Luís XVI e Maria Antonieta: símbolos que não morrem na recordação nem no coração de muitos franceses – Considerações a respeito da execução de Luís XVI (21 de janeiro de 1793)

A pedido de um membro da TFP francesa, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira compôs o texto a seguir, por ocasião do bicentenário da execução de Luís XVI (21 de janeiro de 1993). O texto abaixo não foi revisto pelo autor.

 

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Luís XVI com traje da sagração real (Joseph-Siffred Duplessis)

– I –
Luís XVI nos aparece nas narrações da historiografia séria, com um fulgor de alma extraordinário, quando se trata sobretudo de sua paixão e de sua morte. De paixão de morte, por analogia à Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pois o Rei é, na terra, uma imagem de Deus. E matar o Rei nas condições em que o matou a torpe Revolução equivalia a fazer do ato do regicídio, um ato cuja intencionalidade mais profunda tem muito do Deicídio.
– II –
Dia 21 de Janeiro de 1793: A cidade de Paris, já então uma das mais povoadas da Europa e do Mundo se encontra cheia em efervescência, desde a madrugada. Os núcleos revolucionários cujos membros residiam nos mais variados bairros da imensa Capital começavam a acordar. E os dirigentes de cada núcleo batiam os tambores para despertar os que ainda não tivessem levantado. Assim, quem estivesse colocado numa posição central, ou mais ou menos central da cidade de Paris, ouvia, a todas as distancias, o bater dos tambores, convocando para comparecer ao ato torpe, e para ajudar a este ato que se realizasse, as “secções revolucionárias” de Paris. Era dever delas formarem batalhões, e irem se impostar ao longo do caminho por onde passaria o Rei Luís XVI, algum tempo antes destronado e encarcerado pela Revolução. Ele deveria sofrer o suplício último, que era sua guilhotinação na Praça hoje hipocritamente chamada “da Concórdia”.
– III –
Na pesada Torre do Templo, transformada em prisão para deter o Rei, a Rainha, o Delfim, a filha do Rei e a irmã deste, Mme. Elisabeth, chegam de todos os lados esses rufares de tambores. Pode-se bem imaginar que essas Princesas, mais o jovem Delfim acordaram cedo, e ouvindo esses tambores que exalavam o ódio dos revolucionários, soprando como se fosse um só imenso e satânico pulmão, em toda cidade de Paris. Contra o Rei, contra elas, desarmadas, sós, que seriam em breve expostas a análogos tormentos, se desatava assim o furor da população revolucionária. E a crueldade dos revolucionários, amiga de atormentar e fazer sofrer, se comprazia infernalmente em encher de horror os quatro infelizes prisioneiros.
– IV –

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Jean-Baptiste Cléry (1759-1809), fiel servidor de Luís XVI (foto de pintura de Henri-Pierre Danloux – domínio público, assim como as demais ilustrações desta página)

E o Rei? Desde a véspera, ele tinha sido separado de sua família pelos revolucionários, para que não tivessem o consolo de estarem juntos nos últimos momentos. A separação fora cruel. E o Rei fora levado ao quarto do andar imediatamente superior àquele onde estavam os membros de sua família, onde uma cama para ele e os objetos necessários para seu uso. Com ele, para servi-lo, estava o seu fiel Cléry. Também a esse andar superior, onde o Rei se encontrava chegavam os mesmos sons, e as vibrações auditivas do mesmo ódio. Cléry já se despertara e preparava todo o necessário para a última toilette do infeliz Monarca. Porém, com a paz de uma criança inocente… só o Rei dormia. Dormia de um sono profundo, de um sono inocente, quando, terminados os preparativos de sua toilette – se não me engano por volta das 7 da manhã – Cléry se aproximou da cama dele, e lhe disse num tom de voz doce: “Sir, c’est l´heure”.
“Sir, c’est l´heure”, do que? De morrer. Como? Com a cabeça cortada. Quando? Dentro em breve o viriam pegar. Luís XVI não estremeceu, não teve susto nem nada. Pelo contrário, levantou-se com calma e começou a proceder a sua toilette. Via-se que ele rezava e que tinha a atenção posta em considerações de caráter absolutamente superior. A cena não deixava de ter alguma analogia com a Agonia de Nosso Senhor no Horto. Nosso Senhor previra todos os tormentos pelos quais passaria. E nessa previsão, começou a sentir tédio, pavor e tristeza, narra-nos o Evangelho. Sofrendo essas dores morais terríveis, Ele começou a suar Sangue, e fez a prece sublime: “Meu Pai se possível, afaste de Mim esse cálice. Se não, faça-se Vossa vontade e não a Minha”. E veio um Anjo e O consolou.
Suportando esses tormentos de alma preliminares, Nosso Senhor obteve do Padre Eterno para a humanidade pecadora graças incontáveis. Quero imaginar que, especialmente, essas graças foram obtidas para as almas, que até o fim dos tempos sofressem tormentos espirituais especiais. Tormentos como, no momento, o sofria o plácido Rei de França. Mas o fruto desses tormentos parecem manifestar-se de modo sublime. Jesus Cristo, suando de Sangue na perspectiva do que ia acontecer, comprava graças para aqueles que, pelos méritos desse Sangue de valor infinito, adquirissem a placidez de alma diante de todos os tormentos que lhes estavam no caminho. O Rei estava calmo. Não é de se conceber que isso fosse sem um fruto especial da graça, resultante da nossa redenção. Redenção que nos foi adquirida pelo Sangue de nosso Divino Redentor.
– V –
A toilette do Rei termina, o Rei dispõe de alguns pequenos objetos que restavam em seu uso, como canivetes, lenços e coisas do gênero – não me lembro precisamente quais. Encarrega Cléry de distribuir a estas ou aquelas pessoas a quem ele queria agraciar com esses objetos que tomavam deste então o caráter de relíquias. Cléry se ajoelha diante e pede perdão por alguma imperfeição que tenha tido em seu serviço. O Rei trata a este servidor fiel, com toda a benignidade, agradece o serviço. Alguém bate na porta. O isolamento sublime que envolvia o Rei e o servidor termina. O drama vai começar.
– VI –
Entra alguém. Quem? Não me lembro se primeiro entrou o confessor, ou se primeiro o diretor da prisão. O fato é que a pessoa do confessor merece chamar especialmente a nossa atenção. Tratava-se de um Sacerdote cujos ancestrais eram do Reino Unido, que tinham fugido desse Reino por causa da perseguição dos protestantes. Em sua família – que era de condição modesta e passou a se entregar aos trabalhos da vida comum na França – uma misteriosa e inexplicável crença permanecia, e se perpetuava de geração em geração: um dia, um membro da família haveria de ouvir em confissão, in extremis, um Rei de França. Como conheceu Luís XVI esse sacerdote? Não se sabe. O fato é que na véspera de seu suplício, perguntaram se ele queria alguma coisa. Ele puxou do bolso um pequeno fragmento de papel com um nome escrito e um endereço e disse que esse era um sacerdote que ele queria que o ouvisse em confissão. Não se sabe como, também, os próprios revolucionários se incumbiram de cumprir a previsão que pairava como névoa luminosa sobre a família do Sacerdote. Foi um funcionário da Revolução que foi à casa do Sacerdote e o avisou que fosse socorrer o Rei que queria ser assistido por ele. O sacerdote não hesitou e no dia e hora marcados nós o vemos que chegou à prisão para atender Luís XVI.

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Henri Edgeworth de Firmont (1745-1807), o confessor do Rei Luís XVI na véspera e no dia de sua execução (litografia francesa do séc. XIX de Delpech)

O nome desse Sacerdote era l’Abbé Edgeworth de Firmont, simples sacerdote secular em Paris. A confissão teve alguma duração. Já  fora feita na véspera. No dia do suplício, o sacerdote voltou à Torre, e todas as portas desse inferno se abriram diante do ministro de Deus, que, tranquilo e sereno, subiu até o lugar onde estava o Rei. Tiveram mais um colóquio – se não me engano – e depois o Rei desceu seguido de todos aqueles que o mantinham preso. Seus passos fizeram ecoar na escadaria passando diante da porta atrás da qual Maria Antonieta e os outras pessoas da família real com certeza soluçava. O Rei saía afinal da prisão. Uma pesada carroça o esperava. Nela entraram o l’Abbé Edgeworth de Firmont e o Rei. Ambos sentaram lado a lado com os respectivos livros de oração abertos começaram a recitar em voz alta a oração dos agonizantes.
A agonia do Rei começava. Pode ser comparada em algum sentido à Agonia de Nosso Senhor Jesus Cristo. Entre as numerosas diferenças que há  entre uma agonia e Outra Agonia, está que esta última Agonia se dava na solidão. A do Rei se dava no meio da multidão. Da multidão dos que o odiavam e al¡ estavam (muitos, meros esbirros pagos, vindos dos mais variados recantos da Europa para prestar esse miserável serviço a soldo dos revolucionários) outros que, sem terem a coragem de se dizerem a favor do Rei simpatizavam com ele, e o olhavam consternados. Homens de coragem para tentar libertar o Rei? Nenhum, nessa imensa Capital, nesse imenso país, em toda Europa, tão cheia de gentilhommes, de cavalheiros, de Príncipes, nenhum teve a coragem de se disfarçar no meio da multidão, apoiado por um grupo de amigos, e tentar arrancar o Rei das mãos da canalha. Lentamente a carroça atravessou a multidão, e afinal chegou à Praça que, um dia, se haveria de chamar, por suprema hipocrisia revolucionária, a Praça da Concórdia.
– VII –

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Luís XVI junto ao patíbulo, tendo próximo de si o Confessor (pintura de Charles Benazech, óleo sobre tela)

Detém-se a pesada carruagem. O carrasco desce do patíbulo, onde estava a guilhotina, para receber o Rei. Esse sai do carro, junto com o sacerdote. O carrasco avança junto ao Rei e, munido de cordas, tenta amarrar as mãos do Rei. Corpulento, o Rei resiste, imobiliza o carrasco. Oh terrível constatação! Se esse pobre Rei tivesse usado contra os seus inimigos, desde o início da Revolução Francesa, a mesma força moral, a mesma força física que ele usava nesse momento extremo, quando é provável que ele tivesse conseguido deter a Revolução! E, detida a Revolução, quanto ele seria premiado por Deus, por ter cumprido seu dever.
A compaixão para com Luís XVI não nos deve falsear as vistas na apreciação de sua personalidade. Essa personalidade, que dentro em pouco compareceria diante de Deus para ser julgada, tinha muitos aspectos favoráveis dignos de nota: o Rei mantivera uma
vida pura, durante todo seu tempo de solteiro. E tudo leva a afirmar que foi um marido castíssimo. Por outro lado, foi um católico exemplar, no sentido que frequentava os sacramentos com regularidade, rezava corretamente, e deu numerosas provas de devoção a Deus, aos Anjos, aos Santos e à Santa Igreja Católica.
Entretanto… ele era mole! Ah, o pecado dos moles!
Ó Maria Santíssima, tendo em consideração tudo quanto esse pobre Rei teve que sofrer por ter sido mole, nós Vos pedimos que eviteis que nós mesmos sejamos moles em consideração à Revolução, que não percamos uma só ocasião que seja de a combater e de a combater implacavelmente! Dai-nos a graça de empregar todos os meios para conter a força dela, para aniquilá-la, e para fazer vencer por toda parte a Santa Igreja e a Virtude. Para Vos fazer vencer a Vós, ó Maria, Rainha do Céu e da Terra, e fazer vencer o Vosso Divino Filho. Ó Maria, vinde a nós o Vosso Reino, para que a nós venha o Reino de Jesus. Mandai o quanto antes que se acelerem os acontecimentos, para que a presente época de reinado da Revolução satânica e igualitária cesse, e sobre nós desça o Vosso Reino. Não para ser o reino dos preguiçosos, que afinal de contas venceram porque os Anjos intervieram a favor deles. Mas para ser o Reino dos heróis que lutaram como gigantes porque a graça e as virtudes cristãs e sobretudo a virtude da força e a virtude da humildade, e eles souberam ser ao mesmo tempo terríveis na hora da luta, despretensiosos e humildes na hora da vitória.
– VIII –
Voltemos os olhos desses altos panoramas para o cenário terrível onde a Revolução tentava deitar as garras sobre o Rei, certamente inocente dos “crimes” que ela injustamente lhe imputou. O Rei mantendo o carrasco inteiramente manietado, voltou-se para o Padre e disse “o que o Sr. diz disso, Sr. Padre”. O Padre respondeu: “Senhor, eu digo, se vós vos deixardes manietar, haverá mais um traço de semelhança entre a vossa morte e a Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Esta acertadíssima palavra do Padre inflamou o espírito religioso do Rei. Esse imediatamente abriu as mãos e restitui liberdade ao carrasco, que, bem digno da Revolução que representava, passou as cordas pelas mãos do Rei. E foi assim, imitando Nosso Senhor Jesus Cristo, e com a intenção de O imitar, que, passo a passo, o Rei subiu a escada do patíbulo e se dirigiu para a guilhotina, em cuja tábua ele foi estendido. O seu cabelo já tinha sido cortado para que não obstasse a queda da lâmina fatal sobre a nuca. A lâmina caiu pesadamente sobre a nuca do Rei e sua cabeça rolou pelo chão. O infame carrasco tomou a cabeça gotejando sangue e deu a volta por todo patíbulo, para que o povo inteiro notasse que o Rei estava decapitado. Uma só voz se fez ouvir. Mas essa voz ecoaria  até o fim do mundo, e se fará  ouvir no dia do Juízo Final. Era a voz do Padre Edgeworth de Firmont, que exclamava em alto brado: “Filho de São Luís, subi ao Céu”.

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Quem de nós pode duvidar que uma morte realizada nessas condições não foi seguida da abertura das portas celestes para a alma deste comovedor Filho de São Luís? Lá  do alto do Céu, contempla – com essa benignidade que deveria ter sido tantas vezes completada pela força – a França de hoje. E sem sofrer propriamente o tormento do arrependimento, pois que quem está no Céu já  está perdoado de todos seus pecados e não tem mais nenhum perdão a pedir, ele, entretanto olha esta França, essa querida França, essa grande França, essa terrível França, essa França que Nossa Senhora não cessa de amar e de favorecer, e que, salvo raras exceções, não cessa de ofendê-lo e de renegá-lo, e com certeza ainda reza… pela França! É assim o perdão de um Rei Católico, de um Filho de São Luís.
– IX –
Duas ações paralelas então se desenvolvem. De um lado, traz-se um caixão e o corpo do Rei é posto dentro dele. Como o caixão era pequeno para a estatura do monarca, abrem-se-lhe as pernas e a cabeça é colocada entre as mesmas. Nem isto lhe foi poupado.
Fecha-se o caixão. Para Luís XVI, a luz do sol não brilhará mais, a não ser no dia em que todos ressuscitarem. Ao mesmo tempo o Abbé Edgeworth de Firmont foi lentamente recuando passo a passo e com ar de toda naturalidade, ia se afastando do patíbulo, onde sua missão não tinha mais o que fazer. Chegado junto a multidão, ele parecia recear que esta o estraçalhasse. Mas, por um mistério sublime, nesta vida tão marcada de mistérios, nessa família também tão marcada ela mesma de uma previsão misteriosa, o Abbé sumiu no meio da multidão sem que ninguém o procurasse agarrar. Assim chegou à sua casa e se preparou para em breve deixar a França. Para que? A fidelidade a seu Monarca lhe pedia algo mais. Era de dirigir-se ao exílio, procurar os irmãos de Luís XVI (Conde de Provence, futuro Luís XVIII, e Conde de Artois, futuro Carlos X), aos quais se juntaria a única sobrevivente do Templo, que era Mademoiselle filha dos infortunados Monarcas (Luís XVII, sucessor de Luís XVI sumiu misteriosamente da prisão do Templo, ou foi morto por seus verdugos, a matéria é discutida até hoje [1993]). O encontro do Confessor com os irmãos do Rei deu-se como previsto. O Abbé continuou como capelão deles, e o nome dele se perde na História. Só restam dos próximos de Luís XVI, Maria Antonieta que seria condenada à morte dentro em breve, Mme. Elisabeth, irmã do Rei, condenada da mesma maneira.
– X –
Terminou esta História? Se há uma História que não terminou foi esta. Porque a memória de Luís XVI, como a de Maria Antonieta, continuam vivas, são símbolos que não morrem na recordação nem no coração de muitos franceses. Quer por serem amados, amados como merecem, quer por serem odiados como não merecem. Mas de algum modo simbolizam, a luta entre o bem e o mal, a Revolução e a Contra-Revolução. Eles serão sempre vistos com profundo respeito e profunda dor, por todos aqueles que têm uma fagulha de Contra-Revolução na alma. E serão vistos com extremo ódio por todos aqueles, portadores do espírito de satanás, e odiando todas as desigualdades, odeiam a esse Rei, cujo grande defeito, entretanto, foi o excesso de mansidão (isto se pode dizer até de Maria Antonieta).
Mais uma vez, devemos nos voltar para eles e pedir força, força, força; força a favor da justiça, força a favor do bem, força a favor da Contra-Revolução, força enfim a favor de Vós, Maria Santíssima nossa Mãe, a favor de Vosso Divino Filho, nosso Salvador e Redentor.
Tornai-nos fortes, para que, amando-Vos com o amor dos fortes, saibamos servir-Vos com a dedicação e a eficácia dos fortes para que chegue o quanto antes Vosso Reino sobre a terra, ó Maria, ó Jesus!

 

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Notre-Dame de Paris antes do incêndio, interior (foto de P.R.C. – ABIM, Agência Boa Imprensa)

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