"Agência Boa Imprensa – ABIM", 1ª quinzena de maio 1992

V CENTENÁRIO DO DESCOBRIMENTO DA AMÉRICA

Grandeza da vocação dos povos ibéricos

A propósito do V Centenário da Descoberta e Evangelização da América, cabem aqui alguns comentários sobre a vocação dos povos ibéricos.

Abram-se as páginas dos jornais. Pouco se fala nelas no mundo íbero-americano. O centro da cena é ocupado por outros povos. Mas o que fazem? Preparam-se para o maior caos da História. Passam pelas contorções das crises mais horripilantes. E para evitar o caos e a crise, em cada um deles, importantes partidos políticos nos acenam com uma socialização total da vida, que seria pior do que os estragos da bomba atômica.

Todo edifício que se construir com base na cobiça dos prazeres e dos bens da Terra tem de arruinar-se por esta forma. O senso do ideal, do espiritual, do celeste, apagou-se em tantos e tantos povos quase completamente! A Torre de Babel, que se erguera orgulhosamente ao lado da velha mansão paterna do mundo ibérico, deita chamas por todas as janelas, estremece em todos os alicerces, e de dentro dela partem vozes de discórdia e gritos de dor. Não temos esta riqueza, mas também não temos esta maldição. Construímos menos, e por isto acumulamos menos erros nas áreas de cultura e de terra que nos pertencem. E, em toda esta tragédia universal, o mundo ibérico, no qual Portugal e Brasil ocupam um lugar de importância inexcedida, conserva para o dia de amanhã riquezas imensas de alma, de cultura, de bens materiais, que ainda estão intocadas. Em uma palavra, nosso é o futuro.

Depois do ouro e do incenso, a mirra.

Quer tudo isto dizer que não cometemos, também nós, graves pecados? Infelizmente, não podemos pretender que tenhamos conservado intacto nosso patrimônio espiritual, e que seja perfeito tudo quanto fizemos no campo material.

Muitas vezes, deslumbrados pelo crescimento da Babel moderna, abrimos nossas janelas para o seu lado, deixando que nossas almas se envenenassem pelas harmonias e pelos perfumes que de lá nos vinham. Adaptamos nossa velha mansão, em muitos e muitos pontos, segundo as modas de Babel. Vestimos os trajes de seus habitantes, e nos nutrimos de suas iguarias. Os que entre nós eram os admiradores desta Babel, com demasiada freqüência empunharam o leme, e indolentemente os deixamos fazer. Há, em nós mesmos, todo um trabalho de restauração a cumprir.

Mas este trabalho a Providência o deseja e o abençoará.

Nós, povos ibéricos e íbero-americanos, sofremos, em medida não pequena, do mal de toda a Humanidade hodierna. É esta uma verdade que precisa ser proclamada inteiramente, e com toda a coragem. Não nos libertaremos deste mal, nem recuperaremos as virtudes ancestrais, sem um profundo revigoramento religioso. A grandeza de Portugal, do Brasil, da Espanha e da América espanhola é uma grandeza cristã.