Plinio Corrêa de Oliveira

Plinio Corrêa de Oliveira

Conferência de Encerramento do I Congresso de Catolicismo

27 de janeiro de 1961

 

( Transcrição de fita magnética - sem revisão do autor )

 

 

 

Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Arcebispo de Diamantina;

Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Bispo de Campos;

Alteza Imperial;

Reverendíssimo Padre Provincial;

Reverendíssimo Vigário;

Excelentíssimo Senhor Prefeito Municipal;

Reverendíssimos Senhores Sacerdotes;

Minhas Senhoras e

Meus Senhores

A conferência que eu vou pronunciar nesta noite deveria ter sido a conferência inaugural da Semana de Estudos. Entretanto, por circunstâncias que são do conhecimento de todos, infelizmente não foi possível estar presente à sessão inaugural, razão pela qual esta conferência é pronunciada neste momento; o que traz, naturalmente, o inconveniente de que muitas das noções que ela contém deveriam ser preparatórias, e servem de encerramento. Elas servem talvez de retrospecto que ajuda a pôr em ordem o conjunto de noções dadas nesta Semana de Estudos.

E o tema escolhido para o assunto foi um tema que me pareceu – e pareceu aos Excelentíssimos Senhor Arcebispo e Senhor Bispo – de muita utilidade no momento presente, pois que não só se relaciona com as questões aqui tratadas, mas também se relaciona com o assunto dos mais importantes dos dias que correm.

Nós devemos demonstrar, na conferência de hoje, a incompatibilidade irremediável e visceral entre a doutrina católica e o socialismo. E devemos tomá-lo de um ângulo que não deixe margem a nenhuma dúvida a esse respeito. Não só mostrando que se trata de uma incompatibilidade insanável, mas mostrando que essa incompatibilidade se dá nos fundamentos, e que são os próprios fundamentos da ação moral e moralizadora da Igreja que colidem com os fundamentos do espírito e da ação socialista.

De maneira que estamos numa dessas incompatibilidades que são bem a realização da Inimicitias Ponam de que nos fala a Sagrada Escritura; aquela inimizade, aquela incompatibilidade fundamental e total entre o Bem e o Mal, entre a Verdade e o Erro, entre a Verdade completa que é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana e, de outro lado, o erro radical e brutal da doutrina do Socialismo.

A atualidade do problema reside no seguinte: há 20 anos atrás, por exemplo – ou há 30 anos atrás – a propaganda anticomunista [que] se fazia no mundo inteiro girava em torno de determinados pontos que mostravam, sem dúvida, um aspecto do comunismo, mas não mostravam outro aspecto dele. De maneira tal que, com o correr dos tempos, um certo equívoco se estabeleceu na matéria: a erupção do movimento comunista na Rússia, as crueldades a que os comunistas se entregaram nela, a repetição de fatos análogos, numa nação gloriosa e heróica – aqui representada por dois jovens – e que era o México, dava uma idéia de uma hostilidade brutal – para não dizer bestial – do comunismo contra a Igreja.

A perseguição religiosa desencadeada pelo comunismo era algo tremendo, pois não só todas as igrejas eram fechadas, como as imagens eram profanadas, como os santuários eram transformados em lugares de uso civil, como o culto era completamente proibido até mesmo nas casas particulares, como – ainda – os sacerdotes eram objeto das maiores profanações.

Lembro-me bem de um desses atos de perseguição atroz, vandálica, dos quais não se fala mais hoje, porque a palavra de ordem no momento é manter em silêncio tudo aquilo que possa colidir muito de frente contra o comunismo.

Mas eu me lembro bem de uma coisa terrível que fizeram os comunistas: tomaram um conjunto de sacerdotes católicos e cismáticos, bispos católicos e cismáticos, e jogaram-nos num imenso caldeirão de água quente; num caldeirão onde eles entraram vivos, e, neste caldeirão, eles foram cozinhados até morrer, até se despregarem as carnes dos ossos. E, depois, o líquido resultante dessa tremenda cocção foi, pelos comunistas, absorvido.

Os srs. compreendem... Brutalidades dessas chamam horrivelmente a atenção do público. E elas tiveram a vantagem de criar – isto é, a divulgação delas – um impacto emocional da opinião pública contra o comunismo. E se deve dizer que esse impacto contribuiu, em medida não pequena, para estabelecer uma barreira entre Ocidente e Oriente, de maneira tal que os erros do Oriente não penetrassem demais no Ocidente.

Porém, ao mesmo tempo que a divulgação e a análise de monstruosidades dessas tinham sua vantagem, entretanto, deve-se dizer que o fato de se bater só nesta tecla e de se bater nela durante muitos anos [e] apesar da insistência dos documentos pontifícios venham apresentando o comunismo sob outros aspectos, só este foi tratado.

O resultado disso foi que ficou na opinião pública uma certa idéia de que o conflito entre o comunismo e a Igreja vinha apenas do fato do comunismo ter perseguido a Igreja. Não se percebia bem que, além desse conflito que podia, afinal de contas, não ter causas doutrinárias, poderia ser um conflito por razões ocasionais, razões transitórias; portanto, que havia, atrás do comunismo, toda uma filosofia incompatível com a Doutrina da Igreja; e, mais do que uma filosofia, tinha uma sociologia deduzida dessa filosofia: uma tomada de posição na ordem prática, que era conexa com essa filosofia. De maneira tal que, per diametrum, o comunismo se opunha à Religião Católica, e, com ele, essa forma adocicada de comunismo que nós podemos chamar o Socialismo.

O resultado foi que, com a guerra mundial, com o triunfo do comunismo em grande número de países da Europa Central e da Ásia, com a expansão do comunismo no mundo inteiro, com o perigo de que a oposição ao comunismo venha criar uma outra guerra mundial com os horrores da deflagração atômica, começou-se a criar nos espíritos a idéia de que era preciso encontrar – para evitar esse cúmulo de males - era preciso encontrar um meio termo, era preciso encontrar um ponto de reconciliação, e que este ponto era, talvez, até uma condição de sobrevivência para a humanidade.

Esse ponto, muitos espíritos imaginaram que se poderia fazer da seguinte maneira: a Igreja Católica continua a viver nos países comunistas, Ela não será perseguida, os padres poderão fazer os atos de culto, eles poderão ensinar a Doutrina Católica, e assim poderão salvar as almas. O comunismo vive fora das portas da Igreja, ele então domina a situação temporal. E nós temos uma Igreja que vive num meio inteiramente alheio a ela, com a sociedade temporal e comunista, mas enfim, ela vive. Enfim, se lhe dá uma certa liberdade e ela pode fazer bem às almas, e se estabelece um desses modus vivendi que evidentemente não constituiu um bem, que pode constituir um mal, que pode constituir até um mal muito grave. Mas que nós poderíamos considerar, de parte de um certo ponto de vista, como algo de menos insuportável do que uma guerra atômica, uma guerra com o desdobramento das energias da bomba de hidrogênio e o arrasamento final da humanidade.

E assim, do fundo do medo, do fundo da tragédia, emerge uma miragem. E essa miragem é de que esse regime de paz entre a Igreja e o socialismo, ou [entre a] Igreja e o comunismo, pode fixar-se e que, em última análise, o Comunismo, com um acordo desses, não atacará a Igreja porque, se a Igreja não o amola, ele também não amola a Igreja. E, embora de vez em quando um olhe para o outro com a cara um pouco feia, a vida continua. Então, os espíritos tranqüilos, os espíritos bonachões, os espíritos que gostam de ver um dia de amanhã róseo sem pensar no depois de amanhã, se sentem violentamente propensos a aceitar esse acordo.

Ora, o que se deve pensar dessa possibilidade? Na aparência, se poderia dizer que ela até tem precedente. Porque, como nós já tivemos ocasião de comentar na Semana de Estudos, a separação da Igreja e do Estado é um mal – pela Doutrina Católica e até um mal grave – mas a Igreja, para evitar um mal maior, tem aceito em muitos países o regime da separação.

E por isso tem-se estabelecida, afinal de contas, a situação de tolerância recíproca em que a Igreja vive. Se a Igreja vive no regime da separação, por que é que não viverá Ela num regime mais hostil ainda? Por que é que não haverá outra acomodação? Em teoria, o comunismo é mau. Mas na ordem prática das coisas nós nos damos os braços, nós vivemos bem, e o mundo continua a rodar...

Esta esperança otimista tem uma importância política imensa porque se ela corresponde a algo de legítimo na ordem da doutrina, se ela corresponde a algo de praticável e viável e de sério na ordem dos fatos, se isto é assim, então nós chegamos à conclusão de que talvez não valha a pena lutar. E como a tendência, infelizmente, do católico contemporâneo num número exagerado de vezes consiste precisamente em não lutar, então nós temos como conclusão que uma imensa quantidade de pessoas, mesmo das próprias fileiras católicas, começarão a cruzar os braços. E, depois de cruzar os braços, a estender as mãos. E, depois de estender as mãos, dar os braços... Então nós teremos as portas abertas para o comunismo.

Se, pelo contrário, isso não é assim, então nós temos que reagir, porque nós estamos entre a espada e a parede. E o ser que está acuado entre um perigo iminente e uma grande reação, porque ele não tem outra saída, então, movido pelas próprias energias tão violentas do instinto de conservação, ele se levanta, ele se atira, ele reage.

E, portanto, o problema que está em jogo nesta questão que parece apenas doutrinária, esse problema é um problema que tem um interesse prático e concreto de soberana importância, e nós devemos abordá-lo na noite de hoje.

A primeira noção que nós devemos dar aqui e a partir da qual se pode provar o erro que há nessa concepção, [é] para, em 1º lugar, que é que ela é ilegítima; e, em 2º lugar, que ela é totalmente impraticável, porque o comunismo não só não aceitará como, pela ordem mais profunda de sua própria essência, ele não poderá aceitar seriamente essa combinação.

Essa demonstração se faz a partir da primeira noção de liberdade. É a partir da noção de liberdade que nós poderemos mostrar qual é a posição do comunismo; mas a partir da noção de liberdade não no sentido de escolher liberdade. Não é de uma liberdade qualquer, não é dessa liberdade de ideal, dessa liberdade leiga que tantas vezes se vê por aí, mas a partir da noção católica de liberdade, creio eu que é das noções menos conhecidas e mais importantes para toda sociologia católica.

Agora, de outro lado – desenvolvendo a noção católica de liberdade – nós temos a oportunidade, nos flancos dessa demonstração, de mostrar também tudo que nos separa do Liberalismo e do Socialismo, e qual é a verdadeira linha católica igualmente imaculada de compromissos com o Liberalismo e Socialismo e que constitui a fonte inspiradora dos princípios sociais, políticos e de toda espécie, que devem reger a humanidade na era futura, que será – nós disso estamos certos – o reinado de Nossa Senhora! Nós devemos analisar, portanto, antes de tudo a noção de liberdade.

Essa noção de liberdade é, naturalmente, vista ou examinada em muitos documentos pontifícios, mas em nenhum desses documentos essa noção é apresentada com tanta clareza e com tanta força quanto na encíclica de Leão XIII, Libertas Prestantissimum, que o grande Pontífice escreveu especialmente para ilustrar esse ponto, e tentando resumir o quanto possível – pelo adiantado da hora – a noção que o Papa dá.

Nós devemos começar por estabelecer um princípio que é o seguinte: segundo a Doutrina Católica, todos os seres têm um fim; eles foram criados com um fim, e que o fim último desses seres é Deus Nosso Senhor. E que, considerando apenas os seres que não são dotados de razão, todos eles pela ordem do universo se movem – ou porque são movidos ou porque por sua força vital eles se movem – eles se movem para o fim para o qual foram criados. Quer dizer, todos os seres que existem e pertencem à ordem do irracional, todos esses seres movidos pela providência de Deus – inconscientes embora – realizam aquilo que Deus deles desejou.

Então nós temos aquele panorama do universo movido pelo amor de Deus, que Dante cantava quando ele falava do amor que move o sol e as estrelas: é todo amor de Deus movendo o universo segundo a natureza.

Agora, acima de todo esse universo material, nós temos o homem. E, considerando o homem, nós notamos nele uma diferença fundamental em relação aos outros seres, pelo fato de que o homem é dotado de inteligência: ele conhece, ele se conhece a si próprio, ele inteligente, ele vê.

E, por outro lado, o homem é dotado de vontade. Ele não só pela inteligência alcança a verdade, mas, pela vontade, ele quer aquilo que sua razão lhe mostra. E é, portanto, por um movimento altíssimo, de altíssimo nível que brota dele para fora, que o homem é chamado por Deus para realizar o seu destino, não de uma maneira cega, de algo que é movido, mas à maneira consciente de algo que por si mesmo entende e que dá esse consentimento de sua vontade ao ato que Deus dele quer.

Mas também o homem deve tender para seu fim; também o homem – como os outros seres, embora de um modo consciente e livre – deve visar seu fim. E ele participa por essa forma deste grande movimento do universo, que é essa tendência para Deus, e marcha para essa finalidade que é Deus Nosso Senhor.

Então, diz Leão XIII: o que é que é propriamente o objeto da inteligência é a verdade; a inteligência foi criada para conhecer a verdade.

Qual o objeto próprio da vontade? É o Bem, e é o Sumo Bem que está no alto de toda hierarquia dos bens intermediários.

E, então, o que é a liberdade? Esta existe quando a vontade pode, sem obstáculos, atingir ou tender para o fim que lhe é próprio. Portanto, a liberdade é, por excelência e por definição, a faculdade e a possibilidade de alcançar o seu fim último. É essa a verdadeira liberdade.

E, por causa disso, nós dizemos que Deus é infinitamente livre, Deus é soberanamente livre, Deus tem o seu fim último em si mesmo; Deus realiza tudo que Ele quer para sua própria glória, sem nenhuma espécie de obstáculos. O fim, que é Si próprio, este fim é realizado por todas as criaturas sem que Deus encontre obstáculos.

A liberdade não consiste na faculdade de fazer o mal; a faculdade de fazer o mal é uma limitação da liberdade. Deus é mais livre do que qualquer outro ser e, entretanto, Deus, por sua própria essência, não pode fazer o mal.

Nós tomamos os anjos e os santos do Céu: eles estão confirmados em graça, eles não pecarão mais; eles são muito mais livres do que nós pecadores, que sentimos nossa vontade solicitada por toda espécie de debilidade; sentimos que, enquanto nossa vontade deve se dirigir para um fim bom, toda espécie de paixões desregradas em conseqüência do pecado original se movimentam para desviar-nos desse fim.

Nós tivemos, na História da Igreja, almas confirmadas em santidade. Os apóstolos foram confirmados em santidade ainda nesta terra, eles tinham uma liberdade tal que eles não iriam pecar embora pudessem ser tentados. Pois bem, esta liberdade era muito maior que a liberdade nossa de homem, que somos pecáveis. Que dizer, a possibilidade de pecar, a sedução para o mal, a atração para o mal, são circunstâncias que limitam a liberdade, porque a liberdade verdadeira tende para o bem, e ela é cooptada no seu movimento nobre e belo para sua verdadeira finalidade.

A conseqüência desse princípio é que o vício, o erro, são coisas que diminuem a liberdade; e que, numa sociedade, quando se deixa o erro solto, o vício impera. Quando se permite que o mal se espalhe à vontade, essa não é uma sociedade livre, porque essa é uma sociedade que vai sendo reduzida à tirania do erro e à tirania das paixões. E – como muito bem observa Leão XIII – a tirania está no erro; e não está apenas nas paixões, porque a verdade nos indica nosso fim e nos encaminha para ele. O erro, tirando da visão do nosso fim, nos desvia desse fim e constitui para nós uma limitação de nossa liberdade.

De onde se coloca como ponto fundamental a idéia de que um Estado verdadeiramente livre, de acordo com a Doutrina Católica, não é o estado que permite todos os erros, não é o Estado que permite todos os cultos, não é o Estado que permite que todos os vícios se estadeiem impunemente; é, pelo contrário, o Estado que reprime o erro, que reprime o mal. E é pela repressão do mal que o homem é verdadeiramente livre.

E aí nós encontramos, então, a razão pela qual Leão XIII, na Encíclica "Libertas", condena as chamadas liberdades modernas. Liberdades que já eram modernas no tempo dele, mas que continuam sendo apresentadas como moderníssimas em nossos dias. E que, precisamente porque são liberdades muito caras ao espírito liberal, é conveniente mostrar aqui, com textos pontifícios, de que maneira elas se opõem ao pensamento católico. Por exemplo: a liberdade de cultos. Quantos católicos há que, se nós fizéssemos um inquérito entre católicos e que perguntados sobre se o Estado deve dar liberdade às igrejas heréticas e cismáticas, responderiam sem vacilar: "Naturalmente; é uma solução magnânima e cristã".

Vamos ver o que, a respeito da liberdade de cultos, diz Leão XIII. Diz ele o seguinte: "Para o indivíduo professar a religião que lhe agrade, ou mesmo não professar religião alguma, não é liberdade: é escravidão". E acrescenta: "Não é liberdade; é uma escravidão da alma na direção do pecado, a liberdade de cultos". Esta liberdade de cultos tão querida – querida como uma espécie de tesourinho interno por tantas pessoas de espírito liberal. E, isto, diz ele da liberdade de cultos considerada na pessoa. Quer dizer, o homem não tem o direito de escolher qualquer religião: ele tem obrigação de escolher a religião verdadeira.

E Leão XIII acrescenta, a esse propósito, um princípio também muito esquecido; ele diz que "A verdadeira Igreja é fácil de conhecer, principalmente nos países católicos, por alguns sinais que provam com tanta clareza que ela é a Igreja Divina que, realmente, não pode haver dúvida a esse respeito para as almas retas sempre assistidas pela graça de Deus".

Agora, vamos ver o que se diz da liberdade de cultos enquanto autorizada pelo Estado. Diz ele: "Afirmar que todas as religiões têm os mesmos direitos, é conferir uma liberdade que prejudica a liberdade verdadeira, quer dos governantes, quer dos governados; porque a prosperidade do governo de uma nação aumenta em proporção de sua moralidade, e a moralidade tem como base a religião verdadeira. De onde, tirada a religião verdadeira de seu trono, e, portanto, debilitada a moralidade pública, os homens se tornam piores; e, tornando-se piores se tornam [não] livres. Mais ainda: os homens bons que continuam, ficam perseguidos pelos maus, ficam opressos pelos maus; e aí desaparece também a própria liberdade dos bons".

Agora, alguma coisa sobre a liberdade de palavra.

Também é o pensamento de Leão XIII: "Os extravios de um espírito licencioso que, para a multidão se convertem facilmente simulacros de verdades, devem ser justamente punidos pelas autoridades das leis. Concedei toda liberdade de falar e escrever, e nada haverá que continue a ser sagrado e inviolável; nada será poupado, nem mesmo estas verdades primárias, estes grandes princípios naturais que se devem considerar como um nobre patrimônio, comum a toda a humanidade. E pouco a pouco serão erodidos esses princípios pelas trevas; o que se vê que muitas vezes sucede com a dominação dos erros mais perniciosos. A licença então ganhará e a liberdade perderá, pois ver-se-á sempre a liberdade [licença] crescer e consolidar-se à medida que a licença [liberdade] for cerceada".

A licença é a liberdade para o mal, é a caricatura da liberdade. À medida que ela for refreada, a verdadeira liberdade se desenvolverá.

E eu não resisto – apesar do adiantado da hora – à tentação de ler mais uma afirmação, mais um ensinamento do Papa sobre a liberdade de ensino. Diz ele: "O dever de todo aquele que se dedica ao ensino é extirpar o erro dos espíritos, é opor forte proteção à invasão das falsas opiniões. É, pois evidente, que a liberdade de ensino, arrogando-se o direito de tudo ensinar a seu modo, está em contradição flagrante com a razão. E nasceu para produzir transtorno completo nos espíritos; o Poder Público não pode consentir em tal licença, senão com o menosprezo de seu ideal".

Nós temos portanto aqui a razão pela qual a Igreja reprime essas falsas liberdades, pela defesa da verdadeira liberdade.

Depois de ter dado, assim, a definição da verdadeira liberdade, e depois de ter mostrado como as falsas liberdades são o oposto disso, nós devemos dar aquilo que talvez se pudesse chamar ‘a descrição da verdade, da liberdade verdadeira’; não mais tanto uma definição quanto – talvez – antes uma descrição.

Qual seria a descrição dessa liberdade verdadeira?

Desde que a liberdade é concebida, em tese, como um movimento desembaraçado, normal, sem obstáculo, de um ser para seu fim, nós devemos considerar que há uma relação entre a natureza e a propriedade de cada ser e o fim que esse ser deve realizar.

De tal maneira que todos os seres têm certas propriedades internas que eles desenvolvem para a realização de seu fim. E no homem que é verdadeiramente livre – pois a liberdade só existe, no sentido verdadeiro da palavra, para o ser espiritual – todo homem terá, então, determinadas peculiaridades, determinados modos de ser, determinadas riquezas de personalidade, que constituem a sua própria característica absolutamente inconfundível, e que fazem – pelo menos assim penso eu – com que cada alma humana, cada ente humano – para dizer melhor –, considerado na sua individualidade, representa uma riqueza tão grande que por algum ângulo – por modesto que seja esse ângulo, por pequeno que seja esse ângulo – por algum ângulo, esse ser é algo que é superior a todos os outros seres.

Para exemplificar, se pudermos admitir, por exemplo que, de todos homens, o mais eminente dos nossos dias em vários sentidos, é Winston Churchill, e se nós tomarmos o mais modesto dos homens que existe sobre a terra, nós encontraremos nele a possibilidade de, em algum pequeno e modesto campo, ele até ser superior a Churchill. Cada homem assim criado é, num certo sentido – penso eu – uma espécie de maravilha suprema. E aqui está a beleza da individualidade humana: é naquilo que ela tem de peculiar.

E é o desenvolvimento harmônico de toda esta beleza, de toda esta maravilha, que faz com que o homem alcance a sua plenitude e, alcançando a sua plenitude, alcance a sua santificação. Pois a santidade do homem é a conformidade com a vontade divina, é a realização do plano de beleza, do plano de santidade que Deus teve para com cada homem.

E é por isso que se pode dizer que a santidade de tal maneira realiza ou de tal maneira desenvolve as peculiaridades de cada personalidade, que ao mesmo tempo se pode afirmar que nada é mais parecido com um santo do que outro santo. Mas quando a gente lê a vida dos santos, a gente tende a dizer que nada é mais diferente de um santo que outro santo. Stella difert stella diz São Paulo – uma estrela é diferente da outra estrela.

E é nessa maravilhosa harmonia das almas, nessa maravilhosa harmonia dos homens, que está um dos principais motivos do governo de Deus na História.

Deus, que na sua sabedoria infinita vê tudo e sabe tudo, Deus vê a harmonia existente entre todas essas almas para a constituição das famílias harmônicas, das regiões bem formadas, das nações harmônicas de almas, de uma humanidade que pode ser inteiramente harmônica de almas, desde que elas se desenvolvam na linha da santidade; concedendo maiores ou menores homens, concedendo grandes, maiores, médias ou menores personalidades a esses povos, àquelas nações, ou àquelas famílias; ou permitindo que apareçam, na terra, monstros de selvageria que Deus prenuncia e Deus governa, e com os quais Deus castiga a humanidade.

De qualquer forma, o ponto de partida que nós temos aqui é a legítima diversidade, a peculiaridade indestrutível de cada alma, e essa peculiaridade se reflete em todas as instituições humanas.

Nós temos, então, a nota característica da família.

É impossível que os senhores, entrando numa casa de família que não é a sua, não tenham sentido que entram num pequeno mundo diferente. É um pequeno mundo de harmonias diversas do próprio mundo de harmonia que os senhores estão acostumados em sua própria família. E isto é porque cada família tem as suas características, que são a projeção das características individuais reforçadas pelas leis misteriosas da hereditariedade e pela ação da educação.

O mesmo os senhores poderiam dizer – ampliando – das regiões, das nações e das raças. E assim nós conceberíamos – enquanto o mal está fortemente freado pelo Estado – nós conceberíamos o aparecimento num país, de uma multidão de costumes, de uma multidão de hábitos, de uma multidão de formas de arte, de estilos de vida, de maneiras de ser diversas e harmônicas diante de si, e refletindo a variedade maravilhosa que Deus pôs na criação.

A formação, portanto, de uma ordem de coisas, na qual estas variedades sejam respeitadas, na qual se tome o cuidado de não comprimir nada do que é justo e bom; mas que faça, pelo contrário, que o Estado chame a si a tutela de todas essas liberdades sem prejuízo do bem comum que a ele cumpre proteger; e, então, chame a si a tutela dessas variedades legítimas enquanto o mal está firmemente encadeado.

Aí os senhores têm a formação de uma sociedade orgânica. De uma sociedade como Pio XII desenvolve no seu famoso discurso a respeito de povo e massa; uma sociedade cuja vida brota de dentro para fora e se expande em mil variedades legítimas, fazendo exatamente com que essa sociedade não seja uma multidão sem consistência, que a propaganda rola para qualquer lado e que as leis dominam tiranicamente; mas, pelo contrário, uma sociedade com uma seiva vital, abundantíssima, que orienta o próprio Estado.

Em contraposição com este ideal, nós temos o ideal socialista. E, quando nós vamos analisar o socialismo, nós verificamos que ele é construído de tal maneira – para não entrar propriamente nas suas concepções filosóficas, e não olhar apenas os seus aspectos práticos – ele é construído de tal maneira que ele inverte a noção de liberdade, e ele permite tudo aquilo que a nós se nos afigura proibido, e ele proíbe tudo aquilo que a nós se nos afigura permitido, de onde ele resulta [na] pior das tiranias.

De que maneira se dá isso? O socialismo, antes de tudo, na sua índole, no seu gênio, na sua inspiração, tem a máxima condescendência com o comunismo e, mais ainda, por tudo quanto representa a paixão desregrada humana. É o orgulho que se exprime de todos os modos, é a sensibilidade que se exprime na manifestação do amor livre.

Em geral, [tudo] aquilo que a moral católica proíbe, desde que não seja destrutivo diretamente da ordem pública e social, o comunismo e o socialismo o permitem, e o permitem como coisa boa, que apenas os preconceitos do passado visavam destruir.

Mas, em oposição a isso, o socialismo é eminentemente planificador. Ele gosta, está na sua índole, na sua missão, está na sua natureza de organização estatal, que ele chame a si a direção de toda a vida da sociedade. E isto por um mecanismo de coisas que se poderia mais ou menos descrever assim: o socialismo abstrai do homem com aquilo que lhe é próprio e distintivo: ele não vê homens, ele vê o homem; um homem abstrato, em tese, que não é nenhum homem particular; e, em função desse homem, ele faz planos abstratos em tese também.

E então: plano para a alimentação. O plano mais racional para a alimentação é reduzir tudo a pastilhas. Então a pessoa toma uma pastilhinha assim, que equivale a um almoço; bebe uma gota de um líquido assim que vale por uma garrafa de água de Caxambu... Todos os homens têm que comer isto e beber isto, porque isto é o razoável. O técnico já disse. E o técnico, no regime socialista, faz o papel do Papa da Igreja Católica. O técnico, a técnica... Os tecidos fabricados todos estandartizados, as roupas todas mais ou menos estandartizadas, porque o técnico já estudou que forma de macacão convém a este macaco chamado homem. E é preciso que o homem caiba dentro daquilo. Se não couber, ele é um marginal, ele é um esquisito. E ele então vai para outro técnico que é o médico, que diz: ‘Ah! O senhor tem alergia com esse tecido? É o tecido que tem razão e não o senhor; o senhor vai ser tratado para [suportar] aquele tecido. O senhor é gordo demais para caber naquela roupa? Aquela roupa foi estudada para um homem de tamanho normal; então o senhor tem que emagrecer para caber na roupa, porque o senhor foi feito para a roupa e não a roupa para o senhor.’

Está muito tarde, e eu não multiplicarei os exemplos.

Mas até as diversões são planificadas: o que é divertido é tal coisa da televisão. Então, não há outro divertimento que aquele; porque se o senhor não se divertir com aquilo, o senhor é um pouco gagá, e o senhor tem que ir ao psiquiatra para ajustar a sua cabeça para aquele divertimento.

Os senhores dirão, talvez, que eu, para resumir, estou exemplificando e, para exemplificar, estou acentuando; e estou acentuando para tornar sensível a coisa; mas que se trata desses exageros pedagógicos necessários, como quem pega uma formiga e põe numa lente, para ver bem como é a formiga, mas sabe muito bem que a formiga não tem aquele tamanho.

Não é isso, não! Se nós analisarmos o caminho para onde o socialismo nos toca, o caminho é cada vez mais este: é o caminho da industrialização que produz produtos informes, para homens de uma pedagogia desvirilizante e monotonizante, bitola de um mesmo modo, de maneira tal que acaba tudo funcionando como uma verdadeira máquina.

Eu me lembro aqui, neste momento, de um fato que me encheu de espanto. Eu conheço uma família brasileira, que foi morar nos EEUU, teve ali crianças. Quando as crianças atingiram, digamos, seus 4 ou 5 anos, a família voltou para o Brasil, e foram morar na casa da avó. A avó preparou para as crianças uma comida comum. Essa que se dá para toda criança. As crianças recusaram. Sabem por quê? Estavam habituadas à comida norte-americana para crianças. Os senhores sabem qual é a comida? É uma comida feita, naturalmente, no liquidificador – que é uma instituição nacional – e que contém aquilo que o médico acha que deve conter; que não tem nem sabor, nem cor, nem gosto de nenhuma comida, precisamente, mas que é altamente médica. E as crianças só sossegaram quando se começou a fabricar dessa comida... Todo dia, a mesma...

Os senhores vêem o efeito disso sobre uma criança. Eu me lembro quando eu era menino, quando vinha um bolo diferente dos outros bolos, quantas variedades de vibrações diversas de personalidades eu sentia em mim, sobretudo quando o bolo tinha cerejas vermelhas e promissoras, e que me davam a idéia de que eu sentiria delícias extraordinárias ao comer aquilo.

Eu me lembro, na minha infância – tão cheia de variedades realmente esplêndidas – o desenvolvimento de personalidade que eu sentia com isso. E eu tenho pena desses pobres robozinhos, tão liquidificados de alma quanto de espírito, que vão ser, em última análise, as más peças da máquina socialista do futuro.

Essas senhoras tem liberdade para pecar... Elas podem não seguir uma religião, ter as idéias mais erradas, prematuramente se atirarem a aventuras sexuais das piores. Nisso elas são livres. Mas elas não podem ser elas mesmas porque nisso elas são escravas. E os senhores estão vendo a inversão fundamental dos conceitos transcendentais.

Alguém me dirá: ‘Mas o senhor falou contra os planos; que o homem não deve fazer planos’.

Eu considero essa objeção muito judiciosa, muito criteriosa. Ela merece – sempre apesar do adiantado da hora, que me atormenta mas que sou obrigado a chegar ao termo de meu assunto – também uma ponderação.

Na sociedade cristã – como a liberdade que se dá para o bem [é] de maneira tal que o homem, a vontade humana é dirigida pelo Estado nos assuntos em que o bem comum o exige. Mas, fora disso, ela pode agir livremente: funciona um princípio que é o princípio da subsidiariedade, que é o mais sábio dos princípios nessa ordem de coisas: "Cada homem deve ser livre de fazer, para o bem, aquilo que ele mesmo possa fazer por si e, desde que isso esteja de acordo com o bem comum, das sociedades a que ele pertence – a família, a região, o Estado. Mas quando ele precisa de apoio, ele então tem o apoio da família. Cada família é livre de fazer, por si, desde que não seja contrário ao bem comum, nem aos ditames da moral; e ela pode ser apoiada quando necessário, subsidiariamente, pela autoridade superior".

E assim, de escalão em escalão, nós chegamos até o Estado. E então nós compreendemos bem em que medida entra o planejamento legítimo, em que medida esse planejamento não entra.

O planejamento entra, em cada unidade, na medida em que se trata de suas próprias atribuições em absorver as atribuições e a liberdade de movimento da unidade inferior. Entra nesta medida e, assim mesmo considerando, algum tanto, o que há de vivo e de inesperado em tudo que é humano, para fazer planos flexíveis que vão se modificando à vista de reações eventualmente inesperadas.

Mas, fora dessa atribuição que lhe é específica, nenhum Estado, nenhum organismo entrará na esfera do organismo inferior para planificar a vida do organismo inferior, que é autônomo na sua esfera própria. Esta existência concêntrica de autonomias, com o mal e o erro sempre reprimidos, contribui para dar uma certa noção do esplendor de uma sociedade cristã.

* * *

E agora nós chegamos a nosso fim.

Num tipo de sociedade, nós vemos a possibilidade da personalidade humana se desenvolver inteira, de acordo com as leis de Deus e desenvolver-se com as graças de Deus e as bênçãos de Deus, para seguir a sua perfeição espiritual e se tornar santa. No outro tipo de sociedade, os senhores vêem, pelo contrário, a torção completa das coisas; e o homem escravo do vício e ao mesmo tempo escravo da lei; gemendo, portanto, sob o peso de todas as escravidões, comprimido no seu desenvolvimento pessoal, impedido de tomar toda sua expansão pessoal; impedindo, portanto, de realizar os planos que Deus teve a respeito dele.

De onde nós chegamos à seguinte conclusão: onde a Igreja formar verdadeiros católicos, homens de fé, homens de vontade forte, homens que amam a lei de Deus e que querem segui-la, que são conscientes de que são pessoas com uma dignidade inalienável e que querem desenvolver-se de acordo com a lei de Deus e que têm o anseio desta verdadeira liberdade, que é a liberdade de servir a Deus, nesta medida a Igreja formará sempre adversários irredutíveis do socialismo.

E, na medida oposta em que o socialismo deforme os homens, ela mutilará o homem de tal maneira que ele não poderá ser verdadeiro filho da Igreja. E, por mais que um falso acordo se estabeleça entre comunismo e socialismo e religião Católica, na ordem concreta dos fatos uma coisa matará a outra, e a luta é absolutamente inevitável.

É para essa luta – sob as bênçãos de Nossa Senhora de Guadalupe, protetora da América Latina, representada aqui por tantas nações latino-americanas – é para esta luta que nós nos devemos preparar; porque ela é inexorável, ela é de vida e de morte, e nela viverá a vida – que é a Igreja – e morrerá a morte – que é o socialismo e é o comunismo!