Catolicismo, N 408, Dezembro de 1984 (www.catolicismo.com.br)

Perseguição ideológico-religiosa na Venezuela

Nuvem negra baixa sobre o país irmão

A DIREÇÃO nacional da Ação Democrática (AD) (partido governamental filiado à Internacional Socialista) deliberou ontem, por unanimidade, pedir ao Presidente da República da Venezuela que cancele o funcionamento da "Associação Civil Resistência". Esta última é uma entidade conhecida em todo o país, pois há vários anos vem prestando, dentro da ordem e da lei, os mais insignes serviços para a preservação daquela nação contra o socialismo e o comunismo, por meio do estimulo aos valores da tradição, família e propriedade.

Com essa atitude, a AD tenta arrancar o caso da decisão do Judiciário e pôr ponto final arbitrariamente a uma longa perseguição ideológico-religiosa cujos numerosos lances abaixo se descreverão sumariamente.

Está, assim, prestes a baixar uma negra nuvem de tirania e de perseguição sobre a nação irmã, cujas liberdades começam a ser calcadas aos pés por motivos iniludivelmente ideológicos.

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Com efeito, a partir de 6 de outubro p.p., uma torrencial campanha publicitária começou a se desenvolver simultaneamente contra "Resistência", pelas colunas de todos os jornais caraquenhos. Distorsões, difamações, calúnias, que procuravam envolver, com "Resistência", o conjunto das organizações TFP, passaram a ser veiculadas pela imprensa e pelas TVs. E com os mesmos modos sofisticados de certa propaganda difamatória moderna: imputações berrantes e todas elas carentes de provas, repetidas em meio a uma zoeira incessante, hipervalorização dos fatos insignificantes etc., etc. Se necessário, de tudo isto será informada mais pormenorizadamente, e em tempo oportuno, a nação brasileira.

Desta orquestração publicitária ensurdecedora se retirou logo de início o maior e mais conceituado quotidiano venezuelano, "EI Universal", o qual vem mantendo atitude exemplar, imparcial no assunto.

Qual a origem dessa ação publicitária, EM CUJA DIANTEIRA FIGURAM FOGOSAMENTE, desde o início, OS ÓRGÃOS DE INFORMAÇÃO DAS PRINCIPAIS CORRENTES SOCIALISTAS, E O BOLETIM OFICIAL DO PC DO PAÍS?

A pergunta, que um número cada vez maior de venezuelanos vinha se pondo, começou a encontrar resposta quando, no dia 15 de outubro, os deputados José Antonio Martínez, do Movimento Eleitoral do Povo (socialista), e Henrique Ochoa Antich, do Movimento para o Socialismo, pediram que a Comissão de Política Interior da Câmara dos Deputados apurasse a realidade das versões veiculadas contra "Resistência" pela imprensa e pela televisão.

Certa de sua inteira inocência, a entidade assim visada declarou pela imprensa, logo depois de aprovada a investigação pela Comissão da Câmara, que colaboraria de bom grado com esta para a apuração da verdade.

Mas, logo DESDE A PRIMEIRA - E ATÉ AQUI ÚNICA - REUNIÃO DA REFERIDA COMISSÃO, FICOU CLARO QUE "RESISTENCIA" NÃO ESTAVA DIANTE DE UM ÓRGÃO VOLTADO A INVESTIGAR, MAS SIM A PERSEGUIR.

Com efeito, o deputado socialista David Moralles Bello, presidente da Comissão, abriu os trabalhos dela com a leitura de um violento libelo de acusação contra "Resistência". Os demais componentes da mesa da Comissão eram absolutamente solidários com a atitude do Sr. Moralles Bello. E quando o Sr. José Rodriguez Iturbe, deputado democrata-cristão, se levantou para pedir que fosse examinado antes de tudo SE HAVIA PROVAS dos fatos alegados contra "Resistência", e QUAIS DELES ERAM ILEGAIS, esta proposta proba e de bom senso elementar foi acolhida AGRESSIVAMENTE pela mesa, do que se originou até um incidente.

Justamente receosa dos resultados a que pudesse chegar uma Comissão de Inquérito desse naipe, "Resistência" se valeu de um recurso que o Processo Penal do país lhe faculta. Isto é, "Resistência" requereu ao Poder Judiciário que abrisse UMA COMPLETA INVESTIGAÇÃO SOBRE SUAS ATIVIDADES. Assim, um poder apolítico e imparcial, por definição, iria julgar das provas - ainda não mencionadas por ninguém - e da pretensa ilegalidade das ações de "Resistência". MAIS LÍMPIDA, MAIS HONESTA, MAIS PACÍFICA A AÇÃO DA ENTIDADE NÃO PODERIA SER.

Pelo contrário, mais agressiva e mais arbitrária não poderia ser a atitude do socialismo reinante na Venezuela. É o momento de dizer uma palavra sobre este.

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As eleições de dezembro de 1983 deram a maioria à Ação Democrática (AD), partido filiado à Internacional Socialista. Esta última tem, aliás, em Caracas, uma sede ativa.

Em conseqüência do voto socialista majoritário, a representação parlamentar da AD - acrescida de pequenas bancadas de outras correntes socialistas, e de representantes do PC - ficou com a maioria no Legislativo. Foi eleito também o candidato da AD à presidência da República, Sr. Jaime Lusinchi. E o seu ministério também pertence à AD. A ESQUERDA SOCIALISTA DOMINA O PAÍS. Não espanta, pois, que, mesmo antes de instalada a investigação parlamentar, já os ministros do Interior e da Justiça tivessem feito declarações (aliás espantosamente inconsistentes, do ponto de vista legal) contra "Resistência".

Igualmente não espanta que, também anteriormente à investigação parlamentar, houvesse sido aberta, por iniciativa do Ministério Público, uma ação penal contra "Resistência" por acusações rocambolescas, como seqüestro, lavagem cerebral, uso de drogas etc., etc. Esta ação, comportando LONGOS INTERROGATÓRIOS DE ESTILO NAZI-COMUNISTA, QUE CONSTITUÍAM CLARA TORTURA MORAL, evidentemente não deu em nada.

No dia 12 do corrente, a "Fiscalía", ou seja, o Ministério Público, iniciou, pois, outra ação análoga.

Como acaba de ser dito, havia duas ações judiciais em curso, uma de inicia:iva de "Resistência" e outra do Ministério Público, quando, na manhã de hoje, os jornais caraquenhos deram uma notícia espantosa. Com o efeito evidente de arrancar a matéria ao Poder Judiciário, A DIREÇÃO NACIONAL DA AÇÃO DEMOCRÁTICA MAJORITÁRIA E SOCIALISTA, reunida no dia 12 do corrente, DELIBEROU POR UNANIMIDADE DE VOTOS PEDIR AO SR. PRESIDENTE DA REPÚBLICA QUE DECRETASSE A "PROSCRIÇÃO" DE "RESISTENCIA". Medida que acarretaria o FECHAMENTO DA SUA SEDE, O SEQUESTRO DE TODOS OS BENS que ali se encontrassem, E A DISPERSÃO DA ENTIDADE.

É digno de nota que o pedido procedente dos arraiais políticos socialistas não consta que tenha sido apoiado por uma só entidade política com expressão na sociedade venezuelana. Com exceção de três sacerdotes aggiornati e de um grupo cerrado de 5 ou 6 casais com filhos maiores de idade inscritos em "Resisténcia". Este grupo, uma minoria de dez por cento do total dos pais com filhos na en:idade, desde o começo agiu em exata sincronia com os líderes socialistas. E, ideologicamente opostos a "Resistência", faziam a esta críticas sem consistência jurídica nem científica do bem conhecido gênero "lavagem cerebral", "seita" etc.

Segundo as TVs e rádios estão anunciando com insistência na Capital venezuelana, de um momento para outro o chefe de Estado poderia tomar essa medida. E à margem do Judiciário.

Considerada em seu conjunto esta dramática sucessão de fatos, importa notar um aspecto, quer do estrondo, quer dos debates da Comissão de Investigação. É O REALCE IMPAR DADO PELOS ADVERSÁRIOS DE "RESISTENCIA" ÀS ACUSAÇÕES DE CARÁTER RELIGIOSO levantadas contra a entidade. Antes de tudo, esta imputação tipicamente novelesca: que membros da mais alta aristocracia européia, entre os quais o príncipe alemão de Thurn und Taxis, o arquiduque Otto de Habsburgo e os príncipes da Casa de Bragança (ramo português e ramo brasileiro) haviam maquinado as tentativas de assassinato contra João Paulo II na Praça de São Pedro e em Fátima. "Resistência" era apontada como longa manus dessas personalidades, e tramava um atentado sacrílego contra João Paulo II, proximamente em visita à Venezuela!

Ademais, "Resistência" era fortemente interrogada sobre sua posição perante o Concílio Vaticano II, as reformas litúrgicas estabelecidas por este, o movimento renovatório da Igreja pós-conciliar etc., etc. Era evidente o propósito de PERSEGUIR COM TUDO ISTO ELEMENTOS TRADICIONAIS DA IGREJA, DANDO ENTRETANTO LIVRE CURSO AOS ELEMENTOS PROGRESSISTAS. Ora, num Estado separado da Igreja, como o é o da Venezuela, TAIS PERGUNTAS EXTRAPOLAM evidentemente DO QUADRO LEGAL, E CONFEREM A TODA ESTA PERSEGUIÇÃO CONTRA "RESISTENCIA" O CARÁTER DE UMA PERSEGUIÇÃO que, além de nitidamente IDEOLÓGICA (SOCIALISMO VERSUS ANTI-SOCIALISMO), É TAMBÉM RELIGIOSA.

No momento em que esta nota é redigida, o que se sabe pela imprensa é que a direção da AD foi incorporada ao chefe de Estado, para pedir-lhe que CONSUME A TENEBROSA AÇÃO PERSECUTÓRIA, SILENCIANDO O JUDICIÁRIO, E CHAMANDO A SI A IMOLAÇÃO ARBITRÁRIA DE "RESISTENCIA".

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Diante deste fato, a TFP brasileira não vê meios senão denunciar que a tirania socialista vai baixando sobre a Venezuela como uma densa nuvem escura. Um ato persecutório atrai sempre outros: "Um abismo clama por outro abismo", diz a Escritura (Ps. 41, 8).

À maneira de seu malogrado e querido amigo Salvador Allende, é de temer que o Sr. Jaime Lusinchi aceda às instâncias do partido que o elegeu, e que seja levado pelo curso dos fatos a fazer cessar outras e depois mais outras oposições.

A experiência socialista mostra que, na América do Sul, ela é inseparável de um clima de suspeitas, de intolerância e de perseguição.

Protestando ante Deus e ante Nossa Senhora de Guadalupe, Patrona das três Américas, contra esta perseguição ideológico-religiosa de que "Resistência" está sendo objeto, a TFP brasileira alerta para tal a consciência de quantos costumam erguer-se indignados, sempre que consideram ter sido violado um direito humano em pessoas de esquerda. Homens os há, tanto na esquerda, quanto no centro ou na direita. É de esperar que a tutela dos direitos humanos não lhes seja menos cara quando são perseguidos os que são de direita, como os beneméritos jovens de "Resistência".

São Paulo, 13 de novembro de 1984

Paulo Corrêa de Brito Filho

Diretor de Imprensa da TFP

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TFP ESCLARECE

O SERVIÇO DE IMPRENSA DA TFP encaminhou a diários do País que noticiaram o suposto envolvimento de "Resistência" numa trama para atentar contra João Paulo II, o seguinte comunicado:

Causa pasmo haver órgãos de imprensa noticiado como plausível que um jovem venezuelano, o qual seria portador de uma ficha de identidade de "Resistência" (Associação coirmã autônoma das 14 TFPs), tenha sido detido no dia 12 último por policiais, portando uma arma de fogo munida de mira telescópica, como também plantas nas quais estava indicado o trajeto a ser seguido por S.S. João Paulo II quando da visita que fará a Caracas, dentro de aproximadamente 40 dias.

O conjunto desses dados proporcionaria fundamento - segundo a notícia estampada nesse jornal, acima mencionada - a sérias suspeitas de que "Resistência" estaria tramando contra a vida do Pontífice.

A TFP venezuelana começou a atuar em 1968, sendo continuada em sua ação por "Resistência", a partir de 1979. Durante todo esse tempo, a ação pública desenvolvida por essas entidades caracterizou-se sempre pelo seu espírito pacifico e seus métodos eminentemente ordeiros. Precisamente como sucede com as diversas TFPs.

Não há pois como atribuir foros de plausibilidade à notícia de que "Resistência", de inspiração notoriamente católica, tenha tramado contra alguém um crime tão grave quanto o homicídio. Máxime quando tal homicídio tomaria o caráter de sacrilégio nefando por ser dirigido supostamente contra a sagrada pessoa do augusto Pontífice!

A essas reflexões preliminares importa acrescentar a análise direta do noticiário publicado em Caracas sobre o estranho fato:

a) Segundo a imprensa caraquenha, o suspeito é um jovem de 21 anos, Douglas Torrealba Hernandez. "Resistência" foi injustamente proscrita pelo governo venezuelano - com o aplauso caloroso, aliás, do "Izvestia" (edição de 20 de novembro p.p.), órgão oficial do governo soviético. A entidade não está em condições de opor desmentido oficial à suspeita infamante. Mas, membros da associação, residentes fora da Venezuela, nos autorizam a declarar, do modo mais categórico, que a referida pessoa nunca pertenceu a "Resistência", nem era conhecida naquela associação.

b) Douglas Torrealba Hernandez, sempre de acordo com a imprensa caraquenha, já tinha contra si várias queixas-crime por motivo de roubo. Como é notório na América, na Europa, na Oceania e na África, onde as TFPs possuem sedes, esse gênero de gente nunca é admitido em suas fileiras.

c) Por fim "Resistência" nunca emitiu ficha de identidade, pela muito simples razão de que só contava com 50 sócios e cooperadores, o que tornava a existência de tais fichas, não só inúteis, como até ridículas. A ficha de identidade, que seria portada pelo já mencionado Douglas, é invencionice de policiais, ou de jornalistas movidos por ódio a "Resistência". Ou enfim foi fabricada por Douglas...

Paulo Corrêa de Brito Filho - Diretor de imprensa da TFP