A CAVALARIA NÃO MORRE

 

 

CAPÍTULO VI e VII

Essas grandes almas, cheias de graça e de zelo, serão escolhidas em contraposição aos inimigos de Deus a borbulharem em todos os cantos, elas serão especialmente devotas da Santíssima Virgem, esclarecidas por sua luz, alimentadas de seu leite, conduzidas por seu espírito, sustentadas por seu braço e guardadas sob sua proteção, de tal modo que combaterão com uma das mãos e edificarão com a outra.

São Luís de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, II, II, 48.


Índice

CAPÍTULO VI

O CAVALEIRO DO TERCEIRO MILÊNIO

 

[O novo cavaleiro**, em sua plenitude, é quem]:

— Conhece a Revolução*, a Ordem e a Contra-Revolução* em seu espírito, suas doutrinas, seus métodos respectivos.

— Ama a Contra-Revolução* e a Ordem cristã, odeia a Revolução* e a "anti-ordem".

— Faz desse amor e desse ódio o eixo em torno do qual gravitam todos os seus ideais, preferências e atividades.

Claro está que essa atitude de alma não exige instrução superior.

Assim como Santa Joana d’Arc não era teóloga, mas surpreendeu seus juízes pela profundidade teológica de seus pensamentos, assim os melhores soldados da Contra-Revolução*, animados por uma admirável compreensão do seu espírito e dos seus objetivos, têm sido muitas vezes simples camponeses, da Navarra, por exemplo, da Vandéia ou do Tirol.

Em estado potencial, o novo cavaleiro pode ter uma ou outra das opiniões e dos modos de sentir dos revolucionários, por inadvertência ou qualquer outra razão ocasional, e sem que o próprio fundo de sua personalidade esteja afetado pelo espírito da Revolução*.

Alertadas, esclarecidas, orientadas, essas pessoas adotam facilmente uma posição contra-revolucionária*.

[O novo cavaleiro tem] um estilo de viver, de agir, e de lutar. É a versão, em termos contemporâneos, do espírito do cavalheiro cristão de outrora.

No idealismo, ardor.

No trato, cortesia.

Na ação,

devotamento sem limites.

Na presença do adversário, circunspecção.

Na luta,

altaneria e coragem.

E, pela coragem, vitória.

 

(**) Considerando o paralelo forçoso existente entre o contra-revolucionário e o novo cavaleiro, tomamos em relação ao texto original do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, contido em Revolução e Contra-Revolução, a franquia de, com certa freqüência, substituir "contra-revolucionário" por "novo cavaleiro", com o objetivo de tornar a intelecção mais fácil e a redação mais homogênea com o fio condutor da presente obra.


CAPÍTULO VII

AS CORAGENS DO NOVO CAVALEIRO

 

Ânimo sapiencial e Imaculado de Maria, tornai meu coração sapiencial e sem mancha, que essa obra é Vossa.

Sapiencial e temperante, forte, prudente e justo.

Plinio Corrêa de Oliveira

 

A coragem de falar

O homem forte não tem medo de falar, tem medo de calar.

O revolucionário*, em via de regra,

é petulante, verboso e afeito à exibição,

 quando não tem adversários

 diante de si, ou os tem fracos.

Profeta Ezequiel - AleijadinhoContudo, se encontra quem o enfrente com ufania e arrojo, ele se cala e organiza uma campanha de silêncio. Um silêncio em meio ao qual se percebe o discreto zumbir da calúnia, ou algum murmúrio contra o "excesso de lógica" do adversário, sim. Mas um silêncio confuso e envergonhado, que jamais é entrecortado por alguma réplica de valor.

Diante desse silêncio de confusão e derrota, poderíamos dizer ao contra-revolucionário* vitorioso as palavras espirituosas escritas por Veuillot: "Interrogai o silêncio, e ele nada vos responderá" (1).

Nada mais eficiente que a tomada de posição contra-revolucionária* franca e ufana de um jovem universitário, de um oficial, de um professor, de um Sacerdote sobretudo, de um aristocrata ou um operário influente em seu meio. Se perseverar por um tempo, que será mais longo ou menos, conforme as circunstâncias, verá, pouco a pouco, aparecerem companheiros.

 

A coragem de mostrar o estandarte por inteiro

A idéia de apresentar a Contra-Revolução* sob uma luz mais "simpática" e "positiva", fazendo com que ela não ataque a Revolução*, é o que pode haver de mais tristemente eficiente para empobrecê-la de conteúdo e de dinamismo.

Godofredo de Bouillon - BruxelasQuem agisse segundo essa lamentável tática mostraria a mesma falta de senso de um chefe de Estado que, em face de tropas inimigas que transpõem a fronteira, fizesse cessar toda resistência armada, com o intuito de cativar a simpatia do invasor e, assim, paralisá-lo.

Na realidade, ele anularia o ímpeto da reação, sem deter o inimigo. Isto é, entregaria a pátria...

Não quer isto dizer que a linguagem do contra-revolucionário* não seja matizada segundo as circunstâncias.

O Divino Mestre, pregando na Judéia, que estava sob a ação próxima dos pérfidos fariseus, usou de uma linguagem candente. Na Galiléia, pelo contrário, onde predominava o povo simples e era menor a influência dos fariseus, sua linguagem tinha um tom mais docente e menos polêmico.

Assim, no itinerário do erro para a verdade, não há para a alma os silêncios velhacos da Revolução*, nem suas metamorfoses* fraudulentas. Nada se lhe oculta do que ela deve saber. A verdade e o bem lhe são ensinados integralmente pela Igreja. Não é escondendo, sistematicamente, o termo último de sua formação, mas mostrando-o e fazendo-o desejado sempre mais, que se obtém dos homens o progresso no bem.

Firmeza, firmeza, firmeza... Firmeza cortês, firmeza

polida, firmeza séria,

firmeza distinta, firmeza

sem arrogância, firmeza

sem debilidade. Firmeza!

 

A coragem de ser pelas elites

Muito se fala hoje do apostolado em benefício das massas e, como justo corolário, de uma ação preferencial em favor das suas necessidades materiais.

Mas importa não ser unilateral em tal matéria, e jamais perder de vista a alta importância do apostolado sobre as elites e, através destas, sobre todo o corpo social.

O sopro demagógico de igualitarismo que perpassa todo o mundo contemporâneo cria uma atmosfera de antipatia contra as elites tradicionais. E isto, precisamente, em grande parte pela fidelidade que estas têm à tradição. Há nessa antipatia, pois, uma grave injustiça, desde que tais elites entendam tradição retamente.

Outro fator de hostilidade contra as elites tradicionais está no preconceito revolucionário de que qualquer desigualdade de berço é contrária à justiça.

 

Admite-se habitualmente

que um homem possa

destacar-se pelo seu

mérito pessoal.

Não se admite porém

que o fato de proceder de uma estirpe ilustre seja

para ele um título especial de honra e de influência.

 

Buckingham - Sala de Banquetes

Palácio de Buckingham - Sala de Banquetes

 

A este respeito,

o Santo Padre Pio XII dá-nos um precioso ensinamento:

"As desigualdades sociais, inclusive as ligadas ao

nascimento, são inevitáveis.

A natureza benigna e a

bênção de Deus à Humanidade iluminam e protegem

os berços, beijam-nos,

porém não os nivelam"(2).

 

A coragem de estimar o risco

Oração do pára-quedista

Meu Deus, dá-me a tormenta,

dá-me o sofrimento,

o ardor no combate.

E depois a glória no combate.

O que os outros não querem

aquilo que Te recusam

dá-me, Senhor, tudo isso.

Sim! tudo isso.

Eu não quero o repouso,

nem mesmo a saúde,

tudo isso, meu Deus,

já Te é muito pedido.

Mas dá-me, dá-me a Fé.

Dá-me força e coragem.

Dá-me a Fé para que

eu não recue

(autoria do cadete francês

Zirnheld, morto em combate

em 27-7-1942).

Medo, toda criatura humana sente; a questão é ser capaz de sentir as delícias do risco, que fazem com que o indivíduo se sinta pago do medo.

A proeza seria um risco que está nos confins da debilidade, em que a pessoa arrisca tudo com meios apenas suficientes.

Assim, de tal maneira dá tudo a favor da Causa, que fica como que imerso na atmosfera do ideal pelo qual está se entregando.

Para sabermos de que estofo é o nosso entusiasmo diante do risco, devemos familiarizar-nos em vê-lo de frente. De maneira que ele se torne para nós um companheiro quotidiano: comece a povoar as nossas insônias, e depois por diminuir nossos sonos, para depois se tornar uma segunda natureza. (3)

É na consideração do risco que o homem se prepara para ele.

Só funda instituições muito seguras quem passou por todas as inseguranças.

Só fundam instituições muito intrépidas os que enfrentaram todos os riscos.

 

 

 

O risco é

o momento

em que Deus

e o indivíduo

se osculam.

 

A coragem de ser audaz

A audácia é o sinal precursor da vitória.

Se o fim é vencer, em noventa por cento dos casos é mais prudente avançar do que recuar. Não é outra a virtude evangélica da Prudência.

O entrechoque da batalha, quando apresentado em toda a sua rudeza e em toda a sua intensidade, tem qualquer coisa que lembra o entrechoque das naturezas angélicas.

A pessoa encontra seu nome estando no vórtice ou no vértice de uma situação, onde o batalhar das energias mais magníficas do Bem e das vivências mais torpes do Mal se entrechocam, e onde todo o Bem e todo o Mal entram em luta.

[O novo cavaleiro] vive de audácia, nas fímbrias do horizonte mental e axiológico (4), distinguindo com maturidade as elucubrações temerárias, ocas e cheias de fábulas, dos altíssimos horizontes inconcebíveis para o homem mediano.

É preciso que em todas as nossas ações se note esse acerto, essa elevação, essa oportunidade, essa força, essa destreza, essa justiça, que são as características de todo o operar do verdadeiro varão de Deus.

 

A coragem de renunciar à "vidinha"

Senhor, dai-me a graça de não ser daqueles a quem só interessa a vidinha (5) deles, a coisinha deles, a virtudezinha deles e a pessoinha deles.

É preciso haver uma visão clara das coisas sumas, e amá-las com destemor e ênfase, na ventania da aquiescência interna, para que de fato haja heroísmo

Foi o egoísmo que liquidou a cavalaria medieval. E matou a própria Idade Média. Egoísmo que é tanto o orgulho quanto a sensualidade, e do qual nasceu a Revolução.

O egoísmo foi precipitado por São Miguel nos infernos (6).

É o egoísmo que nos impede de sermos grandes cavaleiros. E de termos a alma das canções de gesta. Egoísmo que apaga em nós o Lúmen Christi, luz em que veremos todas as luzes, e sem cuja claridade nenhuma luz é luz.

Pelo favor de Nossa Senhora, se há alguma coisa que eu não sou é um conformista! Eu sou inconforme!

O que é, para incontáveis "inconformistas", o "inconformismo"?

No fundo, é a conformidade submissa com a onda. E o que é chamado "conformismo"? É, muitas e muitas vezes, a inconformidade altiva contra essa mesmíssima onda.

Os verdadeiros "inconformistas" são os que o linguajar dos que estão "para frente" e "no vento" qualificam de "conformistas"..., os que têm a coragem de erguer a cabeça e enfrentar o tufão.

Quando ainda muito jovem, considerei enlevado as ruínas da Cristandade, a elas entreguei meu coração. Voltei as costas ao meu futuro E fiz daquele passado carregado de bênçãos o meu Porvir...

Eu sacrifiquei minha carreira como quem sacrifica um papel velho, atirando-o ao lixo, sem uma hesitação, sem um pranto (7).

A ruptura [com o mal] profunda e trágica, se é completa, traz a paz.

 

A coragem de ser vigilante

Não há traição pequena.

Castelo de Jadraque - Espanha

Quem não desconfia de quem deve desconfiar, não confia em quem deve confiar.

Não sabe defender quilômetros quem não sabe defender milímetros.

Um defeito do tamanho de um grão de poeira, ao cabo de um ano, é um tijolo, ao cabo de dois anos é um muro, ao cabo de três anos é uma capitulação.

É preciso ver em qualquer gotinha a integridade do Bem, e em qualquer gotinha ter amor tão enfático quanto ao píncaro; e a correspondente execração do Mal.

Dize-me com quem tens indulgência, e dir-te-ei quem és (8).

A lei da perspicácia é a lei do contraste. A certeza é que gera o contraste. Quem não tem certezas, não é capaz de perceber o contraste, e é o contraste que faz a perspicácia.

Em face da Revolução* e da Contra-Revolução* não há neutros. Pode haver, isto sim, não combatentes, cuja vontade ou cujas veleidades estão, conscientemente ou não, em um dos dois campos.

 

 A coragem de ser organizado e astucioso

A modernidade da Contra-Revolução* não consiste em fechar os olhos nem em pactuar, ainda que em proporções insignificantes, com a Revolução*. Pelo contrário, consiste em conhecê-la em sua essência invariável e em seus tão relevantes acidentes contemporâneos, combatendo-a nestes e naquela, inteligentemente, argutamente, planejadamente, com todos os meios lícitos.

Bom senso sem coragem

dá em covardia,

e coragem sem bom-senso

dá em loucura.

Castelo de Velez Blanco - Almeria - EspanhaNas minhas obras de apostolado, o menor sacrifício me detém, o menor esforço me causa horror, a menor luta me põe em fuga. Gosto do apostolado, sim. De um apostolado inteiramente conforme com minhas preferências e fantasias, a que me entrego quando quero, como quero, porque quero. E depois julgo ter feito a Deus uma imensa esmola (9).

Mas Deus não se contenta com isto. Para a Igreja, quer Ele toda a minha vida, quer organização, quer sagacidade, quer intrepidez, quer a inocência da pomba mas a astúcia da serpente, a doçura da ovelha mas a cólera irresistível e avassaladora do leão.

Se for preciso sacrificar carreira, amizades, vínculos de parentesco, vaidades mesquinhas, hábitos inveterados, para servir a Nosso Senhor, devo fazê-lo.

Pois a Deus

devemos dar tudo,

absolutamente tudo, e

depois de ter dado tudo

ainda devemos dar

nossa própria vida.

A astúcia é um requinte da prudência.

Quem na hora do trabalho não tem perseverança, na hora da luta perseverará?

 

A coragem de ser puro

Das várias coragens que o homem precisa ter, uma das maiores ou a maior é a coragem de resolver ser puro.

É preciso ter grande varonilidade, grande seriedade, grande força de vontade para ser puro.

Acho que a pureza é um milagre freqüente, mas é um milagre.

Resolver ser puro é decidir dar um salto por cima do abismo, porque o homem percebe em si que não tem força para isto, e que a pureza lhe virá de uma graça obtida por Nossa Senhora.

Um homem assim tem

a alma de um herói.

 

A coragem diante da derrota

Uma das mais irremediáveis vulgaridades de espírito do nazismo era a de achar que Nosso Senhor se portou na Paixão como um infra-homem, porque foi derrotado.

Se uma vela pudesse pensar, o momento maior da alegria seria aquele em que ela acabasse de se consumir nas mãos de quem a carrega.

Ela pensaria: Eu fui criada para iluminar, nas mãos de quem tem a vocação de me conduzir. Meu pavio, minha cera, meu fogo, tudo queimou. Eu vivi!

A palavra cavaleiro

toma significado

quando alguém

conserva o ânimo

no auge da

catástrofe (10).

 

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NOTAS AO SÉTIMO CAPÍTULO

1. Louis Veuillot, Oeuvres Complètes, P. Lethielleux Librairie-Editeur, Paris, vol. XXXIII, p. 349.

2. Discorsi e Radiomessaggi di Sua Santità Pio XII, vol. III, p. 347.

3. Essa observação vale para qualquer tipo de risco, não apenas para o resultante de uma eventual defesa face a alguma ameaça violenta.

4. Axiológico: o que tem atinência com as finalidades dos seres, com os valores morais.

5. "Vidinha" tem aqui um caráter nitidamente pejorativo. Indica as preocupações exageradas com a segurança, a saúde, as satisfações do amor próprio ou de uma sociabilidade sem transcendência, que restringem e até amputam os horizontes de uma multidão de nossos contemporâneos. É digno de nota que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira arrole a "virtudezinha" entre as manifestações de "vidinha". Com isto, deseja ele mostrar os inconvenientes de uma devoção rotineira, exterior e fechada em pequenos panoramas, por assim dizer, "paroquiais". Os grandes horizontes da Igreja e as grandes preocupações com a situação da Causa católica são colocados de lado com desembaraço, pois as consciências de pessoas assim se sentem apaziguadas pelo pouco que fazem ou julgam fazer pela Religião.

6. Cf. Apoc., cap XII.

7. Com efeito, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, com 23 anos deputado mais jovem à Constituinte de 1934, eleito com a maior votação do País (nada menos que 9,5% do votos apurados, ou seja, proporcionalmente bem mais do que conseguiram Paulo Maluf e Luís Lula da Silva em nossos dias), descendendo, ademais, de uma família ilustre, possuidor de uma inteligência reluzente e dotes oratórios absolutamente incomuns, poderia ter tido uma carreira fora de qualquer paralelo, não tivesse deliberado colaborar na causa católica, com a mais absoluta fidelidade aos princípios da Igreja.

8. Paráfrase do refrão popular "dize-me com quem andas, e dir-te-ei quem és". Evidentemente, trata-se de uma má indulgência.

9. O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira censura aqui certa mentalidade, pela qual as pessoas fazem algo por Deus, com a ajuda do próprio Deus, e se vangloriam disso a seus próprios olhos, como se Deus pudesse se contentar com as sobras de nossa atividade.

10. A enumeração das coragens do cavaleiro obviamente não visa a ser exaustiva. Trata-se de trechos do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira recolhidos a partir de diversas fontes.