"Catolicismo", n 417, setembro de 1985 (www.catolicismo.com.br)

Nos planos espiritual e temporal,

desestabilização que tende para o caos

NA CONFERÊNCIA de abertura do V Encontro Nacional de Correspondentes e Esclarecedores da TFP, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira analisou, em visão de conjunto, os fatos nacionais e internacionais de maior importância ocorridos nos últimos seis meses, e que denotam uma desestabilização geral. Julgamos conveniente transcrever a seguir os trechos mais significativos dessa substanciosa conferência, para o conhecimento de nossos leitores.

PENSANDO EM ALGUMAS palavras para vos dirigir na inauguração deste Encontro, pareceu-me que nada seria melhor do que apresentar-vos um resumo dos grandes e tormentosos acontecimentos, prenhes de tantas ameaças e de tantas esperanças, que ocorreram nos últimos meses.

Todos nós, de mais ou de menos longe, presenciamos esses acontecimentos. Todos nós, por assim dizer, os vivemos. É-nos grato, entretanto, rememorá-los juntos, e fazer uma ordenação de todos, para nos perguntarmos a nós mesmos que sentido de conjunto, assim ordenados, eles assumem, para que futuro conduzem, que provas de fidelidade e de dedicação eles pedirão a nós, no serviço da Santa Igreja Católica e da civilização cristã, a serviço do Brasil e dos diversos países em que a Providência nos fez nascer.

Costuma-se dizer que os meios de comunicação social narram os acontecimentos. É bem verdade. Há muitos acontecimentos que não conheceríamos se não fosse a ação deles. Mas sobretudo quantos desses meios de comunicação velam os acontecimentos? Não tanto pelas verdades que não contam, não tanto pelas inverdades que afirmam, quanto pelos aspectos de conjunto que não revelam. É para vos dar essa visão de conjunto que evocarei os grandes fatos essenciais desses seis meses, relacionados com aquilo que é, para nós, como o que foi para os Reis Magos a estrela de Belém: a Igreja e a civilização cristã, que nos conduzem ao Menino Jesus.

A primeira série de acontecimentos, dos quais nos ocuparemos de modo todo especial, é a visita do Santo Padre à Holanda, ao Luxemburgo e à Bélgica. Como tudo passa depressa hoje!... Foram dias tenebrosos para nossos corações de católicos. A tal respeito, os jornais nos trouxeram diariamente noticias inimagináveis. E as notícias eram ainda de porte menor do que a realidade que o noticiário dos jornais holandeses descrevia!

Foram dias de tormenta, que será necessário nós considerarmos exatamente, para termos idéia do que representou, e, em profundidade, continua a representar para o mundo.

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O progressismo, infelizmente, minou a Holanda a fundo. E quando João Paulo II deliberou visitar esse país, havia entre ele e certa faixa ideológica de holandeses - os católicos progressistas - uma como que frincha. A razão emergente consiste em que para duas dioceses holandesas que vagaram, João Paulo II nomeara dois Bispos de orientação antiprogressista - mais exatamente progressista moderada. Tal escolha enfureceu tanto os progressistas extremados - os quais, entretanto, se afirmam católicos - que declararam não reconhecer um deles como seu Bispo. Em outros termos, alegaram ser nula a nomeação feita pelo Pontífice. O que é um verdadeiro absurdo. Um Bispo nomeado por um Papa para determinado lugar é o Bispo daquele lugar diante de Deus. E isto basta.

Antes e durante a visita de João Paulo II, as manifestações de hostilidade contra o Pontífice foram, na Holanda, absurdas e até inimagináveis. Uma pesquisa de opinião revelou que apenas 3% dos católicos eram favoráveis a essa visita. Manifestantes colaram cartazes em muros e tapumes, oferecendo recompensa a quem assassinasse o Pontífice. Bandos de jovens invadiram, cemitérios católicos, ocupando-os dia e noite, profanando túmulos, destruindo imagens, sujando e ofendendo monumentos e igrejas. Houve quem atirasse objetos em direção ao automóvel que conduzia João Paulo II.

Sob várias formas, foram feitos protestos contra a posição da Santa Sé no caso Boff, o que demonstra, aliás, uma evidente vinculação entre as manifestações do progressismo na Holanda e no Brasil. Até mesmo nos discursos de saudação havia palavras de contestação ostensiva às posições doutrinárias recentes da Santa Sé.

Era de se esperar que, pelo menos, os católicos não progressistas, ou os católicos progressistas que se dizem moderados, preparassem para o Chefe da Igreja, que vinha ao encontro deles, uma recepção apoteótica, entusiástica. Pelo contrário, infelizmente, eles se mantiveram inertes ante estas ignominias!

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Como seria acolhida uma tal série de agressões morais, por exemplo, no reinado de Leão XIII? Ou dos Papas posteriores? Teria suscitado urna indignação tão grande, que peregrinações do mundo inteiro afluiriam a Roma, para desagravar o Papa. Todos os Bispos do mundo teriam mandado mensagens, teriam chefiado as peregrinações portadoras de protestos de todos os católicos de seus países, respondendo aos Bispos holandeses! Haveria comícios em todas as cidades do Brasil, protestando contra o que se passara na Holanda! E seria bem feito, porque o Papa é uma figura universal.

Não é dizer que isto compete só aos holandeses. Se meu pai fosse visitar a casa do vizinho, e lá o ofendessem, eu, na minha, far-lhe-ia um desagravo.

O que se seguiu ao ocorrido na Holanda? Esperava-se que os Bispos holandeses fizessem um protesto, que os católicos holandeses se levantassem à uma e externassem sua indignação, que pelo menos os episcopados de Luxemburgo e da Bélgica, visitados logo em seguida por João Paulo II, o desagravassem. Nada!

Que tenha chegado ao nosso conhecimento, apenas uma conferência episcopal do mundo - a do Chile - mandou um telegrama de desagravo a João Paulo II. Mais nada! Do episcopado mais numeroso do mundo - o episcopado brasileiro - eu não tenho notícias de qualquer manifestação de desagravo.

Mais ainda. Arrebenta aqui no Brasil o caso Boff. Frei Leonardo Boff é um dos padres mais em destaque da corrente chamada Teologia da Libertação. Frei Boff escreveu uma série de livros na linha da Teologia da Libertação. E, nesses livros, ele tem formulações inaceitáveis para um católico.

Muito brandamente, o Cardeal Ratzinger, prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, escreveu-lhe uma carta apontando esses erros, e convidando-o para entendimentos em Roma.

Quando ele lá chegou, encontrou a presença reconfortante dos Srs. Cardeais D. Paulo Evaristo Arns e D. Aloísio Lorscheider. Estava presente também o Sr. Bispo de Santa Maria e presidente da CNBB, D. Ivo Lorscheiter. Eles deixaram notório que iam lá para amparar a causa de Frei Boff.

Como não chegassem a um acordo sobre um documento a ser assinado por Frei Boff, esses Srs. Cardeais e Bispo brasileiros voltaram para nosso País. Frei Boff também. Mais tarde o Cardeal Ratzinger escreveu uma carta a este, indicando-lhe que mantivesse um silêncio reverencial durante um ano. Eu vou poupar aqui aos Srs. a lista enorme das manifestações de apoio a Frei Boff, provenientes do mundo inteiro. Os mesmos que não protestaram contra os ultrajes feitos a João Paulo II, protestaram contra a decisão da Congregação para a Doutrina da Fé sobre Frei Boff. Entretanto, esta última não constitui um ultraje, mas era uma medida de justiça. Porém, no caso de Frei Boff, cerca de duas dezenas de Srs. Bispos brasileiros acharam que era preciso tomar uma atitude.

Frei Boff permaneceu quieto. Muito humilde... mas a fogueira de protestos que se acendeu em honra a ele é colossal! O que indica isso? Tirem meus ouvintes as conclusões.

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Se os Srs. tomarem o cuidado de procurar um livro que foi publicado no Brasil em 1943, intitulado "Em Defesa da Ação Católica", verão que nele já estão apontados à vigilância dos católicos muitos erros que hoje fazem parte da Teologia da Libertação e outras correntes em ação nos meios católicos do mundo todo.

Estamos em 1985, portanto há quarenta e tantos anos estes erros vêm lavrando, lavrando e lavrando... É um cupim velho, que comeu muita e muita coisa, antes de aparecer à luz do sol. A situação, portanto, é gravíssima! A quem esta situação traz vantagem? A quem serve a Teologia da Libertação? Evidentemente, de modo imediato ou de modo mediato, serve ao comunismo internacional. Frei Leonardo Boff afirma que a luta de classes, apontada por Marx na sociedade de seu tempo, existe, e deve existir também na Igreja. Se na sociedade civil existe a luta de pobres contra os ricos, na sociedade eclesiástica deve existir a luta dos leigos contra os padres, os Bispos e o Papa. Quer dizer, é a revolução igualitária e comunista dentro da Igreja. Quem ganha com tudo isso? O comunismo, evidentemente!

Constituiu acontecimento doloroso para todos nós que, quando Frei Boff foi objeto dessa medida da Santa Sé, dez Srs. Bispos brasileiros tenham assinado um documento oficial, declarando-se inconformes com as resoluções tomadas pela Santa Sé. E depois, a título individual, mais uns sete ou oito Srs. Bispos pronunciaram-se no mesmo sentido. Seria natural que a CNBB por sua vez protestasse contra esses Srs. Bispos. Ela ficou quieta durante tempo não pequeno. E, portanto, tomou uma atitude ambígua, que mais tarde um comunicadozinho ainda mais ambíguo não concorreu em nada para esclarecer.

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Estamos, portanto, diante de uma crise universal dentro da Igreja, que já ousou na Holanda o que os Srs. nunca imaginaram que se ousasse contra um Pontífice. Ousou lá e ousou aqui! E, se um polipo tem tantas ramificações num corpo, a ponto de atacar ora a cabeça, ora um braço, e depois um pé, tem-se receio de que esse polipo vá tomando conta do corpo inteiro. É diante dessa situação que nos encontramos.

Concomitantemente ou pouco depois disso, foram se multiplicando no Brasil as invasões de terras, tomando as proporções de um alastramento enorme, por efeito da propulsão de bandos de desconhecidos - como dói dizê-lo! - dirigidos pelas CEBs. Digo ainda com maior dor, mas a verdade precisa ser dita - dirigidas por sacerdotes e por certo número de Srs. Bispos. Esse movimento de invasões desencadeia atualmente resistências tão acentuadas, que podemos dizer que o Brasil, quase de ponta a ponta, está na orla de uma guerrilha agrária.

Aparecem também, simultaneamente, notícias de que o movimento de invasões de terrenos urbanos vai recomeçar. De maneira que todo o solo do Brasil está ameaçado de uma convulsão de ponta a ponta, que só aos muito imprevidentes não fará temer que, de um momento para outro, estejamos dentro de uma revolução comunista.

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Ao mesmo tempo, nós temos a questão da Reforma Agrária. O Presidente Castello Branco estabeleceu uma lei muito marcadamente agro-reformista, chamada Estatuto da Terra. Naquela ocasião, a TFP lançou pela imprensa diária um comunicado intitulado "Janguismo sem Jango", no qual ela fazia notar que o Brasil parecia estar ainda sendo governado por Jango. Ato corajoso, em razão do grande prestígio de que o Marechal Castello Branco gozava. Ato corajoso, sobretudo, porque estávamos em ditadura.

O Brasil dormiu 20 anos sobre o Estatuto da Terra. Avisamos aos fazendeiros: Cuidado! essa lei salta de dentro da caixa do regime de exceção como uma cobra, de uma hora para outra! Ao cabo dos 20 anos saltou! E o PNRA do Sr. Ministro Nelson Ribeiro não é senão uma regulamentação, um plano para estabelecer como deve ser aplicada aquela legislação agro-reformista do Pres. Castello Branco. É um documento que pura e simplesmente visa pôr em vigor no Brasil o socialismo agrário. Mas um socialismo agrário tão acentuado, tão pronunciado, que, dessa forma, larga parte do caminho para o comunismo ficará percorrido por nossa infeliz Nação. Por assim dizer, este Plano nos deixa nos subúrbios do comunismo.

Ele leva ainda mais longe o projeto de Reforma Agrária, do que o fez o Estatuto que o Marechal Castello Branco deixou. Se a Reforma Agrária for posta em prática, vamos ter no Brasil a ruína, a miséria que ela causou em todos os demais países do mundo em que foi aplicada. Eram países prósperos, alguns exportadores de víveres, e passaram a ser empobrecidos e importadores de víveres.

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A TFP não esteve alheia a nenhum desses casos. Ela é voltada para as horas e circunstâncias em que a boa causa mais precisa dela. Assim sendo, julgamos oportuno editar nova obra sobre o candente tema. Seu título é "A Reforma Agrária socialista e confiscatória - A propriedade privada e a livre iniciativa no tufão agro-reformista", da qual sou autor juntamente com o Sr. Carlos del Campo, que se encarregou da parte econômica. (Aplausos prolongados).

A argumentação usada no livro demonstra que a eventual aplicação da Reforma Agrária nos termos do Estatuto da Terra e do Plano Nacional de Reforma Agrária constituiria para o Brasil impressionante passo no caminho do socialismo. O novo livro demonstra também a grave inoportunidade dessa aplicação, em razão do natural nexo do agro-reformismo com aspectos da Teologia da Libertação, e portanto com a crise religiosa que assola hoje o Brasil e toda a Cristandade.

Dentro em pouco, os presentes terão a oportunidade de assistir ao lançamento da nova obra, na campanha pública que se realizará no centro de São Paulo. Convidamos os correspondentes aqui presentes para assistir a esse lançamento que trezentos sócios e cooperadores estão prestes a iniciar. E os correspondentes que se sentirem em condições de atuar, poderão prestar sua colaboração neste novo lance que a TFP vai empreender. (Aplausos entusiásticos).