Legionário, N.º 424, 27 de outubro de 1940

7 DIAS EM REVISTA

Registramos com pesar a informação publicada pelo órgão francês “La Croix” de que uma estatística feita nos Estados Unidos em abril deste ano apontava a existência, naquela república, de 75.602.615 ateus.

Este extraordinário desenvolvimento do ateísmo é um fruto da decomposição do protestantismo que, tendo arrancado as massas ao grêmio da Igreja, as privou implicitamente de todos os recursos necessários para conservarem uma convicção sólida nas verdades reveladas e por fim as atirou contra as próprias verdades que estão ao alcance da filosofia natural.

Infelizmente, o ateísmo, ou sob a forma da negação radical da existência de Deus, ou sob a forma  mais hipócrita da afirmação neo-pagã de um deus vago e impessoal, que em última  análise se reduz à “natureza” dos evolucionistas, é o grande flagelo de nossos tempos. E, enquanto ele se alastra na América do Norte, conquista “manu militari” povos inteiros na Europa.

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Entretanto, é sumamente consolador que a mesma estatística tenha registrado um aumento sensível no número de católicos, que se eleva atualmente, nos Estados Unidos, a 19.914.937, sendo que, desde 1930, o número de conversões ao Catolicismo atingiu a 1.300.934.

Graças a Deus, é esta a outra nota consoladora de nossos tempos. Enquanto crescem de vulto as apostasias, também crescem de vulto as conversões, e o mundo caminha, de modo cada vez mais resoluto, para as duas grandes posições que são, de um lado o extremo da impiedade, e de outro lado o Catolicismo Apostólico Romano, autêntico, cuja expressão genuína e categórica se traduz no santo radicalismo dos que não querem ser nem frios nem mornos, mas positiva e decididamente ardentes.

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Achamos exagerado o tumulto que se levantou em torno da execução do Sr. Companys. Sem entrar na apreciação do modo pelo qual aquele revolucionário foi detido, o que não podemos fazer por falta de pormenores, não devemos, entretanto, deixar de protestar contra certo modo de noticiar o fato, segundo o qual Companys é apontado como um mártir da civilização. Homem de princípios irremediavelmente oposto ao Catolicismo, era ele implicitamente um inimigo da verdadeira civilização, e se pode sustentar que entre  seus adversários muitos não seriam melhores que ele, nem por isso se deve entender que ele foi um benemérito.

Rezando embora para que Deus se apiede de sua alma, não podemos deixar de fazer à margem deste acontecimento um comentário ditado pelo bom senso e pela justiça.

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A aproximação do Sr. Franco com a Alemanha traduz, na política interna da gloriosa e sempre querida Espanha, o início de uma era de perturbações. Com efeito, a Revolução, de que o caudilho foi chefe, exprimiu o grande anseio da massa do povo espanhol por uma Espanha verdadeiramente católica, reintegrada finalmente em sua gloriosa tarefa de baluarte da civilização católica.

Ora, todos os elementos que, com este título, lutaram ao lado de Franco, não podem deixar de se sentir decepcionados e apreensivos ao ver que diminuem as probabilidades de se conservar a Espanha neutra no presente conflito.

Segundo supomos, é a perspectiva deste descontentamento interno que se deve a visita do Sr. Himmler a Madrid. O chefe da famosa Gestapo alemã ensinará a seus correligionários espanhóis como montar um policiamento soberanamente eficaz. E os rigores deste policiamento, em lugar de serem exercidos contra os comunistas, irão ter por alvo predileto os carlistas, os católicos da orientação de Gil Robles, etc.

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Embora com as devidas reservas, não podemos deixar de publicar a informação que um telegrama procedente de Roma enviou a Nova York: S. E. o Cardeal Baudrillart, Reitor do Instituto Católico de Paris, estaria sob estreita vigilância das autoridades alemãs, por ter dois dias antes da entrada destas em Paris, escrito no livro de minutas da Academia Francesa, de que o Prelado é Secretario, uma frase reputada injuriosa à Alemanha. S.E. o Cardeal Suhard, Arcebispo de Paris, também estaria em dificuldades com as Autoridades alemãs, e S. Ex.a Rev.ma o Arcebispo de Rennes continua preso em virtude de ser acusado de opor resistência à propaganda alemã.

A esta notícia, entretanto, temos uma ressalva a fazer. A propaganda nazista costuma identificar Alemanha com o nazismo, de sorte que sempre que se lê aquela palavra é esta última que se deve ler.

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Um telegrama proveniente de Hanói informa que o chefe da missão naval japonesa naquela cidade deu uma entrevista a United Press, em que declarou não ter dúvidas de que o governo de Vichy cederia ao Japão as bases navais que este solicitasse na Indochina, “em virtude do governo de Vichy depender do alemão”.

A frase é textual.

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É digno de nota o seguinte telegrama da United Press, procedente de Vichy, e publicado pela Folha da Manhã[1] desta Capital: VICHY, 18 (U.P) - Anuncia-se que as potências do “eixo” fizeram uma nova advertência à França para que esteja preparada para pagar caro sua fracassada guerra contra a Alemanha.

Assinala-se que tanto as emissoras alemãs como as italianas declararam, em suas últimas e recentes irradiações, que o atual armistício significa unicamente uma paz temporária e que não é um prelúdio de uma paz verdadeira, acrescentando, com sugestiva consonância que a França deve  preparar-se para pagar “primeiro por ter perdido a guerra e, segundo, por ter provocado a guerra que perdeu”.

 



[1] Folha da Manhä, 19-10-40