A alma de Nossa Senhora: síntese contendo extremos harmônicos de uma brisa, de um vulcão, de uma pomba, de uma águia… Ela é muito mais do que tudo: Ela é a Virgem Maria, Mãe de Deus!

Auditório São Miguel, Sábado, 24 de novembro de 1979 – Santo do Dia

 

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

 

 

Este vai ser, meus caros, um Santo do Dia improvisado por excelência… Na hora em que eu tomava o automóvel para cá, me disse com aquela suavidade com que ele escorrega uma notícia um pouco complicada: “Dr. Plínio, que tal um Santo do Dia a respeito de Nossa Senhora, do ponto de vista metafísico?…”
Eu disse a ele: “esse tema é de uma vastidão tal, e diante de um inopinado tal que, ao pé da letra, vai ser inteiramente improvisado”. Nisso bateu-se a porta do automóvel, aconteceu qualquer coisinha e ele me disse rapidamente: “é, os sábados andam muito duros, não?…”
Eu concordei: “andam muito duros os sábados”… e saímos falando a respeito da dureza dos sábados, rezamos e nisso chegamos.
Eu não tive sequer tempo de concatenar duas ideias para vos falar desse alto tema, vou, portanto, expô-lo como ele se encontra em meu espírito e com todas as improvisações e todas as inadequações próprias àquilo que é produzido de momento, e me ponho na seguinte ideia –– eu já me tenho referido várias vezes àquele trecho do Gênesis, em que Nosso Senhor criou o universo e depois de ter criado o universo repousou, dizendo que considerava que cada coisa feita era boa, mas que o conjunto era ótimo, ou seja, que cada coisa feita era bela também, era verdadeira também, mas que o conjunto tinha muito mais de verdade, de beleza, de bondade do que cada coisa individual.
O que não se costuma dizer, mas que é o fundo da coisa é o seguinte: é que quando Nosso Senhor teve como intenção criar o universo, Ele teve como intenção que o Verbo se encarnasse, e teve como intenção que tudo fosse ordenado desde o primeiro momento para serem reflexos de Nosso Senhor Jesus Cristo e, portanto, de Nossa Senhora também. Daqui a pouco eu falarei a respeito de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora estabelecendo a distinção infinita que há entre Ele e Ela.
Mas o centro de toda concepção foi, quando Ele criou a matéria, quando Ele criou os seres espirituais ligados à matéria, fazer a obra-prima de toda essa ordem e fazer com que tudo quanto Ele criasse refletisse essa obra-prima e estivesse ordenada a essa obra-prima. De maneira que quando a Terra era, como diz a Escritura, inanis et vácua, quer dizer, ainda não tinha forma e estava vazia, e nós podemos imaginar isso com todas as descrições que os astrônomos dão a respeito das estrelas e que mais ou menos, de um modo ou de outro, podem nos dar a ideia dos estágios pelos quais pode ter passado a Terra antes dela tomar seu aspecto atual.
Então, no momento em que, vamos dizer, o globo terrestre não fosse senão uma matéria incandescente, e uma matéria incandescente que tinha coloridos diversos, e esses coloridos e essas chamas brotando em torno da matéria incandescente, e do fundo da matéria incandescente constituíam uma pirotecnia celeste, que só Ele via, mas que dava plenamente para Ele ver e era então o divino fogo de artifício por Ele criado com uma beleza para Ele mesmo considerar; o primeiro pistolão solto no universo e que tinha todas as belezas de um jato que sai da mão d´Ele, e sai um fogo e a gente vai ver era a Terra. Ele já tinha como intenção que todos os aspetos que aquela Terra teve naquele momento, e todo o verum, bonum, pulchrum que a Terra tinha naquele instante espelhassem já as chamas do Sagrado Coração de Jesus e do Sapiencial e Imaculado Coração de Maria.
De lá para cá, belezas incontáveis foram se estabelecendo. E temos a impressão de que havia de início na Terra –– é a impressão que tem quem nunca estudou essas matérias e que fala apenas oticamente, visualmente, numa primeira impressão -, a impressão que se tinha é que a Terra e a natureza toda eram de uma pujança extraordinária, e que com o tempo essa pujança foi se concatenando, que ela tinha qualquer coisa de desconcatenada: ora era só água, ora era só pedra, ora era só fogo, ora era só terra, depois ela mudava e ficava não sei de que jeito e aquilo evoluía e ela ia apresentando formas de beleza inauditas, mas nas quais não havia vida.
Que aquilo tudo já espelhava também a pujança dos pensamentos, das deliberações e do sentir de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, e que não houve um aspecto que a Criação tenha tido nessas pré-eras pré-primitivas que já não fossem uma espécie de profecias do que seriam Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora.
Nós não sabemos, nós não vimos, mas como seriam felizes aqueles geólogos, aqueles astrônomos que tivessem bastante espírito de fé, para se voltar para aquelas épocas remotíssimas e procurar reconstruí-las, e inspirar artistas que procurassem pintá-las e depois dizer: que intenção Ele tinha nisso? Entre outras, era a intenção que um dia, numa sala, um homem com a sua progênie espiritual, dissesse: assim foi porque um dia haveria de vir o Prometido das nações, havia de vir Aquela que era a mera obra-prima criada, ou a obra-prima meramente criada, Mãe da obra-prima criada que tocava já no Criador, e que por aí escapava à ordem do meramente criado. E que os dois juntos, uma na ponta da mera criação e a outra, a humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo já na ponta da Criação, mas por assim dizer com o busto no Céu, tivessem de antemão todas as belezas de tal fogo, toda a grandeza de tal explosão, todo o torrencial de tal lava que correu, toda a força que abriu tal abismo, e que todas as tristezas ou as alegrias dos Corações deles fossem simbolizados pelas águas quando começam a encher as cavidades marítimas, com um turbilhão e com um burburinho que ia crescendo e crescendo e depois se estabilizando magnificamente.
Todas essas cenas representavam os movimentos de alma de Nosso Senhor Jesus Cristo e os movimentos de alma de Nossa Senhora, e nos fazem, por exemplo, compreender algumas coisas que são simplesmente inarráveis e inconcebíveis pelo espírito humano, como, por exemplo, o que se passou na alma d´Ela e na alma d´Ele, na alma santíssima d´Ele no momento em que Ele disse “consumatum est”.
Quando se deu aquele fato sumamente doloroso do estraçalhamento, que é quando a alma deixa o corpo e o corpo fica em estado cadavérico, a alma naquele momento deve ter uma consciência disso, e essa consciência deve coincidir com um pináculo de vindita e de infelicidade e de mal estar no corpo, e rompe-se a coisa.
Para os senhores terem ideia do que é, imaginem todas as dilacerações de que o corpo humano é capaz, imaginem que uma tortura incrível arrancasse do dedo de cada um de nós as primeiras falanges, depois arrancassem as segundas e as terceiras falanges, sem anestesia. Os senhores podem imaginar a dor que uma coisa dessas pode representar, uma coisa inconcebível! Quão menor é essa dor desse estraçalhamento, do que a dor da morte.
Nós não temos bem ideia do que podemos sofrer na hora de morrer, mas a alma que sai do corpo é um estraçalhamento incomparavelmente maior; é um mal estar incomparavelmente maior, é terrível, mas é bom abrir os olhos…
Uma das últimas vezes em que fui ao oculista, eu peguei o rabo da seguinte cena: dias antes tinha estado ali um casal levando um menino que tinha dores de cabeça etc.; o oculista examinou e disse o seguinte: amanhã cedo vai ser preciso arrancar os olhos dele, porque ele tem uma distonia qualquer de nervos ou de veias qualquer no cérebro, que ele morre se continuar a ter vista. E os pais tiveram de ocultar à criança, empurraram a criança para fora, com certeza uma enfermeira ficou tomando conta da criança, e os dois caíram no choro. Porque é um trauma… Os senhores podem imaginar que trauma esse! É difícil de exprimir.
Os senhores já pensaram o que sente a alma no momento em que ela abandona a vista, em que abandona o corpo inteiro? Porque se arrancar os olhos é tal, sentir os olhos morrerem, o que será? E sentir o corpo todo morrer, o princípio vital que sai de dentro e que se arranca, o que é? Conosco, ainda nos consola a nossa miséria por onde isso se passa numa espécie de assim –– antigamente se dizia, não sei se a expressão ainda se conserva, zás-trás, assim uma coisa fulminante –– vai num zás-trás, num trambolhão, a pessoa nem percebe bem, morreu, sofre lancinantemente, mas morreu.
Mas Nosso Senhor morreu aos poucos, morreu num conta-gotas, nEle não havia as fraquezas do subconsciente, n´Ele tudo era consciente, e Ele sentiu até a profundidade última de Sua alma essa dissociação e essa ruptura, e Ela, que O conhecia como ninguém conheceu nunca ninguém, nunca ninguém conheceu ninguém como Ela conhecia a Ele –– melhor do que como Ela conhecia Ele, era só como Ele conhecia a Ela –– Ela via tudo aquilo que ia se passando, via o sangue que corria, a respiração que arfava, a vida que ia bruxuleando, e no momento do “consumatum est”, Ela que era concebida sem pecado original e que tinha a sabedoria que nunca criatura alguma teve, Ela soube inteiramente o que Ele estava sofrendo. Naquela hora Ela nem sequer sentou-se, nem sequer desmaiou e quis o que estava se passando para esmagamento do demônio, a regeneração do gênero humano e a glória de Deus.
A gente pode imaginar a força dessa vontade, a clareza com que Ela sabia as razões pelas quais Ela tinha que querer, a força com que Ela teve que querer o que quis, e o tumultuar sinfônico e harmônico de todas as dores dentro d´Ela, como se um órgão tocasse com todos os registros ligados, e sofrendo com toda alma.
É ou não é verdade que os acontecimentos mais gigantescos da pré-história dão apenas uma ideia da força com que n´Ela se passou aquilo naquele momento? Quando as águas saíram das entranhas da terra –– assim eu imagino, não estou dando uma aula de ciência, estou dando uma aula de “fiction non science” –– aula… eu estou fazendo uma digressão de “fiction non science” –– bem, quando as águas saíram das entranhas da terra e foram se precipitando e esguichando de todos os lados nos mares, deveria ser um barulho, um burburinho de água, uma coisa fenomenal, grandiosa, não é? Não exprimiam o que era a resolução que saía do fundo do ser d´Ela e dizia: “Não! Ele precisa morrer porque a glória de Deus pede isso! Meu Filho, morra, eu vos ofereço!”
Ah… o que foi isto? Não se tem uma ideia.
Então, todos os fatos da história, as revoluções humanas, os pecados humanos, as virtudes –– para dizer tudo, Carlos Magno fica reduzido a menos que um anão, a um micróbio em comparação, ele, o homem pinacular da Cristandade, fica reduzido a um micróbio em comparação a esse fato tão extraordinário que se ele teve alguma grandeza, como teve, ainda foi porque existiu aquela grandeza, foi inaugurado um modo de ser grande que nem os homens conheceram, e que é a grandeza cristã que nele refulgiu de modo tão magnífico.
Bem, agora para os senhores verem como Deus fez as coisas ordenando umas às outras, os senhores devem considerar que depois que a Terra passou por todos esses estados que nos assustam e nos parecem quase desordenados na sua violência, Deus foi temperando a Terra e foi fazendo com que ela se resfriasse, com que ela fosse perdendo seu gigantismo e que ela fosse de algum modo perdendo a sua magnificência. Onde as grandes labaredas? Fogos na Terra mais raros, episódicos, raios no céu de vez em quando, a abóbada celeste, a lua, o sol, mais a terra refrigerada. Onde está o magnífico tocheiro que luzia na presença d´Ele? Onde estão aquelas crateras, aqueles estampidos, aqueles roncos, todo aquele pré apocalipse? Dir-se-ia que a Terra “pocou” [ficou poca, diminuiu-se, n.d.c.] entrando em ordem, e dir-se-ia que Deus estava permitindo que sua obra-prima decaísse. Senhor, por que deixais que isso fique assim? A resposta d´Ele seria muito simples, alguém que estivesse vivo naquele tempo, os Anjos talvez, contemplando aquilo, se não soubessem qual era a intenção d´Ele, os Anjos talvez lhe perguntassem com cânticos inefáveis: Senhor, o que aconteceu para que essas coisas revelassem menos a vossa magnificência? E Ele diria: Vereis…
Quando tudo entrou em ordem, os Anjos compreenderam que a ordem de tudo é mais bela do que a magnificência de uma coisa só, e de que o equilíbrio de uma situação global abrangendo todas as belezas anteriores, mas compaginadas e ordenadas, tinha uma beleza superior que não atinge tanto os sentidos, mas que a mente aprecia mais, e que por isso era mais digna dos Anjos. E talvez alguns Anjos tivessem cantado, ou todos os anjos tivessem cantado, se já não soubessem da Encarnação do Verbo: “graças Vos damos, Senhor, porque compreendemos agora o dom da inteligência que nos destes”.
Inteligir aquilo que ficou menos chamejante, que ficou menos tonitruante, mas mais compreensível, inteligir é uma coisa mais bela do que o que Vós fizestes. A ordem é mais bela do que os mais belos elementos, quando eles não cabem dentro da ordem”. E se assim tivesse sido, Deus teria sorrido, e lhes teria respondido: “vós não vistes nada”. Porque estavam criadas as primeiras condições para Ele colocar a vida, e os vegetais apareceram.
Quer dizer, a vida não era possível naquela “chamarada” [efusão de chamas] , naquela aguarada [efusão de água], naquelas convulsões, mas quando os primeiros vegetais se abriram, os senhores podem pensar o primeiro verde? A primeira flor? O primeiro crescimento? Os cânticos no Céu? Então, a vida entra como sendo mais nobre e mais bela do que todas as evoluções da matéria, e um capinzinho que cresce um pouco, por um fenômeno interno dele, um principum vitae, por onde nas entranhas obscuras da terra ele tomou não se sabe quais minerais e ele se mexeu sobre si mesmo e cresceu mais um pouco, tem mais beleza do que todo o movimento dos astros. Por quê? Porque é vida.
Daí todos os anjos diriam –– tudo isso é hipotético, eu acho que os Anjos sabiam tudo, mas enfim, poderiam dizer: um de nós diria: “Senhor, como a vida Vos representa melhor do que todas as coisas sem vida! As coisas sem vida são tão magníficas; como são as coisas com vida? Essa vida que a gente vê, que a gente admira, mas que por detrás dela tem mais do que ela mostra, e que é inesgotável. O mistério da vida, Senhor, nós Vos bendizemos pelo mistério da vida que Vós criastes!”
Os senhores podem imaginar o globo que começa a se encher das variedades vegetais todas, e de cada vez novas espécies, novas modalidades etc., etc. até Deus ter plantado o seu jardim inteiro, no Globo inteiro, tendo no centro o Paraíso terrestre. Alguém que visse isso de longe, diria: “Mas Senhor, que maravilha! Que coisa extraordinária!”
Vieram os animais, e nos animais outro grau de vida, a capacidade de sentir e a correlata capacidade de mover-se, os senhores já podem imaginar que beleza quando os primeiros animais começaram a se movimentar e a sentir, e o universo inteiro se rejubilou porque havia um grau de vida a mais dentro dele, como as plantas ficaram pequenas quando elas foram superadas pelos animais! Mas nós podemos imaginar florestas colossais que mal davam para abrigar, para que nelas se sentissem à vontade os animais, e talvez tenha sido, quando a natureza vegetal diminuiu um pouco, que apareceu a natureza animal.
Peguem os primeiros animais –– tudo isso são hipóteses –– considerem os primeiros animais, os senhores viram fotografias de dinossauros: uma coisa esquisitíssima! Uns entes enormemente abdominais, com pernas elefantisíacas, e tudo quanto diz respeito à cabeça tão pequenininho! O pescoço, uma tubulação enorme para conduzir a uma cabecinha que a gente não sabe para que serve. Como era isso? Mas que poder num dinossauro! Também isso foi se equilibrando. Vieram neves, vieram tragédias, espécies animais toscas, primitivas, e não bem equilibradas foram desaparecendo e foi aparecendo a criação com o seu aspeto atual. Estava sendo preparada para vir o homem.
Aí os senhores podem imaginar o que seria realmente o momento em que Deus criou Adão à Sua imagem semelhança, era o rei que entrava na sala do trono mobiliada.
Os senhores imaginem as coisas assim: que um profeta tivesse visto com antecedência como seria Carlos Magno, então tivesse preparado a coroa, tivesse preparado a sala do trono, o trono e o império para Carlos Magno nascer, e em certa hora Carlos Magno seria coroado, quer dizer, ele era a obra-prima para a qual tudo aquilo se ordenava. Nasceu Adão.
E Adão foi o mais belo e o mais completo dos homens criados antes de Nosso Senhor Jesus Cristo, de maneira que ele, que era a nascente de todo o gênero humano, ele continha em si, como no seu fulgor primeiro, ou no seu foco primeiro, todas as qualidades que no futuro os homens teriam, ele era como que uma personificação da humanidade.
Mas os senhores precisam ver a cena: Deus e o universo preparado para receber o homem, tomando o barro e atuando sobre o barro; que movimentos magníficos teria feito o barro! Como seria esse barro? Qual a porção desse barro e onde no paraíso haveria esse barro? Os senhores precisam se lembrar que não é o barro da terra de exílio, não é o barro que os senhores veem nos bueiros, mas o barro no paraíso é um barro cor de joia, nós estamos habituados a ideias não sei do que porque nascemos na prisão. Mas no Paraíso, como seria esse barro! E podemos imaginar, antes de Adão nascer, a força do Altíssimo pousou sobre uma determinada porção de barro, essa porção ficou toda luminosa e foi se destacando do resto do barro.
Era, com certeza, o barro dos barros, a substância das substâncias, a matéria das matérias em que Deus foi agindo de maneira a modelar o homem dos homens. E depois de certo momento Ele insufla a vida, e Adão, já adulto, toma conhecimento de si, vê a Deus e adora.
Os senhores podem facilmente pensar o que teria sido uma cena como essa, uma cena maravilhosa, em que não só Adão nasceu com tudo isso, mas com certeza a graça de Deus, o esplendor de Deus se projetou sobre ele nessa hora com uma força especial, e ele estava numa situação que, dados os infinitos descontos, poderia talvez ser comparada à de Nosso Senhor no Tabor, quer dizer, irradiando toda a glória que no mero homem, mas no homem podia caber. O pai das nações, o pai dos povos!
Mais tarde, considerando que não convinha ao homem que ele estivesse só, que era necessário, para que o gênero humano espelhasse bem todas as perfeições de Deus, era necessário que houvesse criaturas de um outro sexo, que a seu modo fosse uma versão em linha delicada, do que Adão era em linha forte, para que a dicotomia tivesse uma variedade mais esplêndida na unidade, Ele quis afirmar a soberania de Adão ao mesmo tempo criando algo de mais delicado do que Adão.
E então, durante um sono profundo de Adão, Ele tomou uma costela –– os senhores podem imaginar a cena, o homem dos homens que dorme, com o sono que deveria ser o sono dos sonos, um sono profundo, um sono oceânico, uma respiração puríssima, ao mesmo tempo forte como a noite e delicada como uma brisa, ele deitado nobremente sobre não sei que relvas ou sobre não sei que flores, com não sei que pássaros prontos a cantar quando ele abrisse os olhos, ou que flores prontas a se abrir quando ele afinal se sentasse, tudo colocado ao lado dele. Nesse sono profundo, o poder de Deus baixa sobre ele e se fixa em cima de uma costela, e a colhe como quem colhe uma flor, sem ferir, sem machucar, tirando apenas, e dessa costela fazendo a criatura feminina, com toda a sua graça, todo o seu encanto, toda a sua nobreza, todo o seu recato, toda a sua pureza, a dama das damas, para não dizer a mulher das mulheres.
E quando Adão acorda, ele vê Eva, os dois se conhecem e cada um não faz para o outro a pergunta egoística: eu vou com tua cara, seria baixar enormemente o nível. A pergunta era outra: como refletes a Deus! Que maravilha! Meu Deus, eu Vos dou graças. E Eva teria dito: esse então é o meu senhor? Esse então é o meu outro eu mesmo? Meu Deus, na força dele como eu me sinto amparada e como eu vejo a vossa grandeza!
Ter-se-ia prostrado diante dele e teria dito: ó tu, que és uma mera criatura como eu, mas que para mim representas Deus, ó meu doce Deus na terra, eu te venero.
E ele teria olhado para ela e teria dito: ó tu em que Deus pôs de modo saliente aquilo que há em mim, mas que não podia, pela limitação da minha natureza ter tanta saliência como pondo em ti separado, tu que és um símbolo de vários aspetos do que em mim há de mais nobre, eu te respeito.
E foi nesse mútuo ato de religião, que ele teria dito: meu Deus, como Vós sois grande e forte quando Vós vos representais frágil, Vós sois grande na formiga, Vós sois grandes na flor, Vós sois grande em tanta coisa fraca que Vós criastes, como vós sois grande nessa criatura fraca e delicada que vós criastes para ser Vossa imagem e semelhança. Meu Deus, eu Vos louvo.
Eva era a mulher das mulheres, a dama das damas, Adão era o homem dos homens. Para Adão, aliás, era ele o varão dos varões, e para ele e para ela foi criado tudo quanto estava em volta e eles não eram senão a coroa imaginada para pôr ali o Koh-I-Noor colossal, a pedra preciosa fabulosa que daria à coroa todo o seu sentido, sem a qual a coroa não teria sentido. E é metafisicamente certo que a terra não poderia ser criada sem homem, era preciso que existisse o homem para que houvesse a terra, então, Ele antes criou aquilo que deveria servir, para depois criar o senhor, para o senhor nunca ficar desservido e desajustado, e assim Ele criou Adão maior até mesmo do que essa obra-prima que era Eva. E estava completa a obra da Criação.
Nós compreendemos por aí como Deus tem planos enormes, de uma sabedoria infinita, de uma grandeza inesgotável, insondável para nosso espírito humano, quando compreendemos com que vastidão de horizontes Ele planeja, com que amplitude de poderes Ele executa, e como tudo sai na perfeição.
Está bem, quando Ele fez tudo isso, Ele ainda não fez nada, Ele tinha a intenção de que um dia viesse quem deveria deixar Adão absolutamente atrás, por uma superação sem igual, que deveria deixar Eva absolutamente atrás por uma superação, a seu modo também sem igual. E no plano divino estava que os homens fossem nascendo, crescendo, multiplicando-se a partir deste primeiro casal, para chegar o momento aonde houvesse de novo um par humano, aqui já como um ápice de montanha. Não é mais como a fonte da qual todas as águas nasceram, mas é como o ápice de uma montanha colocada no centro do universo e para cuja glória existe o universo. Deveria nascer uma Virgem que fosse a Mãe perfeita e que Ele mesmo tomaria como esposa e na qual o Divino Espírito Santo gerasse o Homem-Deus, a natureza humana a que se ligaria o Homem-Deus.
E esse momento ser o momento mais nobre, mais belo, mais elevado do que todos os momentos da criação. Nós dizemos no Ângelus: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”. Nós não compreendemos que tudo que se passou anteriormente foi como um grandioso prefácio, uma sinfonia incomparável para esse acontecimento, quando Deus elevaria a um consórcio com a natureza divina um Homem de tal maneira que sendo inteiramente Homem e tendo até alma de Homem, formasse com Deus uma só Pessoa. Essa elevação, o que se passou nesse momento em Nossa Senhora, o que foi quando diz no Evangelho: “a virtude do Altíssimo te cobrirá” o que significa isso? Que fatos, que grandezas, que glórias? Como isso foi acompanhado? Qual foi o teatro de tudo isso? Como tudo isso se passou? Se fosse possível ver isso literalmente todos nós perderíamos a vida de admiração, as nossas almas se separariam dos corpos e nós perderíamos a vida de admiração, nós não entenderíamos, nós racharíamos em considerar esse aspecto.
Ora, isso que se passou teve como pendant depois o contrário, a dissociação e a morte, e depois teve outro pendant, a Ressurreição. Os senhores veem bem a analogia que há do momento em que a virtude do Altíssimo pousou sobre a lama paradisíaca e começou a formar o boneco e lhe insuflou a vida, os senhores veem a analogia que isso tem com a Encarnação do Verbo, em que a matéria paradisíaca era o próprio corpo de Maria, numa concepção virginal em que não intervém senão a carne e o sangue d´Ela e mais nada, e a virtude do Altíssimo. Ela foi em grau incomparavelmente mais nobre essa terra primeira, esse elemento primeiro, se quiserem, essa costela na qual Ele se encarnou e aconteceu o que todos os senhores sabem.
Os senhores podem imaginar como o Céu cantou quando houve isso? Está bem, a alma de Nossa Senhora conheceu tudo isso, porque Ela conhecia o que se passava dentro dela não como nós conhecemos, mas como quem governa toda sua própria natureza. E assim como eu estou gesticulando com meu braço e sei o que estou fazendo de meu braço, assim Ela conhecia tudo quanto se passava n´Ela, e Ela conheceu, admirou e amou a glória do que se passava n´Ela mais do que todos os Anjos do Céu e mais do que todas as criaturas que viriam, mais do que todos os profetas tinham podido vislumbrar, mais do que todos os santos até o fim do mundo, sem comparação Ela entendeu, e a correspondência que Ela deu a isso deu mais glória a Deus do que todo o resto [da criação]. Ela só. Quae est ista? [Quem é Esta?]
Os senhores me perguntavam há pouco: Quae est ista? E eu direi: Com que palavras louvá-La? A gente pode descrevê-La; louvá-La? O que é o vocabulário humano? E também depois de ter descrito, para que louvar? Acrescenta algo dizer que Ela foi grande, depois de dizer isso? Acrescenta algo dizer que Ela foi bela, que Ela foi nobre depois de dizer isso? Esse ato mais nobre do que a criação do universo, que é a Encarnação do Verbo se passou n´Ela, com a colaboração d´Ela e a alma santíssima d´Ela. O Sapiencial e Imaculado Coração de Maria esteve em toda a proporção para a qual tinha sido criado para dar glória a Ele, essa proporção não tinha proporção com todo o resto do céu.
“Hic taceat omnis língua”: diante disso, que todas as línguas se calem. Se nós pudéssemos ver Nossa Senhora depois disso que estamos conversando, eu não sei se os senhores imaginam o que seria se, de repente, nos avisassem: Ela está no quarto vizinho e, quem quiser, pode entrar.
Não sei se os senhores não sentiriam –– eu sentiria uma atração enorme, mas ao mesmo tempo dizendo “Domina, non sum dignus ut intret sub tectum tum”. Porque, como me aproximar dessa pureza? Como chegar a essa elevação? Como admitir a ideia de que os olhos d´Ela possam pousar em mim, Ela que viu e conheceu uma coisa dessas? Não há palavras.
Mas de outro lado, dizer: se eu A ver, eu vejo Aquela que viu e nos olhos daquEla que viu eu vejo algo do que Ela viu. Aí eu vou.
Eu não sei bem, as gerações mudam, talvez houvesse um tropel enorme para dentro da sala. Não sei bem o que haveria. Mas não é mal que eu lembre e seria muito saudável um exame de consciência antes de subir a tais culminâncias. Como somos nada e como somos pequenos!
Então, podemos imaginar o que foi esse momento e a analogia que tem com um terceiro momento que é a Ressurreição. O corpo d´Ele trancado [por] uma pedra, dois guardas romanos, boçais, ali colocados com lanças, com couraça, para enfrentar fosse quem fosse, e uma noite profunda dentro da sepultura.  Dentro da sepultura um silêncio profundo, uma escuridão tão completa como igual só havia num outro lugar do mundo: na alma de Maria. O Filho d´Ela estava morto! Não era definitivamente morto, Ela bem sabia, mas Ela que tinha assistido aquela encarnação do Verbo, ter assistido o estrangulamento! Como era aquilo! Os senhores podem imaginar o que Ela sentiu na hora da morte d´Ele! A dor daquele pecado cometido e daquela separação consumada! E o que nunca deveria ser separado, ali estava separado, no escuro, abandonado dos homens.
Noite na alma dos Apóstolos. Os senhores dirão, mas havia São João! São João… pouco antes, no Horto das Oliveiras, o que ele tinha feito! Quem poderá saber em que estado estava essa pobre alma! Certamente ele tinha recebido a Ela como Mãe e ali tinha tido alguma regeneração, mas faltava ainda Pentecostes. Como estava São João?
Depois, São João estava cuidando d´Ela. Ela, entretanto, em certo momento, quando chegou a hora decretada pela sabedoria de Deus e pela bondade de Deus, quando chegou essa hora, Ela viu que uma luz sobrenatural entrava naquelas profundidades, Ela viu que os anjos afluíam às miríades ali, e Ela viu de repente o corpo estremecer…
É, ou não é verdade, que isso se parece com a Criação? E que com o cadáver d´Ele parece o corpo feito para receber a alma e que há analogias celestes nisso? Os senhores podem imaginar o frêmito, o sobressalto d´Ela. Eu creio que nessa hora Ela se levantou e ficou extática e talvez tenha brilhado com uma luz extraordinária, talvez se tenha levantado alguns passos acima do chão e talvez tenha cantado, é perfeitamente possível que Ela tenha cantado o Magnificat.
Eu vou dar aos senhores uma gota de lama da terra no meio desse ambiente do céu –– eu vejo imediatamente pelas caras que era melhor não dar o problema da terra, mas é bom pôr lama da terra, é bom, é bom. Estariam na sala, nesse momento, alguns apóstolos, e se eles estavam no estado de espírito que tinha continuidade com o miserável estado de espírito deles no Horto das Oliveiras, Ela se deve ter iluminado inteira, deve ter-se elevado do chão, e eles acharam que era bagatela, acharam que não tinha importância. É assim…
E se logo depois passou perto uma coorte romana, eles devem ter comentado, é a coorte de Publius Munitius, conhecido deles, e devem ter tido medo, estavam todos voltados para banalidades… E vendo essa cena era como se não vissem, presenciando esse esplendor, era como se não notassem, e vendo-A subir da terra, milagre! “Mas milagres, eu já vi tantos! Que milagre é esse? Eu quero saber do Públius Munitius, que é um homem importante na cidade e que quando sair à rua vai me cumprimentar amavelmente, ou vai me furar com uma lança, adeus aos milagres, eu quero a terra”!
Essa é a terra, essa é a lama; dessa lama somos feitos nós, concebidos no pecado original, não nos esqueçamos, e é indispensável dizê-lo, para termos uma coisa chamada juízo, sem isso, quem tem juízo?! É indispensável.
A Ressurreição provocou gáudios como não podemos imaginar, esses gáudios eram feitos de admiração, de amor e de explosões interiores. Para não ir mais longe, imaginem o gáudio que a alma d´Ele causou indo para o Limbo. O inferno onde Ele foi não é o de Satanás, “infer”, em latin, quer dizer abaixo, regiões inferiores do Limbo, onde estavam as almas que não tinham sido batizadas e que não podiam ir para o Céu enquanto Ele não morresse. Então, quando Ele entrou no Limbo, havia gente que estava esperando há quatro ou cinco mil anos, dissociada do corpo e sem ver a Deus, esperando que viesse o Esperado de todas as nações, e não sabiam quando viria.
E ali estava Adão, vendo em cada filho que entrava mais um infeliz que o pecado dele tinha feito, e que ia padecer ali no Limbo, na longa espera do Messias, e ainda Adão dava graças a Deus por esse se ter salvado. Os senhores podem imaginar o que seria, a alma de Adão não era mais sujeita às tristezas da contrição, porque ele estava com tudo bem quites. Os senhores sabem que Adão e Eva estão no céu e até podem ser cultuados, eles se arrependeram amarguissimamente do que fizeram. Mas podemos imaginar o que era isso! E aquelas almas que esperam, e que esperam, o Limbo vai enchendo;  as almas não ocupam espaço; mas não cabem mais no Limbo, por assim dizer, e Vós ainda tardais. Quando de repente Ele apareceu, os senhores podem imaginar a explosão de alegria! Mas quando Ele saiu do Limbo, Ele levou todas essas almas para o Céu e essas almas foram colocadas nos tronos que lhes competiam e que os demônios tinham deixado vazios. Grande efervescência de ódio no inferno!
Não sei se os senhores já imaginaram o que é o ódio de um homem que abandonou um bem preciosíssimo e vê que um outro vem, se apropria dele e usa melhor? Não sei se podem imaginar o que é uma coisa dessas.
Eu vou dar um exemplo bem baixa de nível: imaginem um indivíduo que tenha um lindo automóvel, ele se embriaga e dá uma trombada com o automóvel. Ele fica fora de condições de guiar o carro e o carro vai para o conserto, e consertam o carro magnificamente, e ele vê um outro que passa andando naquele carro diante da casa dele, devagarzinho… Ele está com o corpo quebrado e não está mais usando o automóvel, ele vê o outro usar com juízo o automóvel que ele não soube usar, utilizar com a saúde de uma integridade física que ele não soube aproveitar retamente. Ahhhh… como é?
Agora imaginem, não um automóvel, mas um trono no Céu, o homem que o demônio desprezou tanto, sentar-se com o cântico de todos e Deus entronizá-lo!
Há na cerimônia da coroação dos reis da Inglaterra um ato muito bonito, que é uma tribuna reservada para os lordes, e todos os lordes estão com seus trajes de gala –– as ladys também –– mas com a fronte normal. Na hora em que coroam a rainha, troam os canhões e tocam os sinos, todos os lordes tiram de junto de si a respectiva coroa e a colocam na cabeça. A gente vê aquele mundo de mãos que se movem, aquela coroa na cabeça. A entronização de um lorde no Céu é muito mais bonita do que esta, porque quem coloca a coroa na cabeça não é o próprio lorde, mas é Deus quem coroa.
Que grande alegria no Limbo! Mas que alegria no céu inteiro! Grande alegria das almas que tinham estado no Limbo. Que alegria do céu inteiro, meio reconstituído na sua glória e já com a alegria de alguns tronos não vacantes, que alegria quando Nosso Senhor ressuscitou! Uma coisa extraordinária! Entretanto, tudo isso não era nada perto da alegria de Nossa Senhora, e a alegria que Ela teve e a admiração diante desse ato valeu mais do que tiveram todas as criaturas até o fim do mundo. Essa era Ela.
Então, o verdadeiro método para a gente se dar ideia de quem Ela foi –– de como Ela é, Ela não foi, Ela é, Ela está no Céu em corpo e alma e Ela se digna de conhecer o que estamos dizendo, e Ela se digna, no momento, de estar agindo por meio da graça dentro da alma de cada um de nós, para nós inteligirmos, querermos e sentirmos o que devemos a propósito de… Assim são ordenadas essas coisas, e Ela conhece melhor, mas incomparavelmente melhor o que está se passando nesta sala, o que está se passando, por exemplo, em mim ou em qualquer um dos senhores, do que nós conhecemos uns nos outros, ou até mesmo do que conhecemos em nós. Ela conhece, esse é o fato.
Mas o método para nós fazermos uma relação entre as coisas estupendas todas do universo e Ela pode ser, sem dúvida, olhar para um rio e ver como, de repente, o rio mansamente muda de rumo e segue noutra direção, e a gente pensar em Nossa Senhora Rainha do Universo, que dá o rumo do rio da História, e que de vez em quando, mansamente, muda a História para sair uma maravilha maior.
Nós podemos pensar quando vemos uma queda d´água em Nossa Senhora Rainha do Universo, quando precipita as coisas para que as águas se purifiquem, é a Rainha das “Bagarres”, a Rainha das catástrofes que batem e quebram-se sobre pedras, mas de onde o curso da História sai purificado.
Nós podemos, enfim, fazer mil analogias a respeito de Nossa Senhora. Nada é tão bonito, no meu modo de sentir, do que seguirmos o caminho que seguimos, é o contrário: em vez de tomarmos uma coisa e calcularmos como seria a alma d´Ela, é tomarmos uma operação de Deus sobre as coisas, e comparar com a operação da alma d´Ela nos momentos históricos que conhecemos e comparar então a natureza com o que Deus criou, que é muito melhor, que é a alma d´Ela como Ela é superior a tudo isso.
Depois que eu lhes falei da alegria com que contemplaríamos as combustões do céu, nós poderíamos também imaginar que alegria teríamos se contemplássemos as combustões no Sapiencial e Imaculado Coração de Maria. As grandes ocasiões da história: São Gregório VII excomungando o imperador Henrique IV, e os Anjos visitando o Sacro Império Romano Alemão. Um a um, os liames feudais se desfazendo, ninguém empurra o Imperador aos pontapés fora do palácio, mas há uma coisa muito pior: o palácio se esvazia de maneira que nos últimos dias ele nem tinha mais criados para o servir, todo o mundo o deixou no meio de sua pompa inútil, o amaldiçoado do Vigário de Cristo, e o seu império cessou pela maldição do Papa.
O que é o poder das armas? Dois mil, cinco mil, dez mil –– o exército naquele tempo era pequeno –– cinquenta mil homens em armas, o que é isso? Um velho, colocado no castelo de uma dama, a Condessa Matilde, Condessa da Toscana, em Canossa, o castelo de Canossa, esse velho amaldiçoa e declara dissolvidos os vínculos. E o Império inteiro pára de funcionar, porque esse velho é aquele a quem foi dito: “Tu és Pedro, e sobre essa pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra Ela”.
E então, o imperador que consegue convencer alguns fiéis a o seguirem porque explica que vai pedir perdão e precisa de ajuda para poder atravessar os Alpes, coisa seríssima! Hoje a gente sobrevoa os Alpes. Atravessar os Alpes? É muito mais fácil falar do que fazer, e ele que sai num trenó, no inverno, durante a noite talvez, desacompanhado, com três ou quatro que têm horror do homem a quem servem, e que levam quase como a um maldito, um leproso com quem ninguém quer se contagiar. Ele sobe os montes e passa pelos precipícios, e corre risco de vida, e não tem certeza de sua própria contrição, e sabe entretanto, que se morrer sem contrição, mas por mera atrição, ele pode ir para o inferno, e que em cem perigos do caminho vacila sobre o inferno, e pede àquEla a quem ele ofendeu que o proteja e o perdoe de maneira a ele poder chegar à fonte de todo o perdão, que é o velho venerável a quem ele não escutou.
Ele vai, e vai, e chega [ao castelo] e encontra as portas fechadas. Oh! A grandeza dessas portas fechadas! Oh! a magnificência desse “não”! Não perdoo! Não te restaurarei no Império! Absolverei a tua pobre alma quiçá para uma vida de penitência, mas o diadema imperial não terás de novo, essa fronte pecou e sobre ela, a glória máxima da ordem temporal não pousará.
Quatro dias e quatro noites, ajoelhado na neve, pedindo… Afinal as portas se abrem e sai a reconciliação, e aí tocam os sinos, há grande alegria e se restabelece a ordem normal das coisas. A vitória da religião sobre a ordem temporal, a vitória do sobrenatural sobre o natural, a vitória do espírito sobre a matéria, quantas vitórias mil vezes mais gloriosas do que a vitória de um país sobre outro, vitórias ordenativas de todo o conjunto humano.
 Quando eu falava aos senhores disso, eu vi que vários corações se encheram, e Nossa Senhora gostou disso, mas então como se terá enchido o Coração d´Ela quando se passou isso? E os senhores já pensaram o que seriam as labaredas d´Ela quando Godofredo de Bouillon e os dele saltaram por cima das muralhas de Jerusalém e entraram para valer? Aí os senhores podem tomar o Coração dulcíssimo d´Ela e comparar com essas épocas primevas e compreender o que ali dentro se passava.
Os senhores já imaginaram Nossa Senhora vendo os missionários que chegam num país onde não há fé, e que começam a pregar a fé e o país começa a nascer! Vem um Anchieta ao Brasil, um Nóbrega, e começam a pregar, é o Brasil –– podíamos dar outros exemplos –– é o Brasil que começa a nascer e que começa a se mover, mais belo do que a natureza mineral quando começou a existir, ou mais belo do que a natureza animal, ou mais belo até do que o próprio homem por que era a graça que vinha nas mãos do missionário e que levava para a vida sobrenatural esses homens?
Podem imaginar Nossa Senhora como percebeu que isso era mais belo do que tudo que se tinha passado, e podemos imaginar Anchieta ameaçado pelos índios na praia de Peruíbe, cantando as glórias d´Ela e escrevendo em latim o poema, e decorando, e Nossa Senhora sorrindo, o mar chegando até lá, mas não ousando tocar nas areias, e Ela vendo o filho bem amado, do qual nasceria a evangelização dessa nação. A labareda áurea, ou azulada, ou não sei como que saía desse Coração! E gotas de graça caindo.
E então já não mais o dramático, o espetacular e apocalíptico, mas uma outra forma de manifestação: gracioso, materno, afável, o leitoso de não sei que pedras, o suave de não sei que cristais, a brisa de não sei que auroras que havia no Coração d´Ela. Todas as brisas que sopraram na Terra, com todas as modalidades possíveis de brisa não tem o encanto de um só sorriso de Maria. E esse sorriso de Maria, Nossa Senhora quantos deles teve para Anchieta que evangelizava esse país? Os senhores podem imaginar o que é uma coisa dessas! Então, o que é a alma d´Ela?
As maternalidades d´Ela. A ideia corrente é que somos à imagem e semelhança de Deus, o Homem-Deus é o Filho d´Ela, Ela nos ama por causa disso, e quando nós sofremos Ela tem pena de nós, e é bem verdade, e quanto é verdade e quanto é magnífico. Quando sobretudo nós pecamos Ela tem pena de nós, e é mais magnífico ainda! Porque quando nós sofremos, o sofrimento não nos torna inimigos d´Ela, até pelo contrário, quebra em nossa alma uma certa autossuficiência e uma certa tendência ao orgulho, pelo contrário, quando pecamos nós rompemos com Ela de um modo criminoso.
Está bem, Ela vê aquilo e Ela teve –– quando Ela previu tudo quando estava na terra e teve dor, porque pensou: “Uma tal maravilha criada por Deus, que meu Filho resgatou com aquelas gotas de sangue incomparável que eu vi florescerem n´Ele aos borbotões, quando Ele estava como uma terra arada em que tudo era sangue que florescia. E agora essa alma vai se perder”! E Ela pensa como Ele: quae utilitas in sanguine meo? Que utilidade tem meu sangue? Que utilidade tem o sangue de meu Filho? Então, Ela pede a Ele que por amor ao amor que Ele teve, que Ele ame aquele que não O ama mais, e consegue a graça que bate na alma. E diz: “Meu filho, converta-se; meu filho, abra os olhos; meu filho, tenha juízo; meu filho, volte a ser meu”.
E às vezes com insistências tão prementes e tão contínuas que se diria que a alma está inteiramente sitiada. Quantas doçuras cabem nisso! Quanto saber fazer, quanta misericórdia, quanta compreensão, quanto se esgueirar pelas anfractuosidades de uma alma para se adaptar a tudo, para acertar tudo! Nem ninguém tem ideia.
Ora, todas essas operações, ao mesmo tempo as mais diversas, o Sapiencial e Imaculado Coração de Maria as está fazendo no céu e na terra, porque Ela conhece, mais do que qualquer bem-aventurado no Céu, Ela conhece o que se passa em Deus e Ela reage no supra sumo da elevação e da perfeição, Ela conhece tudo que se passa no céu, e Ela se associa, preside, dirige, rege tudo quanto se passa no Céu.
O que se passa com todas as criaturas da terra Ela conhece, e toda a vida da Igreja militante Ela entende e com esta intensidade participa de tudo o que acontece.
Mais ainda, Ela conhece a Igreja penitente e vê todas as dores do Purgatório e tudo está presente a Ela continuamente, e em tudo isso Ela é uma brisa, Ela é um vulcão, Ele é um céu, Ela é um sol, Ela é um diamante, Ela é uma águia, Ela é uma pomba, Ela é um cordeiro, Ela é um leão, Ela é tudo, Ela é muito mais do que tudo, Ela é a Virgem Maria, Mãe de Deus.
Nada do que é muito grande existe sem contrastes. Quando o senhor conhece almas muito pequeninas no sentido poca, essas almas não têm contraste, no sentido poca, não no sentido de Santa Teresinha, essas almas são monótonas e iguais todos os dias da vida, e quando essas pessoas morrem a gente diz: “Morreu?” A surpresa não é porque a gente julgava imortal, mas porque a gente pensava que ali nunca nada de grande ia acontecer. Ora, a morte é grande. Como aconteceu com aquelas pessoas?
Eu não sei se os senhores chegaram a conhecer gente assim, mas eu cheguei. É gente que chega a um certo estado mítico de idade que não tem idade, que já parece de extrema ancianidade, mas com uns restos de vitalidade da época já velha para os senhores, que é do homem quinquagenário. Eles ficam com uma carne que mais parece uma matéria plástica do que carne, não mudam mais de tamanho, não mudam de cara, não mudam de jeito ao longo dos anos, as rugas se aprofundam, mas eles não têm mais nada de jovens.
Todos os dias a hora certa, se eles são porteiros, eles abrem uma porta pelo mesmo trinco, tiram a mesma chave, tem a mesma dúvida todos os dias, ou seja, qual é a chave daquela porta… escolhem todas as vezes a mesma coisa e ainda olham perto da luz, abrem com o mesmo gesto, entram com o mesmo pé, abrem a porta do mesmo jeito e sentam na mesma cadeira. E começam os serviços da portaria, que consiste em dar a ilusão de que o lugar é guardado – porque esses homens não guardam nada. Termina o dia, esses homens vão para casa e fazem as mesmas coisas, e recebem no fim do mês o mesmo ordenado. Nunca uma promoção, nunca uma melhora, nunca um gesto de simpatia, nunca um gesto de ódio. O primeiro susto é quando morrerem, a pessoa diz: “Coitado! Foi um benemérito. Há trinta anos ele ocupa o cargo”. Não se pode dizer menos de um homem…
As obras de Deus não são assim e as almas grandes não são assim, têm contrastes fabulosos e passam dos ápices da intelecção aos abismos do mistério que não compreendem e que se regalam em não compreender, depois passam do auge da operação para repousos insondáveis que a gente não sabe como é e não pensava que a capacidade de repousar fosse tão profunda, e a gente vê essas pessoas se recuperarem com uma pujança, que dá a impressão de uma natureza que se recria por sua vez.
Assim todas as formas de ordem não é o capricho do sujeito veleitário; esse não vale dois caracóis! Merece o Purgatório, se por muita felicidade ele não for para o inferno. Mas o homem ordenado e amplo tem os contrastes mais profundos, mais marcantes, mais significativos e esses contrastes se notam nas grandes obras de Deus. Mas uma vez que o mal entrou pelo pecado na grande obra criada, na nossa ordem criada, Deus se serve do mal para aumentar o contraste, e às vezes Ele permite que o extremo do mal vizinhe com a perfeição do bem, obrigando o mal, por essa forma, a prestar homenagem ao bem.
Se há uma coisa que nossa época não quer é prestar homenagem ao bem. Ela está prestando uma homenagem fenomenal, porque ela está se decompondo, se suicidando, está se desarticulando como num ataque de frenesi. Parece esse desenho do Gustavo Doré sobre o inferno que apresenta figuras que dilaceram seu próprio corpo no meio de gargalhadas que são, ao mesmo tempo, prantos horrorosos. Assim parece a época contemporânea: abandonou a Deus e foi no galope para o prazer e para o progresso, e acabou nessa situação horrorosa em que a desmoralização chega ao maior auge possível. (…)
Por aí os senhores podem ter ideia de onde o mundo caiu. Esse precipício onde estamos e que talvez caia ainda mais fundo, terá como um dos efeitos da queda mais funda, ressaltar o seguinte: quando jogamos, por exemplo, uma bola de ping pong dessa altura, ela dá um pulo dessa altura; se jogarmos de uma altura muito maior, o pulo é maior ainda. Assim também na história dos homens: quando os homens decaem terrivelmente, acontece que a história se reergue muitas vezes num pulo muito maior, e daqui nós vamos ter muito mais do que isso.
É a humanidade que se despenca em abismos inenarráveis, e Nossa Senhora agirá de maneira a não só que Ela recupere algo do que perdeu na queda, mas que Ela suba tão alto como nunca esteve, e em que o coração humano vai ser muito mais parecido com o Coração Sapiencial e Imaculado de Maria, e em que as almas humanas vão ter uma reatividade aos fatos que disserem respeito à ordem de salvação e à ordem da santificação, sensivelmente maior do que tiveram nos bons tempos anteriores, e contrastando com a vergonha do viver atual.
Não há nada mais diferente do que essa vitalidade sacral do Coração Imaculado e Sapiencial de Maria, do que a vergonhosa dormideira atual que não reage contra nada, que não liga para nada, que não se incomoda com nada, essa é a imagem da morte!
No Reino de Maria os homens de bem, os homens retos vão ser como brisas e como vulcões, eles vão ser terríveis e suavíssimos, eles vão ter as tais diferenças fenomenais, e eles serão assim uma espécie de síntese não só do que se passou na história dos homens, mas de todas as convulsões, de todas as doçuras das eras pré-humanas.
Aí os senhores compreendem o que será o Reino de Maria. E então quando chegar o Natal, não  vai ser esse Natal comercial com esses adornos de super mercado – não sei se já notaram a total falta de graça desses adornos  de super mercado, aquilo é nada -, não vai ser esse Natal de comerciantes loucos para fazerem os pais comprarem muitos brinquedos para as crianças, então fazem a casa de brinquedos cantar, fazer barulho pela rua. É um verdadeiro… as mulheres querem joias dos maridos, os chefes de família quase racham para arranjar dinheiro para tudo, e é o comerciante e o industrial que ganham, não será nada disso. A própria Stille Nacht, Heilige Nacht vai parecer desbotada e pouco significativa. E tudo quanto era dos natais anteriores vai ser pré-história diante dos natais do Reino de Maria, porque todos os homens vão ter esse fogo do Imaculado e Sapiencial Coração de Maria.
E com isto, meus caros, está terminado o Santo do Dia e nós vamos nos retirar.

Nota: Para muitos outros comentários do Prof. Plinio sobre Nossa Senhora, visite a página ESPECIAL – MARIOLOGIA.

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