A CAVALARIA NÃO MORRE

 

 

CAPÍTULO VIII

Se as armas queres ver, como tens dito.

cumprido esse desejo te seria;

como amigo as verás, porque me obrigo

que nunca a queiras ver como inimigo.

Camões, Os Lusíadas, canto primeiro, 66.


Índice

A NOVA ESGRIMA EM DEZ AVISOS

 

Não podemos ficar contemplando nossas metas como alguém que, querendo subir uma montanha, ficasse só olhando para o seu cume.

O escalar de uma montanha se compõe também de incontáveis pequenos obstáculos. Por isso é necessário, custe o que custar, dar o passo imediato, e assim por diante, até alçar-se ao píncaro da Montanha.

1. O vulto total da Revolução

A Revolução* tem progredido à custa de ocultar seu vulto total, seu espírito verdadeiro, seus fins últimos.

O meio mais eficiente

de refutá-la junto aos

revolucionários consiste

em mostrá-la inteira.

Arrancar-lhe assim

os véus é desferir-lhe

o mais duro dos golpes.

O contra-revolucionário* deve, pois, aproveitar zelosamente o tremendo espetáculo de nossas trevas para — sem demagogia, sem exagero, mas também sem fraqueza — fazer compreender aos filhos da Revolução* a linguagem dos fatos, e assim produzir neles o "flash"(1) salvador.

É preciso saber mostrar,

no caos que nos envolve, a face

 total da Revolução, em sua imensa hediondez.

Sempre que esta face se revela, aparecem surtos de vigorosa reação.

É por este motivo que, por ocasião da Revolução Francesa, e no decurso do século XIX, houve na França um movimento contra-revolucionário* melhor do que jamais houvera anteriormente naquele país. Nunca se vira tão bem a face da Revolução*.

O contra-revolucionário* deve, com freqüência, desmascarar o vulto geral da Revolução*, a fim de exorcizar o quebranto que esta exerce sobre suas vítimas.

A Contra-Revolução* não deve, pois, dissimular seu vulto total. Ela deve fazer suas as sapientíssimas normas estabelecidas por São Pio X para o proceder habitual do verdadeiro apóstolo (2).

2. O igualitarismo, questão central

A quintessência do espírito revolucionário* consiste em odiar por princípio, e no plano metafísico, toda desigualdade e toda lei, especialmente a Lei Moral.

Um dos pontos muito importantes do trabalho contra-revolucionário é, pois, ensinar o amor à desigualdade vista no plano metafísico, ao princípio de autoridade, e também à Lei Moral e à pureza; porque exatamente o orgulho, a revolta e a impureza são os fatores que mais propulsionam os homens na senda da Revolução.

3. Reavivar a distinção entre o Bem e o Mal

 

A Contra-Revolução tem, como uma de suas missões mais salientes, a de restabelecer ou reavivar a distinção entre o bem e o mal, a noção do pecado em tese, do pecado original e do pecado atual.

Essa tarefa, quando executada com uma profunda compenetração do espírito da Igreja, não traz consigo o risco de desespero da misericórdia divina, hipocondrismo, misantropia, etc., de que tanto falam certos autores mais ou menos infiltrados pelas máximas da Revolução (3).

4. Grandes meios de ação

Em principio, é claro, a ação contra-revolucionária merece ter à sua disposição os melhores meios de televisão, rádio, imprensa de grande porte, propaganda racional, eficiente e brilhante.

O verdadeiro contra-revolucionário* deve tender sempre à utilização de tais meios, vencendo o estado de espírito derrotista de alguns de seus companheiros que, de antemão, abandonam a esperança de dispor deles porque os vêem sempre na posse dos filhos das trevas.

Entretanto, devemos reconhecer que, in concreto, a ação contra-revolucionária* terá de se realizar muitas  vezes sem esses recursos.

Ainda assim, e com meios

dos mais modestos,

poderá ela alcançar

resultados muito

apreciáveis, se tais

meios forem utilizados

com retidão de espírito

e inteligência.

É concebível uma ação contra-revolucionária* reduzida à mera atuação individual. Mas não se pode concebê-la sem esta última. A qual, por sua vez, desde que bem feita, abre as portas para todos os progressos.

Os pequenos jornais de inspiração

contra-revolucionária, quando de bom

nível, têm uma eficácia

surpreendente, principalmente para

a tarefa primordial de fazer com que

os contra-revolucionários

se conheçam.

Tão ou mais eficientes podem ser o livro, a tribuna e a cátedra, a serviço da Contra-Revolução*.

5. Elites, não massa

A Contra-Revolução* deve procurar, quanto possível, conquistar as multidões.

Entretanto, não deve fazer disso, no plano imediato, seu objetivo principal, e um contra-revolucionário* não tem razão para desanimar pelo fato de que a grande maioria dos homens não está atualmente de seu lado.

Um estudo exato da História nos mostra, com efeito, que não foram as massas que fizeram a Revolução*.

Elas se moveram num sentido revolucionário porque tiveram atrás de si elites revolucionárias.

Se tivessem tido atrás de si elites de orientação oposta, provavelmente se teriam movido num sentido contrário.

O fator massa, segundo mostra a

visão objetiva da História,

é secundário; o principal

é a formação das elites.

Ora, para essa formação, o contra-revolucionário* pode estar sempre aparelhado com os recursos de sua ação individual, e pode pois obter bons frutos, apesar da carência de meios materiais e técnicos com que, às vezes, tenha que lutar.

6. Pensadores não livrescos

O esforço contra-revolucionário*não deve ser livresco, isto é, não pode contentar-se com uma dialética com a Revolução no plano puramente científico e universitário.

O ponto de mira da Contra-Revolução*

deve ser a Revolução* tal qual ela é pensada,

 sentida e vivida pela opinião pública em seu conjunto.

Os contra-revolucionários devem atribuir importância muito particular à refutação dos "slogans" revolucionários*.

7. Ação de presença

Pelo menos 50% do apostolado do cavaleiro é apostolado de presença, que consiste em ser visto de uma

maneira em que se perceba o destemor, a dedicação e a coragem.

O contra-revolucionário* deve ser

um estandarte vivo, uma tocha viva do sublime,

do elevado, do sacral*, no mundo que é

exatamente o contrário. Uma lança,

um aríete contra os que se opõem a esses valores.

A forma de brilho que há nos símbolos da Contra-Revolução*, e que deve refulgir no novo cavaleiro, só se explica por uma presença da graça de Deus, que se torna perceptível a outros — como diz São Tomás — por uma ação do Espírito Santo.

É este o brilho que tinham os Apóstolos, os Cruzados, os heróis da Reconquista, e é um brilho que não se reduz a termos naturais.

O verdadeiro heroísmo é vistoso como  um fogo de artifício e  modesto  como uma violeta.

8. Características locais

A Contra-Revolução* deverá favorecer a manutenção de todas as sadias características locais,em qualquer terreno, na cultura, nos costumes, etc.

Mas seu nacionalismo não tem o caráter de depreciação sistemática do que é de outros, nem de adoração dos valores pátrios como se fossem desligados do grande acervo da civilização cristã.

A grandeza que a Contra-Revolução* deseja para todos os países só é e só pode ser uma: a grandeza cristã.

9. A paz e a guerra

A paz é algo de muito sério para se deixar na mão dos pacifistas.

O contra-revolucionário* deve lamentar a paz armada, odiar a guerra injusta.

Não tendo, porém, a ilusão de que a paz reinará sempre, considera uma necessidade deste mundo de exílio a existência da classe militar, para a qual pede toda a simpatia, todo o reconhecimento, toda a admiração a que fazem jus aqueles cuja missão é lutar e morrer para o bem de todos.

 

10. As questiúnculas pessoais

A Contra-Revolução* deve mostrar sempre um aspecto ideológico, mesmo quando trata de questões muito pormenorizadas e contingentes.

  • Dar excessivo realce a questiúnculas pessoais,
  • fazer da luta com adversários ideológicos locais o principal da ação contra revolucionária,
  • apresentar a Contra-Revolução como se fosse uma simples nostalgia (não negamos, aliás, é claro, a legitimidade dessa nostalgia)
  • ou um mero dever de fidelidade pessoal, por mais santo e justo que este seja,
  • é apresentar o particular como sendo o geral, a parte como sendo o todo, é mutilar a causa que se quer servir (4).

 

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NOTAS AO OITAVO CAPITULO

1. Flash: com essa metáfora o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira quer significar que a revelação fulgurante da chocante realidade revolucionária pode produzir uma espécie de iluminação súbita que põe em ordem as idéias de quem o recebe.

2. O proceder habitual do verdadeiro apóstolo, como ensinam os Papas, deve ser destemido: "Não é leal nem digno ocultar, cobrindo-a com uma bandeira equívoca, a qualidade de católico, como se esta fosse mercadoria avariada e de contrabando" (São Pio X, carta ao Conde Medolago Albani, Presidente da União Econômico-Social, da Itália, datada de 22-XI-1909 — Bonne Presse, Paris, vol. V, p. 76). Os católicos não devem "ocultar como que sob um véu os preceitos mais importantes do Evangelho, temerosos de serem talvez menos ouvidos, ou até completamente abandonados" (São Pio X, Encíclica "Jucunda Sane", de 12-III-1904 — Bonne Presse, Paris, vol. I, p. 158). Ao que judiciosamente acrescentava o santo Pontífice:

"Sem dúvida, não será alheio à prudência, também ao propor a verdade, usar de certa contemporização, quando se tratar de esclarecer homens hostis às nossas instituições e inteiramente afastados de Deus. As feridas que é preciso cortar — diz São Gregório — devem antes ser apalpadas com mão delicada. Mas essa mesma habilidade assumiria o aspecto de prudência carnal se erigida em norma de conduta constante e comum; e tanto mais que desse modo pareceria ter-se em pouca conta a graça divina, que não é concedida somente ao Sacerdócio e aos seus ministros, mas a todos os fiéis de Cristo, a fim de que nos sas palavras e atos comovam as almas desses homens" (doc. cit., ibid.).

3. Mas reavivar a distinção entre o Bem e o Mal não levará ao maniqueísmo? Absolutamente não. Hoje se disseminou arbitrariamente o uso do adjetivo maniqueísta como uma espécie de xingação, para denegrir qualquer forma de distinção entre o Bem e o Mal. A moda consiste em fazer uma espécie de integração entre o Bem e o Mal numa espécie asquerosa de pirão. Mas a distinção entre o Bem e o Mal é a base do senso moral, e portanto é parte integrante da boa formação católica. Negar a oposição entre o Bem e o Mal constitui o auge da imoralidade.

O maniqueísmo histórico foi uma seita herética fundada por Maniqueu no séc. III, segundo a qual o demônio não teria sido criado por Deus, mas seria ele mesmo o princípio e a substância do mal (Denzinger, 237). Como se vê, de modo algum rejeitar o maniqueísmo implica em condenar o senso do Bem e do Mal. Pelo contrário, lê-se na Sagrada Escritura: Contra o Mal está o Bem, e contra a morte a vida; assim também contra o homem justo está o pecador. Considera assim todas as obras do Altíssimo. Acha-las-ás duas a duas, e uma oposta à outra (Eclo, 33, 15).

4. A coletânea destes dez avisos não pretende ser exaustiva. A quase totalidade destas preciosas normas de ação foram extraídas da segunda parte de Revolução e Contra-Revolução, obra-prima de Plinio Corrêa de Oliveira, sobre a qual o leitor encontrará mais esclarecimentos ao fim deste volume.