A santa intransigência: um aspecto da Imaculada Conceição

 

Plinio Corrêa de Oliveira

 

A santa intransigência: um aspecto da Imaculada Conceição

 

 

 

Catolicismo Nº 45 – Setembro de 1954

 

 

Quis a Federação Mariana Feminina de Santos comemorar o aniversário de sua fundação com uma sessão solene realizada no salão nobre do Santuário de Sto. Antônio do Embaré, dedicada à Imaculada Conceição da Virgem Maria. Idéia particularmente piedosa e oportuna, pois se relaciona com o Ano Mariano decretado pelo Santo Padre Pio XII para reavivar a devoção dos fiéis para com este assinaladíssimo privilégio da Mãe de Deus. Convidado a fazer nessa solenidade uma conferência sobre o dogma definido por Pio IX, tive ocasião de externar algumas reflexões que amigos santistas quiseram possuir por escrito. Atendo a seu amável desejo, resumindo-as no presente artigo, e espero que interessem também a outros leitores deste jornal.

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Na vida da Igreja, a piedade é o assunto chave. Piedade bem entendida, que não seja a repetição rotineira e estéril de fórmulas e atos de culto, mas a verdadeira piedade, que é um dom descido do Céu, capaz de, pela correspondência do homem, regenerar e levar a Deus as almas, as famílias, os povos e as civilizações.

Ora, na piedade católica o assunto chave é por sua vez a devoção a Nossa Senhora. Pois se é Ela o canal pelo qual nos vem todas as graças, e é por Ela que nossas preces chegam até Deus, o grande segredo do triunfo na vida espiritual consiste em estar intimamente unido a Maria.

Assim, não há objetivo mais essencial, nem tarefa mais fecunda, nem glória mais alta do que difundir a piedade mariana. E desta glória é todo refulgente o pontificado de Pio XII. Nos anos riquíssimos, trágicos, empolgantes, de seu Pontificado, tem ele tido muitas ocasiões de prestar à humanidade benefícios assinalados. Basta correr as coleções dos jornais dos últimos lustros, para o ver. Quando um dia se abrirem os arquivos e se escrever a História da II guerra mundial e de tudo quanto se lhe seguiu, essa verdade se radicará ainda mais: é o que qualquer observador criterioso pode desde já entrever. Mas por maiores que sejam os méritos e as glórias que a Historia inventariará, não haverá dificuldade em dizer qual a maior. Será sem dúvida o cunho profundamente mariano do reinado de Pio XII. Já o disse esta folha, e com razão. Bastaria a definição do dogma da Assunção, para glorificar até a mais remota posteridade o atual Papa. Mas a Assunção não é nos fastos de Pio XII uma pedra avulsa, um brilhante solitário. Refulge numa constelação de outras luzes marianas: a Constituição “Bis Saeculari”, a fundação da Federação Mariana Mundial, a canonização de S. Luiz Grignion de Montfort, a consagração da Rússia e do Mundo ao Coração Imaculado de Maria, a Coroação de Nossa Senhora em Fátima, e finalmente o Ano Santo Mariano comemorativo do centenário do Dogma da Imaculada Conceição. Basta pensar em tudo isto, para compreender até que ponto o brilho específico de tudo quanto é mariano refulge na obra de Pio XII.

Os ensinamentos e o exemplo do Santo Padre nos incitam pois a incrementar a piedade para com a Santíssima Virgem.

Mas o “sentire cum Ecelesia” nos convida de modo todo especial a meditar este ano sobre a Imaculada Conceição, pois este é o mistério que no momento presente o Vigário de Jesus Cristo mais particularmente oferece à nossa piedade. Tema rico por certo de uma beleza cheia de poesia, digna de atrair e fazer brilhar o talento dos maiores poetas e artistas. Mas por isto mesmo, tema em que o temperamento brasileiro, naturalmente afeito a divagações, corre o risco de ficar só na poesia. Ora, toda a emoção – em piedade mais do que em qualquer outro campo – só é legítima e salutar na medida em que se funda na verdade, e tem a verdade por medida. De tal maneira que ela não seja em nossa sensibilidade senão a vibração harmônica, proporcionada, coerente, da verdade que nosso intelecto contemplou. Parece, pois, oportuno fazer sobre a Imaculada Conceição uma meditação sem qualquer pretensão literária, e unicamente voltada para a aplicação da inteligência à verdade contida no dogma.

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A humanidade, antes de Jesus Cristo, se compunha de duas categorias nitidamente diversas, os judeus e os gentios. Aqueles, constituindo o Povo Eleito, tinham a Sinagoga, a Lei, o Templo, e a Promessa do Messias. Estes últimos, dados à idolatria, ignorantes da Lei, falhos de conhecimento da Religião verdadeira, jaziam à sombra da morte, esperando sem o saber, ou movidos às vezes por um secreto impulso, o Salvador que deveria vir. Entre os gentios, ainda duas categorias se poderiam distinguir: os romanos, dominadores do universo, e os povos que viviam sob a autoridade do Império. Uma análise da época em que ocorreu a vinda do Messias implica no exame da situação em que se encontrava cada uma destas frações da humanidade.

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Fala-se muito do valor militar dos romanos, e do brilho das conquistas que fizeram. É óbvio que muito há que admirar neles sob este ponto de vista. Mas uma exata ponderação de todas as circunstâncias históricas nos obriga a reconhecer que, se os romanos fizeram grandes conquistas, os povos que sujeitaram eram na sua maior parte velhos e gastos, dominados por seus próprios vícios, e por isto fadados a cair sob o guante do primeiro adversário que se lhes opusesse. Afirmação esta tão válida para a Grécia, quanto para as nações da Ásia e da África, exceção feita talvez de Cartago. O que havia reduzido a este estado de debilidade tantos povos outrora dominadores e cheios de glória? A corrupção moral. A trajetória histórica de todos eles é a mesma. De início, encontram-se em estágio semi-primitivo, levando uma vida simples, dignificada por uma certa retidão natural. Desta lhes vem a força que lhes permite dominar os vizinhos, e constituir um império. Mas com a glória vem a riqueza, com a riqueza os prazeres, e com estes a devassidão. A devassidão traz por sua vez a morte de todas as virtudes, a decadência social e política, e a ruína do império. E assim um depois do outro foram aparecendo no cenário histórico, crescendo até seu fastígio e minguando os grandes povos do Oriente. Todas as nações civilizadas que Roma venceu, haviam percorrido as várias etapas deste ciclo. Ela mesma as percorreu por sua vez. As virtudes familiares da Roma da Realeza e da República aristocrática deram-lhe a grandeza. Ao fim da Republica, o luxo começou a depravar os caracteres e teve princípio o declínio. O Império, que é no seu início um magnífico pôr de sol, se transforma gradualmente em crepúsculo inglório e pardacento.

Foi no momento em que Roma entrava na fase ainda áurea dessa rota descendente, que Jesus nasceu. A História dos futuríveis é perigosa. Em todo o caso, é permitido indagar o que teria ocorrido no mundo mediterrâneo quando Roma terminasse sua involução, se o Verbo de Deus não se tivesse encarnado. Até então, cada nação civilizada passara o legado de sua cultura ao vencedor. Os persas, por exemplo, se nutriram da cultura assiro-babilônica e egípcia. Os gregos se nutriram da cultura egípcia e persa, os romanos da cultura grega. E assim, caminhando do Oriente para o Ocidente, veio sendo transmitida a civilização. Extinta Roma, em que mãos ficaria o legado? Nas dos bárbaros. Mas a História prova que sem a Igreja eles não se teriam civilizado por ocasião das invasões, e assim sem Jesus Cristo a queda de Roma teria sido o colapso do Ocidente. Com o ocaso de Roma, iniciado já antes de Cristo, era todo o Ocidente que ameaçava ruir. Era o fim de uma cultura, de uma civilização, de um ciclo histórico. Era um fim de mundo…

Ora, o povo eleito também estava no fim. Duas tendências sempre se haviam assinalado dentro dele. Uma queria permanecer fiel à Lei, à Promessa, à sua vocação histórica, confiando inteiramente em Deus. Outra, porém, de pouca fé, de pouca esperança, se amedrontava considerando a nenhuma valia militar e política dos judeus no mundo antigo. Diferentes de todos os povos por sua raça, sua língua, sua Religião, exíguos como população e território, estavam os israelitas a pique de ser submersos já antes de Cristo. A melhor estratégia para os partidários que a “politique de la main tendue” tinha na Antiga Lei não consistia em resistir, mas em ceder. Daí uma adaptação do povo eleito ao mundo gentílico, a penetração sub-reptícia de doutrinas exóticas na Sinagoga, a formação de um Sacerdócio sem fibra, sem espírito de sacrifício, disposto a tudo para vegetar pachorrentamente à sombra do Templo, e a propensão de uma imensa maioria de judeus a seguir esta política. Os lideres desta tendência ocupavam tudo, invadiam tudo, dominavam tudo. Com a epopéia dos Macabeus, tinha terminado a influência dos partidários da integridade israelita. Estes eram ao tempo de Cristo apenas uns raros homens de eleição, que aqui e acolá suspiravam e choravam na sombra, à espera do Dia do Senhor. Os outros abriram os braços para o inimigo dominador. O povo eleito caíra também ele sob o jugo romano. Era também um fim. A noite, a noite moral do obscurecimento de todas as verdades, de todas as virtudes, descera sobre o mundo inteiro, gentilidade e Sinagoga…

Foi neste cúmulo de males, neste ambiente oposto a todo o bem, que nasceu a mais santa das criaturas, a Cheia de Graças, que todas as nações haveriam de chamar bem-aventurada. Pois já era esta em linhas gerais a situação na época em que veio ao mundo a Virgem Santíssima.

Regina Sanctorum Omnium

As proporções de um artigo como este não permitem uma descrição pormenorizada do quadro moral do mundo romano. O que aliás não seria muito necessário, pois este quadro é geralmente conhecido. Por toda a extensão do Império, aristocracias nacionais no último estado de decomposição moral se mesclavam com aventureiros enriquecidos nos negócios, na política ou na guerra, com libertos levados ao fastígio da influência pelo favoritismo, com atores e atletas famosos, numa vida de prazeres ininterruptos, em que os decadentes traziam toda a moleza de seu spleen, os aventureiros todo o desbragamento de seus apetites ainda mal cevados, os favoritos, os atores, os atletas todo o ambiente de bajulação, de insolência, de intriga, de falsidade, de politicagem graças ao qual se mantinham. Augusto, em cujo reinado nasceu Jesus Cristo, tentou em vão deter o passo a todos estes abusos que em seu tempo vinham tendendo a se firmar de modo alarmante. Nada conseguiu de durável. Em contraposição com esta elite – se é que assim se a pode chamar – estava um mundo incontável de escravos de todas as nações, de trabalhadores manuais miseráveis, corrompidos ao peso de seus próprios vícios e dos exemplos vindos do alto. Famintos, maltratados, cúpidos, ociosos, queriam depor seus amos, menos pela indignação que lhes causavam seus desmandos, do que pelo pesar de não poder levar a mesma vida que eles. Todo um quadro, enfim, que não é preciso ter muita cultura para conhecer, nem muita finura para sentir em sua realidade vital, pois não difere sensivelmente dos dias tenebrosos em que vivemos…

Ora, enquanto era isto o mundo antigo, quem era a Santíssima Virgem, que Deus criara naquela época de omnímoda decadência? A mais completa, intransigente, categórica, insofismável e radical antítese do tempo.

O vocabulário humano não é suficiente para exprimir a santidade de Nossa Senhora. Na ordem natural, os Santos e os Doutores A comparam ao sol. Mas se houvesse algum astro inconcebivelmente mais brilhante e mais glorioso do que o sol, é a esse que A comparariam. E acabariam por dizer que este astro daria dela uma imagem pálida, defeituosa, insuficiente. Na ordem moral, afirmam que Ela transcendeu de muito todas as virtudes, não só de todos os varões e matronas insignes da Antigüidade, mas – o que é incomensuravelmente mais – de todos os Santos da Igreja Católica. Imagine-se uma criatura tendo todo o amor de São Francisco de Assis, todo o zelo de São Domingos de Gusmão, toda a piedade de São Bento, todo o recolhimento de Santa Teresa, toda a sabedoria de São Tomás, toda a intrepidez de Santo Inácio, toda a pureza de São Luiz de Gonzaga, a paciência de um São Lourenço, o espírito de mortificação de todos os anacoretas do deserto: ela não chegaria aos pés de Nossa Senhora. Mais ainda. A glória dos Anjos é algo de incompreensível ao intelecto humano. Certa vez, apareceu a um Santo o seu Anjo da Guarda. Tal era sua glória. que O Santo pensou que se tratasse do próprio Deus, e se dispunha a adorá-lo, quando o Anjo revelou quem era. Ora, os Anjos da Guarda não pertencem habitualmente às mais altas hierarquias celestes. E a glória de Nossa Senhora está incomensuravelmente acima da de todos os coros angélicos.

Poderia haver contraste maior entre esta obra prima da natureza e da graça, não só indescritível mas até inconcebível, e o charco de vícios e misérias, que era o mundo antes de Cristo?

A Imaculada Conceição

A esta criatura dileta entre todas, superior a tudo quanto foi criado, e inferior somente à Humanidade Santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus conferiu um privilégio incomparável, que é a Imaculada Conceição.

Em virtude do pecado original, a inteligência humana se tornou sujeita a errar, a vontade ficou exposta a desfalecimentos, a sensibilidade ficou presa das paixões desregradas, o corpo por assim dizer foi posto em revolta contra a alma.

Ora, pelo privilégio de sua Conceição Imaculada, Nossa Senhora foi preservada da mancha do pecado original desde o primeiro instante de seu ser. E, assim, nela tudo era harmonia profunda, perfeita, imperturbável. O intelecto jamais exposto a erro, dotado de um entendimento, uma clareza, uma agilidade inexprimível, iluminado pelas graças mais altas, tinha um conhecimento admirável das coisas do Céu e da terra. A vontade, dócil em tudo ao intelecto, estava inteiramente voltada para o bem, e governava plenamente a sensibilidade, que jamais sentia em si, nem pedia à vontade algo que não fosse plenamente justo e conforme à razão. – Imagine-se uma vontade naturalmente tão perfeita, uma sensibilidade naturalmente tão irrepreensível, esta e aquela enriquecidas e super-enriquecidas de graças inefáveis, perfeitissimamente correspondidas a todo o momento, e se pode ter uma idéia do que era a Santíssima Virgem. Ou antes se pode compreender por que motivo nem sequer se é capaz de formar uma idéia do que a Santíssima Virgem era.

“Inimicitias ponam”

Dotada de tantas luzes naturais e sobrenaturais, Nossa Senhora conheceu por certo a infâmia do mundo em seus dias. E com isto amargamente sofreu.

Pois quanto maior é o amor à virtude tanto maior é o ódio ao mal.

Ora, Maria Santíssima tinha em si abismos de amor à virtude, e, portanto, sentia forçosamente em si abismos de ódio ao mal. Maria era pois inimiga do mundo, do qual viveu alheia, segregada sem qualquer mistura nem aliança, voltada unicamente para as coisas de Deus.

O mundo, por sua vez, parece não ter compreendido nem amado Maria. Pois não consta que lhe tivesse tributado admiração proporcionada a sua formosura castíssima, a sua graça nobilíssima, a seu trato dulcíssimo, a sua caridade sempre exorável, acessível, mais abundante do que as águas do mar e mais suave do que o mel.

E como não haveria de ser assim? Que compreensão poderia haver entre Aquela que era toda do Céu, e aqueles que viviam só para a terra? Aquela que era toda fé, pureza, humildade, nobreza, e aqueles que eram todos idolatria, ceticismo, heresia, concupiscência, orgulho, vulgaridade? Aquela que era toda sabedoria, razão, equilíbrio, senso perfeito de todas as coisas, temperança absoluta e sem mácula nem sombra, e aqueles que eram todos desmando, extravagância , desequilíbrio, senso errado, cacofônico, contraditório, berrante a respeito de tudo, e intemperança crônica, sistemática, vertiginosamente crescente em tudo? Aquela que era a fé levada por uma lógica adamantina e inflexível a todas as suas conseqüências, e aqueles que eram o erro levado por uma lógica infernalmente inexorável, também a suas últimas conseqüências? ou aqueles que, renunciando a qualquer lógica, viviam voluntariamente num pântano de contradições, em que todas as verdades se misturavam e se poluíam na monstruosa interpenetração de todos os erros que lhe são contrários?

“Imaculado” é uma palavra negativa. Ela significa etimologicamente a ausência de mácula, e pois de todo e qualquer erro por menor que seja, de todo e qualquer pecado por mais leve e insignificante que pareça. É a integridade absoluta na fé e na virtude. É portanto a intransigência absoluta, sistemática, irredutível, a aversão completa, profunda, diametral a toda a espécie de erro ou de mal. A santa intransigência na verdade e no bem é a ortodoxia, a pureza, enquanto em oposição à heterodoxia e ao mal. Por amar a Deus sem medida, Nossa Senhora correspondentemente amou de todo o Coração tudo quanto era de Deus. E porque odiou sem medida o mal, odiou sem medida Satanás, suas pompas e suas obras, o demônio, o mundo e a carne. Nossa Senhora da Conceição é Nossa Senhora da santa intransigência.

Verdadeiro ódio, verdadeiro amor

Por isto, Nossa Senhora rezava sem cessar. E segundo tão razoavelmente se crê, Ela pedia o advento do Messias, e a graça de ser uma serva daquela que fosse escolhida para Mãe de Deus. Pedia o Messias, para que viesse Aquele que poderia fazer brilhar novamente a justiça na face da terra, para que se levantasse o Sol divino de todas as virtudes, espancando por todo o mundo as trevas da impiedade e do vicio. Nossa Senhora desejava, é certo, que os justos vivendo na terra encontrassem na vinda do Messias a realização de seus anseios e de suas esperanças, que os vacilantes se reanimassem, e que de todos os países, de todos os abismos, almas tocadas pela luz da graça levantassem vôo para os mais altos píncaros da santidade. Pois estas são por excelência as vitórias de Deus, que é a Verdade e o Bem, e as derrotas do demônio, que é o chefe de todo erro e de todo mal. A Virgem queria a glória de Deus por essa justiça que é a realização na terra da Ordem desejada pelo Criador. Mas, pedindo a vinda do Messias, Ela não ignorava que este seria a Pedra de escândalo, pela qual muitos se salvariam e muitos receberiam também o castigo de seu pecado. Este castigo do pecador irredutível, este esmagamento do ímpio obcecado e endurecido, Nossa Senhora também o desejou de todo o Coração, e foi uma das conseqüências da Redenção e da fundação da Igreja, que Ela desejou e pediu como ninguém, “Ut inimicos Sanctae Ecclesiae humiliare digneris, Te rogamus, audi nos”, canta a Liturgia. E antes da Liturgia por certo o Coração Imaculado de Maria já elevou a Deus súplica análoga, pela derrota dos ímpios irredutíveis.

Admirável exemplo de verdadeiro amor, de verdadeiro ódio.

Onipotência Suplicante

Deus quer as obras. Ele fundou a Igreja para o apostolado. Mas acima de tudo quer a oração. Pois a oração é a condição da fecundidade de todas as obras. E quer como fruto da oração a virtude.

Rainha de todos os apóstolos, Nossa Senhora é entretanto principalmente o modelo das almas que rezam e se santificam, a estrela polar de toda meditação e vida interior. Pois, dotada de virtude imaculada, Ela fez sempre o que era mais razoável, e se nunca sentiu em si as agitações e as desordens das almas que só amam a ação e a agitação, nunca experimentou em si, tampouco, as apatias e as negligências das almas frouxas que fazem da vida interior um paravento a fim de disfarçar sua indiferença pela causa da Igreja. Seu afastamento do mundo não significou um desinteresse pelo mundo. Quem fez mais pelos ímpios e pelos pecadores do que Aquela que, para os salvar, voluntariamente consentiu na imolação crudelíssima de seu Filho infinitamente inocente e santo? Quem fez mais pelos homens, do que Aquela que conseguiu se realizasse em seus dias a promessa do Salvador?

Mas, confiante sobretudo na oração e na vida interior, não nos deu a Rainha dos Apóstolos uma grande lição de apostolado, fazendo de uma e outra o seu principal instrumento de ação?

Aplicação a nossos dias

Tanto valem aos olhos de Deus as almas que, como Nossa Senhora, possuem o segredo do verdadeiro amor e do verdadeiro ódio, da intransigência perfeita, do zelo incessante, do espírito de renúncia completo, que propriamente são elas que podem atrair para o mundo as graças divinas.

Estamos numa época parecida com a da vinda de Jesus Cristo à terra. Em 1928 escreveu o Santo Padre Pio XI que “o espetáculo das desgraças contemporâneas é de tal maneira aflitivo, que se poderia ver nele a aurora deste início de dores que trará o Homem do pecado, elevando-se contra tudo quanto é chamado Deus e recebe a honra de um culto” (Enc. Miserentissimus Redemptor, de 8 de maio de 1928).

Que diria ele hoje?

E a nós, que nos compete fazer? Lutar em todos os terrenos permitidos, com todas as armas lícitas. Mas antes de tudo, acima de tudo, confiar na vida interior e na oração. É o grande exemplo de Nossa Senhora.

O exemplo de Nossa Senhora, só com o auxílio de Nossa Senhora se pode imitar. E o auxílio de Nossa Senhora só com a devoção a Nossa Senhora se pode conseguir. Ora, a devoção a Maria Santíssima no que de melhor pode consistir, do que em Lhe pedirmos não só o amor a Deus e o ódio ao demônio, mas aquela santa inteireza no amor ao bem e no ódio ao mal, em uma palavra aquela santa intransigência, que tanto refulge em sua Imaculada Conceição?

 

 

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