A CAVALARIA NÃO MORRE

 

 

CAPÍTULO II


Índice

UM PESADELO MUITO REAL

 

 

O homem abandona o "sonho"

Oh! Santa simplicidade, candor dos antigos tempos, ternura ingênua dos dias de outrora, não retornarás jamais?

Devemos crer que estás extinta, morta para sempre?

E se é verdade que os séculos são para a História do mundo o que são os anos para a vida do homem, não retornarás, ó doce primavera da Fé, para rejuvenescer o mundo e nossos corações?

(Charles de Montalembert, 1810-1870 ).

O homem foi deixando o sonho (1) como um filho abandona a casa paterna (1).

Na Revolução Francesa o mundo do sonho foi afastado, como se empurra água com rodo, e se fez a ordem de coisas atual, sem sonho.

A máquina expulsa o Direito e o pensamento

O século XX é a expressão de um mundo que tomou por ideal não o Direito, como Roma, nem a Filosofia,como a Grécia, e muito menos a Teologia, como o século XIII, mas a máquina, ou seja, a matéria.

O progresso material só é um bem quando acompanhado harmonicamente pelo progresso da moral.

A Contra-Revolução* não pactua com o tecnicismo hipertrofiado de hoje, com a adoração das novidades, das velocidades e das máquinas, nem com a deplorável tendência a organizar "more mechanico" (2) a sociedade humana.

Pela mecanização, o homem se torna um apêndice da máquina; ele tem de produzir na velocidade desta, e se define como o homem que deixou de sonhar.

A tecnociência substitui o sonho e suprime as pátrias

Um mundo em cujo seio as pátrias unificadas numa República Universal (3) não sejam senão denominações geográficas, um mundo sem desigualdades sociais nem econômicas, dirigido pela ciência e pela técnica, pela propaganda e pela psicologia, para realizar, sem o sobrenatural, a felicidade definitiva do homem: eis a utopia para a qual a Revolução* nos vai encaminhando.

Nesse mundo, a Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo nada tem a fazer. Pois o homem terá superado o mal pela ciência e terá transformado a terra em um "céu" tecnicamente delicioso. E pelo prolongamento indefinido da vida esperará vencer um dia a morte (4).

Querem fazer dos países, que outrora constituíam a Cristandade, cadáveres de nações jogadas na vala comum da Federação Européia. É através das burocracias que o Estado anônimo, por meio de servidores também anônimos (para não esquecer as grandes sociedades anônimas macropublicitárias), inspira, propulsiona e manda na Nação.

E assim, ébrio de sonhos de República Universal, de supressão de toda autoridade eclesiástica ou civil e do próprio Estado, aí está o neobárbaro do século XX, produto mais recente e mais extremado do processo revolucionário*.

A vulgaridade campeia

Profeta Abdias - AleijadinhoÉ indisfarçável que está ganhando terreno uma tendência onímoda para a vulgaridade, para a extravagância delirante, e não raras vezes para o brutal e descarado triunfo do hediondo e do obsceno.

O desaparecimento rápido das fórmulas de cortesia só pode ter como ponto final a simplicidade absoluta (para empregar só esse qualificativo) do trato tribal.

A democratização geral dos costumes e dos estilos de vida, levada aos extremos de uma vulgaridade sistemática e crescente, e a ação proletarizante de certa arte moderna, contribuíram para o triunfo do igualitarismo tanto ou mais do que a implantação de certas leis, ou de certas instituições essencialmente políticas.

A feiúra avança

A civilização moderna vai cada vez mais procurando se entrincheirar atrás do feio, para poder viver calmamente dentro do feio enquanto feio, sem as "agressões", as reações de repugnância que o Belo lhe provoca.

O lúbrico procura o feio para se entrincheirar dentro dele contra a possibilidade do Belo.

A Revolução* quer erigir o feio em ordem habitual de todas as coisas, porque no feio ela realiza a grande negação, a grande contradição e a grande esperança do inferno.

A moralidade estiola

Analisando-se a fundo a coleção de crises simultâneas que estão chovendo no Brasil, notar-se-á que noventa por cento do problema se reduzem a uma crise de caráter.

O mundo moderno está exposto a degradações que nem mesmo as tribos mais bárbaras da Antiguidade tiveram.

Num país em tese, no qual a maioria esmagadora não cumpre os Dez Mandamentos, caso se prendam cinco ladrões, na verdade abrem-se cinco vagas, e para elas surgem cinqüenta candidatos, isto é, cinqüenta novos ladrões.

Mil processos de propaganda criam nas multidões um estado de alma em que, sem se afirmar diretamente que a moral não existe, faz-se abstração dela.

Toda a veneração devida à virtude é tributada a ídolos como o ouro, o trabalho, a eficiência, o êxito, a segurança, a saúde, a beleza física, a força muscular, o gozo dos sentidos, etc.

A razão e a ordem são desprezadas

A crescente ojeriza a tudo quanto é raciocinado, estruturado e metodizado só pode conduzir, em seus últimos paroxismos, à perpétua e fantasiosa vagabundagem da vida das selvas, alternada, também ela, com o desempenho instintivo e quase mecânico de algumas atividades absolutamente indispensáveis à vida.

O banco e a mídia usurpam a direção da sociedade

No mundo de hoje, não raras vezes [o banco e a mídia] possuem um poder nitidamente maior do que o da nobreza no século XIX, ou até anteriormente à Revolução Francesa.

E o que faz esta sarabanda informativa? Interessa? Atrai? Orienta?

— A meu ver, o mais das vezes causa acabrunhamento, superexcitação, e por fim tédio. Sim, o tédio dentro da superexcitação; eis o estado de espírito que a pletora informativa cria em muitos e muitos de nossos contemporâneos.

Em suma, todos sabem de tudo, não entendem nada, alguns ficam com os nervos a tinir, e quase todos, à falta de melhor, bocejam.

Até que ponto a desordem dos fatos, já de si tão imensa e tão trágica, é ainda agravada pelo sensacionalismo trepidante dessa superprodução informativa?

E, principalmente, a quem aproveita essa superexcitação?

A calúnia ora ulula como um furacão, ora agita discretos guizos como uma serpente; ora, enfim, mente como uma brisa morna e carregada de miasmas fatais.

Quase se pode aplicar a certa mídia, um dito francês a respeito do mentiroso de primeira marca que foi o pseudo-imperador Napoleão III: quando fala, ele mente; quando se cala, ele conspira.

O esquerdismo disfarça mas não se rende

Como fantasmas, vazios de cérebro, de coração e de entranhas, os Partidos Comunistas ainda se obstinam em sobreviver por toda parte.

Os entrechoques de certos liberais ingênuos ou retardados, com os socialistas, são meros episódios superficiais do processo revolucionário, inócuos qüiproquós que não perturbam a lógica profunda da Revolução*.

Esquerdismo no Brasil é coisa de clube rico e de sacristia.

Há um anticomunismo que é apenas feito para evitar os insucessos operacionais do comunismo. Mas há outro anticomunismo que é a eterna inimizade do sonho contra o pesadelo.

O caos se instala

O que está a resultar para o mundo, senão a exalação de uma confusão geral que promete a todo momento catástrofes iminentes, contraditórias entre si, que se desfazem no ar antes de se precipitarem sobre os mortais, e ao fazê-lo geram a perspectiva de novas catástrofes, ainda mais iminentes, ainda mais contraditórias? As quais quiçá se evanesçam, por sua vez, para dar origem a novos monstros, ou quiçá se convertam em realidades atrozes?

O que tem acontecido é colossal, mas tem o ar de que não aconteceu.

Tudo fica, tudo piora, tudo anda e nada se move.

A grande anarquia

Quando as certezas morrem, a atividade intelectiva perde sua meta natural. E a modorra se apodera da opinião pública.

A ecologia é a religião deste século sem religião.

Os vários "eus" ou as pessoas individuais, com sua inteligência, sua vontade e sua sensibilidade, e conseqüentemente seus modos de ser, característicos e conflitantes, se fundem e se dissolvem na personalidade coletiva da tribo geradora de um pensar, de um querer, de um estilo de ser densamente comuns.

Ao pajé (5) incumbe manter, num plano místico, esta vida psíquica coletiva, por meio de cultos totêmicos carregados de "mensagens" confusas, mas "ricas" dos fogos fátuos ou até mesmo das fulgurações provenientes dos misteriosos mundos da transpsicologia ou da parapsicologia. É pela aquisição dessas "riquezas" que o homem compensaria a atrofia da razão.

A grande anarquia, como uma caveira de foice na mão, parece rir sinistramente aos homens, da soleira da porta de saída do século XX, onde os aguarda (6).

 

O "pesadelo" numa visão de conjunto

 

Todas as crises se resumem em uma: a crise do homem

As muitas crises que abalam o mundo hodierno — do Estado, da família, da economia, da cultura, etc. — não constituem senão múltiplos aspectos de uma só crise fundamental, que tem como campo de ação o próprio homem.

Em outros termos, essas crises têm sua raiz nos problemas de alma mais profundos, de onde se estendem para todos os aspectos da personalidade do homem contemporâneo e todas as suas atividades.

Essa crise é universal. Não há hoje povo que não esteja atingido por ela, em grau maior ou menor.

Essa crise é una. Isto é, não se trata de um conjunto de crises que se desenvolvem paralela e autonomamente em cada país, ligadas entre si por algumas analogias mais ou menos irrelevantes.

[Essa crise] é total. Considerada em dado país, essa crise se desenvolve numa zona de problemas tão profunda, que ela se prolonga ou se desdobra, pela própria ordem das coisas, em todas as potências da alma, em todos os campos da cultura, em todos os domínios, enfim, da ação do homem.

É dominante. Essa crise é como uma rainha a que todas as forças do caos servem como instrumentos eficientes e dóceis.

É processiva. Essa crise não é um fato espetacular e isolado. Ela constitui, pelo contrário, um processo crítico já cinco vezes secular, um longo sistema de causas e efeitos que, tendo nascido, em momento dado, com grande intensidade, nas zonas mais profundas da alma e da cultura do homem ocidental, vem produzindo, desde o século XV até nossos dias, sucessivas convulsões.

O nome da crise é:  Revolução

[A causa principal de nossa presente situação é] impalpável, sutil, penetrante como se fosse uma poderosa e temível radioatividade. Todos lhe sentem os efeitos, mas poucos saberiam dizer-lhe o nome e a essência.

Este inimigo terrível tem um nome: ele se chama Revolução*.

Sua causa profunda é uma explosão de orgulho e sensualidade que inspirou, não diríamos um sistema, mas toda uma cadeia de sistemas ideológicos.

Entre as paixões desordenadas, o orgulho e a sensualidade ocupam um lugar proeminente. Eles marcam o utopista com duas notas principais: o desejo de ser supremo em sua esfera, não aceitando sequer um Deus transcendente, e a tendência a uma plena liberdade na satisfação de todos os instintos e apetências desregradas.

[A Revolução é] a desordem e a ilegitimidade por excelência.

Os agentes do caos e da subversão fazem como o cientista, que em vez de agir por si só, estuda e põe em ação as forças, mil vezes mais poderosas, da natureza.

A Santa Igreja

Cuidado, leitor, cuidado. Não dê crédito a alguém só porque se diz católico. Estamos na época da hipocrisia, em que Satanás por vezes se faz sacristão, por vezes padre e... prefiro não continuar. Para arrancar a fé da alma popular — pensava-se com razão no Kremlin — a mão brutal e estúpida do sem-Deus é incomparavelmente menos eficiente do que a mão ungida, macia, jeitosa, do mau bispo, do mau padre, da freira degradada.

Ruínas de Saint-Jean-des-Vignes, em Soisson ( França ) - Esse trágico vazio onde havia um vitral multicolorido pode ser tomado como um símbolo da situação da Santa Igreja em nossos dias.

Se a Passionária (7)ou Ana Pauker (8) tivessem tido a esperteza de se fazerem freiras, teriam sido incomparavelmente mais úteis ao comunismo do que no papel de viragos vermelhas.

No fundo, só mãos régias e sacerdotais poderiam derrubar a Cristandade Medieval. E foram elas que o fizeram.

Quando viu a História, antes de nossos dias, uma tentativa de demolição da Igreja, já não mais feita por um adversário, mas qualificada de "autodemolição" em altíssimo pronunciamento de repercussão mundial?(9)

Depois de caluniarem a Igreja do passado, os progressistas querem desfigurar a Igreja do presente, transformando-a numa espécie de república espiritual populista.

A Igreja sonhada pelos progressistas não é a Igreja em nova fase. Ela não passa de uma anti-Igreja.

Se há uma Igreja de hoje em dia distinta da Igreja de sempre, ela não é a Igreja de sempre, pura e simplesmente.

Estamos nos lances supremos de uma luta — que chamaríamos de morte se um dos contendores não fosse imortal — entre a Igreja e a Revolução*.

Como a Igreja Católica não é mortal (10), qual o maior crime que se poderia cometer contra Ela? Seria o de dar a impressão de que Ela morreu.

Ela se põe perto de nós nesse horror e nesse esplendor. E é nesse horroroso esplendor, nesse esplendoroso horror, que Ela se põe diante de nós, desejosa de que A conheçamos, saibamos como é a alma dEla, a amemos como verdadeiramente Ela é.

Quantos são os que vivem, em união com a Igreja, este momento que é trágico como trágica foi a Paixão, este momento em que uma humanidade inteira está escolhendo por Cristo ou contra Cristo?

Oh! derrota do Deus invencível, eu te sigo, eu me dou inteiramente a ti (11)!

Na hora em que o absurdo torna-se explosivo, rasga-se a abóbada do céu e descem milhões de anjos.

 

Reúnam-se em torno de nós

como se reúne uma nuvem áurea;

assim como as chamas de uma

lareira tendem a se reunir todas para formar uma só labareda,

assim reúnam-se os anjos,

à vista de Deus e de Maria (12).

 

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NOTAS AO CAPÍTULO DOIS

1. A respeito do sentido de "sonho", ver as explicitações do capítulo anterior. - Casa paterna: há aqui uma alusão à parábola do filho pródigo, do Evangelho (Lc XV, 11 ss.).

2. "More mechanico": do latim. À maneira de máquina.

3. Cabe aos psicólogos explicar por que a expressão "República Universal" até hoje provoca certo arrepio na opinião pública, enquanto o termo "globalização", que lhe é tão próximo, encontra guarida mesmo entre espíritos atentos.

4. Como explica o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em uma de suas obras mais traduzidas e mais célebres, Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo, o utopista, "alheio à luz da fé, considera o erro, o mal e a dor como contingências absurdas da existência humana, que o indignam. É natural ao homem revoltar-se contra esta tríade de adversários, pensa ele. E, como o utopista não toma em consideração a existência de outra vida, é levado a julgar evidente, forçoso, indiscutível que se pode acabar por eliminar a dor, o mal e o erro. Pois do contrário deveria admitir que a própria ordem do ser é absurda. Nisto está essencialmente o fundamento de sua utopia. É explicável que para o utopista a vida não possa ter normalmente um sentido legítimo de luta, de prova e de expiação, mas só de paz macia e regalada. Ele é, assim, e por definição, pacifista à outrance, ultra-ecumênico, ultra-irênico. E nenhum de seus sonhos teria coerência interna, nenhum seria capaz de o satisfazer inteiramente, se não incluísse a supressão de todas as lutas e de todas as controvérsias". Como se vê, o sonho do utopista se opõe diametralmente ao sonho católico (Cap. IV, 2, J).

5. Hoje talvez se dissesse "aos gurus", em sentido próprio ou estendido. Mas a realidade é fundamentalmente a mesma.

6. Até aqui foi apresentada a crise do homem moderno apenas em pinceladas muito gerais e, obviamente, sem de modo algum pretender esgotar o assunto. A seguir há alguns traços do célebre ensaio de Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução. No fim deste volume encontrará o leitor um breve resumo desta famosa obra, indispensável para compreender a crise contemporânea, já publicada em francês, inglês, espanhol, italiano, alemão, romeno e polonês.

7. Nascida em 1895, Dolores Ibarruri, "La Pasionaria", líder comunista e anticlerical, fez parte da Frente Popular que disputou as eleições espanholas em 16-2-1936. Famosa por sua sanha vermelha e sua crueldade.

8. Anna Pauker (nasc. 1897) assumiu em 1947 o Ministério das Relações Exteriores da Romênia. No mesmo ano o Rei Michel abdicou. A Romênia tornou-se comunista.

9. Cfr. Alocução de Paulo VI ao Seminário Lombardo, em 7/12/1968.

10. "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt. XVI, 18). Ver também Mt. XVIII, 20 e Jo. XVI, 16-17).

11. Essa grandiosa e tocante apóstrofe foi feita com naturalidade no decorrer de uma conferência. Um grito do fundo da alma de um homem cuja vida foi uma tecido de derrotas e vitórias. Ante o paradoxo representado por uma derrota de Deus, é preciso crer na vitória final, pois Nosso Senhor é invencível.

12. De um texto de Plinio Corrêa de Oliveira, intitulado "Apelo aos Anjos".