deus – Homem - Igreja – Política / Como conciliar? Um teólogo explica. “Opção”, Goiânia, 17 a 23 de julho de 1977 (Entrevista do Pe. José Dias de Morais Cunha, professor titular de Filosofia na Universidade Católica de Goiás).

21)  D. Tomás diz que é vigiado em Goiás mesmo antes da acusação de ser comunista, “Jornal do Brasil”, Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1977 (Declaração de D. Tomás Balduíno, Bispo de Goiás e Presidente do CIMI).

22)  As revoluções da Igreja brasileira / 3 – O direito dos índios à autodeterminação, “Diário de Lisboa”, 30 de agosto de 1977 (Declarações do Pe. José de Moura, da Missão Anchieta, da Prelazia de Diamantino).

23)  Bispo sugere destaque no Código Civil para proteger direito cultural do índio, “Jornal do Brasil”, Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1977 (Depoimento de D. Cândido Padim, Bispo de Bauru, na CPI do Índio, no dia 1º de setembro de 1977).

24)  Encontro sobre pastoral Indigenista, “Boletim do CIMI”, ano 6, no. 40, setembro de 1977, pp. 5/23 (Depoimento dos Participantes do Encontro sobre Pastoral Indigenista promovido pelo CIMI em 19 e 20 de agosto de 1977).

25)  FREI CARLOS MESTERS, O. CARM., Considerações sobre a catequese dos índios, “Boletim do CIMI”, ano 6, no. 40, setembro de 1977, pp. 24/44.

26)  Bispo analisa papel das missões, “O Globo”, Rio de Janeiro, 21 de outubro de 1977 (Mensagem Pastoral de D. Serafim Fernandes de Araújo, Bispo auxiliar de Belo Horizonte, dedicada ao Dia das Missões).

27)  A violência que provoca... , “Boletim da Comissão Pastoral da Terra”, ano III, no. 12, setembro/outubro de 1977 (Editorial).

28)  Regiões missionárias do Brasil, “Bilhetes mensais do Apostolado da Oração no Brasil”, ano 103, no. 1225, outubro de 1977.

29)  Será amanhã a vinculação do CIMI à  CNBB, “O Popular”, Goiânia, 15 de novembro de 1977 (Conclusões da II Assembléia Nacional do CIMI, realizada em Goiânia de 5 a 9 de novembro de 1977).

30)  Cimi dedica ano aos mártires, “O Estado de S. Paulo”, 22 de janeiro de 1978 (Declarações do Pe. Egon Heck, S.J., diretor do CIMI-Sul).

31)  Problema nacional do índio na opinião do presidente do CIMI, “Correio do Povo”, Porto Alegre, 4 de fevereiro de 1978 (Declarações de D. Tomás Balduíno, Bispo de Goiás e Presidente do CIMI).

32)  Até indígenas serão favorecidos pela abertura política, diz dom Balduíno, “Folha da Tarde”, Porto Alegre, 4 de fevereiro de 1978 (Declarações de D. Tomás Balduíno, Bispo de Goiás e Presidente do CIMI).

33)  Ano dos Mártires começou com uma homenagem a Sepé Tiaraju, “Zero Hora”, Porto Alegre, 9 de fevereiro de 1978 (Declarações de D. Tomás Balduíno, Bispo de Goiás e Presidente do CIMI).