Plinio Corrêa de Oliveira

 

Sete Dias em Revista

 

(Prevendo a eutanásia para crianças)

 

 

"O Legionário" n.º 212, 4-10-1936

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O Correio de São Paulo e a "Secção Livre" de "O Estado de São Paulo", transcreveram tópicos de nossa última nota, referentes à rescisão do contrato da Cúria Metropolitana com a Rádio Excelsior. As referidas transcrições não foram promovidas pelo "Legionário" ou pela Cúria Metropolitana. Era nossa intenção esclarecer o público católico sem contudo promover campanhas ou polêmicas contra quem quer que seja. Mantemos, no entanto, integralmente, as afirmações contidas em nosso último artigo cuja inteira responsabilidade assumimos e ao qual não se fez, até o momento, a menor contestação razoável.

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Pela primeira vez, desde que o mundo se governa pelos princípios da civilização de Jesus Cristo, um pai mata seu filho por motivos de saúde.

Trata-se do Sr. Sullivan, de Perth, na Austrália, que levou a passear seu filho de três anos a quem prostrou inesperadamente com um tiro. O próprio infanticida conduziu depois o pequeno cadáver à polícia, e declarou que a razão do crime que praticara era que seu menino sofria de moléstia incurável.

Não era lícito a esse pai desnaturado, matar o seu filho, qualquer que fosse o pretexto por ele invocado. Mas façamos abstração disto, e consideremos a questão sobre outro aspecto. O Sr. Sullivan é "chauffeur", portanto pessoa relativamente desprovida de recursos. Será tão seguro que autorize o infanticídio o diagnóstico do médico de 2ª classe, a quem provavelmente o Sr. Sullivan consultou? Será realmente incurável essa moléstia? Com os progressos que a medicina vem fazendo, não é bem possível que, daqui a alguns anos, o menino pudesse ser curado?

Em nada disto refletiu o Sr. Sullivan.

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O Sr. Sullivan, em si, não interessa. Sua atitude vale apenas como sintoma de uma civilização.

A tal ponto o mundo descristianizado está perdendo o senso da caridade, que diversos escritores europeus já sustentam a inutilidade e, mais do que isto, a nocividade dos estabelecimentos de assistência à infância doente.

Se a criança doente é um ser inferior, por que razão há de o Estado sobrecarregar-se com sua educação? Não seria melhor deixar morrer esses galhos quase secos, para que a seiva afluísse mais abundante, para os galhos sãos?

Se algum dia esse pensamento conquistar o mundo, os casos como o do Sr. Sullivan serão numerosíssimos.

Nesse dia, a Igreja certamente já terá voltado para as catacumbas. E, no Brasil, as pessoas do povo matarão seus filhos, não mais a conselho médico, mas por indicação de (satanistas)...

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Realmente muitas coisas estão sendo mudadas. Não espanta, portanto, que venhamos a ver algum dia (satanistas) como senhores da vida e da morte das crianças.

A tal ponto o mundo se está transformando, que até os últimos redutos da ciência e da inteligência estão sendo conquistados pelo espírito moderno, mais amigo de coisas leves e picarescas, do que de demonstrações doutas e substanciosas.

A secção de "Vida Forense" de "O Estado de São Paulo" geralmente redigida com tanto brilho, é um exemplo disto.

No último domingo, permitiu-se uma crônica que não poderia ingressar em qualquer casa de família.

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Enquanto a medula da sociedade se vai descristianizando, os rótulos, por uma contradição surpreendente, vão adquirindo aspecto cristão. É que a burguesia se serve do Catolicismo como o toureiro se serve do pano vermelho para desviar o touro. Insígnias católicas por fora, para impressionar as massas. Por dentro, sentimentos pagãos.

Promulgada a Constituição e regulamentado o ensino religioso, nem mais um passo foi dado pelos nossos políticos, no sentido de recristianizar o Brasil.

Mas, em quase todos os rótulos do regime novo, há manifestações religiosas capazes de dar arrepio a Benjamin Constant.

É um exemplo disto o novo selo que será brevemente posto em circulação, e que será comemorativo do Congresso Eucarístico de Belo Horizonte.

No entanto, é preciso que certa gente compreenda que não é por meio de selos e quejandas coisas, que se recristianizará um povo.

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Enquanto os selos oficiais trazem a homenagem do Governo à Sagrada Eucaristia, eis como o jornal situacionista e governamental de São Paulo se refere às coisas da Religião:

"O Deus amoroso a quem essa música é consagrada (trata-se da Missa de Coroação, de Mozart) é um bondoso e velho Senhor de longas barbas brancas. E o seu céu está povoado por inúmeros e pequenos anjos de olhos claros e de elegantes asas, que apesar dos deveres celestiais podem seguramente dar impulso e alegre ‘aletria’".

Esta linguagem não convém a assuntos relacionados com o Deus três vezes Santo, diante do qual até os Anjos velam as faces puríssimas, cheios de temor.

Dir-se-ia que o autor das linhas que citamos considera Deus e seus anjos como graciosas ficções, comparáveis ao Chapelinho Vermelho e às fadas da Idade Média.

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Há, em certos círculos, uns tantos cavalheiros que, nem sequer são católicos e que, no entanto, querem ser mais católicos que o Papa.

Mostrou-se dessa marca o Sr. Adalberto Corrêa, quando discordou, na tribuna da Câmara, do gesto impregnado de "excessiva bondade", com que o Sr. Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro, autorizou a celebração de uma Missa segundo as intenções do Sr. Pedro Ernesto.

Tudo que é excessivo é mau. Se a bondade de S. Ema. o Cardeal fosse excessiva, não seria uma qualidade, mas, um defeito.

O Sr. Cardeal não poderia proibir, porém, que fosse rezada uma Missa segundo as intenções de uma pessoa que terá todos os crimes políticos que se queira - nós estamos disto certos - mas que ainda não foi julgada criminosa pelos nossos tribunais de cuja imparcialidade não temos motivos para duvidar. Não é lícito negar-se auxílio espiritual a alguém pelo simples fato de estar sendo acusado de crimes políticos, ainda não confirmados pela Justiça.

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O Sr. Alberto Americano pronunciou um discurso na Câmara dos Deputados, profligando as supostas crueldades praticadas pela direção de nossos presídios políticos, contra os implicados nos acontecimentos de novembro próximo passado. Podemos afiançar que são inteiramente errôneas as informações dadas à Câmara por S. Ex.a. Realmente, há excessos, mas esses excessos são de brandura e tolerância. De tal vulto é essa tolerância que confina com a cegueira e a imprudência.

Ficaria melhor a S. Ex.a condoer-se com a sorte das vítimas brasileiras e espanholas do comunismo do que com as dos criminosos detidos pela Polícia.

Ou o P.R.P. já não é um partido conservador?

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Pouco sabemos da vida e das idéias do General João Gomes, mas a imparcialidade nos força a elogiar mais uma vez nosso Ministro da Guerra.

Nestes tempos de indisciplina e de anarquia, a nota, com que S. Ex.a pulverizou os boatos de instauração de uma ditadura militar constituiu uma página que honra o Exército e a História do Brasil.


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