Plinio Corrêa de Oliveira

 

Uma influência mais forte

 

do que a mídia

 

Catolicismo, N° 556, Abril de 1997 (*)

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À direita, o Imperador Francisco José, por ocasião do matrimonio de Carlos de Áustria e Zita de Bourbon-Parma: tradição impregnada de virtudes

A nobreza pode e deve exercer sobre toda a sociedade uma influência tão grande ou maior do que a exercida pelos meios de comunicação nos dias atuais. E essa influência decorre, muito especialmente, das virtudes que os nobres devem ter e manifestar em sua atuação sobre a opinião pública.

Esse fato irrita profundamente os líderes do macrocapitalismo publicitário. Com efeito, julgam eles que, para dirigir a opinião pública, basta ter fabulosas quantias de dinheiro, grandes máquinas impressoras, poderosos aparelhos que irradiam ou teletransmitem os fatos sensacionais na mesma hora em que ocorrem, etc.

Tal idéia, porém, não corresponde à realidade. A televisão pode fazer propaganda, em suas novelas e noticiários, de uma pessoa totalmente imoral, de vida dissoluta, para apresentá-la como modelo a ser seguido pelos espectadores. Entretanto, a irradiação de uma tradição impregnada de virtudes, longa e hereditária, pode, junto a incontáveis pessoas, derrubar o efeito daquilo que é apresentado no video.

Por aí se compreende bem o papel que a nobreza pode representar junto à opinião pública.

O valor pessoal: fator decisivo dessa influência

Mas para representar bem tal papel, como deve ser o nobre? O que deve ele fazer?

Inicialmente, é indispensável salientar que, para levar avante esse apostolado de conduzir a sociedade, o nobre não precisa ser rico, pois sua capacidade de influência não depende do seu dinheiro, mas sim do seu valor pessoal. A pobreza de um nobre tem a vantagem de deixar transparecer nele o que tem de melhor, que não é a riqueza, mas o valor pessoal concebido naturalmente em ordem à doutrina da Igreja e à moral católica.

De fato, o que caracteriza um autêntico nobre, antes de tudo, é a prática consciente e convicta de sua Fé católica, da qual decorre uma conduta moral irrepreensível, cujo campo imediato de ação é sua própria família. O nobre está cercado pela família como a lua pelo seu halo. A luminosidade de seu exemplo tem como complemento normal e necessário o brilho que se desprende de seu halo familiar.

Mas, para o bem de toda a sociedade, não basta que os nobres sejam portadores dos valores que lhes são próprios. É preciso que as outras classes sociais notem tais valores nos nobres quando eles são bons católicos. Ora, essa transparência, esse modo especial de ser, que faz com que suas qualidades e atributos possam ser observados e admirados por toda a sociedade, provém de uma longa tradição.

Persuadir sem oprimir e arrastar sem forçar

Além dessa fidelilade inabalável à Fé católica, o nobre deve possuir também certas qualidades que lhe permitam exercer da melhor maneira possível essa influência benéfica sobre a sociedade.

Uma delas, e das mais importantes, é, no dizer de Pio XII, "o trato prudente e delicado nos negócios difíceis e graves". Segundo a doutrina católica, prudência é a virtude cardeal que leva o homem a dispor os meios necessários para chegar ao fim que tem em vista.

Esse trato prudente, feito com cautela e habilidade, aliado ainda ao "prestígio pessoal, quase hereditário, nas famílias nobres", faz com que os nobres consigam, ainda nas palavras de Pio XII, "persuadir sem oprimir, arrastar sem forçar".

E tal poder de persuasão e de atração sobre a opinião pública é dado pela tradição inerente à classe nobre, tornando-a capaz de conduzir até à verdade sem necessidade de empregar a força. É um poder próprio à irradiação das virtudes específicas de um nobre - boa lógica, boa argumentação, linguagem elevada, agradável e atraente, distinção, etc. - que o habilitam a influir nas almas para levá-las ao bem.

A sociedade moderna, porém, impregnada pelo desprezo aos antigos estilos de vida, ao antigo tipo humano, não costuma consultar a nobreza antes de agir, de tomar alguma resolução importante, de realizar algum empreendimento. Entretanto, isto se dá porque geralmente a nobreza, já nos dias de Pio XII, não estava especialmente empenhada em fazer brilhar, aos olhos da sociedade, os valores, os talentos e as qualidades que tinha ou que deveria ter. Mas se os nobres se empenharem em possuir esses talentos e qualidades, mesmo nos dias de hoje existe um número incontável de pessoas que saberão reconhecer e dar valor a ditos talentos e qualidades, facilitando assim a missão benéfica da nobreza sobre as demais classes sociais.

O infortúnio é o pedestal da grandeza

Nos tempos modernos, em meio aos numerosos golpes que sofreu, a nobreza deveria saber aproveitar essa oportunidade muito especial de mostrar sua própria grandeza. Ou seja, ter diante do infortúnio uma atitude condizente com sua longa tradição. Pois toda instituição, vista à luz de seu próprio infortúnio, deixa ver sua própria grandeza.

De fato, o infortúnio faz com que o homem cresça e mostre de maneira mais nítida suas qualidades. Com uma instituição, como a nobreza, sucede o mesmo. Se ela receber o infortúnio como deve, suas qualidades - e entre elas, muito especialmente, sua grandeza - brilharão com mais intensidade aos olhos de todos.

Pois o infortúnio confere grandeza a incontáveis situações. Há traços de grandeza em situações de infortúnio que são de uma beleza incomparável. Foi grande o número de santos que morreram em infortúnios tremendos, mas envoltos em halo de enorme grandeza. Sem falar no exemplo infinitamente sublime de Nosso Senhor Jesus Cristo, em quem o supremo infortúnio da morte na Cruz coincidiu com o ápice da grandeza em sua vida terrena.

Assim, se a nobreza tomar com espírito de seriedade, verdadeiramente católico e sobrenatural, o infortúnio que sobre ela se abateu em tantas situações e em tantos países, sua grandeza reluzirá com brilho especial aos olhos de todos na época presente e nos tempos futuros. Pois o infortúnio é propriamente o pedestal da grandeza.


(*) Excertos de conferência pronunciada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP em 14 de novembro de 1992, comentando, a pedido destes, a obra de sua autoria Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana (Editora Civilização, Porto, 1992).


 

Maria Stuart e Maria Antonieta: sublimadas pela morte

A História dá exemplo de vários reis e rainhas que, enquanto tais, tiveram uma atuação e um comportamento muito a desejar, tanto por seus erros como por suas omissões, tanto na esfera política como no campo moral.

Tais governantes, entretanto, confrontados com uma situação de infortúnio, que para eles se configurava como a condenação à morte violenta, souberam encará-la com serenidade e espírito de fé, transformando o cadafalso em que subiram no pedestal de sua própria grandeza.

Desses exemplos históricos, escolhemos o de duas rainhas, que parecem ser dos mais significativos: Maria Stuart e Maria Antonieta.

Maria Stuart dirige-se ao patíbulo (pintura de Scipione Vannutelli, sec. XIX)

Maria Stuart (1542-1587) foi rainha de França, enquanto esposa de Francisco II, de 1558 a 1560. Com a morte prematura do jovem e debilitado rei, voltou ela à Escócia para ocupar o trono de seu país natal, a que tinha direito como única filha legítima do finado rei Jaime V.

Entretanto, seu comportamento como rainha da Escócia, especialmente do ponto de vista moral, foi bastante reprovável. Não só introduziu na corte escocesa os divertimentos renascentistas vigentes na corte francesa, como se tornou conivente com uma conspiração que eliminou seu segundo marido, Lord Henry Darnley, para poder casar-se com seu favorito, o Conde Bothwell, cabeça da referida conspiração. Este fato provocou um levante contra ela, obrigando-a a fugir do país. Imprudentemente, pediu asilo à sua acérrima e mal disfarçada inimiga Elizabeth I, da Inglaterra, que a conservou prisioneira por quase 20 anos, terminando por mandá-la executar a pretexto de seu suposto envolvimento numa conspiração que se destinava a matar a soberana inglesa.

Diante da morte, Maria Stuart conservou uma fidelidade total à sua fé católica, da qual nunca se afastou, mesmo em seus piores momentos, e fez questão absoluta de morrer como católica, recusando todos os ministros hereges que lhe eram oferecidos. A maneira como se portou diante do infortúnio lhe conferiu o halo de grandeza com que seu nome aparece na História.

Sobre a transformação sofrida por Maria Antonieta (1755-1793) diante do infortúnio, assim se exprimiu o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

"Em pleno desabamento do edifício político e social da monarquia dos Bourbons, quando todos sentiam o solo ruir sob os pés, a alegre arquiduquesa d’Áustria, a jovial rainha de França, cujo porte elegante lembrava uma estatueta de Sèvres, e cujo riso tinha os encantos de uma felicidade sem nuvens, bebia, com dignidade, com sobranceria e com resignação cristã admiráveis, os goles amargos da imensa taça de fel com que resolvera glorificá-la a Divina Providência.

"Há certas almas que só são grandes quando sobre elas sopram as rajadas do infortúnio. Maria Antonieta, que foi fútil como princesa e imperdoavelmente leviana na sua vida de rainha, perante o vagalhão de sangue e miséria que inundou a França, transformou-se de modo surpreendente. O historiador verifica, tomado de respeito, que da rainha surgiu uma mártir, da boneca uma heroína..." (Catolicismo, n° 463, Julho de 1989, contracapa).


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