Dr. Plinio: Para que existe a TFP? Seus Eremos? Suas camáldulas? O apostolado feito na sede da Saúde? Por que ela luta contra o socialismo e o comunismo?

Auditório São Miguel, 7 de fevereiro de 1987 – Sábado – Santo do Dia

 

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

 

 

Eu recebi um pedido para tratar nessa reunião de um tema que me é grato: para que os “enjolras”? Para que a [sede no bairro da] Saúde, no conjunto das coisas da TFP?

A pergunta poderia ser aumentada, poderia ser estendida: para que a “Acies Ordinata” também? Qual é a razão de cada uma dessas coisas e por que o enjolras deve servir na Saúde? por que ele deve servir na “Acies Ordinata”? Como é que se prende tudo isso?

A pergunta parece decorrer do seguinte fato: é que a TFP é um organismo vasto e variado numa porção de subdivisões. Então, há Êremos, há Camáldulas, há Êremos Itinerantes, há a vida comum em instituições como a DAFN [Diretoria Administrativa Financeira Nacional], como os “Buissonnets”. Há toda espécie de coisas diversificadas dentro da TFP.

A gente poderia perguntar: cada uma dessas coisas é um fim em si? O karatê é um fim em si? A Saúde deve trazer novos elementos para a TFP. Isto é um fim em si? A TFP existe para ter enjolras, para esses enjolras ficaram homens e trazer outros enjolras, assim indefinidamente? Qual é a finalidade de tudo isto? Como é que tudo isto se entrosa para formar um todo? E que todo é esse?

Saber, os Srs. sabem. Mas às vezes, dizendo, irá melhor. Então, seria bom nós darmos de tudo isto uma explicação bem definida.

A explicação mais didática, mais escolar, nem sempre é a mais interessante. Frequentemente é a mais cacete. Mas quando o tema é muito grande ela tem a vantagem de ser a mais rápida. E que ela perfura os assuntos mais diretamente. E deixa uma ideia mais clara nos espíritos. E uma vez que se trata não tanto de entreter mas de deixar uma ideia clara nos espíritos, na reunião de hoje, vamos diretamente ao assunto.

Para que existe a TFP? Eu tinha vontade de tomar uns papéis em branco e espalhar na [sala]… [risos]

Não preciso completar a minha frase. Brasileiramente todo mundo sabe para que existe, mas do intuído vagamente para o posto preto sobre o branco… começam as hesitações. Então vamos pôr todas coisas bem em ordem e vamos defini-las bem.

Para que existe a TFP? Para que existe a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade?

Uma pergunta para cada um de nós de uma grandíssima importância. Porque se o curso normal de nossa vida consiste em nós dedicarmos toda a nossa existência à TFP, ou nós sabemos bem para que existe a TFP ou nós somos uns bobos porque nós não sabemos para que estamos dando nossa vida. Então a pergunta é, de fato, de uma importância capital.

Qual é a razão de ser da existência da TFP?

A razão de ser da existência de ser da TFP está escrita nos nossos Estatutos. Os nossos Estatutos foram redigidos por mim mesmo, com muito cuidado e com muita seriedade. Portanto, com muita autenticidade. Segundo os nossos Estatutos, a TFP existe para opor obstáculos à penetração do socialismo e do comunismo no Brasil.

Agora, para que opor obstáculos à penetração do socialismo e do comunismo no Brasil? Em última análise, vamos dizer que não se opusesse e que entrasse o socialismo e o comunismo, que diferença faria? E não obtendo, se é simplesmente para conservar esta ordem de coisas aqui e não cair no socialismo e no comunismo, então nós somos uns defensores furiosos desta ordem que está aqui?

Afinal, o que que nós queremos?

Está clara a pergunta?

A resposta é a seguinte: o mundo contemporâneo ­– eu falo sobretudo do mundo do Ocidente – está dividido em dois polos de atração. Em última análise os dois polos de atração do mundo são: uma vaga tradição que existe ainda, restos da gloriosa tradição católica medieval, no subconsciente ou consciente dos povos que direta ou indiretamente provêm da Europa Medieval. Diretamente as nações da Europa Ocidental. Indiretamente as nações da América, uma vez que a América foi povoada por nações europeias, pelos descendentes de nações europeias que viveram a tradição medieval.

Esse polo de pensamento fica: a ordem mais profunda do nosso pensamento nos diz que se quiséssemos agir inteiramente bem e se quiséssemos organizar as coisas inteiramente como devem ser, elas devem ser segundo o ensinamento social da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Bem, e que esse ensinamento nos mostra a necessidade da existência de uma sociedade hierárquica – quer dizer, dividida em várias classes sociais; uma sociedade desigual, portanto – na qual entretanto a desigualdade tenha um contorno, tenha um equilíbrio, tenha uma proporção, por onde por mais que uns sejam altos, aos menores se dê toda honra e toda a consideração que todo ser humano merece, sobretudo quando é batizado e quando se trata de um filho da Igreja.

Depois, por mais que alguns sejam opulentos, tenham dinheiro, é preciso que haja nas mãos dos menos afortunados as condições de viver suficientes para garantir saúde, garantir bem-estar, garantir um nível razoável de ensino, garantir enfim condições de vida que sejam próprias a um homem do qual é próprio, por sua vez, subir, aperfeiçoar-se e elevar-se.

De maneira tal que nesta proporção entre desigualdades, existe a sociedade cristã verdadeira, que não é uma sociedade de iguais, mas não é uma sociedade de brutalmente desiguais. É uma sociedade de proporcionalmente desiguais. Assim deve ser. É um pouco parecido com uma família com muitos filhos em que o filho mais velho tem mais destaque, é o mais importante. E depois o menorzinho é o menos importante. Mas tudo se distribui fraternalmente dentro dessa desigualdade. Há uma certa analogia entre isso e a desigualdade das classes sociais.

Por outro lado, e sobretudo, essa sociedade deve praticar a lei de Deus. Todos os seus membros devem viver no hábito da prática da lei de Deus. E tudo na sociedade deve ser organizado de tal maneira para facilitar o homem à prática da virtude. E para dificultar ao homem a prática do pecado. Quer dizer, uma sociedade assim deve estar no combate constante ao pecado, na perseguição constante à heresia e ao pecado. E no favorecimento constante da ortodoxia e da moralidade. Essa é a verdadeira sociedade.

Por que querer uma sociedade assim? Vamos analisar, vamos dizer que esta seja a “noite dos porquês”. Para pôr tudo em ordem, por que querer uma sociedade assim?

Alguém dirá: “Mas é claro, Deus mandou!” Por que Deus mandou? Vamos chegar até o último ponto. Por que Deus quer que a sociedade seja assim?

A razão é muito simples. Santo Tomás de Aquino, o doutor máximo da Santa Igreja Católica, nos explica isso muito bem. Deus fez as criaturas semelhantes a Ele, para a glória dEle. A semelhança da criatura com o criador é a glória do criador. Deus não é bom; Deus não é sábio; Deus não é santo. Deus é a bondade; Deus é a sabedoria; Deus é a santidade. Nós — quando a coisa corre bem — somos bons, sábios ou santos. Mas se um de nós deixa de ser bom, sábio ou santo, ele continua a ser ele mesmo. Quer ele vá para o inferno, é ele que vai; quer ele vá para o Céu, é ele que vai. Com Deus, não. Se, por absurdo, Deus pudesse deixar de ser bom, Ele deixaria de existir. Porque Ele não é bom; Ele é a bondade. Se Ele deixasse de ser sábio, Ele deixaria de existir. Se Ele deixasse de ser santo, Ele deixaria de existir. Ele é a perfeição.

De Maria Santíssima, a mais alta das meras criaturas, nós podemos dizer que é perfeita. Mas Ela não é a perfeição. A Perfeição é Ele. E Ele criou os seres, criou Nossa Senhora, criou a Humanidade Santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo, criou os Anjos, criou os homens, criou a nós, que estamos enchendo essa sala. A nós, de tantas nações, de tantos Estados do Brasil, de tantas cidades de São Paulo. Ele nos criou a nós para que, todos nós, sendo bons, sendo sábios, sendo santos já nesta terra, por sermos parecidos com Ele, e por isso amarmos a Ele, nós demos glória a Ele.

Quer dizer, então, há uma glória que o homem dá nesta terra a Deus, antes mesmo do homem ir para o Céu. E é a glória de ser conforme Ele quer. E com isto amá-lo a Ele. Porque, sendo conforme Ele quer, eu amo a vontade dEle. E como a vontade dEle é a perfeição, eu amo a Ele. E isto deve encher a minha vida.

Está claro isto?

Agora, além disto, eu devo considerar que o mundo passa. Por maior que seja o tempo que nos separe do fim do mundo, e o fim do mundo virá como uma surpresa, não se saberá qual é o momento. De repente… chegou o Filho do Homem em pompa e majestade e vai julgar a todos os vivos e os mortos. Por mais que seja misteriosa a hora do fim do mundo, o mundo passa. E haverá uma hora em que tudo acabou. E aí, o que que começa? Começa a eternidade.

Numa reunião que eu fiz há dias, não me lembro mais onde, eu recordei um dito do Winston Churchill, que eu li e que me pareceu muito espirituoso. Ele era pintor. Ele era o grande estadista. Mas nas horas vagas ele pintava uns quadrinhos ordinários para se divertir. Quadrinhos muito apreciados só porque eram pintados por ele. E eu compreendo. Eu gostaria de ter um quadro dele. Churchill declarou o seguinte: que ele quereria… Era mais ou menos esse dito, não me lembro bem os termos. Mas o pensamento era este: que ele quereria dedicar o comecinho da sua eternidade – ou seja, os primeiros cem mil anos! – pintando. Depois ele veria o que havia.

Realmente, quando tiverem passado cem mil anos de Céu, ou cem mil anos de inferno, a eternidade estará começando! Porque não acaba mais. E, se muitas almas se salvarem, nós damos grande glória a Deus, porque cada alma que salva, vai se parecer com Deus por toda a eternidade. Vai amar a Deus por toda a eternidade. Então, é um valor inestimável. O próprio Deus olhará para todos, comprazido. E dirá: “Meus filhos!”

Então, nós todos que somos católicos, apostólicos, romanos, pela graça de Deus e pela intercessão de Nossa Senhora, nós todos devemos ter como finalidade salvar a nossa alma e praticar a virtude aqui na terra, para que eu, o senhor, o senhor, o senhor, individualmente dê glória a Deus. A primeira finalidade é essa.

Agora, segunda finalidade: fazer com que o maior número possível de homens amem a Deus e deem glória a Deus.

E parece completo. E se eu perguntasse aos senhores se está completo, provavelmente os senhores diriam, com a bela ênfase com que responderam há pouco, diriam que está completo. Mas de fato não está.

Deus não criou só homens. Nesta terra Ele criou homens que se aglutinam formando famílias. E Ele criou famílias que se aglutinam formando regiões. E Ele criou regiões que se aglutinam formando nações. Então, por exemplo, Ele criou o Brasil – já que estamos falando no Brasil – que resulta disso: muitos homens se aglutinam, formam famílias; muitas famílias se agrupam num território e ali formam uma região. Segundo um vocabulário corrente, legal, um Estado. Depois muitos Estados se agrupam, formam uma Nação, Brasil.

Bem, esta nação, Deus não quer apenas que os homens deem glória a Ele, mas Ele quer que as famílias deem glória a Ele. Ele quer que as regiões ou estados deem glória a Ele. Ele quer que as nações deem glória a Ele. É claro!

Por quê? Porque uma família é algo de mais nobre do que um mero indivíduo. É claro. Vamos dizer que vão passando num ônibus… se está vazio, num banco está num homem, noutro banco tem uma mulher que não tem nada a ver com esse homem, nos outros bancos estão espalhados sete ou oito pimpolhos que não são filhos daqueles e nem têm nada que ver entre si. Está passando o ônibus e a gente diz: “quem está ali dentro”? – Passageiros. Bom, imagine que todos formam pai, mãe e filhos. Está passando o ônibus e alguém diz: quem está lá? – Uma família!

Os senhores sentem o que a palavra “família” acrescenta ao homem. É uma coisa evidente.

Mas os senhores imaginem que está passando um chefe de família e eu digo: “quem é aquele Zebedeu?” Alguém me dirá: “Não, Dr. Plínio, não é tanto assim. É um chefe de família”. Ah! sei. Mas imagine que em vez de estar passando um chefe de família, passa um homem e eu digo: “quem é aquele Zebedeu?”. Alguém diz: “Não, Dr. Plínio, assim não é; ele é o Chefe de Estado!”…

Por quê? Porque o Estado é uma família de famílias. Está mais alto.

E o Brasil? O que que é, por sua vez?  É uma “família” de Estados. É mais do que o Chefe de Estado e o Chefe de Estado é mais do que o chefe de família. Mas o Estado é mais do que a família; e o País é mais do que o Estado.

Ora, essas coisas existem assim porque Deus quis. Deus organizou o gênero humano de maneira que naturalmente ele se dividisse assim. Todos os países… não acontecerá em Mônaco, talvez; não acontecerá em Liechtenstein, em Luxemburgo, em Andorra, em San Marino. Mas todo país normalmente se divide em províncias. Essas províncias têm famílias. Por uma ordem que Deus quis nas coisas.

E nós devemos querer que as famílias, as regiões, as nações, todas elas reconheçam oficialmente a Deus, como Senhor e Protetor, reconheçam a Igreja Católica como a única religião verdadeira e pratiquem as suas leis na verdadeira doutrina católica.

Agora, nós temos aqui um polo, que é o comunismo, que convida, solicita, cavila, conspira, exatamente para o contrário. Para que tudo seja como Deus não quer. O comunismo faz uma força que leva todos no rumo para onde Deus não quer.

Mas, se se conseguisse dar uma paulada acertada no comunismo e acabar com ele, não ficaria esta ordem de coisas que está aqui. Que esta ordem de coisas que está aqui é uma ordem de coisas que seria melhor se o comunismo não tivesse sempre puxando. Acabado aquele polo, esta ordem refluiria para outro polo. E o mundo cairia nas mãos de Deus.

Quer dizer, portanto, nosso combate ao comunismo, combate ao socialismo, tem uma razão de ser religiosa altíssima. Ou, se preferirem, profunda. Essa razão, eu acabo de explicar, com fundamento em São Tomás de Aquino, em documentos pontifícios etc. Nós devemos ter na terra a alegria de ver que as nações são segundo Deus, as regiões, as famílias — e não só os indivíduos. Nós devemos desenvolver uma ação para que todas as nações sejam segundo Deus, para que a glória de Deus, já na terra, seja a máxima.

Mas também porque quando a nação é segundo Deus, quando as regiões, os Estados são segundo Deus, quando as famílias são segundo Deus, é muito mais fácil as almas se salvarem.

De maneira que para a salvação eterna das almas, e para a glória de Deus aqui na terra, nós devemos então fazer: acabar com o pior inimigo da religião católica para que as coisas rolem em sentido contrário e a religião católica vença. Para isto existe a TFP.

Os senhores dirão: “Mas é isto que está dito nos nossos Estatutos?” Eu digo sim, na medida do necessário. Está dito que é para combater o socialismo e o comunismo. É mesmo! Nós fazemos isso desde que acordamos de manhã até à noite, na hora de dormir.

Agora, para combater o socialismo e o comunismo por quê? Para que fim? Para a glória de Deus nos termos que acabo de explicar. Mas a lei civil não exige que se registre o fim último das intenções da gente. Basta registrar o fim imediato. Porque, do contrário é um não mais acabar. A gente só dá o fim imediato. O nosso fim imediato está registrado.

Bem, então, agora, nós passamos ao seguinte: como é que a TFP contribui para que isto se realize assim? É uma outra pergunta.

Muitos pensarão que a principal razão pela qual existe a TFP são as campanhas de rua, são os livros, são os artigos na Folha [de S. Paulo] etc., etc. A principal razão para existir a TFP é essa?

Eu afirmo o contrário. A principal razão para que exista a TFP é uma coisa incrível. É isto: é a TFP!

No seguinte sentido: a TFP tem muitos modos de ser nociva, de ser prejudicial ao socialismo e ao comunismo. Mas o modo mais nocivo que ela tem, o modo pelo qual ela mais prejudica o socialismo e o comunismo, consiste em existir.

Em que sentido consiste em existir?

Consiste no seguinte: os senhores imaginem que a TFP existisse sob a forma de um grupo de escritores – eu seria um deles. Publica de vez em quando um livro; publica de vez em quando um artigo no jornal. Cinquenta, sessenta senhores que se reúnem, que se cumprimentam muito cerimoniosamente, num salão muito bem arranjado, formam um círculo, uma mesa redonda, rezam; depois de ter rezado, sentam-se. Então, segundo a ordem do dia, o que que é isto, aquilo, aquilo outro, e começam a tratar de assuntos doutrinários.

Imaginem, por exemplo, que a TFP fosse só a minha benemérita e brilhante “Comissão Médica”, que os senhores sabem que se reúne aos Domingos à tarde – à noite um pouco, porque os enjolras entram pelo tempo adentro… – que se reúnem então na linda sala São Luís Grignion e começam a tratar de questões. É um pouco isto.

Se a TFP fosse só isto ela estava incomodando os socialistas, os comunistas etc.? Pouco! O que mais machuca a eles? É eles perceberem que a TFP é um movimento. Um movimento constituído de gente que se consagra inteiramente a ela; que timbra em levar uma vida inteiramente de acordo com os Mandamentos da Lei de Deus. Mas, não só de acordo com os Mandamentos, mas com os Conselhos de Deus.

De maneira que procura praticar a perfeição evangélica, em toda linha. E por causa disto procuram manter a castidade, procuram ser dóceis, obedientes, procuram não gozar dos bens materiais desta vida, do dinheiro, nem nada disto. Eles renunciam a tudo, levados apenas por esse ideal: combater o socialismo e o comunismo, combater o ateísmo, lutar por Deus e pela Igreja.

Isso faz o papel que faria, por exemplo, o seguinte: eu estou aqui sobre um bonito tapete. Os Srs. imaginem que alguém tivesse a maldade, durante uma noite em que ficasse aqui aberto o auditório, depois que todo mundo se recolheu, está todo mundo dormindo, aparece um bandido, entra com um par de tesouras e faz um corte apenas do tamanho de um desses desenhos como esse que os Srs. veem aqui. Um corte deste tamanho no tapete. O tapete está escangalhado! Porque não tem conserto, e o tapete rasgado é um tapete rasgado.

Ora, algo disto se passa com as sociedades humanas. Entre os homens a graça de Deus trabalha continuamente. E leva os homens a acharem, pensarem, notarem, reconhecerem, que aquilo que o mundo de hoje faz é errado. Mas há aquela aparência de unanimidade: todos pensam assim, todos querem o mesmo. O resultado: qualquer um fica intimidado de se levantar e dizer: “pois, eu não quero!” E os bons ficam mais ou menos escravizados, porque eles não têm coragem de dizer “etiam si omnes ego non… – ainda que todos queiram, eu não quero!” Pouca gente tem coragem para isso. E por causa disto, há muita gente que não ousa formar ideias contrárias a esse curso das coisas para o comunismo.

Ora, levanta-se a TFP e diz: “nós somos por volta de mil e quinhentos, e nós não queremos. Nós nos opomos, nós pensamos o contrário!”

Os Srs. dirão: “Mas numa população de cento e cinquenta milhões de habitantes – é mais ou menos o que tem o Brasil, cento e trinta milhões, uma coisa assim -, está bem; o que representa um mil e quinhentos? Nada!” Eu digo: “Bobo! É a mesma coisa que representa o corte neste tapete…”

Olhem aquele leão [no estandarte, atrás de do Dr. Plinio]. Os Srs. imaginem que bem onde está o thau tivesse um rasgão. Que tamanho tem o thau? É pequeno comparado com a superfície do tapete. Mas estragava o tapete. Assim nós estragamos a unanimidade. E nossa finalidade é romper a unanimidade.

Para essa ruptura da unanimidade, que faz vacilar todos os adversários, convergem dois fatores, como em tantas coisas da vida: a qualidade e a quantidade. Se eles, de fora, olham para nós e veem que nós estamos persuadidos, estamos decididos, que nós olhamos para eles dentro dos olhos, a sensação do “rasgão” é muito maior.

Há duas formas de rasgão. Há rasgão discreto e rasgão indiscreto. Rasgão discreto abre, e fica aquilo aberto. Rasgão indiscreto abre beiço. E fica aquilo assim, uma beiçama de lado a lado. É o pior rasgão. Se nós somos simplesmente corretos, nós abrimos neles um corte discreto. Se nós somos ufanos… nós abrimos na Revolução um rasgão indiscreto. Um rasgão beiçudo. Pam!

E a TFP, por causa disto, precisa ter que os seus membros, seus sócios, quero dizer, e também os seus cooperadores, e até os seus Correspondentes, a TFP, por toda parte, tenha membros que se apresentem na rua de maneira que se saiba que eles são membros da TFP. Até de costas, na nuca… “não, ali está a TFP!” É uma necessidade. E é preciso que haja o “estilo TFP”, haja uma “ufania TFP”, para dizer tudo numa palavra só, haja uma “segurança TFP”, de quem diz o seguinte: “Você, patife, poltrão, pode estar caçoando de mim. Mas eu não me incomodo porque, no mais alto dos Céus, Deus me aponta com alegria, e diz “aquele servo me é fiel!”

Essas coisas são assim e nós devemos ser assim. E, por isto, a TFP, na luta contra o adversário, tem que ser de um modo que o tímido seja ele. E os corajosos tenhamos que ser nós.

Nessa identidade nossa com nosso ideal — para isto a gente tem que estar cheio de seu próprio ideal, cheio de Fé Católica, Apostólica e Romana; possuindo o estado de graça, amando a Nossa Senhora, adorando a Nosso Senhor Jesus Cristo e tal, nós temos uma segurança e uma afirmatividade que, de fato, espanta a eles. E assim devemos ser nós.

Duas manifestações dessa segurança, conforme a idade, conforme a condição de cada um: deve-se ter medo de brigar com a TFP. E, por causa disto, sempre que se polemiza contra a TFP, a TFP deve saber dar uma resposta por onde o adversário não tenha o que responder. E é a história da TFP. Os estrondos, se não me engano, já são onze. Não me lembro bem do número deles. Com a graça de Nossa Senhora, não houve um estrondo que nós não fizéssemos o adversário engolir o que disse.

(Aplausos)

Quando eles atacam, nós respondemos. Quando nós replicamos, eles não treplicam. Quais são essas tréplicas? Onde é que estão? Não existem! Não têm o que dizer. Ficam quietos.

Daí também o karatê. Quer dizer, eles devem saber que atacando um membro da TFP, corre-lhes mal. Um murro é uma coisa que pode ser muito útil, desde que dado com inteligência. Nada mais nocivo do que um murro estúpido. Por isto há um dito caipira que desaconselha o “murro em faca de ponta”. Escangalha a mão, é o murro do burro!

O karatê deve ser usado com inteligência. Nunca deve ser usado no ataque. Porque se for usado no ataque vão dizer que somos agressores. Deve ser sempre utilizado na defesa.

Acontece que diante do comunismo todo mundo foge, todo mundo tem medo, todo mundo se derrete. Nós não nos derretemos, nós não fugimos, nós não temos medo!

Então o karatê existe sobretudo para meter uns merecidos murros numa canalha comunista? Não. Existe para provar aos que estão vendo que nós metemos o murro no comunismo. Eu não ia fazer os senhores perderem o tempo enorme que perdem com o karatê para esbofetear umas caras sujas. Isso é baixa de nível. Mas a questão é que hoje em dia, quem ataca o comunismo é poltrão, é medroso, não tem coragem, não luta etc., etc. E todo mundo vai recuando. Então nós avançamos! E isso aumenta os lábios do rasgão.

Então aqueles que são acusados de serem uns carolas, de serem uns beatos, de serem uns efeminados; aqueles que são acusados de serem entusiastas de uma Idade Média, que a poeira já consumiu há muito tempo, esses se levantam na fina ponta da ação, e [dizem] vamos para frente! As cabeças giram e nós estragamos o jogo deles.

Bem, para que [existem] Êremos? para que Camáldulas? para que Saúde? para que “Acies Ordinata”? Nós assim chegamos ao nosso tema menos devagar do que se poderia recear. Estamos chegando ao nosso tema.

Para que Êremo? O que é um Êremo? O que é uma Camáldula?

O Êremo é um lugar onde residem aqueles que querem ser da TFP a 100%, 100%, 100%. E que ali consagram todas as horas de seu dia, obedecendo às ordens que se recebem, para fazer estudos, para fazer orações, para se exercitarem em bonitas figuras de marcha etc., etc. E para jogarem karatê. Para crescerem no entusiasmo, para crescerem no amor de Deus, a fim de darem glória a Deus e a Nossa Senhora, mas também para terem o perfil moral da TFP bem definido nas suas almas. De maneira que vendo passar um eremita, isto produz o efeito de ver passar dez que não são eremitas. É a finalidade do Êremo.

Quer dizer, o Êremo está para os que não são eremitas mais ou menos como num exército uma divisão de tanques está para uma divisão de infantaria. Um eremita é um “tanque”! Um membro comum da TFP é um simpático e respeitável soldado de infantaria. Só que vá fazer, por um tanque em confronto com um soldado de infantaria, pobre mosquito do soldado de infantaria!

O que é um camaldulense? É aquele que leva os desejos do eremita a um tal ponto que ele se mantém num recolhimento perpétuo, num silêncio admirável, lendo, estudando, rezando, marchando, no mesmo sentido dos eremitas, “karaterizando” também… para na hora em que for preciso fazer campanha e ele sair à rua, ele esteja um pouco para o eremita como um eremita está para um membro da Saúde. Ele seja uma “bomba atômica”!

Isso é o progresso na qualidade, mas qualidade só não basta. Vamos dizer que eu devesse atacar um exército tendo às minhas ordens os cinco mais esplêndidos soldados do mundo. Se eu tivesse que atacar um exército assim, eu atacaria! Mas antes eu pediria a Nossa Senhora que mandasse os Anjos do Céu me protegerem. É evidente! Porque só cinco, por melhores que sejam, não são nada. Nós devemos querer ter também quantidade. Como é que se obtém quantidade? Atraindo os que não são da TFP.

Agora, qual é a idade em que se atraem aqueles que não são da TFP? É preciso os senhores se fixarem bem a coisa. À medida que o homem vai ficando mais velho, ele vai se movimentando menos. Como uma árvore que à medida que vai ficando mais velha vai ficando menos agitável ao vento. E se é mais fácil recrutar enjolras de dezessete, dezoito anos, é mais difícil recrutar moço de vinte e sete, vinte e oito anos. E evidentemente será mais difícil recrutar homens de trinta e sete, trinta e oito anos. Cinquenta e sete, cinquenta e oito anos quase é impossível. Um ou outro será possível. Mas com um ou outro não se cresce quantitativamente. Pode-se crescer qualitativamente. Vale muito! Quantitativamente não se cresce.

Então, esse crescimento quantitativo é feito pelo quê? Pela Saúde! Por quê? Porque não tem propósito um homem de trinta e cinco, quarenta anos, parar diante de um enjolras de dezessete, dezoito anos, e puxar uma prosa. O enjolras olha espantado: o que é aquilo? Agora um outro da mesma idade ou um pouco da mesma idade, se compreende.

Então o próprio da TFP é que o apostolado de abordagem, o bem-aventurado apostolado de abordagem, que tanto enche essa sala aqui — essa sala aqui foi inaugurada em 1974. Estava aqui o prefeito de São Paulo, um general de Exército, uma porção de autoridades. Dom Mayer celebrou Missa etc. Foi toda uma série de solenidade. Banda de música lá fora. Foi tudo o que o Srs. querem. Banda de música do Exército. Depois grande “cocktail” na sede do Reino de Maria etc.

Eu estava olhando para esse auditório e pensava assim: será que algum dia havemos de encher isso? Quando eu vejo esse salão tão abarrotado — que nós estamos fazendo o possível em todos os quatro cantos de São Paulo para encontrar um auditório maior, estamos fazendo o possível e o impossível para isto — eu me lembro daquele pensamento. E me encho de alegria. Mas isso se deve em grande parte ao apostolado de abordagem.

Então, é muito importante que os Srs. se compenetrem do alcance extraordinário desse apostolado e que saibam o papel que esse apostolado representa no conjunto das nossas coisas.

Eu falei em alcance extraordinário, eu não quero exagerar nada. Nessas coisas a quantidade faz o papel do corpo. E a qualidade faz o papel da cabeça. O que há de quantidade na cabeça é menor do que tem no corpo. Mas do que adianta o corpo sem cabeça?

Os Srs. me dirão: “Dr. Plínio o que adianta a cabeça sem corpo?” Está bem, é verdade, é verdade. Mas, mas… uma cabeça sem corpo a gente enterra e está acabado. Um corpo sem cabeça… onde está uma cabeça — vamos dizer que se pega um homem e alguém guilhotina esse homem e põe a cabeça dele num lugar do cemitério, e põe o corpo noutro lugar. Onde é que ele está enterrado?

De qualquer forma, quando é que se está mais próximo de vencer uma grande batalha? Quanto a gente tem um grande corpo e uma cabecinha ou quando tem uma grande cabeça e um corpinho? Ainda mais vale a grande cabeça porque com uma grande cabeça a gente alguma coisa faz. Com uma cabecinha, o que é que vai fazer?

Então não exageremos nada. Não exageremos nada. Não megalizemos [nos envaideçamos com] nada. Mas o apostolado de abordagem é indispensável, é precioso. E por causa disto os meus enjolras não devem estar procurando meter-se em tudo quanto aparece na TFP, com o entusiasmo que eu louvo, mas deixando a abordagem. É a conclusão onde eu quero chegar.

Imaginem que dez enjolras possam trazer, ao cabo de um ano, vinte membros para a TFP. Cada um, dois. Não é nada de exagerado. Nada, nada, nada. Até o contrário. Vinte cooperadores novos para a TFP. Em vez disto eles vão ficar dez bons jogadores de karatê. Adiantou? Não adiantou nada! A TFP cresceu? Pouco. Tem uns bravateiros a mais. Nós já temos muitos. Não precisa disto.

Qual é a “regra de ouro” nisso? É fazer em tudo a vontade de Deus. Mas como é que a gente pode conhecer a vontade de Deus? Obedecendo aqueles que Deus pôs para nos dirigirem. Pela ordem das coisas, “X” dirige “Y”, mas a ordem das coisas é uma ordem desejada por Deus. Deus quer que se ande de acordo com a ordem das coisas. Então, quando “Y” faz a vontade de “X”, ele faz a vontade de Deus. Quando um homem que deve obedecer a outro faz a vontade desse outro, ele sempre está fazendo a vontade de Deus. Quando um homem manda no outro, ele não está certo que ele sempre está fazendo a vontade de Deus, porque ele talvez tenha pensado errado. Mas o que obedece, não. Este está certo.

Então, não se engajem em nada sem perguntar aos respectivos chefes se esse engajamento é bom, se vale a pena. Se derem licença, ou estimularem, vão com alegria. Se eles disserem “não”, não convém. Não comecem a raciocinar: “eu acho tão bonito jogar karatê…” Está bom, eu acho mais bonito fazer a vontade de Deus! E acabou-se.

Com isto, meus caros, está explicada toda a matéria, que pediu para explicar hoje à noite. E com isto nossa reunião também chegou ao seu ponto terminal.

(Fatinho…)

Vai longe “a lua no solar da morte”… Diga lá.

Eu sempre fui muito desajeitado para umas certas coisas físicas. Não preciso dizer aos senhores que eu fui obrigado a fazer o curso de ginástica porque tinha um desvio da espinha, que a ginástica não corrigiu. Eu passava, não sei quanto tempo, pendurado pelo queixo numa corrente que ficava no teto, com os braços para baixo, não podia me agarrar em nada, para acertar não sei o que aqui atrás que não funcionava bem. Nem preocupava saber por que não funcionava bem. Não me queixava de nada. Mas tinha chegado a hora de ir ao médico. Está bom, vou ao médico.

O médico diz: “não, este aqui tem um desvio na espinha. Então vai fazer um exercício que é assim”. E o pior é que ficava a minha benemérita e saudosa e querida fraulein Mathilde em baixo falando coisas. E eu não sei como era essa história que eu podia falar. E ela tomava lição de latim, de mim, e eu pendurado… Não era Plínio, era Plíniô, Pliniô: primeira declinação… Diga aí! E eu: rosa, rosa, rosae,… pa-rá, pa-pá… Está errado. O dativo está errado. Volta. Ta-rá, ta-tá… E ali, pendurado…

Depois que, afinal, o fantasma da ginástica cessou, e que o tal médico decretou que a minha espinha tinha endireitado o pouquinho necessário para eu não sair um quasímodo [corcunda], veio o negócio da natação. E Dona Lucília, muito ciosa dos assuntos espirituais, não quis que eu tivesse natação com grupo de rapazes, porque era uma hora de imoralidades, de algazarras etc., etc. Então a piscina era alugada só para mim. E lá ia eu para a natação.

Chegava lá… era uma velha senhora meio checa, meio austríaca, chamada de Madame – não sei por que – Madame Gruska. A Madame Gruska me convidava para descer à piscina. Eu achava uma delícia. Ia logo para a piscina. Ela: “agora ponha-se em posição horizontal”. Eu disse: “não vou porque eu caio com a cabeça…” Ela: “não, vai e começa, vai e começa…” Afinal, nunca nadei! Ela me disse uma coisa mais ou menos nesse gênero – ou foi outrem que me disse; enfim, ouvi isso: “o que era preciso era jogar você dentro d’água na piscina. Não esperar luxos de ficar nadando e flutuando. Empurra dentro d’água que aprende a nadar”. Eu pensei comigo: “é bem verdade, eu sinto que nesse caso nadaria; mas eu não tenho vontade de fazer esse esforço. De maneira que eu não vou nadar e não vou dizer que eu sinto isto”. Cortei as aulas de natação e acabou-se.

Depois que era homem feito, tinha cinquenta, sessenta anos, nunca mais vi Madame Gruska — vem a criada em casa e disse: Dr. Plínio – Da. Lucília era viva ainda – Dr. Plínio, está aí uma senhora que disse um nome esquisito, Madame Gruska, que o senhor talvez se lembre dela, ela quer falar com o senhor. Eu disse: Mas Madame Gruska sai do passado, quase que se diria sai da piscina! Encontrei uma velhinha, toda dobradinha assim… e ela que tinha conhecido um Plínio magro, alto, encontrou um Plínio gordo e atarracado. Eu creio que os dois nos estranhamos muito.

Mas eu me sentei e fi-la sentar-se e tratei com muita bondade, porque tive pena dela. “Então, o que a senhora quer, Madame Gruska?” Ela disse: “eu ouvi dizer que você – ela me tratava de você – você é advogado e que advoga bem tal tipo de causa assim… – não sei como ela ouviu dizer isso – então eu vim pedir para você me advogar essa causa, gratuita”. Eu disse: Madame Gruska, eu fico desolado! Mas eu não advogo há mais de dez anos. Já perdi o pé. Tem uma porção de leis que eu não conheço mais. Não estou em condições de advogar para a senhora. Nesse ramo nunca advoguei na minha vida. A senhora foi mal informada a meu respeito”.

Eu pensei que ela ia se levantar. Ela não fez nenhuma sinal de se levantar. Me começou a olhar assim, com um olhar esperto. Disse: “você se lembra daquele tempo?” Era claro que ela queria recordar-se do tempo passado! – “Ah! mas como não, madame Gruska, eu me lembro muito bem, etc.” Ela me contou um episódio daquele tempo que deixou-a impressionada… Umas coisas assim. Afinal, ela se levantou. Eu me despedi… e acho que ela depois morreu. Eu perdi… Madame Gruska afundou no passado. Ela passou por aqui, por nós, que Nossa Senhora tenha pena da alma dela. Bem, nessa evocação a memória dela esteve presente a nós. Foi o que eu quis dizer.

Bem, a verdade é que com o rapaz que é da Saúde, é a mesma coisa com a abordagem. Quer aprender a abordagem? Aborde! Não espere ser um elemento eminente e que sabe tal coisa, que chegou a uma idade de ouro para abordar. Isto é pretexto de quem é tímido e tem preguiça de vencer a própria timidez. E, portanto, vá para a rua. Aborde. Esperneando se aprende a andar.

Bem, meus caros, está terminado.

(Pergunta: por que o leão para o estandarte?)

Eu escolhi o leão porque o leão sempre me lembrou um princípio de que eu sou muito cioso, do qual eu faço muita questão em todos os assuntos: é o princípio da legitimidade. Que o poder, a influência, a sabedoria, a glória, estejam em mãos de quem de direito. Esse seria um modo muito resumido de definir o princípio da legitimidade.

Ora, é evidente que o leão é, entre os animais, o que a rosa é entre as flores. A rosa é naturalmente rainha. Os Srs. põem uma rosa verdadeiramente bonita no meio de qualquer outra espécie de flores, inclusive entre as nossas orquídeas, tantas vezes lindas, a rosa apaga. Está acabado. É ela, não tem conversa.

Os Srs. põem o leão, e todos os outros animais se eclipsam. O elefante é maior, mas que massa bruta, vil. O camelo anda mais, mas ele anda com um passo de escravo carregado, ele não tem a marcha garbosa. O leão marcha e salta; o camelo anda.

Os Srs. tomem a raposa, ela é esperta, mas ela é frágil, quando a esperteza não lhe dá resultado, ela está perdida. Tomem todos os outros animais, eles têm alguma qualidade eminente, mas eles não têm aquele conjunto de qualidades por onde o leão é o leão.

Olhem para ele, ele é rei. Ele tem o direito de ser rei, ele manda, ele tem a garra do rei, ele tem a pata do rei. Era normal que ele tivesse a cor do rei. O colorido próprio para as coisas régias é o áureo. Um leão de prata, que frustração! Um leão de ouro, que naturalidade.

Azul, o estandarte… a minha hesitação foi entre o azul e o vermelho. Mas não durou nada. Artisticamente falando, o ouro é mais bonito sobre o azul do que sobre o vermelho. A gente considerando um azul bem escolhido e um ouro bem escolhido, a combinação é lindíssima. Mas, o azul como que repousa da vivacidade do ouro. E eu não queria repouso em nosso estandarte, eu queria a luta.

Aí está.

Meus caros, vamos encerrar.

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