Legionário, N 731, 11 de agosto de 1946

7 Dias em Revista

Todos os católicos de São Paulo acolheram com júbilo a notícia, já agora tornada oficial por edital da Cúria Metropolitana, de que virá dentro em breve ao Brasil, a fim de inaugurar a Universidade Católica de São Paulo, Sua Eminência o Cardeal Gonçalves Cerejeira, Patriarca de Lisboa.

Toda a vida política e cultural do Brasil deve girar em torno deste duplo princípio, de que fazemos parte, de um lado, do grande conjunto americano e, de outro lado, da latinidade católica. Os norte-americanos, tão zelosos do pan-americanismo, têm sido entretanto de uma constância admirável na manutenção dos laços espirituais que os prendem a sua antiga metrópole inglesa. O mesmo se dirá do Canadá, que ainda faz parte do Império Britânico, do qual poderia contudo tornar-se independente, se quisesse, até por comunicação telegráfica. E os canadenses franceses, mais ou menos um terço da população canadense total, se conservam apaixonadamente ligados à França pelos vínculos do idioma e da cultura, e à Igreja Católica pelos vínculos da Fé, sendo embora, excelentes súditos da Coroa Britânica.

O mesmo devem fazer os brasileiros. De mãos dadas com as nações do Continente em tudo que diz respeito à defesa comum, devem ter na latinidade católica os olhos e o coração. E dentro da latinidade, nosso papel natural é de membros da grande família lusa, afetuosa e obstinadamente unidos ao pequeno mas tão grande Portugal.

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Assim, pois, a vinda do cardeal-patriarca de Lisboa a São Paulo significa necessariamente que afirmamos nosso propósito de nos unirmos a Portugal, especialmente pelos laços gloriosos da Religião e da tradição, testemunhando que continuamos fiéis à gloriosa tarefa de continuar a desenvolver em terras de América toda a missão histórica que o mundo latino tem na vida cristã do mundo.

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O que Chamberlain foi para a Inglaterra da pré-guerra, Attlee está sendo para a Inglaterra de post-guerra: um destruidor, que não arrasa à maneira da tempestade, mas à maneira do cupim. Sem glória, sem luta, mas inexoravelmente.

Desmantela-se o Império Britânico, com as sucessivas capitulações de Atlle no Egito e na Índia. Ao mesmo tempo, um socialismo de Estado mal entendido vai destroçando as melhores tradições inglesas.

Assim, a aristocracia britânica está sendo lentamente estrangulada pela legislação trabalhista. Ainda agora, em conseqüência dos impostos excessivos, Lord Bath, o 6 titular deste nome, vai lotear Longleate Estate, em Wiltshire, um dos mais belos recantos da Inglaterra, para transformar tudo em dinheiro. É que, se tiver de deixar a seus filhos, por motivo de morte, este imóvel pagará um imposto de mais de um milhão de libras, isto é, cem mil contos! Mas se vender o imóvel e der o dinheiro a seus filhos, pagará imensamente menos.

Perde-se com isto uma propriedade histórica do maior significado cultural e artístico. O que ganha o Estado? Coisa alguma, já que com o loteamento do imóvel não entrarão os cem mil contos no erário público.

Resultado, pois, estritamente destruidor e negativo.

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Foi entregue há dias à Conferência de Paris, um memorial de certo número de grandes organizações judaicas, pleiteando os seguintes direitos, para as minorias judaicas no mundo inteiro: supressão de toda a legislação discriminatória; punição de todos os que tenham cometido crimes contra os judeus; garantia dos direitos humanos e liberdades fundamentais; possibilidades para as comunidades judaicas de manterem e desenvolveram as instituições coletivas-religiosas, lingüísticas e culturais; restituição dos bens judaicos privados, comunais e coletivos; entrega desses bens para as instituições de reconstrução e reabilitação, quando de judeus mortos sem ter deixado herdeiros; possibilidade para os judeus de optarem pela nacionalidade de sua escolha, em caso de modificações territoriais; possibilidade para os judeus de emigrarem, levando consigo seus bens.

O memorial dessas organizações propõe ainda que esses direitos dos judeus façam parte da constituição política de cada país civilizado.

Um de nós se lembraria de pleitear o mesmo para os católicos?

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Enquanto se enchem certas paredes das cidades com cartazes de péssimo gosto para a propaganda do divórcio, parecem antes anúncios de algum remédio contra a neurastenia, distribuem-se também circulares contra a atribuição de efeitos civis ao casamento religioso.

Temos em mãos uma delas, que com desenhos sem espírito, faz uma charge, a propósito de tal tema, contra o clero estrangeiro: coisa do gosto do bispo-apóstata Carlos Duarte da Costa.

Tudo isto não tem importância. Mas merece a atenção dos poderes públicos o fato de que os envelopes em que circula tal documento vêm carimbados com o nome de uma Sra. Haydée Castilho de Barros França Pinto, Oficial do Registro Civil do 8 subdistrito de Santana, que assina com duas outras damas, respectivamente escrevente autorizada e escrevente habilitada do mesmo cartório.

Se foi autorizada a aposição do nome dessas Sr.as no mencionado documento, dever-se-ia pedir aos poderes públicos uma providência, pois que uma propaganda destas não fica bem a um cartório. Senão, investiguem os interessados quem anda fazendo indebitamente uso de seu nome para tão lamentável efeito.