Curso sobre o igualitarismo – 2a. aula: A Revolução Igualitária – As várias gamas do igualitarismo – A vulgarização científica tende a achatar o homem para que não seja mais o rei da criação

blank

 Máquina de não fazer nada. Este aparelho complicado, que “funciona” perfeitamente, foi ideado pelo Sr. Lawrence Wahlstrom, de Los Angeles, EE. UU. Não tem finalidade prática. Destina-se apenas a deleitar os amadores do gênero, pela imensa complexidade de seu inútil funcionamento.

 

Na última aula tratávamos da questão do igualitarismo. Falávamos da importância que há, em nossas teses e em nossa luta, em sabermos apontar bem esse fato central: estamos, hoje em dia, em presença de um fato dominante  que engloba todos os outros fatos, que contém todos os outros fatos e dentro do qual todos os outros fatos se encaixam, e que é a revolução igualitária.

O desejo de igualitarismo é um desejo mau, satânico, diabólico

É de uma necessidade imperiosa para nós sabermos provar, para aqueles com quem tratamos, que existe [esta revolução igualitária. Este] ponto de vista [é] essencial para depois sustentarmos a tese de que esse desejo de igualdade é, em si mesmo, um desejo mau, satânico, diabólico, se fizermos uma análise desse desejo de igualdade.

Eu me lembro que mostrei na última aula que, se tomarmos essas pequenas transformações diante das quais nos encontramos a cada momento – por exemplo, o uso de gravata que vai caindo, as maneiras que vão se tornando mais igualitárias, o mobiliário que vai se tornando mais igualitário –,  se nos colocarmos diante de cada uma dessa transformações, elas poderiam justificar-se, ou tentar justificar-se, por razões que lhes são próprias.

Exemplo: os móveis tendem a ficar cada vez mais baixos

Por exemplo, os móveis. É uma coisa curiosa notar que, com essa revolução igualitária, os móveis tendem a ficar cada dia mais baixos. Quando nos sentamos em móveis antigos, mesmo móveis de uso perfeitamente doméstico, nota-se que são móveis feitos para sentar-se um homem, mas um homem cônscio de sua dignidade humana. De maneira que são móveis muito acima do nível do chão, o espaldar é para um homem ficar ereto, ficar teso e, às vezes, são móveis que não possuem braços para o homem não ficar encostado.

À medida que o movimento igualitário se acentua, os móveis vão tendendo a ficar mais baixos e a construção do móvel é feita de tal maneira que também o homem, dentro do móvel, afunde mais, e afunde de maneira a se escarrapachar.

Ora, se vamos dizer a uma pessoa que não convém que os móveis sejam baixos, vamos entrar numa discussão estéril. Vamos encontrar uma série de pequenas razões de quinta ordem que podem provar o contrário. Caímos num caminho que não é caminho. O único jeito que há é provar que o rebaixamento dos móveis é um fenômeno que condiz com dez, vinte, cinquenta outros fenômenos de abaixamento, e que, nesta linha, tudo quanto é alto abaixa. Mesmo nos arranha-céus que crescem há uma tendência para a altura dos andares abaixar. A altura dos andares dos prédios novos é sempre menor que a dos antigos. E dentro desses andares tudo é acanhado, pequeno, diminuto, estandardizado, nivelado quanto possível. Se conseguirmos provar isto, evitaremos as questiúnculas.

Por exemplo, se convém ou não convém usar gravata. Pode-se dizer uma série de coisas contra a gravata: dá trabalho, mancha, é cacete escolher, estrangula o pescoço etc., etc.

Não há transformação que não seja igualitária 

Temos uma necessidade absoluta de sairmos de dentro desses probleminhas e de colocar nossa linha de defesa num campo muito mais alto, por onde possamos demonstrar que não estamos em face de pequenas transformações igualitárias, mas que [1.] as transformações igualitárias se dão em todos os campos possíveis; [2.] em cada campo dão-se de todos os modos possíveis; e, em 3° lugar, não  há uma transformação que se dê que não seja igualitária. E esse ponto é muito importante.

Por isso, é necessário afirmar que nenhuma transformação há que não seja igualitária. De maneira que, em última análise, tudo caminha  para o igualitarismo. É esta a base para podermos dizer o seguinte: se tudo caminha para o igualitarismo, é porque há  uma enorme apetência de igualitarismo, porque afinal de contas não é natural que seja igualitária a solução para todas as questões; em algumas questões isto poderia ser,  em outras não.  Mas esta uniformidade é completamente antinatural. Ela é um modo de forçar a realidade para fazer viver uma aspiração. Tratar-se-ia de analisá-la.

De que maneira poderíamos tomar esse problema da revolução igualitária, de maneira a provar que ela é igualitária em tudo? Evidentemente eu procurei uns exemplos nos campos mais diversos, porque o êxito da exemplificação consiste em provar que o erro está em todos os campos. E é preciso, portanto, tomar os campos mais diversos para provar que o erro existe.

É claro que eu não pretendo que essa enumeração seja completa. Pelo contrário, para que minha demonstração seja verdadeira, a minha enumeração tem que ser muito incompleta. É claro também que eu  não pretendo que seja melhor ou pior. Foi o que me ocorreu; e se alguém puder me dar alguns exemplos mais interessantes para substituir alguns que estão aqui ou para acrescentar, eu  gostaria muito.

Exemplo: a vulgarização científica tende a achatar o homem para que não seja mais o rei da criação

A primeira coisa curiosa e que chama a atenção é o modo pelo qual a vulgarização científica, dessa que atinge a massa, como os almanaques, esse lugares-comuns, apresenta o universo para o homem contemporâneo.

Sabemos que Deus construiu o universo, como diz a Escritura, com peso e medida. Mas sabemos que por causa disto o universo é muito harmônico, e que encontramos no universo seres escalonados de todos os tamanhos possíveis, de maneira a apresentarem uma verdadeira hierarquia de tamanhos. Ora, tanto quanto me tem sido dado ver, a vulgarização científica se compraz em achatar o homem exclusivamente na consideração das distâncias fabulosas, imensamente grandes que existem no universo, das massas, dos tamanhos, dos pesos, das infinitudes, etc., com um efeito curioso, que é sempre fazer com que o homem se sinta uma formiga dentro do universo, com que ele se sinta pequeno e achatado dentro desse universo, incapaz de sentir seu próprio valor e sua própria soberania em relação a esse universo.

Exatamente como muitas coisas reduzidas ao pequenino são coisas que ficam niveladas entre si, para dez homens que estão ao pé do Himalaia não tem muito sentido discutir qual deles é o mais alto, porque o Himalaia os achata todos com sua massa. Assim também, neste universo, o homem fica como que perdido, fica colocado no meio de um universo inóspito, como no meio de uma grande cidade moderna. Nessas megalópolis imensas, o homem fica achatado dentro delas. É assim que a vulgarização científica se compraz em apresentar o universo. E com isto dá aos homens uma sensação esquisita de igualamento entre si, e, por outro lado, tira a sensação de soberania do homem dentro do universo. Tirando esta soberania, como que se proclama a república do universo, porque fica abolida a sensação de que o rei do universo reina sobre ele.

(Nota: Vide a este respeito os comentários do Prof. Plinio em “Catolicismo” sobre a monumental alocução do Natal de 1957 do Papa Pio XII: Admirável progresso, substituição equívoca de valores e O verdadeiro progresso técnico: sábia atuação da ordem universal)

Um exemplo: na Faculdade São Bento

Na Faculdade de São Bento, a minha sala de aula dá, nos fundos, para um panorama grande e bonito. Vê-se um pedaço da Lapa, Pompéia, etc. Outro dia, eu estava lá quando entrou um professor e começou a considerar: “Veja, Dr. Plínio, quando notamos esses horizontes tão grandes e esta natureza assim é para compreendermos como o homem é uma formiga. E quando notamos essas distâncias incomensuráveis, etc., etc.” E assim, em vez dele entrar em considerações sobrenaturais que seriam cabíveis, caía na idéia de que o homem se perde no universo, num conceito mais ou menos panteístico […]. Isto é exatamente esta apresentação.

A vulgarização científica exagera um extremo oposto, com o mesmo objetivo, colocando em evidência o micro

Quando não se põe em evidência o imensamente grande, põe-se em evidência o imensamente pequeno, mas também aí  para colocar o homem diante de uma coisa tão pequena que escapa à sua análise, à sua ponderação. São matérias que lhe fogem pela outra ponta, e, mais uma vez, o reinado dele sobre o universo como que desaparece. É mais uma coisa humilhante para o homem.

Como essas visões são verdadeiras, têm cabimento, não seria o caso de não as dar. Onde existe […], é que tanta insistência sobre isto, nenhuma insistência mais sobre aquilo que há anos atrás seria um lugar-comum, que seria mostrar a harmonia do universo, a imensa gradação do universo, a hierarquia existente dentro do universo, os valores, os tamanhos, os pesos intermediários, de maneira a isto não permanecer numa dimensão meio alheia a nós. Exatamente o que Deus colocou para que isto ficasse habitável, exatamente isto não se nega, mas é calado. E a vulgarização põe em evidência valores de um aspecto diferente. É uma vulgarização científica que, evidentemente, cria um [enfoque] de sentido igualitário.

Atualmente não se põe em evidência o que há de belo, de harmônico no universo

Todos os aspectos da natureza (agora não se trata apenas de peso, dimensão, etc., mas dessa natureza que está em contato com a gente) tudo aquilo que é beleza da variedade, beleza da diversidade, beleza da harmonia na arte, na literatura, na vulgarização pouco se insiste. Houve tempo em que isto era o lugar-comum dos românticos. Eles gostavam muito de falar dessas coisas. Nisto, hoje em dia, pouco se insiste.

Um exemplo contrário: o Visconde de Taunay descrevendo uma viagem a Niterói

Eu me lembro que peguei ainda restos de uma literatura velha que gostava muito de acentuar as diversidades da natureza. Eu me lembro que li a descrição de uma viagem a Niterói feita pelo Visconde de Taunay, e onde ele fazia uma observação muito interessante: ele via todo mundo entrar naquela velha barca de Niterói. E em que ele foi pensar? Em vez de ser como um homem de hoje que diante de uma barca muito moderna pensa na barca, ele faz uma referência à barca e depois fala dos homens que entravam na barca. E ele fala que começou a prestar atenção na diversidade das faces dos que entravam; e como tinha sido possível a Deus, com elementos tão pouco numerosos – testa, olhos, nariz, corte do rosto, boca – fazer faces tão vertiginosamente diferentes.

Isto nos leva naturalmente a nos deleitar com a capacidade de Deus, com o poder de Deus enquanto Criador de diferenças e de diferenças que são harmônicas entre si.

Observações desta natureza eram frequentes na literatura antiga. Tanto quanto me é dado ver, isto é ponto de muito pouca insistência hoje em dia. Pelo contrário, se há alguma coisa que se procura pôr em evidência são as uniformidades da natureza.

A volúpia de falar das leis da natureza que escravizam – Sobre as maravilhas do universo, nenhum comentário

Por exemplo, há uma volúpia em falar das leis da natureza que, afinal de contas, são leis que escravizam. As uniformidades, as exceções, as singularidades da natureza, isto todo mundo tem pouca vontade de mostrar.

Eu me recordo que um tio meu possuía um livro intitulado “Les merveilles du monde”, que mostrava maravilhas do universo, muitas coisas extraordinárias da natureza, as coisas singulares da natureza, demonstrando que a natureza tornava-se excepcional, primorosa naquilo que produzia de pouco comum. Isto tudo hoje é negligenciado. O que interessa são as  uniformidades, as regras comuns da natureza. Vocês veem como, deste modo, toda desigualdade é posta de lado.

A opinião do arquiduque Otto sobre Churchill 

Recordo-me que estando na Europa, e conversando com o Arquiduque Otto, perguntei-lhe se conhecia Churchill. E ele me disse que o Churchill  era como um fenômeno da natureza; que assim  como em certos lugares da Oceania nasciam […] imensos,  na Inglaterra nasceu o Churchill. Quando ouvi isto, me admirei. Vejam como isto entra em surdina.

Quando eu era pequeno isto não acontecia, porque estava presente em todos os espíritos que a natureza produzia maravilhas excepcionais. Qualquer pessoa hoje também sabe disto, mas quando sabe, o sabe de maneira a não chamar a atenção. Mais ainda. Estas singularidades da natureza são apresentadas quando monstruosas. As  diferenças da natureza aparecem enquanto disformes, enquanto esquisitas. Mas enquanto perfeições e super-excelências, prestem atenção como isto tende a ficar esquecido, a ficar em surdina.

Antigamente gostava-se de se frisar as diferenças entre as almas

Outra coisa: gostava-se muito, antigamente, de se frisar as diferenças entre as almas, tomando pessoas de características morais e intelectuais muito diferentes, e fazendo-se paralelo. Eu peguei isto em meu tempo de menino: composição para se dizer quem é o maior – Camões ou Vieira.

Então, é comprazer-se em tomar os dois gênios, em enumerar o que têm de excepcional e estabelecer paralelos, para estabelecer que um é maior do que outro. Esta foi, durante algum tempo, uma verdadeira mania. A tal ponto que a Igreja teve que proibir que se fizesse tais paralelos com santos. É interessante ver o pendor dos espíritos para tomar as diferenças e comprazer-se nelas por meio de comparações. Se há uma coisa a que o espírito moderno é pouco afeito é, exatamente, comparar. E comparar é uma função que supõe a existência de diferenças. Comparar para julgar é coisa pouco afeita ao espírito moderno.

Antigamente, tema deleitável para a literatura: comparar Turenne com Condé. Condé, o general relâmpago, que não faz nenhum plano, que vê o campo de batalha, investe e liquida. Turenne, o grande enxadrista, que monta uma coisa e conquista uma cidade. Aristóteles e Platão, Rafael e Michelangelo etc., etc. São temas deliciosos. Comprazendo-se em elogiar almas, em analisá-las, em celebrar a grandeza de almas e em celebrar a excepcionalidade delas.

Na época do materialismo a alma é subestimada

Na época do materialismo, a alma, que é superior ao corpo, é subestimada. E tudo quanto é aspecto alma, só é tratado em psiquiatria. Só sabemos da alma para saber se é doente, porque hoje só os psiquiatras é que com ela se ocupam. A alma sã é pressuposta doente quando se trata dela.

A valorização do fator espírito, reduzida ao mínimo, nivelamento com a matéria. De outro lado, nivelamento também entre as almas. Não se nota mais as belezas excepcionais que existem em cada uma.

As diferenças de sexo, idade etc. não são mais ressaltadas

Outra coisa: certas desigualdades que existem na natureza, como, por exemplo, sexo. São Tomás de Aquino mostra muito bem que essas desigualdades teriam de existir até mesmo no Paraíso, antes do pecado original. Desigualdade de sexo para haver a perpetuação da espécie; a distinção entre pai e filho, uma vez que há perpetuação da espécie, há uma desigualdade decorrente daí.

E as diferenças de idade. São Tomás analisa o assunto, e conclui, com sua gravidade característica, se no Paraíso deveria haver diferença de idade. Parece que sim, uma vez que uns nascendo de outros, teriam que ser mais novos. Conclui que essas desigualdades existiriam também no Paraíso. Agora, tudo concorre para que a vida seja tal que elas não produzem efeito entre nós. Não se pode negar que haja desigualdades de sexo, mas tudo existe para nivelar os sexos. Não se pode negar que existe desigualdade de idade, mas tudo existe para apresentar esta desigualdade sem consequência, não tornando  os homens desiguais.

Tudo leva a crer, tudo mostra que há desigualdade entre pai e filho. Mas  também aí não se faz ver as distinções, as desigualdades que essas relações comportam. Pelo contrário, tudo igual, igual, igual. A mulher é igual ao homem, o filho é igual ao pai, o moço é igual ao velho. Como vemos, tudo tendente a subestimar o que está de cima.

Hoje em dia as coisas do corpo são superestimadas, enquanto se subestima a inteligência

Outra coisa interessante para se argumentar é o fato da superestimação das coisas do corpo. Por exemplo, esporte, saúde, alimentação. Pouco elogio da inteligência e muito elogio das capacidades físicas ou capacidades psicofísicas.

Não caímos tão baixo que se apresente um rapaz, por exemplo, como muito bem apessoado, por ser musculoso etc., mas arranjou-se uma capacidade psicofísica, que é o “simpático”: o rapaz simpático ou a moça simpática. Já não é inteligente, mas o simpático envolve uns certos predicados mentais. Não digo intelectuais, mas mentais. As partes nobres é que são vis.

Por exemplo, ter a ideia de que a cabeça é mais nobre do que os pés é uma ideia que já vai desaparecendo. Houve tempo em que falar de pés já era uma coisa meio “sem pé nem cabeça”. Hoje o pé é paralelo à cabeça, para não dizer que a cabeça se nivelou ao pé completamente.

Antigamente “as faces enrubesciam”, hoje “as caras ficam vermelhas”

Hoje o sujeito tem cara; antigamente ele possuía face. Dizia-se “Minhas faces enrubescem”. Hoje diz-se “Minha cara ficou vermelha”. “Minhas faces enrubescem” é um fenômeno mental que tem um reflexo físico. “A minha cara ficou vermelha” é um fato físico que se poderia dar também na mão. É uma simples reação física.

Antigamente, o modo pelo qual certas partes do homem eram vistas, como a fronte, por exemplo. Uma fronte baixa onde o cabelo e as sobrancelhas ficavam muito próximas, era reputado um espírito vil, pouco altaneiro. Quando Giotto quis pintar Judas, procurou exatamente dar-lhe uma fronte baixa. Uma fronte larga é algo que indica horizontes vastos. Isto hoje não se fala.  A fronte é apenas uma parte do crânio, um osso que se aprende em anatomia. Perdeu todos os aspectos morais, simbólicos, espirituais. É um aspecto desta tampa na qual se escondem os miolos, que são uma das partes mais concentradas do sistema nervoso.

O desprezo do trabalho intelectual: exemplo da Faculdade de São Bento

O desprezo do trabalho intelectual é qualquer coisa prodigiosa. Vou dar um exemplo. Há algum tempo falava-se do aumento dos honorários dos professores da Faculdade São Bento. Então alguém, que naquele tempo estava na Reitoria da Faculdade, disse que não valia a pena. Alegou então um outro: “mas observe os professores de engenharia industrial como ganham muito mais”. Ele disse: “Trabalho é assim: tendo poucos profissionais e muita procura, custa caro. Tendo muito profissional e pouca procura, é barato. Professor em faculdade de filosofia é fácil conseguir. Qualquer professor de ensino secundário que se convide aceita entrar para a faculdade de filosofia. Enquanto professor de faculdade de engenharia industrial é difícil conseguir. Portanto, paga-se caro.”

Notem o desprezo pelo trabalho intelectual. É claro que um professor secundário, beirando o primário mesmo, pode dar uma aula de História. Em rigor, uma aula de História é contar uma história. Se, portanto, ele conta uma história, ele deu uma aula de História. E ele é como que irrepreensível na aula que deu. Mas não vale nada o trabalho intelectual enquanto intelectual. Qualquer [um] que se coloque no lugar [de um professor] pode dar uma aparência de aula.

Num município de São Paulo a pessoa mais mal remunerada era a professora, e acima dela o coveiro

Um fato que já mencionei: em um município do interior de São Paulo publicou-se a lista dos honorários dos funcionários do lugar. A pessoa mais mal remunerada era a professora do grupo escolar. Logo acima dela, no padrão, vinha o coveiro. É a expressão de uma ordem de coisas inteiramente característica: o zelo da legislação trabalhista do Getúlio para proteger o trabalhador manual. O trabalhador intelectual, reputado como que insusceptível de verdadeira proteção, não sendo beneficiado, ou quase não sendo beneficiado das altas de salário, e esmagado pela ascensão de uma burguesia menos intelectualizada possível, e de um proletariado semibárbaro.

Conversando com certa pessoa uma vez a respeito de outra pessoa, ela teve uma afirmação que achei muito justa: “Fulano brilhava no tempo em que a inteligência dava prestígio”.

A admiração pela mecânica

A admiração do grande público volta-se para as profissões de caráter inferior e, na ordem hierárquica dos valores, as profissões de caráter superior são subestimadas. Por exemplo, na ordem das possibilidades, a mais alta das profissões seria a Teologia. E a profissão meio intelectual, mas baixa seria a mecânica. Para qual das duas há mais compreensão e simpatia do público hoje em dia?

O mandar e o obedecer ficam nivelados, pelas mentalidades igualitárias, a meras funções

Mandar e obedecer. É preciso ver bem […] o que pensam os igualitários de hoje. Eles não pensam que não deve haver gente que mande e que não deve haver gente que obedece. Eles sabem que tem que haver, de maneira que toda a clássica doutrina para provar que deve haver gente que manda não atinge os igualitários de hoje. A  coisa é diferente. Para eles, mandar não é mais honroso que obedecer. É uma função inteiramente igual, na hierarquia dos valores, à outra função. Mandar e obedecer acabam sendo exatamente a mesma coisa. Nivelamento completo, com conteúdo interno.

Hoje em dia o sujeito exerce uma autoridade, por menor que ela seja, nós entendemos que ela lhe confere uma certa superioridade. Vamos dizer, até a autoridade de guarda-civil. Uma coisa que diz muito nesta ordem de coisas é o  General Porfírio da Paz. E vou dizer em que sentido.

O  “almirante” Lafond

Na França eu conheci um almirante, mas que não usava esse título. Era o almirante Lafond. Tratavam-no de “almirante”, porque era um dos mais altos engenheiros-técnicos construtores de navios e de questões de portos da marinha de guerra francesa. Eu perguntei a ele um dia se ele era ou não era almirante. Ele me disse que na marinha francesa tinha a graduação de almirante, mas que eu havia de compreender que, por mais importante que fosse seu serviço, não implicava no risco de vida. De maneira que não era natural que ele usasse uma graduação de militar. Isto é um alto conceito. E ele me disse que este é o costume francês. Ele não usa o título, reconhecendo que a plenitude da glória militar cabe exclusivamente àquele que tem o risco da vida.

A coisa é coerente, séria, direita, mas que implica numa hierarquia de valores. O risco da vida é o centro da vida militar, e não podemos transformar o exército ou a marinha num departamento de coisas equivalentes. De maneira que um, por exemplo, é intendente, o outro presta outro serviço e outro morre, como se uma função fosse morrer. Não se pode ver as coisas assim. É um nivelamento deformador das coisas.

Os “generais” de intendência e de farmácia

No Brasil, como em todos os países do mundo, os generais de intendência sobem também ao generalato. Mas com que euforia! E a farmácia vai junto. Oficialmente, nos costumes de um país, o militar graduado que não  expões sua vida é considerado no mesmo nível que um outro que expõe, considerando que há vários serviços, dos quais um é combater em igualdade de plano com os outros. Compreende-se que isto é a coisa levada longe. É uma perda da noção do realce natural das coisas.

Notem que eu estou me colocando intencionalmente em minha exemplificação fora dos problemas das classes sociais. Esse problema deve ser abordado depois. Porque nada disto diretamente diz respeito à questão de saber se deve haver [monarquia,] aristocracia ou democracia. Tudo isto é, na ordem comum dos valores, um nivelamento de coisas.

As diferenças entre padre e leigo; a tendência dos militares a não usarem farda

Também outra coisa que vai nesta linha é a diferença entre o padre e o leigo. A tendência para subestimar esta diferença. Esta tendência vem de baixo para cima e, sobretudo, de cima para baixo. A tendência muito curiosa dos militares não usarem mais farda. Exceto o capelão, nenhum dos militares usa farda. Estão vendo a ideia de tudo quanto possa representar um realce, uma diferença pela qual alguém não é como os outros, como isto se marca.

A decadência das embaixadas, a supervalorização da espionagem e dos adidos comerciais

Vamos agora falar das embaixadas. Temos no ápice da embaixada o embaixador, que é o homem de salão. Considerando-se, naturalmente, um embaixador sério, autêntico. É o homem que mora na casa representativa etc., etc. Depois há os funcionários da embaixada, e, entre eles, há os espiões da embaixada. Vamos ver o que é que o público considera como o braço da embaixada, o que é trabalho na embaixada é a espionagem.

Coloquemos numa vitrine, lado a lado: “Memórias de um embaixador na corte de Saint-James” e, de outro lado, “Memórias de um espião no bas-fond da política inglesa”. Naturalmente a história do espião seria mais procurada.  O embaixador é considerado como uma espécie de enfeite de bolo. Temos o bolo: em cima, um castelinho; mais acima o parzinho de noivos; e, em cima, o pombinho. O embaixador é o pombinho. Não é, de nenhum modo, o braço direito da embaixada.  O braço forte é o espião e o adido comercial, até certo ponto o adido militar enquanto faz um pouco de espionagem ou dirige a espionagem.

As antigas diferenças entre cidades mais ou menos ilustres – tudo o que não é reduzível à matéria perdeu seu valor 

Outra coisa: diferença entre cidades mais ou menos ilustres. Antigamente havia cidades que eram ilustres, e que achavam bonito ser ilustres. Itu, por exemplo, era a “Cidade Fidelíssima”. Não impediu que ali se realizasse a Convenção Republicana, mas ela era considerada a “Cidade Levítica”, porque havia dado o maior número de sacerdotes. Franca, que tinha o título de “Vila Franca do Imperador”. A República diminuiu isto um pouco, mas ainda ficou qualquer coisa. Não havia essas denominações, mas por exemplo Piracicaba, “A Noiva da Colina”. Outra era a “Princesa do Este”. Recife, a “Veneza Brasileira”. Eram coisas em que as palavras tomavam um certo aspecto num plano espiritual e procuravam, num plano de valores espirituais, diferenciar-se entre si. Isto passou.

Por exemplo, hoje, S… Qual é a parte de S… que suscita maior interesse? Qual é a pessoa de S… que se preocupa com sua parte histórica? Há duas “S…s”: há uma S… velha feita de s…nos velhos e apodrecidos que cuidam um pouco da história de S…; a par disto, há a S… industrial, a única a que se dá importância. S… não é mais a cidade que resistiu ao Duque de Caxias, mas é a cidade em que o “fulano” fabricou banha de porco pela primeira vez. Ou então: uma das maiores fortunas paulistas de 400 anos nasceu em S… A primeira lata, a primeira fotografia do primeiro porco, tudo isso é bem guardado.

Por exemplo, Ávila de Santa Teresa de Jesus. Em Ávila houve o fato de que os mouros sitiaram a cidade, e as mulheres, estando sós na cidade, resistiram valentemente. Por isto, no senado da cidade de Ávila as mulheres tinham uma representação especial. E Ávila tinha um  título: “Ávila das Damas da Rainha”, qualquer coisa assim que a celebrava entre as outras.

Quando eu era pequeno, ouvia contar que em Goiana, cidade de que minha família é originária em Pernambuco, houve qualquer coisa assim. Os homens estavam ausentes quando os holandeses chegaram. As mulheres de Goiana resistiram valentemente, e isto era um brio para Goiana. Hoje Goiana é uma cidade velha, pobre e pequena porque não dá dinheiro. O resto é zero.

Portanto, insisto: tudo o que não é reduzível à matéria, que é o elemento mais baixo da criação, perdeu seu valor. Igualitarização completa: as coisas perderam seu valor.

O nivelamento entre as famílias 

Outra coisa de que se poderia falar aqui na linha das diferenciações é o pouco destaque das diferenças entre as famílias. Antigamente falava-se muito nas diferenças entre as famílias. Hoje as famílias têm poucas características. Tudo é preciso igualar, nivelar.

Gostaria de saber se esses exemplos são todos igualmente bons. Caso contrário, devem ser substituídos por outros.

Tendência ao nivelamento em todos os campos, uma violência contra a ordem natural

Mas o que importa é mostrar a situação de nivelamento total nos campos mais diferentes. O que seria mais natural é que a tendência se manifestasse em alguns campos, mas em outros não. Mas esta uniformização em todos os campos indica uma violência à ordem natural das coisas e uma identidade de causas que é exatamente o fato que devemos fixar.

Passaremos agora a considerar as várias gamas do igualitarismo.

blank

Vista parcial da catedral de León (Espanha)

A tendência igualitária é tão poderosa hoje, como era poderosa a Igreja Católica na Idade Média 

Para entendermos isto deve-se dizer que não estamos numa época de tendência igualitária, mas devemos provar que esta tendência igualitária é poderosa em nossos dias, como foi poderosa a Igreja Católica na Idade Média. Estamos no  “século XII” do igualitarismo (no século XII da Idade Média a Igreja estava em seu apogeu).

Como se pode provar isto?

O católico fervoroso tem como valor supremo a Religião Católica 

O que caracteriza na escala da vida espiritual uma alma fervorosa é que ela tem como valor supremo a Religião Católica. Ela entende que todos os valores da vida só são bons na medida em que esses valores servem a Religião Católica. Em terceiro lugar, ela toma todas as coisas que existem e as transforma para adaptá-las, para conformá-las à Religião Católica.

Exemplo: um missionário 

Por exemplo, consideremos um missionário que vai evangelizar um povo pagão. Qual é a atitude dele diante desse povo?

1) Como o valor supremo da vida é a Religião Católica, todas as coisas aqui devem ordenar-se para a Religião Católica. Neste povo que vou evangelizar, meu objetivo é que tudo se ordene para isto.

2) das coisas que já existem, só são boas as que são ordenáveis nesse sentido.

3) elas são boas na medida em que as transformar nesse sentido.

4) aquilo que for inordenável neste sentido deve ser posto de lado. Isto é a completa sujeição de todas as coisas à Religião Católica, exigida por uma alma verdadeiramente católica.

Uma civilização ardentemente católica foi a medieval

Quando um povo ou uma civilização é ardentemente católico, toma a mesma atitude. É exatamente o que caracteriza a civilização medieval; tudo se ordenava para a Religião, as coisas que existiam eram cada vez mais transformadas para se adaptarem à Religião, todas as coisas que não eram adaptáveis à Religião eram excluídas, rejeitadas como sendo contrárias não só ao bem da sociedade, mas àquilo que é a essência da sociedade, que é a realização de seu fim. A Idade Média foi a era do apogeu por causa disso.

(cfr. Na Encíclica “Immortale Dei”, Leão XIII descreveu nestes termos a Cristandade medieval: “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a Religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à proteção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda a expectativa, cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer” (Encíclica “Immortale Dei”, de 1º-XI-1885, “Bonne Presse”, Paris, vol. II, p. 39 – apud “Revolução e Contra-Revolução”, Parte I, Cap. VII, 1, E).

Hoje a civilização é ardorosamente igualitária

Ora, em relação ao igualitarismo de hoje em dia, o que se dá é justamente isto. Pela exemplificação que demos, tendemos a provar que nosso século reputa como um valor a prevalecer em tudo o igualitarismo. Que todas as coisas que existem são transformadas para serem encaixadas numa concepção igualitária, e que as coisas que não são susceptíveis de serem encaixadas numa concepção igualitária ou são rejeitadas ou são destruídas ou são guardadas em silêncio, quando não há outro jeito.

Por exemplo, não se pode negar que todas as faces dos homens são desiguais, mas se passa o fato sem se falar e dele não se tira nenhuma conclusão. Quer dizer, o mesmo serviço, a mesma ordenação de todos os valores já feita pelo século XII, a mesma atitude toma o nosso  século com relação à ordenação das coisas em ordem ao igualitarismo. Poderíamos mostrar que [o igualitarismo] é o valor supremo de nossa época.

O que pensa a Igreja Católica do igualitarismo? – A Revolução igualitária não pode ser reduzível a um problema de inveja 

Então, só deveríamos saber ainda de que é que vale, à luz da doutrina católica, este valor supremo. A Igreja Católica o que é que pensa a respeito desse valor supremo?

Alguém poderia dizer que não é verdade que nossa época tenda ao igualitarismo em si. É uma época de profundas transformações econômicas. Uns sobem, outros descem. E é natural que a inveja faça com que os que estão embaixo procurem nivelar-se com os que estão em cima. De maneira que a revolução igualitária é uma revolução de inveja. Eu acho que a inveja representa um papel dentro disto. Mas seria infantil reduzir tudo isto à inveja. A inveja não é o essencial disto.

Vejam que nessa revolução igualitária colaboram com grande força aqueles que mais teriam a perder com o nivelamento. Por exemplo, eu fui professor no Colégio Universitário de Direito e, logo depois, fui professor no Colégio Estadual. No Colégio Universitário eram famílias da média e da grande burguesia. No Colégio Estadual, pessoas da média e pequena burguesia e, às vezes, de uma burguesia pequena bem nova, bem recente. Eu encontrei, de modo geral, um acolhimento incomparavelmente melhor para as nossas idéias no Colégio Estadual do que no Colégio Universitário. Há uma tendência muito maior para o igualitarismo na classe alta do que na classe média e submédia.

Por que isto? Os mais interessados na igualitarização não seriam os médios e os submédios?

(Para aprofundar, vide: Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana, 1993, Parte III, Documentos V – A doutrina da Igreja sobre as desigualdades sociais)

Exemplo: no colégio “X” há mais sede de igualitarismo que nas classes mais modestas 

Tome-se, por exemplo, o Colégio “X”. Aquilo ali é um pote de igualitarismo. Todo o mundo da sociedade alta e tradicional de São Paulo do meu tempo é igualitarista de idéias. Pode não ser como hábitos mentais, mas como idéias é profundamente igualitária. Eu encontro muito mais facilidade para falar em desigualdade para gente de classe mais humilde de meu tempo.

No clero, será tanto a inveja da autoridade que leva os clérigos a se nivelarem com os leigos? Tudo isto é conversa. Os príncipes, os nobres, com que volúpia se nivelam! Isto é o contrário. E uma demonstração histórica disso não seria difícil. O movimento igualitário não é somente auxiliado, mas é também capitaneado por aqueles que têm influência e que têm a perder. Se não fosse isto, esse  movimento não iria para a frente. E isto, o que é? É o gosto da igualdade pela igualdade, o ódio à desigualdade, porque é desigualdade. Aqui está a [questão].

De maneira que passaremos desta parte da observação para a parte filosófica.

1a. aula

3a. aula

Contato