Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

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 "Folha de S. Paulo"

 

 

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5 de novembro de 1976 

O nada que pode dar em tudo

Para avaliar com precisão a importância de um acontecimento, raramente se pode empregar um só critério. Ao contrário, cumpre ter em vista todos os critérios aplicáveis ao caso, para em seguida escaloná-los segundo uma complexa e matizada hierarquia de valores. Só depois de assim processada a tarefa, é possível chegar a uma avaliação satisfatória.

Dentre esses critérios, um há que tem de estar sempre presente. E não raras vezes é decisivo: se um acontecimento produz consequências de monta, será difícil negar-lhe importância. Pelo contrário, se não as produz, difícil será — se bem que não impossível — reconhecer-lhe alcance.

Nesta perspectiva, impressionante número de fatos publicados pelos jornais nos últimos meses são sui generis. Lendo-os, tem-se a impressão de um mundo em efervescência. Ou, melhor, de um mundo em explosão. Na realidade, indagando-se quais as consequências de monta de tanta explosão que se vê por aí, fica-se desconcertado. Pois tais consequências parecem não existir.

* * *

Alguns exemplos saltam aos olhos. A queda do Império colonial português em África foi por certo um acontecimento trágico e de grandes consequências. Ela escravizou ao comunismo não só as antigas colônias como a metrópole. Logo em seguida, nas ex-províncias ultramarinas lusas irromperam derramamentos de sangue, e até uma revolução. Muito se viajou, muito se negociou, muito se escreveu para remediar este mal. — De tudo isto, o que resultou? — Praticamente nada.

Nada, exceto que o contágio da subversão começou a se estender pela Rodésia e pela África do Sul. Novas viagens. Novas negociações. Novo espocar de notícias. Entretanto, daí também, o que decorreu? As viagens continuam, as negociações se estendem, as publicações também. Até quando durarão? Que resultados trarão? Terão mesmo algum resultado? — Não se sabe.

No momento em que escrevo, as coisas parecem estar esquentando entre a Rodésia e Moçambique. Resultará algo daí? Algo que não seja uma brigaria sem rumo nem termo, como a triste guerra no Oriente Próximo?

Isto nos leva a mudar de campo. No Líbano, o sangue humano corre em trágica caudal. Mas nem isso impede que se faça sentir a constante apontada pouco acima. — No que pode dar todo o pandemônio naquela região? — Por enquanto, não se sabe. Pode dar subitamente em nada. Num statu quo ante belum. Como pode a qualquer momento atear fogo no globo.

Estendo o olhar para a outra ponta do Continente asiático. A queda do Vietnã e do Camboja foi trágica. Uma vez ela consumada, os noticiários tão prolixos sobre aquelas regiões foram emudecendo inesperadamente. Um pequeno concerto de contradições, a respeito da situação nas duas nações escravizadas, foi o que restou, durante uns poucos meses. Dizia-se que no Camboja os comunistas haviam sido ferozes. E no Vietnã encantadores. Depois vieram notícias de que também no Vietnã haviam sido terríveis... como em toda parte. Alguns despachos aludiram, em seguida, a guerrilhas de inconformados no Vietnã. Por fim, tudo se calou, tudo deu em nada. Num nada que pode dar em tudo.

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E aqui está um dos aspectos mais desconcertantes dessa situação. É que qualquer desses "nadas" a todo momento pode dar em tudo. Pode, talvez, degenerar em uma guerra mundial. No Camboja ou no Vietnã, por exemplo, não é impossível que se desencadeie, em dado instante, um descontentamento popular como o da Hungria de 1956 ou o da Tchecoslováquia em 1968. Daí poderá eventualmente formar-se um descontentamento universal que acabe levando a uma guerra. A fortiori pode-se dizer o mesmo quanto aos fatos que se vão desenrolando na Rodésia, na África do Sul ou no Oriente Próximo.

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Mas esse hipotético descontentamento também poderia dar em nada. Ficou bem patente, através das eleições na Suécia, na Finlândia e na Alemanha Ocidental, o descontentamento do povo autêntico (tão diverso desse povo-ficção do qual tanto falam os demagogos e os espertalhões de toda ordem) em relação aos "paraísos" socialistas. Depois disso é certo que a crista rubra e erguida do eurocomunismo baixou um tanto, pelo menos na França e na Itália. Mas o que resultará de concreto deste monumental teste de opinião pública, contrário aos paraísos socialistas? Por essas ou aquelas razões, os governos resultantes das eleições nos três países parece que farão inteira ou quase inteiramente o mesmo que fariam os socialistas se o veredicto das urnas lhe tivesse sido favorável. — O que terá acontecido então? — Nada, ou talvez tudo. Porque ninguém pode excluir a hipótese de que Moscou, decepcionada com a pouca receptividade das massas européias ao eurocomunismo, resolva desencadear de uma vez por todas a invasão do Ocidente. Com efeito, não é senão para isto que a Rússia — segundo depoimento de altas personalidades da NATO — está se preparando com celeridade crescente.

Morreu Mao. A China entrou em convulsão... política. — Essa efervescência, que frutos dá? — Até agora, nenhum. Entretanto, antes de eu acabar de escrever este artigo, que já vai para o fim, pode ser que me interrompa com um telefonema algum amigo, avisando que explodiu uma guerra civil na China; ou seja, que provavelmente terá arrebentado uma guerra mundial.

Resultados como estes, que em todos os quadrantes do horizonte por enquanto são nada, e a qualquer momento podem ser tudo, são os que prometem — ou ameaçam — desprender-se no páreo eleitoral Ford-Carter, nos EUA. Pode ser que Carter queira tomar em conta os sérios pronunciamentos contra a détente, feitos durante a campanha eleitoral. pode ser também que prefira interpretar a sua própria vitória como um veredicto em favor das tendências ultraconciliadoras que se lhe atribuem. Até há quem fale que seu secretário de Estado será o senador ultradistensionista Kennedy: o que mais dizer? — Por enquanto, do pleito norte-americano, tão agitado e estrepitoso, nada de decisivo parece resultar para os EUA e o mundo. Mas desse nada pode resultar tudo. Pois se os EUA continuarem a recuar diante da Rússia, até que abismos poderá rolar o Ocidente? E se forem um pouco menos cegos e moles, a que poderá chegar a reação soviética?

* * *

Parece que esse universal "nada", o qual pode dar em "tudo", é um modo de ser, de pensar, e de agir, generalizado no mundo moderno. Se compulsássemos o grande livro da História, veríamos que é próprio das civilizações que bordejam imprudentemente os perigos e os abismos, deixarem-se atrair por estes, e o mais das vezes neles se atirarem. "Quem ama o perigo nele perecerá" — diz a Escritura.

Estas considerações, porém, nos levariam muito longe. Fiquemos aqui. Por hoje.

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Resumo

Enfoque inicial

I - Aparentemente, o mundo está em explosão. Na realidade, essa explosão parece não ter consequências de monta.

II - Os fatos

1. A queda do império colonial português na África teve como consequência a escravização das antigas colônias e da metrópole ao comunismo. Para remediar o mal, muito se negociou. De tudo, porém, não se sabe o que resultou.

2. Da tensão entre a Rodésia e Moçambique, resultará algo que não seja uma brigaria sem rumo nem termo, como a guerra do Oriente Próximo?

3. No que pode dar todo o pandemônio no Líbano?

4. Não é impossível que no Vietnã e no Camboja se desencadeie um levante como o da Hungria ou da Checoslováquia, o qual acabe levando a uma guerra universal.

5. Na Suécia, na Finlândia e na Alemanha Ocidental, o descontentamento popular em relação aos "paraísos" socialistas ficou patente. A Rússia decepcionada com a pouca receptividade ao eurocomunismo, talvez resolva desencadear a invasão do Ocidente.

6. A China entrou em convulsão política. Que frutos dará? Nenhum, ou uma guerra civil, que trará, consequentemente, a guerra mundial.

7. Da eleição de Carter, nada decisivo parece resultar. Desse nada pode resultar tudo: a entrega do Ocidente ou a possibilidade de reação soviética.

III - Conclusão

Um dos aspectos mais desconcertantes da atual situação: qualquer desses "nadas" pode dar em guerra mundial.