A festa da Anunciação e a vida da Sagrada Família. A grande glória não consiste em não ser derrotado, mas em lutar pelo Bem, ou seja por Deus, pela Igreja Católica

Jantar no Eremo do Amparo de Nossa Senhora, 25 de março de 1987

 

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

Meus caros, eu não poderia gostar mais da surpresa que acabo de ter do que gostei agora. E – não à margem dessa festa, também não à margem dessa data, porque diz respeito à festa e a festa diz respeito à data – eu vejo aqui realizada uma observação que eu tenho tido ocasião de fazer várias vezes na vida, e que é muito importante para o bom calibramento do nosso pensamento sobre vários pontos discutíveis em matéria de Revolução e Contra-Revolução.
No linguajar comum das pessoas de hoje, certos conceitos como o de esplendor, pompa, glória, se confundem mais ou menos, ou são pelo menos muito vizinhos do conceito de riqueza. Onde há riqueza aparece o esplendor, a pompa e a glória; onde não há riqueza, o esplendor, a pompa e a glória são impossíveis. De onde então a pobreza é incompatível com a pompa. E a glória se reduz a uma questão de preço: com muito dinheiro, muita glória; com pouco dinheiro, pouca glória. E se até a glória é uma função do dinheiro, então não se sabe verdadeiramente o que resta do mundo!
Nós fizemos uma reunião agora, uma cerimônia, quão modesta! Não é possível ser mais modesto algo do que essa sala de jantar. Ela tem apenas para si a grandeza das coisas que não são muito pobres: ela tem espaço! Se ela não fosse, se os que a construíram fossem mais pobres ainda, ela não teria nem espaço, ela seria um “cochicholo”. Mas o mínimo do bem-estar que se compreende mesmo numa pobreza que não se confunda com a miséria, é a capacidade de fazer uma coisa espaçosa.
Bem, vê-se uma abundância de espaço, uma sobra de espaço. Essa sala acabou se transformando menos numa sala de jantar do que numa sala do tipo das que existem nos Fóruns, nos Palácios de Justiça, chamada “sala dos passos perdidos” onde as pessoas andam de um lado para outro, sós, ou num grupo de dois, três, confabulando ou apenas conversando. E assim enchendo os espaços e enchendo o tempo.
Assim também eu tenho notado que essa sala aqui serve para alguma coisa desse gênero. Vejo grupinhos andando de um lado para outro, vejo gente que tem gosto em atravessar esse espaço grande para ir para um outro lado… são incontáveis filhos vestidos com o belo, pomposo, glorioso, mas nada custoso Hábito de Eremita, nas suas várias variantes. Vejo outros que estão cobertos com os andrajos do século XX, autenticamente andrajos, até mesmo quando são caros… Mas não é o caso de nenhuma das roupas que eu estou vendo aqui.
E nessas condições os senhores fizeram uma cerimônia de incontestável pompa, de incontestável grandeza, e que lembrava com dignidade, a ponto de impressionar, a Festa da Anunciação! Mais do que a Festa da Anunciação, o episódio da Anunciação!
O que é isso? Umas velas que se acendem, umas luzes que se apagam; dois jovens que leem, mais ou menos em alternativa, trechos do Evangelho, bem lido, com bonito fundo musical. Qual é a beleza que estava nisso? É a beleza das almas, da Fé, da compenetração, da certeza de que aquilo aconteceu, e de uma espécie de arrepio interior diante da grandeza do que aconteceu.
Aconteceu onde? Numa casa de pobres! Onde havia o quê? Um casal! E um casal de esposos que apresentavam uma peculiaridade, mas uma peculiaridade que não custa dinheiro. Nossa Senhora faz entender ali que Ela não tinha tido relação nenhuma com São José. O Evangelho diz que já estavam casados, e ele era esposo dEla. E Ela era castíssima! Está afirmado claro. Não está dito assim: “Nossa relação…” Mas está dito com a discrição, a dignidade, mas a clareza que convém à Boa Nova do Evangelho.
Apenas há uma circunstância: que esse lugar sem dinheiro, prometido a um Menino que ia nascer, é prometido a esse Menino que Ele reinaria no trono de seu pai David; e é prometido um Império sobre a Terra inteira durante todos os séculos.
Para Nossa Senhora que interrogação! Outra interrogação Ela formulou: “Se Eu não conheço varão, como pode fazer-se isso?” Quer dizer: “Eu não conheço e não conhecerei!” Porque se o caminho estava aberto para Ela conceber um filho pelas vias normais, à vista de um império que vem de Deus, Ela poderia dizer: “Bem, meus propósitos de virgindade, os propósitos de virgindade de meu esposo estão superados. Vem uma ordem de um Anjo, então não há mistério, nós vamos praticar o ato conjugal”.
Não, não será isto! Como então poderá ser? Não sei se eu torno claro a beleza do lance. O que teria acontecido? Ela teria tido uma revelação que pedia a Ela que ficasse sempre Virgem? Ou Ela teria sentido o convite para a virgindade perpétua tão fundo na alma que Ela não tinha a menor dúvida de que vinha de Deus, de tal maneira que até do Anjo que lhe mandava um recado da parte de Deus, de que Ela conceberia etc., etc. Ela pergunta como será, como quem diz: “Deus não se contradiz, e Eu tenho dEle a afirmação de que Eu permanecerei sempre Virgem!”
Não está dito assim, mas é isto que está lá, com uma clareza indiscutível. E aí vem a afirmação dEla:  “Eu sei que para conciliar estas atitudes contraditórias de Deus virá uma maravilha porque Deus não se contradiz. Eu não sei qual é. Vou caminhar lentamente nessa direção”.
O Anjo tem também uma resposta curiosa. Ela pergunta, o Evangelho diz que Ela cogitava qual seria essa saudação. Eu não pretendo ser um exegeta, já disse isso cem vezes. E se os exegetas dizem outra coisa, eu penso como eles e não como eu. Mas apresentando o texto para ser meditado assim sem maiores pretensões exegéticas e sujeito a estas correções, a gente poderia dizer o seguinte: que Nossa Senhora ao dizer que cogitava qual seria essa saudação, o que quer dizer exatamente “cogitava qual seria”? Ela cogitava quem seria esse Anjo e se vinha realmente da parte de Deus?
Não. Porque a gente vê que Ela o tratou e tomou tudo dele como inteiramente vindo de Deus. Mas era o mistério que havia nessa saudação porque como explicar que o filho dEla e de São José tivesse todo esse poder? Ela sabia que Ela era descendente de David, e que, portanto, o filho que nascesse dEla e não de José, não de nenhum homem, esse filho seria, portanto, descendente de David. Bem, Ela sabia que São José era descendente de David. Então esse filho legalmente seria descendente de David, e naturalmente teria a carne e o sangue de David. Há uma bonita expressão que usam os teólogos: “Caro Christi, caro Mariae” a carne de Cristo é a carne de Maria! Entrou só Ela como fator humano dessa geração.
Bom, tem-se a impressão de que Ela perguntava notadamente o que era esse “subir ao trono de David”, o que era esse reino que assim era dado. Seria o Messias? O Messias cuja vinda Ela tanto ansiava? Mas então a longa espera dEla se realizava muito além de tudo quanto Ela tinha cogitado? Seria mais ou menos como uma pessoa que em atitude de piedade está olhando para a Lua numa bonita noite de luar, de Lua cheia, e de repente vem um Anjo e lhe oferece: “Quer ir para a Lua? Deus quer que vás”. E Ela que estava pensando como seria bonito ir para a Lua, diante daquele convite tem uma surpresa… “E cogitava qual seria essa saudação”.
Quer dizer, o que essa saudação continha. Resposta do Anjo é uma coisa curiosa, começa assim: “Não temas, ó Maria!” Quer dizer, Ela tinha um certo temor. Agora, como é que Ela, concebida sem pecado original, e sem pecado… nunca tendo tido a menor imperfeição moral, nunca teve, como é que Ela poderia ter medo do Anjo? Medo do quê? Por quê?
A presença de um Anjo, mas sobretudo a presença de um Arcanjo… põe a criatura humana na presença de um ser de uma tal densidade que assusta! Houve Anjos que aparecendo a homens, os homens os tomaram por Deus. Notem bem: Não por deuses, mas por Deus. E Ela naturalmente sentiu essa presença angélica impressionante! E com uma comunicação tão impressionante, Ela tinha temor. Na humildade dEla pode-se bem imaginar que Ela tivesse temor de não dar cabo da missão tão alta que lhe era dada. Mas vem a explicação: “Tu encontrastes graça diante de Deus, etc., etc.”. Então a tranquilidade e a paz!
Parece que a maior parte dos intérpretes afirma que naquele momento em que Ela disse: “Ecce ancilla Domini”, o Espírito Santo concebeu dentro dEla Nosso Senhor. Ali, naquele ato! E daquele diálogo que para ser lindo simplesmente é tão simples, daquele diálogo nasceu, teve como consequência aquele diálogo a Encarnação do Verbo!
Bom, vamos um pouco adiante. Nossa Senhora guardou essas promessas no interior da alma dEla. E ao ver o Menino Jesus, segundo expressões do próprio Evangelho – aliás, expressões lindíssimas! Toda criatura é um pedaço de carvão escuro em comparação com… o Menino Jesus crescia em graça e santidade, diante de Deus e dos homens. Ela naturalmente pensava na missão do Menino Jesus. E sabendo que Ele era Deus, humanado, mas Deus, Ela achava explicável que Ele tivesse os êxitos mais retumbantes, mais extraordinários. Sem ambição, mas desejando para a glória de Deus.
Ela via Deus ultrajado em toda a Terra. Era uma das razões pelas quais Ela desejava que o Messias viesse logo, é para fazer cessar esses ultrajes contra Deus. Ela via isso, e Ela tinha um desejo ardente de que a salvação se desse logo! Com certeza quando o Menino foi assim ficando mocinho, se é que Ela não recebeu alguma inspiração em sentido contrário, Ela estava julgando que certo momento Ele sairia da casa paterna e começaria a Missão dEle.
Não! Durante trinta anos apenas lidando com Ela! E tendo… São José morreu. Os senhores sabem que São José morreu antes de Nosso Senhor começar sua vida pública, é o que tudo indica. E que Nossa Senhora e Nosso Senhor estavam presentes na cabeceira dEle. É a razão pela qual Ele é o padroeiro da boa morte. Porque se ele não teve boa morte, então é de desanimar! Como nós gostaríamos de assistir a morte dEle! Um leito pobre, Nossa Senhora sentada de um lado, Nosso Senhor de outro lado, não se sabe com que idade, de outro lado. Naturalmente a atenção dos dois voltada para o Menino Jesus. E o Menino Jesus falando… Nossa Senhora servindo, também orando por Ele, dizendo alguma coisa… Que revoada de Anjos! Ele saberia certamente que Ele não ia para o Céu, ia para o Limbo.
Uma pergunta, ele terá feito a Nosso Senhor? “Meu Deus e meu Filho: quando ireis libertar-me no Limbo? Até lá não me será dado vir à Terra, e acompanhar um pouco o que fazeis?” Não se sabe que perguntas ele fez, não se sabe que respostas Ele deu…
Não me espanta que em uma ou outra vez Nosso Senhor tenha dado a Ele respostas do gênero dessa: “Bem sabeis meu Pai que, segundo o inflexível decreto de Deus, todos os homens que vão para o Limbo não verão a Deus e portanto também não me verão, enquanto eu não fizer o meu holocausto! Quando será esse holocausto? É um segredo que eu ainda não tenho missão de revelar a homem nenhum”.
A resposta penalizaria um pouco São José, e Nossa Senhora olharia para Jesus…
Nosso Senhor então deu alguma resposta a ele. E deixou-o tranquilo. Em certo momento as sombras da morte foram se aproximando. E Ele foi notando que aquele convívio que era para Ele até certo ponto um Céu, ia cessar. Mas de outro lado Ele sabia que lhe aguardava uma gratíssima missão: chegando ao Limbo, anunciar que o Messias se tinha encarnado! Que era o próprio Verbo de Deus Encarnado, filho de Maria. E provavelmente só com a menção dos Nomes de Jesus e de Maria, o Limbo inteiro se iluminou!
Bem, como terá sido o enterro de São José? Onde terá sido o enterro de São José? Restará alguma coisa do corpo dEle? Quem sabe se não deteriorado pela morte? Que maravilha deve ter sido presenciar a entrada de São José no Céu! Que maravilha também assistir, os homens que vão estar vivos no fim do mundo vão ver isso, a ressurreição de São José! São maravilhas umas superpostas às outras… Mons super montes positum, “um monte colocado sobre outros montes”. Esse era o homem escolhido para ser o esposo de Nossa Senhora.
Bem, Nossa Senhora com certeza pensaria: quando é que Ele vai? Quando é que Ele começa? Quando vai cessar esse convívio aqui? Com quem eu vou ficar? Que notícias terei dEle? Quando vai começar o reino dEle? Eu assistirei a implantação desse reino na Terra ou já no Céu?
O que está anunciado é tudo quanto há de mais magnífico. Mas isso anunciou o Anjo. Inúmeras vezes conversando com Ele, a sua fisionomia foi se tornando mais tristonha. E na medida em que a tristeza pode ser comparada com uma sombra, foi se tornando mais sombria. E Ele me tem falado de um imenso sacrifício que está a cargo dEle fazer. Esse sacrifício eu sei qual é, eu sei que é a morte, é a morte da Cruz, porque eu estudei os Profetas, eu estudei a antiga Lei, e entendi o que Ele me disse. Eu fico entre esse esplendor e esse fracasso tenebroso. Qual será o futuro?
Passa um dia, dois dias, cinco dias, trezentos e sessenta e cinco dias, trinta vezes trezentos e sessenta e cinco dias! Ele em casa, adornando a alma dEla cada vez mais com maravilhas! A alma dEla já tão maravilhosa, adornando com maravilhas cada vez mais. Quem sabe se Ela ousaria dizer a Ele, Ela às vezes pensava: “Senhor eu vos agradeço tanta coisa que fazeis por mim. Meu Filho dileto, eu não tenho palavras para agradecer. Mas afinal, pensai no gênero humano, pensai nisso: trinta anos de mistério”.
Um dia – estou imaginando – Ele se aproxima dEla, com uma veneração e um carinho ainda maiores. Ela que o conhecia tão a fundo, talvez não imaginasse que tanto carinho era possível. Não imaginasse também que o próprio Deus humano pudesse tratá-la com tanto respeito; envolvendo-A com um olhar como Ele nunca olhou a ninguém, teria dito: “Minha Mãe, chegou o dia!”
Ele teria dito isto com um sorriso cheio de saudades, mas com umas saudades antecipadas cheias de sorriso: era a glória dEle que ia começar, era a tarefa dEle que ia então começar. Era também a hora dEle que ia chegar. Ele sabia que essencialmente Ele ia de caminho à Cruz. Mas no caminho da Cruz Ele recrutaria os Apóstolos, recrutaria os discípulos, recrutaria todos os elementos da Igreja nascente. Poria em xeque-mate o povo infiel, e levaria a definir-se o ingrato povo de Israel. Fundaria a Igreja, instituiria os Sacramentos, pregaria durante esses três anos toda a doutrina, praticaria milagres que haveriam de impressionar e exercer um efeito persuasivo no mundo inteiro, e depois iria morrer.
O que é que eles terão dito nessa despedida? Como foi essa despedida? Foi uma surpresa e durou um minuto, ou Ele avisou com um mês de antecedência? E a Nossa Senhora esse mês pareceu um minuto, porque Ela quisera uma despedida muito mais lenta? Como é que se pode saber isso?
São maravilhas de que nós teremos revelação quando estivermos no Céu. Então cada um de nós saberá de tudo isso, e não terá palavras para manifestar a sua veneração, sua adoração, sua gratidão por tudo quanto souberam.
Eu imagino que no Céu nós conheceremos tudo da vida de Nosso Senhor, da vida terrena dEle. Até os minutos na aparência mais insignificantes. Não caberemos em nós de alegria ao cantarmos as glórias de Deus por causa disso, e as glórias dEla. De qualquer forma, as coisas andam. Nossa Senhora é procurada pelas Santas Mulheres, em determinado momento, se incorpora nelas, tem nelas uma família natural, em cujas mãos Nosso Senhor A deixa. Ela tem dois como que sobrinhos, seguindo a Nosso Senhor, São Tiago e São João, filhos de uma prima-irmã dEla. Ela tem, Ela guarda na alma enlevada e quente a recordação de um outro parente, São João Batista… Santa Isabel, Zacarias. Sobretudo Ela guarda a recordação dos pais dEla, São Joaquim e Santa Ana.
Tudo isso Ela guarda na alma, mas por cima de tudo e acima de tudo, Ele.
Essas são as cogitações que nós imaginamos! Mas os senhores querem ver como tudo isso é pequeno? Parece tão grande que nós ficamos abismados. Os senhores querem ver como isso é pequeno? Ela era Esposa do Divino Espírito Santo. Que graças do Divino Espírito Santo dava a Ela para conhecer todas essas coisas, para meditar, para excogitar! Que perguntas Ela fazia a Ele?!
“Meu Rei, meu Senhor e meu Esposo! Eu vos pergunto tal coisa, tal outra coisa, tal outra coisa”. E Ele por meio de iluminações magníficas fazendo ver. Quem sabe se Ela teve com Ele “combates” à maneira de Jacob com o Anjo? Até conhecer mais tal dado, tal outro etc. Não levada por uma curiosidade vã, mas porque era do desejo de Deus que Ela acabasse obtendo do Divino Espírito Santo o conhecimento daquilo. Todo o relacionamento de Nossa Senhora com o Esposo dEla, esposo São José, esposo legal, é tão bonito, tão tocante. O que será com o Divino Espírito Santo?
Por exemplo, no momento da Encarnação, Ele se tornou Esposo dEla. Todo esposo, no ato dos desponsórios dá à esposa um presente magnífico. Tão magnífico quanto ele pode. Qual é o presente que pode dar o Divino Espírito Santo? Que graças? Que esplendores? Não se pode ter uma ideia disso, não se pode ter uma ideia disso. É impossível! [Vira a fita]
… Ela de vez em quando vê Nosso Senhor, que parece que no primeiro momento a promessa da glória se realiza. Ele começa seu giro pela multidão, as multidões vão ao encalço dEle, Ele é obrigado até a fugir delas para tomar um pouco de repouso.
Será?!… De outro lado, Ela que tinha como ninguém teve e nem terá jamais um discernimento de espíritos perfeitíssimo, sentia Satanás esvoaçando pelo ambiente. Ela sentia o ódio dele que penetrava nesses e naqueles. Ela sentia conspiração, Ela tomava conhecimento dos complots, dos atentados… In supremae nocte cenoe. Na suprema, na última noite da ceia, última antes da Paixão, recumbens cum fratibus, estando sentado com os irmãos, que são os Apóstolos, Ele celebrou a primeira Missa. Nossa Senhora estava no Cenáculo.
No momento em que Ele consagrou, de modo milagroso ou dado diretamente por Ele, não se sabe, é certo que a primeira pessoa a receber a comunhão foi Ela. Os senhores já pensaram a festa da Primeira Comunhão de Nossa Senhora?! Mas Ela ouviu… terrível profecia: “Um de vós há de me trair”. Ela viu Judas sair… Apostasia! O Evangelho diz de modo muito bonito, algo que tem um caráter a meu ver simbólico: “Fora era noite…”
Bem, depois Ela viu Nosso Senhor que saiu. Talvez tenha se despedido dEla; talvez tenha dito a Ela que era a hora… Talvez não tenha dito… deixou-A na dúvida. O Evangelho conta que eles saíram cantando, canção de Páscoa. E pela noite adentro, na mesma noite em que tinham ecoado os passos de Judas, a canção puríssima de Nosso Senhor acompanhado pelos Apóstolos.
O que terá acontecido com Ela depois? O tempo que mediou entre a despedida dEla e de Nosso Senhor, ou o fato em que Ela constatou que Ele estava saindo e não se despediu, e o encontro no caminho da agonia, como é que terá sido? Não [se] sabe. O fato é que o fundo de quadro de toda meditação dEla provavelmente seria o que o Evangelho cantado pelos senhores hoje conta: as promessas, o futuro, a glória, e o preço da glória – a dor! Que nessa ocasião festiva o Anjo não mencionou.
Assim, a lembrança da data de hoje tem que ter estado presente para Ela até o momento mais terrível da Paixão, que no meu modo de entender é o momento em que Nosso Senhor bradou “voce magna”, em altos brados: “Meu Pai, Meu Pai, por que me abandonastes?” É um brado de dor, de dilaceração, uma coisa inimaginável! De um lado.
Agora, de outro lado, os senhores sabem que é o começo de um Salmo que anuncia a Ressurreição. E Ela tinha percebido antes da morte dEle, o primeiro clarão de alegria, quando Ele disse ao bom ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso”. Uma coisa extraordinária! Quer dizer, quando Ele bradou: “Meu Pai, por que me abandonastes?” Ele não perdeu de vistas que essa era a passagem para o Paraíso. E no último minuto antes de Ele morrer, antes de Ele inclinar a cabeça, em que as dores estavam, portanto, mais lancinantes, mal-estar terrível, nesse minuto em que Ele deu o brado, nesse minuto Ele sabia que as portas do Céu se abriam para Ele.
E é a morte do católico quando o católico morre com fé! Ele pode ter uma morte terrível, mas ele sabe que quanto mais terrível a morte, mais largas as portas para ele no Paraíso, e mais próximo ele estará de Deus Nosso Senhor e de Nossa Senhora.
São essas perspectivas tão grandes que se diria quase que, são grandes demais para o homem, o homem precisa educar sua alma para querer grandes perspectivas e não ser “nhonhô”, senão ele corre risco de na hora não aguentar.
Bom, meus caros, com isso o comentário das últimas perspectivas do que me foi cantado aqui, está feito tanto quanto eu consegui fazer. E bem entendido, acompanhado como costuma ser nossas reuniões, as apetências enunciadas pelos senhores mudamente, mas pelo modo de acompanhar, se percebe o de que os espíritos estão ávidos, o que lhes faria bem. E foi o que eu tentei fazer.
Agora, uma conclusão concreta, um fruto concreto qual pode ser? Eu creio que já tratei disso da última vez, mas numa palavra pode-se dizer. Aquilo foi, aquele episódio foi uma comunicação para Ela, mas para todo o gênero humano, até o fim dos séculos, de que o Verbo se encarnou e habitou entre nós, se fez carne e habitou entre nós. Porque Maria disse “sim”! Foi a proclamação de que a grande glória não consiste em não sofrer vergonhas, em não sofrer humilhações, em não ser derrotado. A grande glória consiste em lutar pelo Bem! E o Bem, mas o Bem com “B” maiúsculo é Deus! É a Igreja Católica, é a Igreja de Deus.
Bom, isso está também na… aí está também a manifestação de um modo de ser da Providência; nesse dia Nosso Senhor deu a Ela, com um amanhecer de alma, cheio de louçania, as alegrias desse dia quase não se tem palavras para poder dizer, para se poder enunciar. E as promessas são promessas superlativas. Mas vejam bem como caminham as promessas de Deus: passam pelas esperanças mais alegres e pelos desmentidos mais terríveis, pelos aparentes desmentidos mais terríveis. E a alma tem que ir se habituando às promessas, às alegrias e aos desmentidos.

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