A CAVALARIA NÃO MORRE

 

 

EPÍLOGO

Disseram pois os ímpios no desvario de seus pensamentos:

— Armemos laços ao justo, porque nos é molesto e é contrário às nossas obras.

Só o vê-lo nos é insuportável; porque sua vida não é semelhante à dos outros e o seu proceder é muito diferente.

Somos considerados por ele como pessoas vãs e abstém-se do nosso modo de viver como duma coisa imunda.

 

(Cf. Sagrada Escritura, Livro da Sabedoria, II, 12-16).

 


Índice

ALEGORIA

     

Galeón_Santisima_Concepción_sec_XVII

Galeón Santisima Concepción ( Séc. XVII )

 

NÃO QUERO imaginar um galeão inteiramente excepcional, como o Royal Soleil, por exemplo. Concebo um galeão médio, de boa categoria, que por causa disso participa da majestade do Royal Soleil. Num fundo do mar que estou figurando ser o Caribe. Mas não imagino um galeão afrancesado. Eu o figuro com grande categoria e espanhol.

O galeão transesférico* propriamente dito é espanhol. Com aquela nota de majestade um tanto carrancuda, um tanto desconfiada, e um pouquinho resmungona, que caracteriza certas coisas da arquitetura espanhola.

Na proa, um nicho para imagens, trabalhado, sério, alto, grande. A popa com aquele ar de velho solar espanhol, muito nobre.

Posto no fundo do mar, com a carranca e com a agressividade de um navio de guerra.

Eu o imagino muito no fundo, com uma camada grossíssima de areia meio gelatinosa, de não sei que substâncias, de vegetais mortos, de musgos. De vez em quando uns corais, emergentes como esqueletos de pedra, se erguendo como dedos de dentro do mar, e que estão encostados em uma parte do galeão, ajudando a mantê-lo de pé.

Vários canhões azinhavrados. De dentro do canhão se vê sair uma miniatura de polvo que mora lá dentro, que fez daquilo sua casa.

De outro lado, percebe-se a água que se move com suas pulsações. A luz atravessa a água e ilumina aquele fundo de mar, o qual fica como uma gelatina um tanto luminosa. Outras partes ficam na escuridão. E quando vêm aquelas pulsações, o galeão se move ligeiramente, e toda aquela espécie de gelatina de areia em que ele está posto também se move um pouco, de cá para lá, de lá para cá.

Séculos dentro do mar, o galeão está. Quase em pé, escorado por bancos de coral e coisas assim. Inteiro, mas um pouco inclinado.

Uma catástrofe completa. Entretanto, ele não rolou para o chão.

Toda a glória, todas as esperanças, todo o futuro do galeão estão sepultados ali sem desespero, sem frenesi, sem desânimo e sem contorção nervosa.

Podemos imaginar que de vez em quando se desprenda do galeão uma como que figura aérea e mitológica que sai de dentro do mar e atormenta como um Adamastor aqueles que passam. Como um protesto de que ele ainda voltará.

O mundo da lenda é uma forma em geral poluída, mas com coruscações bonitas, do mundo da transesfera*. Melhor ainda é figurar personagens que existiram, ampliando-os de tal maneira que realizem um ambiente de transesfera*.

*   *   *

ESSE GALEÃO arquetípico*, transesférico*, o que é que representa, no fundo?

Ele representa uma dureza especial do senso da finalidade, pelo qual a pessoa raciocina da seguinte maneira:

"Sendo eu como sou, tão idêntico à minha matriz primeira, é certo que não quebrarei. Todos esses séculos, todas essas águas, todas essas circunstâncias não são senão obstáculos que eu sobrepujo".

Enfrento sobrepujando

e sobrepujo dando de mim

 mais do que tudo isso.

"Eu sinto algo maior do que tudo isso, que nasce dentro de mim e que arma a proa contra tudo isso. Dia virá em que tudo isso entrará nos eixos".

O que tanto pode ser uma esperança profética quanto, em nível de transesfera, a segurança de que um dia o juízo de Deus virá. Ou as duas coisas juntas.

O galeão não tem, é verdade, nenhuma consolação durante esse tempo de derrota. É bem verdade. A não ser a consolação permanente da sua própria certeza!

É preciso dizer que é uma forma de coragem total, radical. É uma forma de fortaleza impressionante.

 

O fundo do mar é especialmente augusto pelo silêncio e pela penumbra . O ruído das ondas não chega até o fundo, e lá nada se ouve. É a região da não sonoridade.

Isolamento, penumbra, silêncio, apenas o irracional existindo lá dentro, e, sentado nesse irracional, o infortúnio de um sonho, de um império de transesfera, que a estupidez e a brutalidade dos homens não permitiu que se realizasse...

... Mas que fica com a proa apontada para a História.

 

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