Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

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 "Folha de S. Paulo"

 

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18 de março de 1973 

São Pio X agradeceu a críticas... 

A Cúria de Santiago persiste até o momento em nada publicar acerca do manifesto da TFP chilena. O fato me causa uma perplexidade que vai crescendo com o correr dos dias.

Com efeito, não vejo motivo válido para esse silêncio.

A matéria de que trata o manifesto é da maior relevância, pois diz respeito ao cumprimento, da parte dos Pastores, da missão de apartar suas ovelhas – e portanto todo o país – dos efeitos da propaganda comunista.

Ademais, o manifesto tem de sobejo o quilate intelectual necessário para atrair a atenção da Conferência Episcopal do Chile. A doutrina dele é irrepreensível, os fatos que alega são baseados em opulenta documentação, a exposição é eximiamente concatenada, e a linguagem que usa é clara e elevada.

Além disso, estou informado de que o manifesto foi largamente divulgado por vários diários do Chile, por emissoras de rádio e televisão, etc. Pelo menos por deferência para com o imenso público que dele tomou conhecimento, o manifesto mereceria uma refutação.

Por fim, a TFP chilena merece dos Pastores – sobretudo nesta época em que a Igreja não recusa o diálogo nem sequer aos ateus – à consideração de uma resposta. Com efeito, nossa co-irmã, que sempre se destacou pela seriedade e nobreza das atitudes, goza no seu País de verdadeira celebridade. Realmente, impressionou ela, de alto a baixo, o país, pela clarividência com que, em uníssono com Fábio Vidigal Xavier da Silveira, desmascarou Frei "o Kerensky Chileno". Aquele lance, a que os fatos haveriam de dar dramático realce três anos depois, valeu à TFP andina uma autoridade moral invulgar em tudo quanto afirme sobre Kerenskys sem tonsura... ou com ela. A esta circunstância marcantíssima não poderia ser indiferente a Hierarquia chilena.

Volto a afirmar: quanto mais o tempo passa, tanto mais me sinto perplexo. Pois quem se cala diante de uma acusação revestida de todos os títulos para ser levada em conta e refutada, deixa-se ficar numa postura lamentável. "Quem cala consente", diz o velho adágio...

Ainda assim prefiro esperar antes de emitir um juízo. Seja como for, a Hierarquia é mãe. E em favor dela devemos alegar amorosamente todas as presunções, das quais só nos resignaremos a abrir mão quando a força da lógica e dos fatos a isto nos obrigar absolutamente.

* * *

Mas – dirá alguém – no próprio fato de a Hierarquia ser mãe, se encontra a escusa para seu silêncio. Todo filho que aponta os erros de sua mãe falta-lhe com o respeito. E o zelo pela sua própria autoridade impede que ela responda ao filho.

Não creio que qualquer moralista consinta em fazer sua uma concepção de tal maneira despótica da autoridade materna. Está na natureza das coisas que a mãe que perde o afeto de seu filho, porque este lhe increpa uma atitude, deite o maior empenho em defender-se, para conservar a estima dele. Isto quando ela tem boas razões a alegar. Quando não as tem, é de seu dever reconhecer diante do filho que andou mal, e pedir-lhe perdão pela desedificação que deu. Da parte da mãe acusada, só o que não se compreende é o silêncio!

Assim, uma autoridade eclesiástica que se julgue injustamente acusada deve considerar grave dever pastoral defender-se. E se reconhece justa a acusação, tem o dever quiçá ainda mais grave de desculpar-se.

Quanto a este último ponto, consideremos o exemplo que nos foi dado pelo maior Papa de nosso século. Pio XII o elevou à honra dos altares. Refiro-me a São Pio X.

O Cardeal Ferrari, Arcebispo de Milão, reagiu com violência contra justas críticas feitas pelo diário católico "L’Unità", a uma publicação eivada de modernismo apoiada pelo purpurado. São Pio X acorreu em defesa do jornal. Escreveu então ao ilustre Prelado: "Surpreende-me que V. Emcia. considere as justas observações de "L’Unità" como insulto a V. Emcia. Como se se tivessem acusado V. Emcia. de ser pouco perspicaz ou pouco devoto da Santa Sé. Que deveria dizer neste caso o Papa quando lê as "santíssimas críticas" ao "Corriere d’Italia, ao "L’Osservatore Romano" e ao Mestre do Sagrado Palácio, que dá o imprimatur a livros logo depois condenados pelo Índex? O Papa agradece aos censores que o ajudam a conhecer o mal que não tinha visto" (Carta ao Cardeal Ferrari de 27-2-1910). O leitor percebe sem dúvida que São Pio X alude aqui a críticas então feitas contra a Santa Sé, a propósito de publicações no órgão oficioso "L’Osservatore Romano", e de decisões do Mestre do Sagrado Palácio, alto dignitário vaticano, da confiança direta do Papa. Num gesto sublime, cheio de justiça e mansidão, o grande Santo não se esquiva aqui da responsabilidade que lhe toca pelo ocorrido. Antes aceita as críticas sagazes e justas, como uma verdadeira colaboração. E a agradece.

Este gesto de humildade em nada desdourou o Papa que hoje é venerado como Santo por todo o orbe católico.

Não pensa o leitor que, em lugar de conservar um desdenhoso silêncio, a Hierarquia chilena andaria muito melhor se seguisse o rútilo exemplo do Pontífice Santo?

Enfim, esperemos. E enchamos o tempo da espera pedindo a São Pio X que inspire quantos a TFP chilena aponta como responsáveis pela demolição do país, a seguirem o exemplo deles.

* * *

Houve quem levantasse, contra meus anteriores artigos, a objeção de que só citei em abono à minha tese, teólogos anteriores à definição do dogma da infalibilidade papal. A omissão se deveu ao amor à brevidade. Wernz e Vidal, que são de nossos dias, em seu conhecido e abalizado "Jus Canonicum"(vol. II, p. 520) sustentam a mesma doutrina. A esse respeito pode-se ler também o abalizado Peinador ("Curs. Brev. Theol. Mor." II. I. p. 277). Mais marcante ainda é a opinião de um conhecidíssimo teólogo suíço, que Paulo VI elevou às honras do cardinalato. Trata-se de Mons. Journet, o qual, no seu tratado "L’Eglise du Verbe Incarné" (vol I, pp. 839 e ss.), chega a dar direito de cidadania à doutrina admitida por vários outros teólogos, de que um Papa pode até tornar-se cismático. Do que decorre, naturalmente, para os fiéis, o direito e até o dever de resistir.

* * *

De tão pisado e repisado o tema, não voltarei mais a ele. Está mais do que provado que a TFP chilena tinha, em princípio, o direito de fazer o que fez. Quanto aos fatos, deixemos correr ainda mais algum tempo antes de concluir que o silêncio público da Hierarquia chilena os terá dado por provados.


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