Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

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 "Folha de S. Paulo"

 

 

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22 de dezembro de 1974 

Resistência na São Paulo colonial

Cumpro hoje a já remota promessa de narrar o mais dramático dos episódios que enriquecem a história do Convento da Luz. Nestas proximidades do Natal, o tema – por seu essencial cunho religioso – vem especialmente a propósito.

Haviam cessado em junho de 1775 as funções de capitão-general do famoso Morgado de Mateus, D. Luís Antônio de Sousa Botelho e Mourão. Governara este com sabedoria, firmeza e bondade a Capitania paulista. Sucedeu-lhe imediatamente nas funções Martim Lopes Lobo de Saldanha, sob cuja férula São Paulo veio a passar oito anos de despotismos e arbitrariedades.

Executor açodado das tirânicas leis de perseguição religiosa de Pombal, Martim Lopes não tardou em oficiar ao vice-rei Marquês do Lavradio, comunicando-lhe que ordenara o fechamento do Convento da Luz, no qual viviam então dez religiosas.

Tal ordem, o capitão-general a efetivara por meio do Bispo de São Paulo. Submisso, o Prelado mandou chamar, no dia 29 de junho, festa de São Pedro, a Frei Galvão, fundador e capelão do pequeno cenóbio, e lhe intimou a dar início imediatamente à dissolução do Convento. Tão logo recebida a ordem dada pelo Pastor – ao qual, entretanto, incumbia o dever de proteger as religiosas, mais do que o de as dispersar – Frei Galvão dirigiu-se ao mosteiro cuja Capela estava repleta de povo à espera da Missa. Celebrada esta, Frei Galvão comunicou às religiosas transidas de dor, a deliberação arbitrária que as fulminava. Que avisassem suas famílias para virem buscá-las. Dentro de um mês, o Convento teria que cerrar suas portas.

Três religiosas saíram. As outras, porém, resolveram resistir, dentro dos limites do Direito canônico, aos intuitos do Governador, endossados pelo Bispo. Ao pé da letra, a ordem recebida obrigava-as a fechar o Convento. Não porém a se dispersarem. Fecharam-no. Mas resolveram continuar vivendo nele clandestinamente.

A resistência parecia absurda, pois, conhecendo-a o Governador ou o Bispo, tinham o poder – se bem que não o direito – de desferir contra as religiosas violentas penalidades canônicas e civis. Ora, como manterem-se na clausura sem receber de fora os víveres e a água potável, que as freiras tinham escassa? E como tomar contato com gente estranha ao Convento sem se exporem à delação?

Há porém deliberações absurdas para as criaturas sem fé, e inteiramente cabíveis para aquelas cuja fé move as montanhas. As freiras resolveram enfrentar o que humanamente era impossível. Cerraram portas e janelas. E cortaram todos os contatos com o exterior.

Consumidos os poucos mantimentos de que dispunha o Convento, as religiosas passaram a viver de umas tais ou quais ervas que possuíam no quintal. Entrementes, um pé de morangas, que no mesmo quintal se achava, produziu de modo inteiramente imprevisível uma tal quantidade de frutas, que as religiosas não conseguiam comê-las todas. Faltando a água, reuniram-se no coro em dia sereno e claro, e pediram chuva. O céu começou logo a se cobrir de nuvens. Trovejou. E uma chuva copiosa caiu, enchendo as talhas e vasilhas que as irmãs haviam exposto para recolhê-la. Repletos os recipientes, a chuva cessou.

O céu concedeu às “resistentes” socorros ainda maiores. A alegria inundava as almas das religiosas, que nessa vida catacumbal recebiam graças assinaladas.

Assim escoou, nessa espécie de santo “maquis”, todo o mês. E passados mais alguns dias, de repente, fortes golpes desferidos contra a porta fizeram estremecer a comunidade – Estaria tudo descoberto? Iriam ser levadas à cadeia? Puseram atenção, e conseguiram ouvir a voz de Frei Galvão, que as chamava pelos nomes. Abriram. E ele lhes comunicou, radioso, a notícia: o vice-rei, Marquês do Lavradio, cancelara a ordem do fechamento e determinara a reabertura do Convento. Comunicava-o carta recém chegada do Rio, à qual o Bispo se apressara em anuir. Chegara, para as vitoriosas freiras, a hora da recompensa, do Te Deum e do Magnificat...

Estes fatos, que colho no abalizado livro “Frei Galvão, Bandeirante de Cristo”, não revelam apenas o vigor de alma das religiosas, mas também de Frei Galvão. Parece-me óbvio que Frei Galvão conhecia e apoiava a santa resistência das religiosas. – Se não, como podia saber ele que se achavam no Convento fechado?

Assim, o grande franciscano paulista, a seus títulos de sacerdote, religioso, místico insigne, escravo de Maria e fundador, juntou também o de Resistente, dentro do espírito e da letra da lei canônica.