Plinio Corrêa de Oliveira

Idade Média: caluniada por ser realização da Cristandade na História

Conferência proferida para sócios e cooperadores

da TFP  em 25 de março de 1965

Plinio Corrêa de Oliveira

( Artigo publicado em "Catolicismo", edição de Março de 1998 - Sem revisão do autor )

 

Recentes estudos históricos vêm desmentindo, de modo crescente, as detrações revolucionárias lançadas contra aqueles séculos de Fé

 

Idade Média! Assunto não raramente abordado com preconceitos e menosprezo, mas que não deixa de suscitar curiosidade, interesse e polêmica.

De fato, na Europa, e mais especialmente na França, a produção literária sobre esse período histórico não cessa. E tal produção tem se caracterizado por um aprofundamento científico-histórico, portanto mais objetivo, a respeito de uma época histórica que era freqüentemente ignorada ou depreciada.

Assim, no final do ano passado, uma comissão de 600 autores dirigidos por outra comissão de 30 peritos publicaram -- após seis anos de trabalhos -- um Dicionário Enciclopédico sobre a Idade Média, sob a direção de André Vauchez (Dictionnaire encyclopédique du Moyen Âge, Cerf/Citta nuova/Clarke, dois tomos, 1696 páginas).

Outros exemplos poderiam ser mencionados que manifestam que "o século XX que finda nada perdeu deste gosto pelo patrimônio e os homens do ano mil", como afirma a conhecida revista parisiense "L'Express" (20-11-97).

Catolicismo já teve oportunidade de apresentar documentadamente, em diversas ocasiões, uma visão objetiva da civilização medieval, bem como, a refutação de balelas que circulam a respeito desse período (1), ao qual Leão XIII se referiu em termos especialmente elogiosos: "Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil." (Encíclica "Immortale Dei", de 1º-11-1885 - "Bonne Presse", Paris, vol. II, p. 39).

Na presente edição, temos a grata satisfação de poder oferecer a nossos leitores um texto precioso para a sua formação cultural histórica: os excertos mais importantes de conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira (2), na qual o ilustre pensador católico expõe, em uma sintética e brilhante visão de conjunto, a beleza e a harmonia desse edifício medieval.

Nessa exposição fica patente - ao contrário de imputações falsas disseminadas contra tal era histórica - a harmonia social então reinante, graças à influência da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Nela se comprova igualmente o significativo grau de civilização alcançado pelos medievais, sobretudo se comparado com a situação aviltante em que viviam largas parcelas das populações da Antiguidade pagã, como no Império Romano ou no Egito antigo.

As sombras que se podem notar no panorama medieval - o qual abrange 1.000 anos de história, em que os resquícios de barbárie foram sendo extirpados pela Igreja Católica - não empanam as luzes extraordinárias do quadro geral.

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Antes de tratar das três revoluções(3), considero indispensável a exposição do que foi a ordem católica medieval, objeto da sanha do processo revolucionário. Isto porque não há melhor meio de mostrar como a Revolução (4) foi odiosa, do que revelar o que havia de bom naquilo que ela destruiu.

Essa ordem católica concretizava-se numa hierarquia em que as várias classes sociais - entre as quais havia uma transição perfeita - resultavam da própria ordem natural das coisas.

As classes sociais

Na Idade Média a sociedade compunha-se de três classes sociais: o Clero, a nobreza e o povo.

O Clero

Clero, Nobreza e Povo

Representação das três classes sociais: Clero, Nobreza, Povo

O Clero constituía a primeira classe da sociedade medieval.

Basicamente, o Clero divide-se em Clero secular e Clero regular. O Clero secular depende diretamente do Bispo e vive em paróquias. O Clero regular é constituído pelos religiosos que moram em conventos e pertencem às várias ordens e congregações religiosas.

A hierarquia eclesiástica compõe-se, em sentido estrito, de apenas três graus: o Papa, os Bispos e os párocos. Eles constituem propriamente o poder de jurisdição dentro da Igreja.

Porém, com seu espírito profundamente matizado, a Igreja elaborou vários outros graus, que exprimem apenas um primado honorífico, uma certa liderança, mas não uma jurisdição. Tal é o caso de Patriarcas e Cardeais, Arcebispos, monsenhores e cônegos. Em algumas situações podem ser os porta-vozes naturais de determinados grupos, mas não há um mando propriamente dito.

Tais matizes honoríficos são vistos pelo povo como parte da hierarquia eclesiástica.

Os Patriarcas geralmente são Arcebispos de sedes muito antigas, que durante algum tempo tiveram liderança sobre determinadas regiões ou países, especialmente nas Igrejas Orientais. Na Igreja Latina isto ocorreu durante a Idade Média.

Primaz é o titular da sede mais antiga de um país. No Brasil o primaz é o Arcebispo de Salvador, na Bahia, que foi a primeira cidade do Brasil a ter bispos.

Os cônegos constituem uma espécie de senado do Bispo, para o governo da diocese.

Quanto ao Clero regular, as organizações das diversas ordens religiosas variam, mas, de um modo geral, obedecem a princípios comuns.

Há o Geral da ordem, que é a autoridade máxima, abrangendo todos os países pelos quais a ordem se difundiu. Abaixo dele estão os Provinciais, com jurisdição sobre as casas da ordem num país, ou em algumas regiões de um país. Finalmente, os Superiores das diversas casas da ordem, individualmente consideradas. Al?m disso, dentro de cada casa religiosa existem os sacerdotes e os simples irmãos leigos.

A Nobreza

A nobreza constituía a segunda classe da sociedade medieval.

Sua organização era parecida com a do Clero, não por ter sido copiada, mas porque corresponde ao modelo ideal de uma sociedade hierarquizada, como era a daquela época.

No topo estava o Rei, como Chefe de Estado. Abaixo dele, em ordem decrescente, os vários graus hierárquicos da nobreza: Duques, Marqueses, Condes, Viscondes, Barões. Entretanto, estes diversos graus da nobreza não eram exatamente os mesmos para todos os países.

E também havia títulos que não indicavam sempre a jurisdição sobre um determinado território, mas a posição dentro de uma família real, como os Príncipes, Grão-duques, Arquiduques, Infantes, etc. As vezes um Grão-ducado podia constituir um território, como o Grão-ducado da Toscana, na Itália, ou o grão-ducado de Luxemburgo, até hoje existente.

Acima dos reis, como o mais alto titular da Cristandade, estava o Imperador do Sacro Império Romano Alemão.

O Povo

A terceira classe da sociedade era o povo.

A ele pertenciam diversas categorias de pessoas. Algumas exerciam o trabalho intelectual, como professores, industriais e comerciantes. Outras o trabalho meramente manual.

Um professor universitário podia ser um homem da plebe, pois seu cargo não era necessariamente preenchido por um clérigo ou um nobre. Em alguns países os professores universitários, depois de um certo tempo no cargo, podiam ser nobilitados.

Essa hierarquia, em continuidade com a plebe, formava uma escala perfeita, sem hiatos. Entre o Barão e o povo não havia hiato, mas apenas uma diferença de gênero. Havia nobres inferiores ao Barão, que pertenciam à chamada nobreza de aldeia, tão pequenos que viviam misturados com o povo e já eram quase povo.

Era uma transição perfeita, como as cores de um arco-íris, que se fundem umas nas outras. Assim são todas as hierarquias que resultam da ordem natural das coisas.

Simbologia apropriada: manifestação da hierarquia

Essa ordem social era enriquecida com símbolos expressivos, que lhe davam maior significação.

Os nobres usavam uma coroa, símbolo da jurisdição territorial. O simples diadema, usado pelos Barões, já significava autoridade, sendo acrescido por outros símbolos, à medida que se elevava o grau na hierarquia da nobreza.

Os símbolos eram adornos incrustados no diadema, que indicavam o título de seu possuidor. A coroa do rei era fechada em cima, para indicar o poder soberano, mas com interstícios. Na coroa do Imperador não havia interstícios. Os nobres inferiores ao Barão não tinham direito à coroa.

Tiara do Papa Pio IX

Tiara de S.S. Pio IX

A hierarquia clerical também estava repleta de símbolos. A coroa papal, a tiara, é uma superposição de três coroas sobre uma armação completamente fechada. Do mesmo modo variavam, em cores e adornos, os chapéus dos Cardeais, Arcebispos, Bispos e padres.

Havia ainda outros símbolos, como o báculo do Abade, com a volta para dentro, representando sua autoridade dentro da abadia. Diferente do Bispo, cujo báculo tinha a volta para fora, indicando sua autoridade externa. A volta na ponta do báculo era sinal de submissão ao Papa, o qual usava um cetro sem volta alguma, símbolo de sua autoridade suprema.

Relações sociais: cunho de paternalidade e bondade

Na Idade Média, as relações das pessoas entre si e entre as diversas classes sociais eram muito orgânicas e naturais. Qualquer pessoa do povo tinha grande facilidade de acesso aos nobres e até mesmo ao Rei. Este costumava receber os plebeus em audiência, para ouvir os pedidos que lhe faziam.

Assim, São Fernando III, Rei de Castela, quando estava de viagem e se hospedava em determinada cidade, sentava-se perto de uma janela que dava para a rua, podendo ser visto pelo povo e ao alcance de qualquer plebeu que desejasse falar com ele.

S. Luis sob o carvalho de Vincennes atendendo o povo - Vitral da Igreja de la Selle-sur-le-Bied - Sec. XIX

E São Luís IX, Rei de França, tinha por hábito sentar-se sob um enorme carvalho, em Vincennes, e ali atender o povo, ouvindo seus pedidos, suas queixas, julgando casos e pendências entre plebeus.

Até bem depois da Idade Média, na época de Luís XIV e seus sucessores, o povo, na França tinha livre acesso aos jardins do Palácio de Versailles, onde podia entrar em contato pessoal com os nobres e mesmo com os soberanos.

Quando terminava a cerimônia de coroação de um Rei de França, do lado de fora da Catedral de Reims, em cujo recinto realiza-se o ato, ficavam muitos escrofulosos, portadores de uma doença de pele repugnante. Pois dizia-se que o Rei de França tinha o carisma de curar as escrófulas pelo toque. Ao sair da Catedral, dirigia-se ele a cada escrofuloso e tocava a chaga dizendo: "O Rei te toca. Deus te cure". E muitos realmente ficavam curados.

Tal era a monarquia cristã, na sua paternalidade, na sua bondade. E este tratamento que o Rei mantinha com os plebeus repetia-se entre os diversos níveis da escala social.

De escravos antigos a servos da gleba: transição para o homem livre

Um outro ponto que serve para mostrar o tipo de tratamento reinante entre os diversos graus da hierarquia social é a comparação entre os escravos da Antiguidade e os servos da gleba na época medieval.

Na Antiguidade o escravo não tinha qualquer direito, nem mesmo o da vida. Podia ser morto por seu dono, que tinha direito de vida e de morte sobre ele. Não tinha direito a constituir família. Se alguma escrava tinha um filho, este podia ser vendido e mandado para longe da mãe, como um animal.

Ao final do Império Romano, quando este já se havia tornado cristão, foi reconhecido aos escravos o direito ao matrimônio. Este processo fazia parte daquilo que se chamou de humanização do Direito Romano, atribuída à influência cristã. Tal direito ao matrimônio, porém, não impedia que o casal pudesse ser separado, vendido, etc. Não era ainda o direito ao matrimônio do homem livre.

A semeadura - Les Très Riches Heures du Duc de Berry

A semeadura - Les Très Riches Heures du Duc de Berry

Foi somente com a instauração da Cristandade medieval na Europa que se conheceu, pela primeira vez na História, um continente inteiro sem a escravidão.

O servo da gleba era um servidor que não tinha o direito de sair do lugar onde trabalhava. Era ligado à gleba, não sendo, portanto, um homem livre em toda a força do termo.

Porém, apesar de não ser totalmente livre, desfrutava de muitos direitos. Inerente à sua própria condição, tinha o direito de permanecer na terra onde trabalhava, não podendo ser expulso dela pelo seu senhor. Exercia também uma espécie de direito de propriedade sobre a casa onde morava e sobre uma parte das terras que cultivava.

Seu tempo era dividido entre o trabalho nas terras do senhor e em suas próprias terras, de cujos frutos ele vivia. Algumas vezes beneficiava-se ainda de uma porcentagem do que produzia nas terras do senhor. Seu contrato de trabalho era hereditário e intocável. Tinha direito a constituir família e só podia ser castigado fisicamente em caso de comprovado mau comportamento.

Se o senhor vendia as terras que possuía, estas eram alienadas junto com o servo, que não podia ser mandado embora.

A servidão da gleba era um estado intermediário entre a escravidão e a liberdade. Quando terminou a Idade Média quase não havia mais servos da gleba na Europa. Na Idade Média, sob a influência da Igreja, constituiu-se uma classe dos homens livres, classe esta muito menos numerosa na Antiguidade, época histórica em que uma parcela considerável da população era constituída por escravos.

A expressão servo da gleba continuou em uso até a Revolução Francesa. Mas então os que se denominavam servos eram os descendentes dos antigos servos da gleba, sendo proprietários das terras que cultivavam, pagando aos nobres um pequeno imposto pelo fato de, outrora, tais terras terem pertencido à nobreza.

A origem histórica dos servos da gleba remonta à época das invasões dos bárbaros, nos séculos IV e V, quando o Império Romano do Ocidente se desagregou. Os proprietários de terras, que possuíam certos recursos, começaram a construir fortificações para se abrigar contra os invasores. Então muitos homens, que não tinham condições para se defender dos ataques dos bárbaros, pediam licença para se refugiar nas fortificações daqueles proprietários, as quais constituíam a forma primitiva do que foi mais tarde o castelo medieval.

Os proprietários geralmente impunham como condição aos abrigados, que estes cultivassem as terras no tempo de paz e os ajudassem na luta contra os invasores, em época de guerra. Formou-se assim um contrato do servo com o proprietário.

Na época em que foi instituída, a servidão da gleba foi aceita como algo natural, fruto das circunstâncias. Porque um senhor, diante das grandes hordas que se deslocavam, precisava ter certeza de que sua propriedade teria um número suficiente de homens para defendê-la. Era-lhe vantajoso estabelecer um contrato vitalício, e mesmo hereditário. Do mesmo modo, era vantajoso para os servos, os quais, muitas vezes não eram homens livres, mas antigos escravos romanos. Sua situação foi suavizada, pela influência da Igreja, mediante a condição de servos da gleba, antes de ser totalmente abolida a escravidão.

Na vida urbana: a riqueza das corporações

Aspectos da vida urbana na Idade Média

Aspectos da vida urbana na Idade Média

As corporações de ofícios eram instituições medievais da vida urbana, que reuniam patrões e trabalhadores manuais, plebeus livres com muitos direitos.

Elas elaboravam sua própria legislação de trabalho e algumas exerciam até jurisdição sobre a região urbana em que se situavam. E havia cidades onde o governo municipal estava a cargo das corporações, ou seja, de plebeus.

Especificação das funções -- Ônus e privilégios

O Clero e a nobreza não pagavam impostos. A classe social que pagava impostos era o povo. Isto, que à primeira vista poderia parecer uma injustiça, é facilmente explicável face às condições da época.

Clero: educação e saúde

Devido à sua condição sacral, o Clero era tido como a primeira das classes sociais, o fundamento da civilização: "Vós sois o sal da terra .... a luz do mundo" (Mt 5, 13-14). Qualquer pessoa, da nobreza ou da plebe, podia pertencer ao Clero e galgar todos os seus graus hierárquicos. Muitos Papas eram filhos de trabalhadores manuais, pairando acima de Reis e Imperadores da Cristandade.

Salle d'un hôpital du Moyen Age

Sala de um hospital da Idade Média

Além de sua missão própria de salvar as almas, o Clero tinha sob sua responsabilidade duas atividades que atualmente correspondem, em larga medida, ao Estado: a educação e a saúde pública.

A supervisão e, muitas vezes, a execução do ensino cabia ao Clero. Para ser professor particular era preciso licença eclesiástica, pois o Clero devia zelar pela ortodoxia do ensino. E também exercer diretamente essa tarefa de ensinar.

As despesas com a educação eram arcadas pelo Clero, sem qualquer auxílio por parte do Rei. Por isso era razoável que não pagasse imposto.

Tal responsabilidade pela educação se deveu ao fato de que, após as invasões dos bárbaros, os conventos eram os únicos lugares onde se sabia ler e escrever, depositários das obras que se salvaram das bibliotecas romanas. A partir desses conventos deu-se a expansão do ensino, tendo o Clero semeado escolas e universidades pela Europa ao longo da Idade Média. Quando esta chegou ao fim, a Europa estava alfabetizada, ao contrário do que dizem seus detratores. Várias das mais célebres universidades de hoje foram fundadas naquela época.

A outra atividade do Clero, velar pela saúde pública, também ficava inteiramente sob sua responsabilidade financeira. Os hospitais existentes eram mantidos pelo Clero ou pelas ordens femininas por ele dirigidas.

O Clero fundou muitos hospitais durante a Idade Média e os princípios da higiene no trato de enfermos e feridos começaram a ser praticados. A medicina moderna nasceu naqueles hospitais.

Para cumprir essa missão, o padre renunciava a tudo, inclusive à própria saúde. Muitas vezes tinha que morar em locais que abrigavam doentes portadores de moléstias contagiosas. O isolamento de tais doentes tornou-se uma prática comum na Idade Média, devido ao cuidado que o Clero a eles dispensava.

Nobreza: combater na guerra

Quanto à isenção de impostos para os nobres, é fácil refutar os argumentos freqüentemente alegados pelos revolucionários.

A nobreza era a classe militar, obrigada a lutar em tempo de guerra.

Os plebeus não eram obrigados a combater na época de guerra, a não ser que o contrato com o senhor o exigisse, dentro de certos limites de tempo e espaço. Assim, não lutavam durante o tempo das colheitas, nem deviam deslocar-se além de uma certa distância do lugar onde moravam. Também podiam engajar-se como mercenários, ganhando dinheiro com a guerra e enriquecendo com os saques.

O nobre era obrigado a combater, tendo a pagar o imposto do sangue, muito penoso naquela época, devido às precárias condições existentes para o tratamento adequado dos traumatismos e mutilações recebidos em combate.

Além disso, o senhor feudal era obrigado a exercer gratuitamente, em suas terras, as funções de prefeito, juiz e delegado de polícia. E podia ser punido pelo Rei, caso tais funções não fossem bem executadas.

Outra obrigação sua era a caça às feras daninhas à agricultura, de que a Europa estava cheia, como javalis, ursos e raposas. Com o passar do tempo essa caça foi sendo organizada como um esporte, mas de qualquer modo era um dever. E se a Europa ficou livre das feras foi porque os nobres cumpriram tal missão a eles atribuída.

Portanto, é razoável que não pagasse impostos quem tinha a seu cargo todas essas funções e precisava arcar com despesas para a luta armada, o combate aos bandidos e feras, a manutenção de estradas, pontes, cadeias, funcionários de justiça e de administração, etc.

Por outro lado, havia duas espécies de impostos. Um recaindo sobre as pessoas e as terras, que clérigos e nobres não pagavam. Outro sobre as mercadorias, pago por todos.

Povo ou Plebe: produção econômica

As funções mais lucrativas não eram as do nobre, mas as do comerciante e do industrial. Freqüentemente encontravam-se comerciantes cuja fortuna era tal, que emprestavam dinheiro aos Reis. Sem eles os monarcas não podiam fazer guerra. Eram mais ricos que muitíssimos nobres.

O comerciante não ia para a guerra, não era ferido ou mutilado, levava uma vida calma. A esta classe de produção econômica era cobrado imposto.

Atualmente a primeira classe social é a dos mais ricos. Naquele tempo era de si, a dos mais virtuosos, isto é, o Clero, que se entregava ao serviço de Deus. O plebeu mais rico tinha que se inclinar diante do clérigo mais pobre, o que é muito digno, muito razoável. Se o Clero e a nobreza desfrutavam privilégios, isso decorria de suas funções mais elevadas e mais sacrificadas. O que é natural, orgânico, justo.

Aperfeiçoamento da função judiciária: a autonomia judicial

Durante a Idade Média, à medida que as inter-relações culturais, sociais e econômicas iam aumentando e ficando mais complexas, a função de juiz foi-se tornando mais difícil. Os Reis e os nobres passaram então a contratar técnicos para ajudá-los a julgar bem as causas.

Aos poucos, as causas mais simples passaram a ser julgadas por tais profissionais, reservando-se os monarcas e os nobres para julgar apenas, como instância suprema, as causas mais excepcionais. Constituiu-se assim, organicamente, uma classe judiciária, especializada em julgar, que se beneficiava das garantias de vitaliciedade e inamovibilidade.

Apareceram então tribunais independentes do Rei, capazes de julgar processos em que o soberano era uma das partes. Este sistema era inédito no mundo e representava uma garantia do fraco contra o forte, do pequeno contra o poderoso. A esta classe, na maioria dos países, foi concedido o estado de nobreza, pelo respeito que se lhe tinha.

A princípio, os cargos judiciários eram hereditários, caso o filho do juiz desejasse seguir a carreira do pai e fizesse os estudos necessários para isso. Mas também não estava obrigado a segui-la.

Regionalismo: prodigiosa liberdade provincial e municipal

Uma das formas mais preciosas de liberdade é a que tem cada região de ser como ela é.

Na Idade Média, cada feudo era um todo, com suas leis, seus costumes, seus ambientes, sua arte e sua cultura. A liberdade provincial e municipal conheceram naquela época uma prodigiosa possibilidade de expansão.

Os Estados modernos possuem uma só Constituição que rege todo o país. Entre os medievais cada parte do país tinha suas leis. Esta liberdade para cada região ser organicamente o que deveria ser foi uma conquista da Idade Média.

Atividade legislativa: o povo era o legislador

A lei consuetudinária

O povo legislava mediante leis consuetudinárias. Consuetudo é uma palavra latina que significa costume.

Grande parte das leis existentes na Idade Média era fruto de costumes repetidos que se transformaram em legislação. Esta variava de feudo para feudo, como por exemplo, o modo de passar recibo, de legar herança, como também as leis de compra e venda de mercadorias, etc.; porque tudo nascia dos costumes do povo.

Direito de trabalho

As leis sobre comércio, indústria e trabalho nasciam das relações de trabalho. Os Reis apenas ordenavam que fossem escritas, reviam e corrigiam o que fosse injusto ou contrário à doutrina e à lei da Igreja.

Era uma participação efetiva no direito de legislar, de que gozava o povo na Idade Média.

Vida política urbana: eleições municipais e administrativas

Na Idade Média as cidades eram muito menores do que são hoje. De maneira que tudo se passava num ambiente muito mais orgânico e não no anonimato das grandes cidades modernas.

Nas corporações, que tanta influência exerceram na vida das cidades e do país, os cargos eram periódicos e eletivos. Nos municípios elegia-se uma câmara de vereadores e um prefeito. Os homens livres do lugar e os membros das corporações participavam dessas eleições.

Quem residia na cidade era um homem livre. O servo da gleba morava no campo. A cidade era governada por seus próprios habitantes.

Em algumas cidades os senhores feudais mandavam representantes para as eleições municipais. Havia cidades em que os senhores feudais eram prefeitos, mas em outras eles vendiam o cargo para plebeus, por falta de dinheiro. Em outras ainda, eles gozavam do direito de participar da câmara de escabinos, uma espécie de vereadores locais. De um modo geral, as cidades eram autônomas, mesmo quando o senhor feudal ainda tivesse ali um resto de poder.

Princípio universitário: precioso regulador da vida político-social

A palavra universidade (universitas) não significava apenas a universidade no sentido hodierno da palavra, mas a adaptação de uma palavra latina, universus.

Os comerciantes que faziam transporte fluvial no rio Sena constituíam um todo, que se governava por si mesmo, mediante eleições internas. Os professores das faculdades constituíam outro todo, governando as mesmas também por eleições internas.

Assim, cada grupo social constituía um todo. Uma cidade era um todo, governada por eleições internas e por autoridades saídas de dentro dela.

Este governo local, de assuntos internos, não se confundia com o governo do reino. Ele pertencia às próprias cidades, como o governo das corporações pertencia às corporações e o das universidades aos professores universitários.

Tal princípio denominava-se universitário porque cada grupo constitui uma universitas. Uma corporação de mercadores poderia chamar-se universitas mercatorum.

Na Idade Média, portanto, havia uma ordem justa, em que todos participavam do poder com funções diferentes, proporcionadamente, com especialização de funções, sendo o ônus e os privilégios bem distribuídos, havendo autonomia dos juízes, regionalismo e amplas prerrogativas atribuídas ao povo.

Essa era a ordem católica medieval.


Notas:

1 - Dentre as numerosas matérias publicadas por nossa revista a respeito do assunto, destacamos:

- O artigo de Fernando Furquim de Almeida: O grande papel de Cluny na formação da Idade Média (Set/74, nº 285).

- O artigo de Gregório Lopes: A revanche da Idade Média contra seus detratores, (Fev/89 nº 458). Tal colaboração comenta o livro da renomada historiadora francesa Régine Pernoud, Por en finir avec le Moyen Âge, Éditions du Seuil, Paris, 1977. Esta obra desmonta, com maestria e penetração, chavões mentirosos que, nos tempos modernos, foram lançados contra esses 10 séculos de história, tais como: "Noite de mil anos", "séculos grosseiros", "tempos obscuros", "túnel da História", etc.

- O artigo de Guy de Ridder: Desmitificação de preconceitos antimedievais (Jun/96, nº 546), que focaliza a documentada e convincente obra do historiador francês Jacques Heers, Le Moyen Âge, une Imposture - Vérités et Légendes, Ed. Perrin, Paris, 1993. A obra mostra "os erros, o ridículo, mais ainda as desonestidades desta visão pejorativa [da Idade Média], ao mesmo tempo que procura tornar públicas as últimas pesquisas de história social, as quais, indo em sentido oposto à correnteza dos slogans modernos, vêem-se vitimadas por uma espécie de lei do silêncio".

2 - Conferência pronunciada para sócios e cooperadores da TFP na capital paulista, em 25 de março 1965. Sem revisão do Autor.

3 - Pela expressão "três revoluções" o autor se refere às três grandes revoluções ocorridas após a Idade Média, ou seja: a Pseudo-Reforma protestante no século XVI, a Revolução Francesa no século XVIII e a revolução comunista no século XX. Este tema será objeto de outro artigo na próxima edição.

4 - O termo Revolução, com inicial maiúscula, designa o processo revolucionário anticatólico que se desenvolveu a partir do fim da Idade Média, descrito pelo autor em sua obra Revolução e Contra-Revolução.