Curso sobre o igualitarismo – 6a. aula: Organização do Estado e da sociedade, análoga à organização angélica – O Céu é o reino da desigualdade

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Gabriel Garcia Moreno (1821-1875), católico Presidente do Equador

Resumo

Recapitulando o que temos visto sobre o igualitarismo, dividimos o assunto em várias partes.

Na primeira parte consideramos o fato de nós nos encontrarmos diante de uma Revolução que quer a igualdade absoluta em todas as coisas, porque lamenta a desigualdade como um mal; uma Revolução que tem suscitado realizações políticas, econômicas, sociais, mas que no fundo se inspira num pensamento filosófico-religioso. Este pensamento é contrário à desigualdade enquanto desigualdade, e favorável à igualdade enquanto igualdade, vendo em toda igualdade um bem em si, e vendo em todas as manifestações da desigualdade um mal em si.

Depois disso iniciei a tese contrária, ou seja, que Deus instituiu a desigualdade na criação, e que, portanto, a desigualdade, na medida e no sentido em que foi posta por Deus, é um bem em si; essa desigualdade realiza os fins da criação e, portanto, deve ser desejada pelo homem como uma coisa desejada pelo próprio Deus.

A desigualdade na criação – a desigualdade nos coros angélicos, ajustados à essência do pensar e à essência do operar

Para justificar essa tese, comecei uma descrição da desigualdade na criação, e o que essa desigualdade tem de bem.

Para iniciar essa exposição, comecei a descrever o mundo angélico e dei uma descrição um tanto antropomórfica do mundo angélico, e me servi de uma espécie de comparação inspirada em Santo Inácio de Loyola fundando a Companhia, mostrando como eram os coros de Anjos no Céu. E mostrei que quando observamos a organização dos coros de Anjos, estamos diante de uma divisão de trabalhos, divisão de serviços, inspirada em si mesmo na ordem da criação; não só da obra da criação, mas todo o operar completo precedido pelo pensar que lhe compete.

O pensar, em si, compreende três aspectos; o operar, em si, compreende quatro aspectos. Os três coros de Anjos superiores são ajustados aos três aspectos do pensar; os quatro coros de Anjos inferiores são ajustados às etapas do operar em si mesmo considerado.

E em virtude disso, temos uma organização, que é organização com “O” maiúsculo, a organização por excelência, ajustada à essência do pensar e à essência do operar. E os Anjos não são criaturas colocadas nessas várias etapas apenas por uma designação convencional de Deus.

Imaginemos que eu precisasse aqui de algumas pessoas que aprendessem radiotelegrafia. Eu poderia escolher a esmo, podia ser que os escolhidos aceitassem. Eu teria três radiotelegrafistas que não foram designados para isto, em virtude de um postulado interno de sua natureza no que tem de mais essencial, mas foram designados como poderiam ser designados outros, por circunstâncias de momento.

Ora, com os Anjos não se dá isto. O Anjo, por sua natureza, é feito para aquela tarefa que corresponde ao seu coro. Portanto, digamos, o querubim, por sua natureza, por sua essência, é aquele que faz a tarefa do querubim. E ele não faz outra tarefa. Ele “querubiniza”; é a tarefa própria e intrinsecamente essencial a cada um.

Temos aí uma idéia de como a desigualdade da tarefa é conjugada com as desigualdades dos seres, em si mesmas consideradas.

As desigualdades internas dentro de cada coro angélico

Dessa desigualdade dos Anjos, eu teria sido levado a ter uma idéia muito incompleta.

Quando menino, eu vi muitas vezes a representação dos Anjos numa edição da Divina Comédia ilustrada pelo Doré, e o Gustavo Doré representava os coros de Anjos como grandes círculos dourados, cada vez mais largos. Então, ele exprimia de algum modo a desigualdade dos Anjos, porque cada círculo é um coro. Mas ele não exprimia a desigualdade interna existente nos vários coros de Anjos. Seria ilusão imaginar que todo serafim é igual entre si. Mesmo nesses anéis, já tão diferentes entre si, existe a desigualdade. Desigualdade esta que, se não fosse celeste, eu seria levado a qualificar de brutalmente marcante.

A desigualdade que vai de homem para homem é uma desigualdade de acidente. Pela nossa essência somos todos iguais. Com os Anjos não se dá isso. Cada Anjo é uma espécie, e um Anjo é diferente do outro não à maneira de um homem ser diferente de outro, de uma raça ser diferente da outra, de um bicho ser diferente do outro; ou, mais radicalmente ainda, à maneira que um bicho difere de uma planta.

Imaginem um homem que fosse, ele só, o gênero humano. Seria diferente de todos os outros seres. Assim, cada Anjo é diferente um do outro. Santo Tomás mostra que entre os Anjos essa desigualdade é necessária.

Nas espécies, tirando delas alguma coisa ou acrescentado, muda-se a espécie.

Imagine que eu considere, por exemplo, que a colher é um objeto dotado de uma cavidade e de um cabo, e destinado à introdução de alimentos líquidos na boca. Se eu ligo à palavra “colher” este sentido, o resultado é que cada vez que eu tire alguma coisa da colher, ela deixa de ser colher. Se eu imagino um objeto com uma concha, mas sem cabo, aquilo não é colher, mas é concha. Se eu imagino um cabo sem concha, aquilo será tudo, menos colher. Tirei uma das notas essenciais da colher, que é ser colher.

O mesmo posso dizer de outros objetos. Relógio mecânico, por exemplo, é um aparelho destinado a marcar hora através de um mecanismo. Se imagino uma coisa que tenha forma de relógio, mas não tem mecanismo, é o tal tipo de relógio de criança que, quando a criança anda, ele anda, e quando ela pára, ele pára. Isto não é mais relógio. Tem o aspecto de relógio, mas eu tirei um dos pontos essenciais, que é a capacidade de marcar hora. E um objeto que por sua natureza não tem capacidade de marcar hora, não é relógio. Entra no qualificativo de adorno da criança. Relógio não será. Imaginem um outro objeto que marque hora, mas que não tenha mecanismo. Por exemplo, o relógio de sol. Aquilo poderá ser relógio, mas relógio mecânico não é, porque lhe falta um dos elementos essenciais.

Quando de uma espécie eu tiro um elemento essencial, aquilo muda para outra espécie. E os Anjos, como são espécies diferentes, certamente têm alguma coisa a menos ou a mais um em relação ao outro. Portanto, não podem ser iguais, mesmo os Anjos dentro de um mesmo coro.

O Céu é o reino da desigualdade

De maneira que se eu quisesse fazer um gráfico mesmo dentro dos coros angélicos, eu deveria fazer uma linha pontilhada, em que eu colocaria Deus, depois os serafins, um traço; os querubins, outro traço; os tronos, outro traço. Os traços mostrariam as diferenças entre os coros. Mas cada ser sendo uma espécie; é fundamentalmente desigual, por ser superior ou inferior aos outros. De maneira que o céu nos aparece sendo, por essência, o reino da desigualdade.

Como estabelecer entre os homens o sistema desigual existente entre os Anjos

Abaixo do céu temos a terra, e abaixo dos Anjos, os homens que podem ser considerados ao mesmo tempo muito abaixo dos Anjos e um pouco abaixo dos Anjos. E vemos as duas expressões na palavra dos santos ou na Sagrada Escritura. A Sagrada Escritura diz que o homem foi colocado pouco abaixo dos Anjos. Tem uma dignidade muito alta. De outro lado, quando os homens vêem os Anjos, mesmo os da categoria menos alta, têm uma impressão de tal majestade que se sentem muito abaixo dos Anjos.

O problema que poderíamos pôr é o seguinte: como é que se estabeleceria entre os homens essa desigualdade que eu descrevi entre os Anjos? Quer dizer, esse sistema de dividir os Anjos pelo pensar, e pelo operar, prevalece também para estabelecer as desigualdades entre os homens?

A organização da desigualdade dos homens: os mais capazes devem governar os menos capazes

Esta organização do mundo angélico, feita de acordo com [os pontos] três e quatro, será uma organização que, de algum modo, tem seu reflexo na terra também? Como é a desigualdade dos homens na terra?

Poderia dizer a coisa da seguinte maneira. Em relação aos homens, continua verdadeiro o princípio de que os homens que têm faculdades cognoscitivas mais altas mandam nos homens que têm as faculdades cognoscitivas menos altas, ou, pelo menos, devem mandar. A primeira hierarquia que existe na terra é uma hierarquia que não é claramente visível, mas é a primeira desigualdade (…) é a desigualdade entre os homens aos quais Deus deu – porque quis dar – faculdades cognoscitivas mais amplas, e os homens aos quais Deus deu faculdades operativas mais amplas, mas não faculdades cognoscitivas amplas.

Quais são as faculdades cognoscitivas que determinam, nos homens, seu direito ao mando?

Para bem entendermos isto, precisamos ver bem o que aí se entende por faculdades cognoscitivas e como isto tudo se põe.

Se vamos analisar o esquema dos Anjos e imaginamos que aquele esquema pode ser aplicado também à terra, temos a ideia de que justificamos a teocracia, porque os homens mais inteligentes, que têm maior faculdade cognoscitiva devem ocupar o poder; os menos inteligentes, de menos capacidade cognoscitiva devem obedecer. Então, temos o paraíso dos técnicos e, em certa medida, o paraíso dos professores de universidade.

Devem mandar os mais virtuosos, mais piedosos?

Há uma outra formulação disso que vem do lado da virtude. Os Anjos não são apenas os mais sábios, quer dizer, os mais inteligentes, mas são também os melhores. E há muita gente que pensa que a vida é um carnaval porque nela não mandam os homens mais virtuosos, e mais virtuosos no sentido de mais piedosos, e mais santos. Digamos que eu esteja falando na posição de uma determinada pessoa. Vem alguém e diz: “Mas que injustiça! Eu conheço tal homem, que é pobre, simples, modesto, muito melhor do que fulano. Deveria estar no lugar dele. Ora, não são os mais sábios que devem estar na direção, mas são os homens melhores”.

Seria uma outra esquematização para explicar as desigualdades sociais, justificando-as apenas pelo talento ou pela virtude.

O conhecimento iluminativo dos Anjos superiores pelo qual eles conhecem a ordem profunda da Providência

O que devemos pensar disto? Santo Tomás trata do assunto.

Diz ele que a verdadeira hierarquia dos seres resulta da capacidade cognoscitiva que eles têm, por isto mesmo, quanto mais alta é a capacidade cognoscitiva dos Anjos, tanto mais altos eles são. Os serafins contemplam o próprio Deus, e contemplam diretamente a ele como fim da criação. É a mais alta contemplação que pode haver.

Por causa disto, eles têm uma noção iluminada, uma noção profunda da ordem da Providência, não só em suas linhas gerais, mas em todos os seus pormenores. De fato, quanto mais profundamente se conhece uma coisa, mais se conhece também os pormenores. E então, os serafins, tendo um conhecimento muito profundo das coisas, conhecem também os pormenores. Já os querubins não têm conhecimento da ordem da Providência de Deus diretamente, mas na imagem que Deus tem do universo que Ele quis criar. Deus, para criar o universo, como que faz uma imagem do universo. E eles veem essa imagem. Já é uma coisa menos direta.

Por causa disto, eles já têm uma noção não tão exata do fim. Têm mais uma noção dos meios para se conseguir o fim. Por causa disto, a visão que eles têm dos pormenores é muito menor. Já os tronos, enquanto agindo para tocar o universo, é uma coisa menor. Portanto, sua visão dos pormenores também é mais limitada. Diz ele que quanto mais isto vai descendo, tanto mais os seres intelectuais vão tendo idéias mais confusas do fim geral, por causa disto têm também uma noção vaga e imprecisa dos pormenores.

O homem não conhece diretamente a ordem da Providência, mas pelo reflexo nos seres chega ao conhecimento da ordem da Providência

Isto vai indo até chegar no homem, e quando chega no homem, a alma humana já tem uma noção genérica e tão vaga da ordem da Providência, que ela, para conhecer a ordem da Providência, essas noções genéricas não lhe bastam, e ela precisa conhecer os seres para, na observação dos seres, estudar a ordem da Providência.

Então, diz ele, a alma humana precisa ter um corpo para conhecer os seres e para, na análise dos seres, conhecer a ordem da Providência, essas noções genéricas não lhe bastam, e ela precisa conhecer os seres, para na observação dos seres estudar a ordem da Providência.

De maneira que o corpo não é o trambolho para a alma, mas é também um meio pelo qual a alma conhece a realidade. É uma necessidade para a alma conhecer a ordem da Providência.

Às vezes tem-se a impressão que, após a morte, a alma, sem o corpo, ficará muito mais inteligente. Contudo, a alma fora do corpo está em estado de violência e o corpo é o complemento natural para o homem conhecer as coisas. Então, o homem já precisa conhecer as coisas através do corpo.

O homem domina o animal, e entre os animais (sem capacidade cognoscitiva) domina o mais forte (maior capacidade operativa)

Diz Santo Tomás que, entre os homens, a verdadeira hierarquia está em que os homens de maior capacidade cognoscitiva mandem naqueles de menor capacidade cognoscitiva. Depois vem o domínio dos homens sobre os animais, porque os animais têm uma capacidade cognoscitiva que já não pode receber este nome no sentido pleno da palavra. O animal, não sendo inteligente, tem uma cognição sua, mas não no sentido pleno da palavra. Em todo caso, o homem domina o animal. O animal, por sua vez, domina as plantas e os outros seres que não têm capacidade cognoscitiva. De maneira que a hierarquia existente no universo é a hierarquia das capacidades cognoscitivas.

Mas entre os seres que não têm capacidade cognoscitiva, a hierarquia é da capacidade operativa. Por isto, nos seres que não têm capacidade cognoscitiva, a hierarquia é do mais forte. Então, Santo Tomás mostra a hierarquia do universo na capacidade cognoscitiva, mostra que assim deve ser entre os homens.

Como corrigir o erro entre os homens quando os mais fortes (com menor capacidade cognoscitiva) adquirem o governo?

Mas, diz ele, acontece que vemos muitas vezes que os homens mais fortes se apoderam da direção, e não ouvem nem atendem aos homens menos fortes. Como é que se realiza o domínio dos homens de capacidade cognoscitiva?

Diz ele que a desordem que decorre disto é uma desordem que não é profunda e, neste sentido, que ela não é durável, porque quando um homem de pouca faculdade cognoscitiva se pilha na direção de uma determinada situação, começam os embaraços normalmente tão grandes que, ou ele se apoia em homens de faculdade cognoscitiva boa, ou cabe à própria natureza corrigir sua própria doença, e esse homem vai embora. Naturalmente, há situações em que isto não é assim, ou que precisa ser visto a longo prazo. Mas que há muito de verdadeiro nisto, há.

Pode-se dizer também, de outro lado, que estamos numa época de endeusamento do número, da máquina etc. Como sustentar que essa época tem o domínio dos homens de grande faculdade cognoscitiva?

A resposta é que essas idéias de massa foram sustentadas por homens de grande capacidade cognoscitiva. Se todos os homens cultos e inteligentes rompessem fogo contra isto, isto não poderia permanecer.

Como é que essa preeminência da faculdade cognoscitiva se dá? Como medir a capacidade cognoscitiva do homem?

Essa preeminência dá-se da seguinte maneira: não existe na terra a possibilidade da preeminência cognoscitiva ser exercida de maneira tal que ela tenha o poder público na mão por direito próprio. É exatamente uma tolice pensar que certas coisas muito impalpáveis, muito sujeitas à apreciação, muito reais, mas que aparecem por lampejos, por momentos, e que são susceptíveis de negação, que essas coisas possam ser fundamento do poder público. Não podemos ter uma tal classificação das inteligências que se possa saber qual o mais inteligente para a ele se entregar o poder. Veremos que o exercício do poder nem entra, propriamente, neste mundo, dentro das categorias propriamente cognoscitivas, mas muito mais dentro das categorias operativas.

Como é, então, que esse elemento que manda exerce sua autoridade?

Isto se dá da seguinte maneira: considerando-se uma Civilização Católica: em primeiro lugar, o que é que se entende aqui por capacidade cognoscitiva de um homem?

Não se entende, para este efeito, apenas a inteligência do homem (…)

[ND: Página microfilmada sobre outra – trechos ilegíveis]

O que é a Sabedoria

A Sabedoria é uma coisa distinta da inteligência e é também distinta da instrução, se bem que ela [convém] de um modo mais excelente aos mais inteligentes e aos mais instruídos. A sabedoria é, propriamente, uma virtude pela qual a alma tem um conhecimento dos fins últimos que devem presidir a toda a ordem pela qual ela vê as coisas na hierarquia que compete às coisas, ama essa hierarquia e quer que essa hierarquia seja obedecida e que [se manifeste em] todas as coisas na terra.

Aqui temos uma noção de sabedoria. E o homem verdadeiramente sábio é esse.

A perfeição da capacidade cognoscitiva está nesses homens sábios que, possuindo a verdadeira sabedoria, completada com a cultura, estão em condições de representar o fator preponderantemente intelectual, moral dentro da sociedade.

Como se dá, numa Civilização Cristã, o governo dos homens com mais sabedoria

Em tempos de Civilização Cristã tivemos homens assim.

Em primeiro lugar, os anacoretas do deserto que as pessoas viajavam dias e meses para ir consultar. Davam eles uma pequena palavra de esclarecimento, e essa palavra enchia uma vida; traçava diretrizes para um estadista que podiam mudar o aspecto de um império.

Tivemos homens assim também em outras épocas da História. Por exemplo, São Bernardo, que era um contemplativo, entretanto, ouvido por todos os reis, príncipes, papas, bispos de seu tempo. Poderíamos apresentar exemplos de tais homens em quase todos os séculos da História da Igreja, homens servidos por uma alta cultura e que eram procurados por aqueles que têm a direção da sociedade para receberem uma orientação.

O caso de Santo Tomás de Aquino, por exemplo, respondendo a consultas da Rainha de Chipre, é frisante. Ele não era rei de Chipre, nem tinha uma autoridade jurídica sobre a rainha, mas ele exerceu, de fato, um principado espiritual ou moral sobre Chipre, enquanto as diretrizes dele ali prevaleciam como leis. Temos assim a influência dos homens de uma grande capacidade de alma, de uma grande capacidade cognoscitiva.

Os “conformes” que Deus põe às leis que Ele próprio estabeleceu

Ainda aí é preciso considerar uma série de “conformes”.

Um desses “conformes” é o seguinte: também com os Anjos Deus pôs esse conforme. Por sua natureza os Anjos são superiores aos homens. Deus criou essa disposição dos Anjos com toda coerência, como estamos vendo. Mas, sem embargo disto, os Anjos tiveram acima de si dois seres superiores a eles pela ordem da graça, embora inferiores pela ordem da natureza: a humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora. [Há uma corrente de teólogos que afirma] que a prova que os Anjos tiveram de suportar foi de prestar adoração ao Verbo Encarnado e de venerar, antecipadamente, Nossa Senhora como sua Rainha. E essa veneração os revoltou.

Agora, também entre os intelectuais desse mundo temos conformes dessa natureza. Acontece que, muitas vezes, Deus dá uma visão de muito maior sabedoria das coisas àqueles que não têm uma grande inteligência, ou têm uma inteligência apenas mediana, mas têm um alto grau de vida espiritual, e a quem Deus quis comunicar esses conhecimentos.

Por vezes temos, por exemplo, um padeiro, como foi São Clemente Maria Hofbauer, que assistindo aulas da Universidade de Viena, diante do professor na cátedra, aponta ao professor que tal doutrina é errada. Era uma coisa que ninguém sabia na sala de aula, mas ele soube ver e soube explicitar.

Santa Joana d’Arc, num tribunal de bispos e eclesiásticos que queriam condená-la, manifesta um assombroso conhecimento de teologia.

O Santo Cura de Ars também. Muita gente ia ouvir seus conselhos gente essa que não tinha empenho em ouvir conselhos.

[ND: Página microfilmada sobre outra.]

Há uma espécie de curvar-se daquele grande talento diante de uma chama que apareceu fora dele, mas que é de uma luz mais pura; ele se inclina, recebe aquela iluminação e continua.

Seria também bonito imaginar a atitude de São Clemente Hofbauer, se ele tivesse um professor bom. Provavelmente ele não daria um brado para dizer como era a coisa, mas interpelaria o professor com todo respeito, mas continuaria muito humilde em relação àquele professor que ele acabava de esclarecer.

Imaginem, agora, o contrário. São Clemente Hofbauer com seu modo espiritual, de um lado; o professor cheio de fel, do outro. São Clemente lhe dá a pedrada; o professor fica sentido, e resolve liquidar “aquele garoto”. E começa a fazer perguntas para estraçalhar o menino. E o menino, se não fosse São Clemente, começa também a responder orgulhosamente. Uma cena degradante!

Em todas as hierarquias que Deus põe, Ele faz as coisas muito coerentes, mas rica de “conformes”, em que Ele exige que cada um…

[ND: Página microfilmada sobre outra.]

…[“Maria” são, numa] sociedade humana, aqueles que têm uma capacidade cognoscitiva eminente, realçada por uma sabedoria sobrenatural grande. “Marta” são aqueles que têm a capacidade operativa, capacidade que também deve ser cheia de pensamento.

O estilo de vida hollywoodiano menospreza o valor do cognoscitivo

Temos aí a condenação do estilo de vida hollywoodiano em que, exatamente, o cognoscitivo é colocado de lado e o agir é colocado em primeiro lugar: os homens essenciais são os homens dinâmicos, que fazem e acontecem. O próprio saber é inculcado superficial, não é pensado profundamente. E, em função disto, temos uma concepção falseada da vida, porque os verdadeiros valores contemplativos são empurrados de lado. Pode ficar, talvez, a instrução. Mas a verdadeira contemplação, o verdadeiro pensamento não é colocado em seu exato lugar. São as sociedades que se constroem à margem do pensamento. Elas vão contra essa desigualdade que Nosso Senhor colocou na sociedade humana: tudo aquilo que é da ordem do pensamento fica acima daquilo que é da ordem da ação.

Naturalmente, há coros de Anjos que estão relacionados…

[ND: Página microfilmada sobre outra.]

Capacidades cognoscitivas e operativas dos diversos povos

O italiano é um povo que tem qualidades cognoscitivas preponderantes sobre as operativas, ao menos em certa ordem de coisas. Não se pode negar que […] quem tem Florença e Veneza não quer ter colônias na África; quem tem uma Praça de São Marcos não precisa do Saara nem da Abissínia. […]

No francês, por exemplo, há também uma vocação definida, como o judeu teve para a Revelação? Não saberia especificar. Também não saberia para os outros povos. Há uma coisa que [se] pode afirmar: há a adoração das coisas operativas e o desprezo das coisas contemplativas.

Agora, poderíamos apontar uma categoria de povos que pecou pelo lado diverso? Creio que poderíamos apontar os povos do Oriente; o cognoscitivo predominando, mas o operativo abandonado. É evidente que neste desdém há até alguma grandeza, mas alguma coisa é desmazelo, é desalinho e revela um pecado no desprezo do operativo.

Uma outra coisa também é que a ordem que deve prevalecer nos homens, nesta terra não é a ordem definitiva dos homens na criação. Dentro da criação, os homens vão ocupar sua ordem definitiva no Céu.

[ND: Página microfilmada sobre outra.]

À vista destes princípios, como deve ser a organização da sociedade e do Estado?

Isto posto, vamos considerar o Estado e a sociedade em seu estado jurídico. Sendo impossível eu organizar o Estado e a sociedade conferindo a todo homem mais talentoso e melhor o governo, como é que o governo da sociedade se põe? como é que no governo da sociedade civil isto se apresenta?

Quando se estuda bem essa organização, e depois se estuda a organização política da Idade Média, compreende-se que há uma relação profunda entre uma coisa e outra, pelo seguinte: se não podemos atribuir o poder aos mais inteligentes e aos mais sábios necessariamente, devemos atribuir o poder àqueles que o jogo das circunstâncias históricas legítimas e, às vezes, ilegítimas, atribui este poder. O organismo do poder deve tender a fazer com que elementos sábios ocupem a direção do Estado, mas não existe um termômetro para marcar sabedoria que, automaticamente, dá um valor a alguém.

No dia em que os testes da psicologia tiverem chegado a uma presunção suficiente, vão imaginar que vão conseguir detectar isto. Chamam um menino, ou uma menina, aplicam cinco testes, fazem o menino ver três bolas pretas num fundo vermelho: se o menino diz que aquilo é um gato, afirmam que é um gênio; se diz que é um copo, é um tarado. Depois, encaminham os gênios detectados pela psiquiatria para governar. E os pobres miseráveis vão depois para as esferas intermediárias ou mais baixas da sociedade.

Mas nós recusamos isto. Então temos uma sociedade civil composta como historicamente se tem composto: tem um chefe de Estado, tem seus agentes, seus ministros e funcionários.

Pergunta-se: como se pode aplicar esse esquema ao Estado e à sociedade civil?

Quem deve ser o Rei ou o Presidente da República – exemplo de Garcia Moreno

No Estado não podemos fazer a aplicação sistemática desse esquema. Mas se admitimos que os elementos que representam o pensamento constituem as faculdades cognoscitivas, podemos dizer que aqueles que representam o Estado representam mais a ação e estão na linha do operativo. E compreendemos bem um rei se imaginamos um rei que é, ao mesmo tempo, dentro de sua esfera, dominação, virtude e potestade. Ou melhor, darei como exemplo não um rei, mas Garcia Moreno, no Equador.

Os interesses coletivos do Equador com suas várias províncias

Garcia Moreno tem, abaixo de si, os ministros e os governadores de província. Tratando do poder central dele, não enquanto ele cuida das várias partes da República do Equador, mas enquanto dirige o governo central, antes de tudo, a função dele é a capacidade de dirigir dispondo das pessoas que compõem o Equador e das várias partes que compõem o Estado equatoriano, para as realizações dos fins coletivos do Equador. Isto é, evidentemente, uma função primacial do presidente da República do Equador. Em segundo lugar, ele não só deve ter o plano por onde essas coisas se entrosam para realizar os seus fins, mas deve também saber dar os primeiros impulsos para que essas coisas caminhem para seus fins. O primeiro impulso da máquina governamental é evidente que o Chefe de Estado é que dá.

Portanto, ao mesmo tempo que ele é dominação, ele é potestade, porque no grau mais alto e eminente é ele o contraditor de tudo aquilo que se opõe ao bem comum. Ele é o lutador por excelência do Estado.

Garcia Moreno tem governadores em suas províncias. Esse governadores cuidam do bem comum das províncias e não mais do todo. E são outros tantos “garcias morenos” dentro dos blocos de que se compõe o Equador. Por causa disto, eles também, no seu pequeno âmbito, têm tudo isto. São, portanto, um prolongamento da pessoa do Presidente, uma miniatura do Presidente presente nas várias partes da sociedade. Mas ao mesmo tempo que ele tem governadores, ele tem seus ministros. Estes não tratam de grupos humanos, mas tratam de determinados gêneros de assunto: economia, instrução pública, guerra, marinha, etc., etc. Poderíamos dizer que os governadores entrariam aqui na linha dos principados. Cuidam dos grupos particulares, das pequenas coletividades. Pelo contrário, os Anjos que cuidam dos assuntos, que são os arcanjos, seriam propriamente os ministros.

A imagem do estado feudal – a imagem do Sacro Colégio

Temos aqui a imagem do estado feudal.

O rei, o homem que está na direção do bem comum, e que impede tudo aquilo que prejudique o bem comum, com as suas duas categorias de auxiliares: os auxiliares mais altos, que são os senhores feudais, que cuidam dos grupos menores; e uma categoria de auxiliares mais baixa, que são seus ministros e que cuidam de determinadas categorias de assuntos. E teríamos também, dentro da Igreja, o Papa como o maior dos poderes, mas teríamos depois o Episcopado, como outro poder, e o Sacro Colégio como outro.

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