"Folha de S. Paulo", 26 de março de 1979

A mensagem de Puebla: notas e comentários (I)

Esperei até o presente momento o texto oficial da mensagem de João Paulo II aos bispos, dando início à 3ª Conferência do CELAM em Puebla, bem como o do documento aprovado dias depois pela quase unanimidade dos prelados que tomaram parte na votação final.

Importância de Puebla

Com tais textos em mãos – um, a chave de abertura, o outro, a chave de encerramento da importante reunião – seria possível fazer uma análise objetiva do que Puebla representará para o futuro da Igreja no continente latino-americano. E também para o futuro da Igreja universal, pois a América Latina alcançou hoje tal importância na Igreja, que condiciona em boa medida os passos desta em todo o mundo. Para o porvir da humanidade, enfim, pois a influência da Igreja é por sua vez tão grande em todas as nações – de um ou de outro modo até mesmo entre as nações não católicas – que condiciona a fundo a História universal em nosso século.

Enquanto descrevo esse sistema de círculos de influência concêntricos, me vem ao espírito – seja dito de passagem – uma pergunta sobre o papel, não mais de toda a Ibero-América, mas do Brasil dentro de tal sistema. E a resposta me salta desde logo aos olhos. Com cento e vinte milhões de habitantes, na sua imensa maioria católicos (muitos deles tão-somente querendo sê-lo, e imaginando que o são: o que aos olhos de Deus já é melhor do que nada), com seu território-continente vizinho de todas as nações sul-americanas, excetuados o Chile e o Equador, o Brasil pode ter em mais de uma eventualidade, dentro do mundo ibero-americano, um peso comparável ao que este último vai adquirindo dentro da Igreja. De onde se pode dizer com toda a verossimilhança que em nossos dias podem surgir circunstâncias nas quais o destino do mundo seja marcado, não só pela América Latina, mas, dentro desta, pelo Brasil: é o século 21 que vai despontando.

Não entrará, em toda esta avaliação, o reflexo de alguma mania de grandeza acerca do Brasil ou da Ibero-América?

Circulava em boca, nos meus remotos tempos de juventude, uma anedota (ou se trata de fato histórico, de um autêntico lance de espírito? – Não sei, pois jamais tive tempo para o verificar), segundo a qual um dos três Andradas (também não sei qual...) tinha o hábito de dizer: "No mundo, a América; na América, o Brasil; no Brasil, São Paulo; em São Paulo, Santos; em Santos, os Andradas; e entre os Andradas, eu..."

No tocante à América e ao Brasil, isto não passava de uma blague, na primeira metade do século passado, engraçada pelo seu próprio estilo descabelado. Seria um exagero não descabelado, e portanto menos engraçado, na centúria 1850-1950. Hoje em dia começa a ser uma verdade. E radiosa. E claro que não para o espirituoso Andrada, que a morte levou, mas para o País que ele ajudou a fundar, e cujos primeiros passos iluminou com seu talento.

A evocação da piada andradina – que continha em alguma medida uma penetrante previsão – bem ilustra a perspectiva em que me ponho para avaliar a importância de Puebla na História de hoje.

Mas a História – falo da grande História, com "H" maiúsculo, escrita para o público de cultura média ou menos do que isto – só retém as linhas gerais dos acontecimentos.

"Aquila non capit muscas". A águia não apanha moscas. Em matéria de cultura, os pormenores são moscas para o grande público, e constituem muitas vezes preciosas gotas de néctar para os especialistas.

Situado neste ponto de vista, não pretendo entrar na análise dos pormenores de Puebla, isto é, da moxinifada que lá houve – ou não houve. É minha intenção analisar somente os dois grandes lances do acontecimento, isto é, o apelo do papa e a resposta dos bispos.

Até agora fiquei à espera dessa resposta. Mas ela ainda não saiu no momento em que escrevo. O sr. Cardeal Arns teve a iniciativa – é verdade – de a publicar nas Edições Paulinas; mas ainda sem as eventuais alterações que lhe faça João Paulo II. Um texto provisório portanto, que será talvez interessante percorrer. Mas que não tem o alcance e a "force de frappe" do texto definitivo. E nesta espera, o assunto já vai sumindo no horizonte, substituído pela algazarra do aiatolá Khomeini, pela confusa e dramática brigaria na Indochina, como por brumas e rugidos que parecem começar a perturbar o ambiente brasileiro.

Assim, restrinjo-me, nesta série de artigos, à análise da alocução de João Paulo II. Basear-me-ei no texto em espanhol distribuído pela própria Comissão de Comunicação da Conferência de Puebla, uma vez que o texto integral em português ainda não se encontra disponível.

Para onde se voltavam os espíritos na era constantiniana

Não é possível ao leitor comum compreender a alocução pontifícia sem lembrar preliminarmente um fato que se repete indefinidamente na vida cotidiana de todos nós. Descrevo-o em duas palavras.

Ao chamado tempo da Igreja constantiniana – ou seja, mais ou menos até o início do Concilio Vaticano 2º - toda a insistência dos pregadores, quando falavam ao mundo, se punha essencialmente nos temas religiosos e morais.

Nos sermões, nos retiros espirituais, nas conferências para os membros de associações religiosas, nas aulas de catecismo como nos cursos médios e superiores de formação religiosa para leigos, a maior parte dos assuntos era de natureza religiosa ou moral.

Também de tais matérias cuidava a muito grande maioria das obras que regurgitavam nas livrarias católicas, ou o que era dado ler nas revistas e jornais católicos.

Os temas morais diziam respeito, o mais das vezes, ao comportamento individual. De fato, porém, as regras morais têm âmbito mais vasto. Elas ditam ainda o procedimento dos grupos e classes sociais, das famílias, das instituições e das nações.

Isto conduzia a que, de quando em vez – com uma parcimônia a meu ver muito exagerada – também se falasse de problemas coletivos, e entre esses da questão social. Nesta última designação se incluíam de fato questões muito diversas; relacionamento entre patrões e empregados, entre ricos e pobres, assuntos atinentes à saúde coletiva, à educação, à alfabetização, etc., etc.

Mudança de rumo na era pós-conciliar.

Aberta a era pós-conciliar, em crescente número de instituições e ambientes religiosos tudo isto mudou rapidamente. Os temas propriamente religiosos foram se tornando cada vez mais raros. Nos temas morais, os de âmbito individual foram rareando para dar lugar a questões político-sociais e econômicas, com seus complexos e infindos desdobramentos. E, considerando o conteúdo das exposições dessa doutrinação pós-conciliar – ou seja pós-constantiniana – e o modo pelo qual ela era apresentada, muitos observadores experimentavam a impressão de que algo de fundamental tinha mudado na Igreja.

O quê? Na era constantiniana, parecia claríssimo que a missão da Igreja estava voltada capitalmente para além deste mundo. Ela tinha por fim supremo dar glória a Deus por meio da salvação eterna das almas.

É claro que, se o fim dela era principalmente este, entretanto não era só esse. A Igreja não se contentava com a glorificação de Deus na outra vida: "Glória ao Padre, e ao Filho e ao Espírito Santo, assim como era no princípio, agora e sempre, e por todos os séculos dos séculos"- rezava e ensinava ela.

"Agora". Ou seja, nesta vida. A glória de Deus na existência terrena obtinha-se pela profissão da verdade e pela prática da virtude neste mundo. O que implicava no combate ao erro e ao mal. Nesta terra, a Igreja era militante.

Era claro, entretanto, que para a glória de Deus nesta terra não bastava que professassem a Fé e praticassem a virtude os indivíduos; era necessário que, por via de conseqüência, mas em plano que se pode chamar secundário, também o fizessem as famílias, as classes sociais, as nações, etc.

"Secundário" é um adjetivo que se aplica com freqüência a coisas de somenos importância. Mas pode também referir-se a coisas muito altas, que só são tidas como secundárias em comparação com outras mais altas ainda. Assim a questão social dentro do ensino da Igreja. Ela é secundária no sentido de que não concerne direta e imediatamente ao fim extraterreno do homem, mas ela condiciona poderosamente a salvação ou a perdição eterna dos homens, e a fidelidade [felicidade?] das nações. Faz ela parte do âmago dos temas relativos à glória de Deus neste mundo. Pelo que ela tem, no conjunto dos assuntos religiosos, uma importância "secundária" entretanto altíssima.

Surpreendo-me com minha própria linguagem...

Releio rapidamente o que acabo de escrever, e estranho o pretérito imperfeito em que conjuguei certos verbos: a Igreja "fazia", "ensinava" etc., como se ela, a Igreja imortal, não ensinasse nem fizesse mais as mesmas coisas. O que é absurdo admitir.

Corrijo então este pretérito imperfeito? Nada seria mais simples. Mas em lugar de o corrigir, prefiro explicar. De tal maneira o grosso do clero não ensina ou não faz mais estas coisas, que ainda que se saiba de bispos e padres, os quais com assinalada constância o ensinaram e o fazem, este inadequado pretérito imperfeito me escorre involuntariamente pela pena. E a mão escreve inadvertida o contrário do que a inteligência e o coração sustentariam com o preço do próprio sangue... Assim se pode medir todo o mal que mutações destas facilmente fazem às almas com menor tirocínio na meditação e no estudo de temas tais.

Esta observação deixa ver por que motivo João Paulo II erigiu esse tema – da importância do celeste e do terreno na Igreja – como ponto central de sua alocução aos bispos reunidos para a Conferência de Puebla.

* * *

Sumário

A algazarra do aiatolá Khomeini, a confusa e dramática brigaria na Indochina, e as brumas e rugidos que parecem começar a perturbar o ambiente brasileiro, vão substituindo um assunto que, por sua natureza, condicionará não apenas o futuro da Igreja universal, mas a própria História de hoje: a Conferência de Puebla.

Dos dois grandes lances de Puebla – a mensagem do Papa aos Bispos e o documento final da reunião – o que concluir?

Qual o motivo por que João Paulo II erigiu o tema da importância do celeste e do terreno na Igreja, como ponto central de sua alocução aos Bispos?