Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

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 "Folha de S. Paulo"

Janeiro de 1979 - Almoço oferecido pela "Folha de S. Paulo" aos colaboradores de sua secção "Tendências e Debates". Vê-se o prof. Plinio Corrêa de Oliveira à esquerda do diretor do jornal, Octávio Frias

Folha de S. Paulo, 28 de junho de 1970

Já Sun dizia...

Clausewitz, o grande teórico da guerra teutônica, enunciou o princípio de que a vitória sobre um povo não consiste em destruí-lo fisicamente, mas em lhe tirar a vontade de perseverar na luta.

Carl Phillip Gottlieb von Clausewitz (1780-1831)

Mil episódios históricos há que confirmam essa máxima. Napoleão, por exemplo, obtinha vitórias militares tão espetaculares que extinguiam nos adversários qualquer desejo de resistir.

Dois povos houve, entretanto, aos quais nenhuma catástrofe militar conseguiu alquebrar a determinação de levar a luta até o fim. Por isto, desgastaram e aniquilaram o poder do Corso. Como todos sabem, esses povos foram o espanhol e o russo.

Assim, não causa espanto que princípio tão fundamental já muito anteriormente a Clausewitz tenha sido enunciado. Quinhentos anos antes de Cristo o escritor chinês Sun Tse, discorrendo sobre as "Regras da Arte Militar", asseverou que "um general competente sempre sabe a arte de humilhar o inimigo sem travar combate, de capturar as cidadelas sem desembainhar a espada; ele conhece a arte de conquistar territórios sem neles penetrar".

* * *

Como é natural, os militares e os políticos soviéticos, eles também, têm presente esse princípio, e o aplicam largamente na guerra psicológica que movem contra o Ocidente.

Sendo um dos melhores métodos para tirar a um adversário a determinação da luta, persuadi-lo da inutilidade da resistência, uma imensa propaganda se desenvolve de polo a polo, nos países não comunistas, visando inculcar-lhes que a vitória do marxismo é uma fatalidade histórica.

Essa tese é sustentada de modo claro e radical por todos os doutrinadores comunistas. Mas, assim enunciada categoricamente, não alcança ela senão uma pequena penetração no espírito público. É que o comunismo assusta, causa horror em numerosos setores da opinião pública.

Bem sabem disto os ocupantes do Kremlin. E por isto usam em sua ofensiva alguns outros meios — e bem mais sutis. Um deles, o mais generalizado, consiste em difundir nos ambientes que chamaria de pré-comunistas — demo-cristãos, progressistas, socialistas e congêneres — a convicção de que as multidões contemporâneas, e especialmente os operários e universitários, são arrojadamente e irreversivelmente esquerdistas. Nada lhes pode resistir ao ímpeto vitorioso. E, em conseqüência, o mundo de amanhã será totalmente esquerdista.

No que esse vago esquerdismo se distingue do comunismo ou com ele se identifica, não o diz a propaganda. Mas fica subentendido que o impulso do proletariado e da mocidade para a esquerda só encontrará seu ponto terminal quando desfechar na plenitude da esquerdização. Ora, falar em plenitude da esquerdização importa em designar — um pouco veladamente — o próprio comunismo. Protegida apenas por esse pequeno disfarce, a tese derrotista penetra assim em jornais, rádios e televisão que temeriam perder sua clientela se falassem claramente na inelutabilidade de uma vitória do comunismo.

A contrário senso, uma campanha anticomunista eficiente tem de destruir o mito da inelutabilidade da esquerdização. Pois assim se preserva nos anticomunistas a determinação de lutar. E a tarefa não é difícil, pois essa inelutabilidade não passa de uma balela.

* * *

Três fatos recentes o provam de sobejo. Certos noticiários internacionais apontavam, há pouco, a situação italiana como das mais explosivas. O crescimento impressionante das esquerdas e especialmente do comunismo, estava a pique de impor um governo de coalizão com o PCI. Realizaram-se as eleições provinciais: os resultados provaram que tudo não passava de terrorismo publicitário, e a força das diversas correntes políticas permanecia praticamente inalterada.

Muito maior foi a zoeira derrotista espalhada na Inglaterra pela propaganda trabalhista. O "bluff" chegou a tal ponto que mesmo na imprensa conservadora transparecia uma profunda apreensão quanto ao resultado das eleições que se aproximavam. As empresas de sondagem de opinião as mais provectas e antigas, como o Gallup, previam uma folgada vitória do "Labour". O resultado deixou o mundo inteiro atônito. Venceram, e folgadamente, não os trabalhistas mas os conservadores...

Harold Wilson decidira pedir à Rainha a convocação do eleitorado, receoso de que, de futuro, outras condições tão boas não se apresentassem para que o trabalhismo enfrentasse as incertezas de uma eleição. Para acrescer possibilidades de êxito de seu Partido, incluiu ele no corpo eleitoral todos os jovens entre 18 e 21 anos que até aqui não votavam. Pois, apesar de tudo, o resultado foi uma derrota flagrante. Os votos dos jovens — supostos todos esquerdistas e contestatários — não trouxeram ao "Labour" a vantagem esperada.

Tão grande foi a surpresa geral ante o vigor do conservadorismo britânico, que um colunista político do jornal londrino "Evening Standard" chegou a afirmar, depois do pleito, que os institutos de sondagem de opinião estavam desacreditados.

Fato igualmente esclarecedor se passou na Alemanha. Como se sabe, o primeiro-ministro de Bonn, Willy Brandt, está promovendo entendimentos dos mais imprudentes e censuráveis com a Alemanha Oriental e a Rússia.

Em recentes eleições que abrangeram três unidades federativas, com cerca de 50% do eleitorado, o povo infligiu uma derrota ao partido de Willy Brandt, que importou numa clara repulsa à sua política pró-mundo comunista. O SPD governista, perdeu votos nos três Estados, enquanto o PDC (na Alemanha menos indigesto do que em todo o resto do mundo) melhorou sua posição nos parlamentos provinciais.

Particularmente digna de nota é a circunstância de que os Estados em que ocorreram as eleições são os mais industrializados. Pois as imensas concentrações operárias que ali existem votaram contra a aproximação com o comunismo.

* * *

Sirvam estas reflexões para mostrar que as multidões de nossos dias não são os paióis de pólvora que a propaganda descreve. Muito pelo contrário.

Isto provado, no que fica o mito da inelutabilidade do comunismo? Em frangalhos...

É o que é necessário por bem claro aos olhos do Ocidente, que se vai deixando morrer porque lhe persuadiram de que não consegue sobreviver!


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