Ante Nosso Senhor no Calvário, quantos auges se podem contemplar! Lições por eles proporcionadas

Sede São Milas, 9 de abril de 1971 – Sexta-feira Santa – Santo do Dia

 

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

Nós vamos fazer um comentário ─ como fizemos ontem da Quinta-feira Santa ─ vamos fazer um comentário da Sexta-feira Santa.

Vamos fazer o comentário da morte de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz, tomando como base a “Concordância dos Santos Evangelhos”, de D. Duarte [Leopoldo e Silva (1867-1938) primeiro Arcebispo Metropolita de São Paulo].

* Leitura de um trecho da Concordância dos Santos Evangelhos

Chegando ao lugar chamado Gólgota, que quer dizer Calvário, deram-lhe a beber vinho misturado com mirra e fel. Mas tendo provado não o quis beber. E aí o crucificaram com os dois ladrões, um à direita e outro à esquerda, e Jesus no meio. Assim se cumpria a Escritura, que diz: “E foi computado entre os iníquos.”
Jesus, porém, dizia: “Meu Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem.”
Depois de o terem crucificado, tomaram os soldados os seus vestidos, dividindo-os em quatro partes, uma para cada soldado. Porém, como a túnica era inconsútil, de um só tecido de alto a baixo, disseram eles entre si: “Não a rasguemos, mas deitemos a sorte para ver a quem há de tocar.” A fim de que se cumprisse a Escritura que diz: “Repartiram entre si os meus vestidos e deitaram sorte sobre a minha túnica.” Assim pois fizeram os soldados, e sentando-se puseram-se a guardá-Lo. Era, então, a hora “tertia”.
Ora, Pilatos tinha escrito e colocado no alto da Cruz, acima da cabeça de Jesus, uma inscrição que indicava seu crime: “Jesus Nazareno, Rei dos judeus”.
Muitos judeus leram essa inscrição porque era perto da cidade o lugar onde Jesus foi crucificado, e ela estava escrita em hebraico, em grego e em latim. Mas os pontífices dos judeus disseram a Pilatos: “Não deveis escrever Rei dos Judeus, mas que Ele disse: Eu sou o Rei dos judeus.”
Respondeu Pilatos: “O que eu escrevi, escrevi.”
Estava o povo olhando, de pé, os que passavam blasfemando dEle, sacudindo a cabeça e diziam: “Ó, tu que destróis o Templo de Deus e o reedificas em três dias, salva-te a Ti mesmo. Se és Filho de Deus, desce da Cruz.”
Também os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos zombavam dEle dizendo: “Salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo. Se é o Rei de Israel, que desça agora da Cruz e nós acreditaremos nEle. Confiou em Deus; se, pois, Deus o ama, que o livre agora. Porque Ele disse: «Eu sou o Filho de Deus».”
Também O insultaram os soldados que aproximando-se Lhe ofereciam vinagre, dizendo: “Se és o Rei dos judeus, salva-te a Ti.”
E esses mesmos impropérios Lhe dirigia um dos ladrões que estavam crucificados com Ele. Mas enquanto um dos ladrões blasfemava dizendo: “Se Tu és o Cristo, salva-te a Ti mesmo e a nós”, repreendeu-o outro, dizendo: “Tu não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Nós outros, sem dúvida, sofremos com justiça, porque recebemos o digno castigo de nossas obras, mas este não fez mal nenhum.” E dizia a Jesus: “Senhor, lembrai-vos de mim quando chegardes ao vosso Reino.”
Respondeu-lhe Jesus: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.”
Era quase a hora “sexta” e as trevas cobriram toda a terra, até a hora nona, e escureceu o sol.
De pé, junto à Cruz, estava a Mãe de Jesus; Maria, irmã de sua Mãe, mulher de Cleofas e Maria Madalena.
Vendo Jesus a sua Mãe e ao discípulo amado que ali estava, disse a sua Mãe: “Mulher, eis aí o teu filho.” Depois disse ao discípulo: “Eis aí tua Mãe.” E desde aquele instante, A tomou o discípulo em sua casa.
Quase à “nona” hora, clamou Jesus com um grande brado, dizendo: “Eli, Eli, lama sabactani”. Isto é: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?
Alguns dos que ali estavam e o tinham ouvido, disseram: “Ele chama por Elias.”
Sabendo Jesus que tudo estava consumado para que se cumprissem as Escrituras, disse: “Tenho sede.”
Ora, havia ali um vaso cheio de vinagre. Imediatamente corre um dos soldados a tomar uma esponja, embebeu-a em vinagre e colocando-a na extremidade da lança, da cana, lhe dava a beber. Mas os outros diziam: “Deixa, vejamos se Elias o vem livrar.”
“Deixai-me ─ replicou o soldado ─ veremos se então Elias vem descê-lo da Cruz.”
Tendo tomado o vinagre, disse Jesus: “Tudo está consumado.”
Depois, lançando de novo um grande grito, disse: “Meu Pai, nas vossas mãos entrego meu espírito.” Dizendo isso, inclinou a cabeça e expirou.

* Os maiores milagres de Nosso Senhor foram sua Pessoa e sua doutrina

Os senhores estão vendo que essa narração da morte de Nosso Senhor, majestosíssima, digníssima, simplicíssima, se compõe de várias partes. É um desfecho de toda a vida dEle, e esse desfecho nós notamos representado em vários aspectos.
Em primeiro lugar, as blasfêmias dos que O odiaram, chegou ao auge. Em segundo lugar, o amor dos que o amavam também chegou ao auge. Em terceiro lugar, o sofrimento dEle chegou ao auge. E em quarto lugar, Ele consumou a sua obra e morreu.
O que é que nós podemos dizer a respeito das blasfêmias?
Pela narração a gente percebe que Nosso Senhor Jesus Cristo foi ao alto da Cruz por uma condenação de Pôncio Pilatos, mas por instigação, como nós sabemos, do Sinédrio e dos príncipes dos sacerdotes. E que, ao contrário do que costuma acontecer, em que as altas autoridades não assistem a execução, mas se conservam à distância e fazem com que os carrascos executem a sentença, aqui, tal era o ódio das altas autoridades do Sinédrio, que elas compareceram todas e estiveram lá para acompanhar, para dirigir as blasfêmias até o fim.
Nós vemos também que havia uma espécie de palavra de ordem que corria entre todos os judeus. Porque todas as blasfêmias culminavam num ponto. Aquele poviléu que estava ali levado pelos seus sacerdotes iníquos, e todos eles faziam uma mesma interrogação: “Se tu és Filho de Deus, por que não te salvas? Desce da Cruz. Faz agora um milagre estupendo e nós creremos em ti.”
Em termos mais prolixos, isso queria dizer o seguinte: “Tu quiseste longamente que nós crêssemos em ti, Tu fizeste milagres para que nós em ti crêssemos. Nós recusamos esses milagres e nós recusamos de crer em ti. Entretanto, se agora Tu fizeres este milagre, nós creremos. Aquilo que tanto procuraste, que é a nossa adesão, aqui está. É uma oportunidade para Tu a conquistares… Então, agora, faze, anda. Se tinhas realmente desejo de nos conquistar, conquiste-nos”.
Como quem dizia: “Nós não demos importância a nada do que Tu fizeste, mas agora, neste momento, estaremos dispostos a dar importância, caso Tu desças da Cruz”.
Era, evidentemente, se Nosso Senhor fizesse isso seria um milagre de primeira grandeza. Seria um milagre porque Ele teria que desvencilhar-se dos pregos que O retinham na Cruz, teria que encontrar, no meio daquele cansaço e daquela exaustão toda em que Ele estava, forças para se desamarrar da Cruz, e teria que descer. E teria que, ao mesmo tempo, recobrar a normalidade física, a integridade, de maneira tal que sarasse no mesmo momento.
Nós podemos nos perguntar: se Nosso Senhor tivesse feito isso, o que é que teria acontecido? Aqueles homens, de fato, teriam crido nEle, ou não teriam crido?
A primeira coisa é que eles já não mereciam que Nosso Senhor fizesse isso por eles. Porque Nosso Senhor tinha feito toda espécie de milagres por eles. E o maior dos milagres, a maior das maravilhas feita por Nosso Senhor em favor deles não foi, de nenhum modo, a série de curas que Ele operou, a multiplicação dos pães, a transmutação da água em vinho etc., não foram esses os maiores milagres. Os maiores milagres que Ele praticou foram Ele mesmo e a sua doutrina.
Era tão Santo, tão evidentemente Filho de Deus, a doutrina que Ele dava era tão santa, tão verdadeira, tão indiscutível, que estava acima das forças humanas ser assim. E só quem era realmente, quem tinha realmente parte com Deus e estava no agrado de Deus, só esse é que teria energia, só esse é que teria meios para elevar-se àquele grau excelso de sabedoria e virtude.
Ora, se Ele tinha parte com Deus e Ele dizia que Ele era o Filho de Deus, estava provado que Ele era o Filho de Deus. Não tinha mais nada o que dizer.
A esse milagre eles não deram crédito. Não deram crédito também aos outros milagres.
Nosso Senhor premiava muito mais a quem cresse pela doutrina e pela santidade dEle, do que pelos milagres que ele praticasse. Ele disse isso a São Tomé: “Tomé, tu creste porque viste. Bem-aventurados os que não viram, mas creram.”
Quer dizer, aqueles que não viram milagres, mas creram por causa da força do exemplo e da palavra de Nosso Senhor, esses eram verdadeiramente os bem-aventurados.
Está bem, depois que a pessoa recebeu todas aquelas graças, todos aqueles milagres estrondosos, não tinha mais direito a exigir milagre nenhum. E era um verdadeiro atrevimento, era uma verdadeira insolência pedir aquele milagre. Mas eu tenho por certo que se Nosso Senhor descesse da Cruz, eles não acreditariam. Eles se precipitariam sobre Nosso Senhor para matá-Lo de novo, dizendo que Nosso Senhor tinha parte com o demônio. Mas acreditar, eles não acreditariam. Porque quem chega a um grau desses de infâmia, a um grau desses de incredulidade, não crê em nada. E não se deve imaginar que esse tipo de gente mereça outra coisa do que o castigo.

* A trajetória espiritual do povo judeu face a Nosso Senhor: de um falso entusiasmo para um ódio furibundo

Aí os senhores têm o processo de incredulidade do povo de Israel que atinge, então, o seu auge. Por quê? Porque o povo de Israel, no primeiro ano da vida de Nosso Senhor, o povo de Israel, meio preparado pela missão de São João Batista que ─ ele, aliás, não tinha recebido bem o povo de Israel ─ meio preparado pela missão de São João Batista, afinal, de um modo ou de outro, recebeu Nosso Senhor também meio bem. E o primeiro ano dEle foi também um ano de certo triunfo.
Mas à medida que Ele ia ensinando, o povo ia se dando conta de como aquela doutrina toda contrariava os pecados capitais do espírito judaico: o espírito terra-a-terra, a mania do ouro, a mania da grandeza terrena, a mania da dominação pela dominação etc. Então, quando eles viram isso, eles foram se retraindo.
O resultado é que o segundo ano foi um ano de uma espécie de ruptura. Nosso Senhor começou a sentir o vazio em torno de Si, eles começaram a abandonar Nosso Senhor, mas ao mesmo tempo, alguns judeus, amando Nosso Senhor mais, começaram a segui-Lo. E então, Nosso Senhor começou a recrutar aqueles que seriam a minoria minúscula de seus sequazes, no meio daquela imensidade de povo infiel e ímpio.
Bem, no terceiro ano deu-se o choque. Esse povo que não quis seguir a Nosso Senhor que no primeiro ano começou a segui-Lo, no segundo ano se recusou a segui-Lo, no terceiro ano se mobilizou contra Nosso Senhor.
Não é dizer propriamente que eles estivessem inteiramente mobilizados contra Nosso Senhor. Eles tinham um misto de admiração e de entusiasmo, de um lado, e de nó e de um nó que podia ir até o ódio, de outro lado.
A almas deles estavam divididas, tanto é que os senhores veem que no Domingo de Ramos eles tinham preparado para Nosso Senhor um triunfo magnífico. Nesse triunfo eles aclamavam Nosso Senhor como sendo o Filho de Davi, quer dizer, como sendo o Messias que devia vir, como sendo o descendente da Casa real de Israel, que deveria tomar conta do trono e proclamar a grandeza da nação israelita. Mas acontece que esse entusiasmo que eles tinham por Nosso Senhor, misturado já com ódio, era, além do mais, um falso entusiasmo. Porque eles não quiseram reconhecer a Nosso Senhor como Filho de Deus, vindo à terra para ser humilhado, para ser crucificado. Eles queriam ver em Nosso Senhor o Filho de Deus vindo à terra para ser um grande homem, não Homem-Deus, mas um grande judeu, que haveria de instaurar o reino dos judeus no mundo.
E os senhores podem imaginar a lição que eles tomaram, vendo que esse, que eles iam aclamar como rei de Israel, entrava em Jerusalém, na cidade sagrada do mundo, capital sagrada do mundo, entrava em Jerusalém montado, sentado num burrico.
Quer dizer, era de tal maneira o contrário dos dominadores antigos, de tal maneira uma afirmação de que a glória que Ele procurava não era aquela glória terrena, aquela glória de valores humanos, mas era uma glória celeste, que isso deve ter dado neles um choque tremendo.
Veio depois a preparação da efervescência feita pelos membros do Sinédrio, para levantar o povo contra Nosso Senhor. E o povo, desapontado, deixou-se ir. E então com isso, a nação judaica como tal, descolou completamente de Nosso Senhor. E os representantes da nação judaica estavam no alto do Gólgota, lançando blasfêmias contra Ele, exclamando coisas contra Ele. Por quê? Porque a ruptura era completa e eles, a partir desse momento, eram inimigos de Nosso Senhor. E atiravam contra Nosso Senhor as piores injúrias, as piores injúrias sem a menor compaixão.
Nós não vemos o menor traço pelo menos do que vagamente se poderia chamar equidade, alguém que lhe gritasse: “Agradeço-Te a cura que me fizeste, agradeço-Te a graça que me concedeste.” Nada. O Evangelho não nos fala de alguém que se tenha levantado durante a crucifixão, para externar a Nosso Senhor o seu amor.
Ao longo de todo o martírio de Nosso Senhor, nós só notamos três pessoas que dizem alguma coisa e fazem um gesto a favor de Nosso Senhor. A primeira é a Verônica, que durante a Via Dolorosa, enxugou o rosto dEle, a face dEle. A segunda é Nossa Senhora, que no encontro abraçou-O, osculou-O e lhe deu toda a prova possível de adoração e de afeto. A terceira é o bom ladrão, do alto da cruz, que reconhece que Ele é Filho de Deus. São as três únicas pessoas. O resto é um silêncio completo. E aí a gente vê especialmente a culpabilidade do povo judaico.
Quer dizer, aquele povo cumulado de favores não agradeceu nada e não teve uma palavra para reconhecer os méritos dEle, para pedir, portanto, uma atenuação dos sofrimentos dEle, para proclamar a sua Virtude. Nada, absolutamente nada. Pelo contrário, quando foi dado a escolher ao povo entre Ele e Barrabás, o povo preferiu Barrabás.
Quer dizer, preferiu um criminoso célebre a Ele, quer dizer, de tal maneira o povo estava voltado contra Ele.
[Catarina Emmerich conta uma coisa tremenda]: que o povo, debaixo da Cruz, pegava em pedras e atirava nEle. E ela conta que entre as pessoas que gritavam blasfêmias contra Nosso Senhor, entre as pessoas que atiravam pedras nEle ─ o que é o sumo da crueldade e até da covardia, apedrejar por essa forma uma pessoa amarrada, que não podia se defender e nem sequer fugir ─ estava o moço rico do Evangelho. Exatamente aquele moço que se aproximou de Nosso Senhor e perguntou como conquistar a perfeição. E Nosso Senhor disse a ele que o modo era vender todas as coisas e segui-Lo. E ele se retirou cheio de tristeza. Diz o Evangelho que antes de Nosso Senhor dar esse conselho para ele, olhou-o e amou-o. Apesar disso ele recusou de atender o conselho de Nosso Senhor. Algum tempo depois o miserável estava no Gólgota apedrejando a Nosso Senhor.
Quer dizer, era o auge da maldade, o auge da crueldade, como desfecho normal do auge da negação: a zombaria contra Nosso Senhor.

* Em torno de Nosso Senhor no Calvário, dois auges: o auge de ódio dos algozes e o auge de amor de sua Mãe

Nós temos, então, aqui um auge. Nós temos um outro auge que se encontra no alto do Calvário, que é do amor. Nós temos esse auge representado antes de tudo pela presença de Nossa Senhora.
Nossa Senhora foi crescendo em amor de Deus durante toda sua vida. E em cada instante da vida de Nossa Senhora se pode dizer que o amor dEla a Deus era maior do que no instante anterior. Se bem que, desde o primeiro instante do ser dEla, Ela tivesse amado a Deus de um modo, para nós, inconcebível e insondável.
Quer dizer, se nós tivéssemos conhecido Nossa Senhora no ponto inicial de sua vida espiritual, nós, por assim dizer, teríamos desmaiado, porque já era tanto amor de Deus que para nós seria uma coisa inconcebível. Nós não podemos imaginar como era.
Pois apesar disso, em todos os instantes de sua vida, esse amor foi crescendo. Mas é evidente que no momento em que a vida terrena de Nosso Senhor chegava ao seu termo, o amor dEla a Nosso Senhor Jesus Cristo, enquanto vivo nessa terra, atingia seu auge. E que por outro lado se compreende que Ela nunca tivesse amado tanto seu Divino Filho como no momento em que Ele sofria tanto, e em que Ele praticava a mais bela e a mais nobre das ações que Ele praticou, a mais santa de todas.
Está na psicologia comum de toda mãe amar mais o filho que sofre mais. E tendo um Filho no auge do sofrimento era claro que Ela O amasse também com um amor que tinha chegado ao auge.
Mas Ela não tinha ali apenas um amor de compaixão. Ela tinha um amor de enlevo, um amor de adoração, porque Ela via a Santidade Divina com que Ele carregava esse sofrimento até o fim, sem nenhuma vacilação, com uma determinação extraordinária, com uma perfeição, uma sabedoria infinita, dizendo todas as palavras que era possível dizer, aceitando tudo quanto era preciso aceitar até o momento em que Ele mesmo teve essa afirmação admirável: “Consumatum est”. Quer dizer: “Tudo está feito, a obra está pronta, a maravilha que Eu deveria fazer, Eu fiz, e com isso Eu fiz tudo quanto tinha que fazer. Meu Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito”.
Os senhores compreendem que no momento em que Ele disse isso: “Consumatum est”, em que Ele entregou o espírito dEle a Deus, os senhores compreendem que o amor de Nossa Senhora tem que ter chegado a um auge inimaginável. Porque Ela o via atingir a plenitude de sua obra e dar a maior manifestação de sua Santidade Divina. Então, é claro que o ato de amor dEla também foi um ato perfeitíssimo.

* O auge de amor de São João Evangelista foi recompensado com o maior de todos os dons

Se se pode comparar um astro que tem o brilho de cinco quintilhões de sóis, com um vaga-lume, depois de nós olharmos para Nossa Senhora, olhemos para as santas mulheres e para São João Evangelista.
São João Evangelista estava ali representando também alguma coisa que era um auge. O amor dele tinha chegado ao auge. Ele era o discípulo amado, ele tinha repousado, na Quinta-feira Santa, a cabeça dele sobre o peito de Nosso Senhor e tinha tido o privilégio incomparável de ser o primeiro devoto, depois de Nossa Senhora, do Sagrado Coração de Jesus, ouvindo as pulsações do Sagrado Coração de Jesus, que naquela hora pulsava de amor por todos os homens. Ele depois tinha feito o horror que os senhores sabem. Ele também dormiu, ele também fugiu, ele também fez de tudo. Mas ele era o Apóstolo virgem, ele era o Apóstolo amado. E as almas virgens, mesmo nas suas situações mais tristes, encontram recursos, encontram forças para cumprir o dever que, infelizmente, as almas não virgens não têm.
Por outro lado, Deus protege as almas virgens. Deus atrai a si as almas virgens. Com certeza, em atenção à virgindade dele, Nossa Senhora obteve que ele fosse chamado. E ele teve essa honra, não só ele, o discípulo do amor, de estar no auge do amor naquele momento, mas de, ao mesmo tempo, representar todos os Apóstolos e evitar que a vergonha do Colégio Apostólico fosse completa.
Também, nesse auge do amor ele recebeu o auge da recompensa. Porque não pode haver dom maior do que a pessoa receber Nossa Senhora como presente. Aquela hora em que Nosso Senhor disse a ele: “Mulher, aqui está teu filho.” E depois Ele disse a São João Evangelista: “Aqui está tua Mãe”, ele recebeu um presente inestimável.
Há comentadores que dizem que São Pedro, se estivesse presente, teria recebido Nossa Senhora, que Ela era um tal tesouro, que Ela normalmente devia estar com o Chefe da Igreja. Mas que tal não se deu porque São Pedro estava ausente. E que Ela foi dada ao discípulo que estava presente.
Os senhores podem imaginar qual é o valor disso? Abaixo de Deus, infinitamente abaixo de Deus, mas insondavelmente, incalculavelmente acima de todas as outras criaturas, está Nossa Senhora. Receber Nossa Senhora de presente, não há palavras que signifiquem o que isso representa. É o canal de todas as graças, é a obra prima de Deus, enfim, é Nossa Senhora!
Ele recebeu como Mãe e, ato contínuo, ele começou a agir com Ela como filho. Porque diz o Evangelho que a partir daquela hora ele A recebeu em sua, que não quer dizer apenas na sua casa, mas quer dizer na sua família. Começou a agir como sendo Ela um membro da família dele. E começaram essas relações misteriosas de alma que essa adoção criou, e que eu creio que é algo imensamente ligado com a sagrada escravidão de São Luís Grignion de Montfort.
Quer dizer, é uma relação de alma excelente, insondável, misteriosa, pela qual ele se vinculou a Ela de um modo também que nós nem podemos calcular.
Os senhores têm ao lado da inocência, a penitência. Os senhores têm Maria Madalena, que está ao pé da Cruz chorando também, chorando seus pecados que produziram aquilo, e chorando os pecados da humanidade inteira.
Os senhores têm ao lado dela uma irmã ou prima de Nossa Senhora. Os intérpretes discutem, mas eu sou muito mais propenso a admitir que tenha sido prima do que irmã, porque me custa a crer que uma pessoa como Nossa Senhora tenha tido alguém que estivesse tão perto dEla como uma irmã. A gente deve achar que Ela não tinha ninguém tão perto de si, e que Ela que era a obra-prima única de Deus também fosse filha única, enfim estava ali para representar o afeto familiar, a união familiar, a solidariedade que Ela tinha com Nossa Senhora nessa hora.
Os senhores veem que, então, nós temos aqui três auges, dois auges: Nós temos o auge do ódio do povo judaico, nós temos o auge do amor que [inaudível] Nosso Senhor.

* O auge do holocausto precedido por um auge de perdão

De outro lado, nós temos o auge do sofrimento de Nosso Senhor. O que Nosso Senhor deve ter sofrido ali do ponto de vista físico, não tem palavras. Nunca ninguém, nem antes nem depois dEle, sofreu, nem conseguiria sofrer o que Ele sofreu.
Os senhores veem, pela narração do Evangelho, que Ele estava devastado por toda espécie de dores, por toda espécie de aflições. Os senhores percebem que quando Ele disse “Consumatum est”, Ele, nessa palavra, dizia muitas coisas. Ele dizia, antes de tudo, que toda a dor que Ele pudesse ter, estava sofrida e que toda a medida das dores estava cheia. Não lhe faltava sofrer mais nada.
Depois, também, Ele dizia que o processo mortal, o processo de morte tinha tomado conta do Corpo dEle e que, portanto, faltava apenas um hiato minúsculo para Ele se oferecer, para Ele morrer, para sua Alma se desprender do Corpo.
Quer dizer, estava consumado o crime cometido contra Ele. Estava consumado também o sacrifício que Ele ia fazer. E por causa disso logo depois Ele disse: “Meu Pai, em vossas mãos Eu encomendo a minha Alma, Eu entrego minha Alma”. O que queria dizer: “Eu vos ofereço essa morte, que Eu aceitei por vós, para os vossos desígnios e para obedecer a vós”. Os senhores estão vendo aí, é um outro auge que chega.
Pouco antes disso os senhores notam um outro auge: É o auge do perdão. O que se passou com São Dimas é uma coisa verdadeiramente inimaginável. Porque São Dimas não só foi perdoado, embora ele fosse um pecador péssimo, mas ele foi confirmado em graça. Porque Nosso Senhor garantiu a ele, que ele não pecaria mais. Implicitamente, dizendo que estaria com Ele no Paraíso, garantiu a ele que não pecaria mais. O que não é pouca coisa. Porque as pessoas quando passam pela agonia, são muito tentadas, e São Dimas devia estar sofrendo pavorosamente. Porque o suplício da cruz é um suplício pavoroso.
Embora ele fosse menos mal tratado do que Nosso Senhor, ele também não tinha a força sobrenatural de Nosso Senhor, e o que ele deveria estar sofrendo deveria ser um verdadeiro horror. Nessa ocasião, o demônio, com certeza, quis tentar a alma dele, mas Nosso Senhor garantiu: “Tu perseverarás”.
E mais ainda, de um ladrão crucificado ele fez o primeiro santo canonizado, dizendo: “Tu, hoje ainda, estarás comigo no Paraíso”.
Ele que tinha podido transformar a água em vinho, Ele podia também transformar um ladrão num santo. E Ele quis naquele momento fazer de um ladrão um santo, e fez.
E por causa disso, eu não me lembro bem se foi o Padre Vieira ou se foi outro comentador, que teve essa expressão muito engraçada: “Feliz ladrão, que ao morrer roubaste o Céu”… Porque, realmente, ele roubou o Céu. Os méritos dele não estavam na proporção de alcançar o Céu. Ele ganhou o Céu porque Deus quis. E ele entrou no Céu pela misericórdia de Deus.
É o símbolo da via misericordiosa das almas que sabem que não valem nada, que são muito pouca coisa, mas que se entregam a Deus Nosso Senhor e que são cumuladas pela misericórdia de Deus. Assim nós temos um outro auge que chega.

* Descida da Cruz, a Vítima Divina é colocada sobre o mais digno dos altares: Nossa Senhora. Iniciam-se as primeiras cerimônias da Igreja

Bem, terminada a crucifixão, os senhores têm que Nosso Senhor é tirado da Cruz. E os senhores conhecem o desfecho. Ele é tirado da Cruz, recolhem-se como restos preciosos todos os objetos do martírio dEle ─ a Coroa de Espinhos, os Cravos, o Sangue Precioso que estava aderente do lado de fora do Corpo dEle ─ tudo isso se recolhe, Ele é embalsamado e levado para a sepultura.
Mas há um momento que é o momento pungente de toda essa cena, e que é o momento em que Nosso Senhor, descido da Cruz, é posto no colo de Nossa Senhora. Onde deitar o Corpo sacrossanto de Nosso Senhor Jesus Cristo? No alto do Calvário não havia uma mesa, no alto do calvário não havia um móvel. Mas havia outra coisa: era Nossa Senhora sentada sobre uma pedra. O colo dEla era perfeitamente digno de carregar aquele peso, Ela que O tinha tido nas entranhas.
E os senhores têm aí um ciclo: Nossa Senhora que dá a vida a Nosso Senhor, Nossa Senhora que contempla o cadáver de Nosso Senhor sobre seu colo. Naquele momento Ela foi mais uma vez um altar, sobre o qual estava a Vítima Divina, já então imolada. E Ela então considerava com dor o seu Divino Filho morto. É a cena que se costuma chamar da “Piedade”, é a cena da compaixão. É Nossa Senhora que tem pena dEle, que sofre vendo-O naquele estado e que tem por Ele, portanto, com-paixão.
Paixão, em latim, quer dizer sofrimento. Cum passio quer dizer: sofreu junto com Ele. E é considerando Nossa Senhora com Nosso Senhor Jesus Cristo no colo que se aplicam melhor do que em quaisquer outras circunstâncias, aquelas palavras da Escritura, que se cantam aqui, do profeta Isaías: “Ó vós todos que passais pelo caminho, parai e vede se existe uma dor igual à minha”.
Realmente, não há dor igual à de Nossa Senhora com seu Divino Filho no colo.
Mas ao mesmo tempo nós vemos a Igreja, que já habita naquela gente, habita de um modo mais excelente em Nossa Senhora, que começa a dar as manifestações do que Ela seria de futuro. Já começa um ritual, já começa um cerimonial. Nosso Senhor embalsamado é levado processionalmente ─ é a primeira procissão da Santa Igreja Católica ─ é levado processionalmente para a sepultura. E ali então se lacra a sepultura, se sela e estão os guardas. A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo acabou.

* Enquanto no Limbo se comemorava a chegada do Redentor, na Terra faziam-se notar os sinais da cólera de Deus

O que nós podemos dizer do que aconteceu depois? O complemento é indizível.
Os senhores sabem que a Alma de Nosso Senhor Jesus Cristo, ligada em união hipostática à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, a Alma dEle desceu ao Limbo, onde estavam todos os justos do Antigo Testamento, há séculos e séculos e séculos, à espera do Salvador que lhes viesse trazer o Céu.
Muitos tinham passado pelo Purgatório e já estavam ali com seus pecados pagos, esperando apenas o momento em que viesse o Filho de Deus para levá-los ao Céu.
[… alegria enorme] que houve no Limbo quando Nosso Senhor ali chegou.
São José, que dEle se aproximou, os patriarcas, os profetas, os mártires, os santos de toda ordem que tinha havido no Antigo Testamento, que vieram para homenageá-Lo e depois Nosso Senhor abrindo o Céu para eles, Nosso Senhor se fez acompanhar por eles por toda a parte. E depois quando subiu ao Céu, levou-os para o Céu. Eram milhões e milhões de almas.
Mas enquanto isso acontecia no [Limbo] na Terra acontecia uma coisa bem diferente. Havia um terremoto, no céu, como os senhores sabem, o sol se cobriu, fez-se trevas numa hora em que não era para haver trevas; a terra toda tremeu.
Quer dizer, o crime foi tão abominável que a natureza toda estremeceu. E no meio dessas trevas racharam-se muitas sepulturas que eram de justos da Antiga Lei. E esses cadáveres desses justos, todos amarrados, todos embalsamados com aquelas tiras, todos presos com aquelas faixazinhas que atavam aos cadáveres, começaram a andar de um lado para outro, com os olhos fechados e exprobando aos judeus o crime que tinham cometido.
Havia duas espécies de reações: uns eram os que se apavoravam e, então, desesperavam.
[Anás ou Caifás, que tinha tanto medo que], na sala onde estava ele, andava de quatro de um lado para outro não sabendo onde ir. Mas na mesma sala estava um outro, não sei qual era, se Anás ou Caifás, que era “n-a-n-e” ─ os havia ─ que estava deitado num móvel muito cômodo e dizendo que nada daquilo tinha importância, e que não se deveria relacionar isso com a morte de Nosso Senhor…
É a reação que os senhores vão presenciar durante a “Bagarre” [castigos profetizados por Nossa Senhora em Fátima]. Durante a “Bagarre” os senhores vão ver filhos das trevas, os que não se converterem, os senhores vão ver andarem de quatro de medo, urrando e uivando até que o demônio os pegue e os leve, vivos ou mortos, para o Inferno.

* De um lado, o auge de misericórdia de Deus para com os justos; de outro, o inexorável castigo contra o povo deicida

(…) e verem o seu Salvador.
Mas também a cólera de Deus chegou ao auge. E de tal maneira chegou ao auge que a maldição sobre Jerusalém estava cravada definitivamente. A partir desse momento, o povo judeu era um povo maldito, o mais maldito dos povos da Terra, e a cidade de Jerusalém estava fadada a um extermínio completo.
Ela viveu ainda quarenta anos antes de ser destroçada. Mas ela estava amarrada ao seu martírio, como uma vítima que está amarrada ao pelourinho para ser morta pelo carrasco a qualquer momento.
Os senhores conhecem o cerco de Tito contra Jerusalém e as cenas horríveis que Flávio Josefo conta, historiador judeu.
Ele conta que na cidade de Jerusalém, antes dos romanos penetrarem, a fome era tão grande que as pessoas se matavam umas às outras para se devorarem, e que as mães comiam os filhos. E no meio disso “n-a-n-esismo” [indiferentismo], porque havia ladrões que vendo que a cidade estava perdida e que ninguém mais ligava para os objetos materiais, roubavam esses objetos para ficarem ricos. O que é o auge do “n-a-n-e”. Porque, o que fazer com esses tesouros, eles que daqui a pouco vão ser mortos, vão ser liquidados pelos romanos?
Os senhores conhecem que Tito, Imperador romano, tinha dado ordens de pouparem o Templo de Jerusalém, mas que os soldados entraram com tochas, essas tochas caíram não me lembro bem onde, incendiaram o Templo, e que o Templo inteiro, famoso no mundo inteiro, que o Templo ardeu. Depois o Templo foi arrasado.
Depois, no tempo de Juliano, o apóstata, foram arrasados os últimos alicerces do Templo. E hoje, onde havia o Templo de Jerusalém, tem uma mesquita mulçumana. Um jardim, uma praça pública e uma mesquita mulçumana. Não resta mais nada. Era também o auge do castigo.
E por isso, quando Nosso Senhor fala do fim do mundo, que vai ser a cólera última e a cólera suprema, Ele narra misturando com a queda de Jerusalém. São dois mundos que acabam. É Jerusalém que acaba, é o mundo que acaba.
É o fim do mundo e, a meu ver, será o dolorosíssimo extermínio da Igreja Militante. A Igreja não acabará enquanto não acabar o mundo. Mas eu acredito que o mundo acabará porque a Igreja estará em condições tão tristes que é só mesmo acabando. E que, então, não podendo mais haver a Igreja, Deus liquida o mundo.

* Lição a ser tirada dos auges da Paixão de Nosso Senhor

Dessas coisas todas nós podemos retirar uma lição para nós? A lição, meus caros, deve ser uma lição de previsão.
Nós estamos assistindo a crucifixão da Santa Igreja Católica. Nós estamos assistindo um crime que é quase o crime do deicídio. Porque a Igreja é o Corpo Místico de Cristo. Matar a Igreja é como que matar a Cristo. E é uma coisa clara que entra pelos olhos, que se essa gente pudesse matar a Igreja, matariam. Ela só não morre porque Ela é imortal. Isso é uma coisa que entra pelos olhos.
Quer dizer, o deicídio está sendo cometido de novo. E quando a conspurcação da Igreja chegar a um certo ponto extremo, ao auge permitido para que Ela não deixe de existir, quando chegar a esse ponto nós teremos o castigo, e os senhores, então, verão gente que vai agir exatamente como esses celerados.
Agora, que a Igreja está agonizando, os senhores veem que há gente que dá pedradas na Igreja, que injuriam a Igreja, que trai a Igreja, que lhe dá o ósculo de Judas, que faz de tudo contra Ela. Os senhores verão, na hora do castigo, gente que vai reagir andando de quatro pela rua. Os senhores nasceram para presenciar esse auge, os senhores nasceram para ser um auge.
Qual é o auge? É o auge da fidelidade. Aqueles que são fiéis no momento em que todos foram infiéis. Aqueles que estão do lado de Nossa Senhora e da Igreja, e de Nosso Senhor, no momento em que todos abandonaram. É esse o auge que os senhores devem representar.
E como é que nós podemos estar à altura de atingir um auge desses?
É evidente que é por meio da oração. Pedindo exatamente que os méritos preciosos de Nosso Senhor Jesus Cristo desçam sobre nós e que nos transformem. Pedir isso pelos rogos de Maria e pelas lágrimas de Maria. Isso é o que nós devemos fazer.
Não pensem que nós vamos ter uma vida comum e que nossa vida vai se acabar como a vida comum dos homens: direitinha, arranjadinha, numa cama de casa de família, ou numa cama de hospital, ou, quiçá, numa cama de convento.
Nossa vida ─ não digo de cada um de nós, mas da generalidade de nós ─ vai terminar durante a “Bagarre” ou nos esplendores do Reino de Maria, mas ela vai terminar em condições heroicas de virtude, de santidade, ou heroicas, também, pelos tormentos no meio dos quais nós vamos morrer. Mas nós temos que nos preparar para isso, porque nós nascemos para auges.
Outro dia me contaram que Santo Estanislau Kostka, o famoso jesuíta, tinha um lema. Ele dizia: Ad majora natus sum. Quando ofereciam para ele glórias humanas, glórias terrenas etc., a reação dele, a resposta era “ Ad majora natus sum – Eu nasci para coisas maiores do que isso”.
Nós devemos pedir hoje e graça de dizer a Nossa Senhora… Não, devemos pedir a Nossa Senhora a graça de dizer, quando outras pessoas nos convidarem para viver uma vida diferente da nossa vocação, de dizer, de responder: Ad majora natus sum. Nós nascemos para coisas muito maiores do que essa microlice da vida quotidiana. Nós nascemos para auges, para o auge do amor, para o auge do heroísmo, para o auge da dedicação, para o auge da contrição, para o auge da devoção a Nossa Senhora, num mundo que também chegou a um auge. Que é o auge da sem-vergonhice, auge do despudor, o auge do amoralismo, o auge do egoísmo e o auge da impiedade.
Onde ─ diz uma frase da Escritura ─ foi abundante o pecado, era necessário que fosse superabundante a graça.
No nosso mundo, que é um mundo de pecado, é necessário que haja gente na qual a graça seja superabundante. Sejamos nós esses felizes.
Com despretensão, peçamos a Nossa Senhora que nós estejamos no auge de todas as coisas boas que Ela reserva para esse século de auges, esse século que não será compreendido a não ser pelas almas que realmente têm fome e sede do auge de todas as coisas.
E com isso fica feito o Santo do Dia de hoje.

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