O enriquecimento do mundo interior de cada um: como observar, analisar e refletir sobre o que vemos

Auditório São Miguel, 9 de março de 1985 – Sábado – Santo do Dia

 

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

Meus caros, os slides foram tão bem apanhados e os comentários tão bem feitos que a mim até me deram vontade de voltar e de, simplesmente, continuar um pouco mais explicativamente o passeio tão bem feito entre maravilhas e horrores, que nós acabamos de presenciar aqui.

Então, eu combinei que nós retomaríamos as várias fotografias e que eu comentaria um pouco os vários aspectos no seguinte sentido: o homem é um ser racional – me desculpem a banalidade do começo desta expressão, mas afinal de contas, a gente tem que começar pelas ideias mais elementares, porque são as mais seguras; que um homem existe – eu o sei, eu sou homem – que é um ser racional. A prova está nisto, estou raciocinando para gente que, ao me ouvir, raciocina também; logo, somos seres racionais. É uma coisa que se apalpa com mão e que constitui uma base segura para se erguer a torre de uma série de raciocínios. Então, é oportuno que se comece por uma verdade elementar: o homem é um ser racional.

Este ser racional percebe, entretanto, uma porção de coisas, ele recebe uma porção de impressões que lhe dão uma ideia de irracionalidade, porque ele não sabe explicar para si mesmo por que ele pensou isso. E quando o espírito é bem organizado ele sente um certo mal-estar por ele não poder aplicar o controle da razão sobre aquilo que ele sentiu.

Eu me lembro que havia em Santos – tudo mudou, Santos, São Vicente mudaram colossalmente – uma espécie de península que, em certas horas do dia, pelo avanço do mar se transformava em ilha, e depois o mar refluía e se transformava em península, que era completamente desabitada, mas tinha uma estrada circular que dava a volta, em vários níveis dessa península que era uma montanha. Não era uma montanha muito grande, ela teria a altura de três ou quatro prédios de apartamentos de uns dez andares superpostos. Os srs. estão vendo que não é uma coisas tremenda.

Via-se assim o panorama de Santos e São Vicente em várias alturas e via-se o mar. Eu gostava muito desse passeio. Eu passei mesmo uma temporada numa casa de uma prima que morava ali a dois passos. Estava-me recompondo de uma série de gripes muito fortes e a minha prima convidou-me para ficar lá uma temporada, eu aceitei e estive lá essa temporada. Havia um menininho, nessa casa, que quando eu saía vinha correndo atrás de mim – um menininho de três ou quatro anos que me perguntava: “Posso eu ir passear com você?” Em português, perguntar-se-ia: eu posso ir? Mas ele perguntava: posso eu ir? que é a tradução à letra da mesma frase posta em alemão: “Kann ich gehen”? Posso eu ir? Diz-se em alemão. E ele com bom sangue alemão dizia: “Posso eu ir passear com você? E eu pensava: “Lá vem esse menininho…  bom…”

Começa por aí, eu tinha medo que ele de repente saísse andando e tinha vontade de segurar ele pela mão, para eu poder não pensar nele… porque enquanto segurava pela mão, pensava em outras coisas. Mas ele era cioso de sua autonomia como se é nas margens do Reno ou do Danúbio… e não queria esse sistema. Eu via que não funcionava. Depois teve – e tem – um largo papel na vida do Grupo. O menino se chamava Adolpho ou Adolphinho. O resto, os senhores já sabem quem é… [Dr. Adolpho Lindenberg, 1924-2024, primo de Dr. Plinio]

Dávamos a volta a pé pela ilha Porchat. Eu ia vendo aquelas várias altitudes, vários aspectos de Santos e de São Vicente, a mim me agradavam enormemente. Eu tinha aquelas impressões, mas tinha um “nó” com aquelas impressões. Eu dizia: essas impressões são ordenadas, mas há um defeito nisto: se eu tiver que explicar para a minha própria inteligência porque eu estou gostando disto; se eu tiver que justificar para a minha própria razão por que eu quero isso, eu não sei. O resultado é que alguma coisa não está funcionado bem na minha cabeça. Eu preciso saber pôr os pingos nos “is”.

Eu deveria saber parar aqui, por exemplo, e dizer por que é que eu estou gostando daqui. E porque eu gostei do panorama do outro lado, que também gostei muito, mas que é diferente deste. Por que é? Eu devo saber exprimir isso em palavras para eu mesmo fazer a crítica racional daquilo que eu estou pensando. Isto vale o que eu estou achando? Quem vai decidir não é o meu gosto, é a minha razão. Preciso saber.

Por outro lado – e isto também entrava em linha de conta – eu dizia: “Eu gostaria de convencer a muita gente de quanto isto é bom!

Eu deveria saber trazer aqui e explicar: olhe, tem isso, aquilo, aquilo, é bom por causa daquilo; é belo por causa daquilo, você ficou entendendo? Esfregar o nariz dele no pulchrum. E a pinça com que se laça ou com que se pega um bobo destes é a razão: “ vem cá que eu mostro te! Você tem medo de ir comigo para que lhe mostre?!

“Não, não me incomodo!”

“Ah! Não se incomoda com nada? Então, vem cá que eu vou te mostrar!”

Métodos de apostolado um pouco juvenis, mas eram anteriores à Yalta e às doçuras do segundo pós-guerra, eram ainda próprios ao mundo polêmico em que se apreciava a discussão, forma nobre de luta entre os espíritos, em que meu espírito muito propenso à polêmica, encontrava verdadeiras delícias. O grampo que pega o outro e o traz aqui!… Então, esta era uma razão!

Outra razão é que a arte moderna começou a penetrar em São Paulo, por dois aspectos diferentes: primeiro, em revistas estrangeiras que traziam construções de arte moderna. Eu tinha horror à arte moderna. Por outro lado, começaram a construir casas em arte moderna em São Paulo. Eu fui ver as primeiras casas que eram expostas como se fosse raridade, para o público ver: uns cochicholos pequenos que eram expostos ao público para ver. Eu fui e tive um horror daquilo! Pensei:

“Eu, para fazer apostolado, deveria saber explicar no que é que isto é ruim. Do contrário, estes bobos aqui vão gostando disto imbecilmente e eu não terei feito apostolado, porque a mentalidade deles se degenerará a partir do momento em que eles gostem daquela casa, daquele móvel, daquele cactos estúpido posto cheio de espinhos no meio do jardim. Como eu poderei demonstrar isto?”

Não sei se eu tornei claro?

Isto tudo posso, os senhores estão em presença de um problema interno: eu quero fazer a crítica racional da minha sensação, para saber se ela é justa, é equilibrada, proporcionada, ou é uma impressão – eu vejo tanta gente que tem impressões bobas na rua e na vida. Por que a minha não será boba também? Eu preciso saber analisar!

É um problema interno, é um problema de apostolado – externo, portanto, nas minhas relações com outros -, eu tenho que saber dizer.

Há um outro problema que é este: se estas coisas produzem sobre mim tal efeito de atração, ou tal efeito de repulsa, então é inteiramente fora de dúvida que podem produzir, e devem, efeitos análogos sobre os outros. Se é assim, eu não posso ser indiferente a esses efeitos e eu devo querer que os outros vivam em ambiente dignos para se aproximar da religião católica.

Há um apostolado que não é feito pela palavra, é feito pelos móveis, é feito pelo quadros, é feito pelos tapetes, é feito pelo soalho, é feito pelos vitrais, é feito por tudo… Não é feito apenas pelas igrejas – embora o seja, eminentemente, pelas igrejas – mas é feito pelas casas… não sei…pelas estações, é feito por tudo.

Uma coisa é o aspecto da Estação da Luz – valeira a pena, uma vez, os senhores pararem lá em frente e analisarem a estação da Luz, ou tirar algumas fotografias dos lados externos da Estação de luz; seria uma coisa bonita para nós conhecermos a Sãopaulinho de outrora, a grande Sãopaulinho de outrora; tirar uns slides bem tirados, não precisam pedir licença para ninguém. Está ali ao público. E também do Palácio dos Campos Elíseos. Seria muito interessante trazer aqui para nós comentarmos juntos… seria uma forma de dar entretenimento a uma noite, por que não?

Então, essas coisas influenciam a alma humana, e podem levá-la para a Fé, para a virtude ou podem levá-la para pecado, para a impiedade.

Eu que consagrei a minha vida ao apostolado, à Civilização Cristã, à Igreja Católica, não posso ser indiferente a isso. Mas, para atuar nesse terreno, eu tenho que saber explicar por palavras o que é que eu estou sentindo, de maneira que eu faça o outro sentir a mesma coisa. E, por esta forma, eu exerça o meu apostolado.

Isto é um hábito que eu tomei? Ou é um hábito que muitos podem tomar? É um hábito que os meus queridos enjolras podem tomar.

Cada geração que se foi sucedendo à minha – quantas gerações se sucederam à minha! – me parecia mais afastada dessas cogitações, mais afastada dessas reflexões. Era a impressão, a impressão, a impressão, a torcida, o nervosismo… nada da calma, da tranquilidade, da distância: eu agora vou pensar, eu vou analisar a figura que estas coisas projetaram, através dos meus olhos, na minha alma e a impressão que fizeram. Eu não vou mais estar olhando, não vou mais estar torcendo, não vou mais estar conversando com outros. Eu vou estar só, eu vou sentir a sala. E depois de a ter sentido, eu direi esta sala como é.

Vendo tão belas fotografias da Sede do Reino de Maria, que tem inclusive isto de bem apanhado, que elas exageram um pouco a altura do prédio. Não sei se os senhores notaram isto, mas, de dentro, as salas são um pouco menos altas do que são na realidade. A gente nota isso muito na sala da Tradição. Há um vaso chinês de porcelana muito bonita, vaso do Dr. Luizinho.

Há esse vaso, que é um vaso chinês muito bonito, cujo desenho de pessoas que se movem, se não estou enganado deve ser do século XVIII ou começo do século XIX, é “os prazeres da aristocracia”. Gente nobre desse tempo, na China ainda lendária, porque a Europa quase não tinha entrado lá, como é que se distraía, como era o lazer nobre do mandarim chinês… É um bonito tema, não é?

Esse vaso ter uma forma esguia, mas ele está muito mais alto do que ele é na realidade, o que prova que a altura do teto foi exagerada também. Até isto favorece as fotografias, porque se eu pudesse, eu tornaria aquelas salas um pouco mais altas do que são. Porque a sala alta produz um certo efeito sobre as almas que é favorável. Como a sala acachapante – que os senhores projetaram, há pouco – produz um efeito no sentido oposto.

Os senhores imaginem simplesmente, o seguinte: em tese, em tese, todo o espaço que vai acima da cabeça do homem é supérfluo. Em tese, é. Para que uma sala precisa ter mais do que dez centímetros de altura [acima] da cabeça do homem mais alto que está lá dentro? Não há razão. É supérfluo. Os senhores imaginem que nós fossemos baixar esta sala, segundo este critério. Os senhores se sentiriam bem ou mal? Não seria mal, fisicamente, porque o teto nem tocaria nos senhores.

Imaginem mais: que por um favor que me deixaria muito contente, Nossa Senhora dispusesse que eu não me resfriasse nessa sala, eu poderia mandar abrir todas as janelas, os senhores não ficariam no abafamento em que estão aqui. No entanto, eu imagino que apesar de tudo, os senhores, se sentissem abafados. Com vento correndo dentro, os senhores se sentiriam abafados. Donde é que vem esse abafamento? É um mal-estar de alma.

O que é que há na alma do homem por onde o teto alto o deixa bem à vontade? E quando ele reza numa igreja e olha para o teto e vê aquelas abóbadas… fica contente… e os senhores bradam “ fenomenal”?

E, pelo contrário, uma igreja que estivesse a cinco centímetros acima da cabeça do mais alto, daria a impressão de que as orações não estão indo para o Céu?

O que é que há? Não lhes parece que é interessante explicitar isto? Não abre horizontes novos para o mundo interno dos senhores e para o mundo externo dos senhores? Os senhores não se compreendem um pouco mais a sim próprios, os senhores não compreendem um pouco mais o mundo externo à medida que isto seja comentado?

Então, depois dos muito bons comentários, quer comparativos com monstruosidades como aquela casa que tem uma escada e rolaria como uma bola vermelha, uma coisa escandalosa – quer comparativo com aquela enormidade que dá a impressão de um delírio de um arquiteto louco… é evidente, que quem constrói uma casa e imagina uma bola em cima de uma coluna, está completamente doido! Não está longe disto, segundo meu critério, o arquiteto que não sei quem é, que compôs a planta de um prédio que é quase em frente (…) e é uma máquina fotográfica. O que ele é? Uma barata para pensar em morar numa máquina fotográfica? É ou não é um delírio?

Então, me pareceu que seria interessante, uma vez que nós não estamos dispondo de tanto tempo assim… não estamos, basta os senhores consultarem a hora… Imaginem! Vinte para uma… Uma coisa bárbara – me pareceu que valeria a pena rever os slides da Sede do Reino de Maria e deixar os outros de lado. E nos aplicarmos e degustar as impressões daquelas salas. São quatro salas que estão fotografadas ali: Sala dos Alardos, Sala de S. Luiz Grignion, Sala da Tradição e Sala do Reino de Maria. Nem faz um tema tão longo assim.

Eu poderia seguir dois rumos na análise: um é analisar como quem entra de fora e começa a comentar as coisas. Então, fazer primeiro o comentário sumário e depois aprofundar que efeitos aquilo vai produzindo sobre a alma. Outro seria o seguinte: imaginar alguém que chega de fora e não se fazer quase o comentário de cada objeto, no começo. Fazer-se o comentário das impressões de conjunto que a sala produz, para depois entrar nos pormenores.

Parece que está aclamado plebiscitariamente o segundo processo… Não sei se é bem isso ou não? Ou como é ou como não é? Os que preferem o primeiro sistema, levantem o braço! Ó que coisa maciça. Então, eu sou levado a ficar entre as duas alternativas, duas opções, ou é não dizer nada, porque preferem isso…ou é porque preferem o outro sistema… os dois!

* * *

Então, vamos à primeira sala que aparece aí e que é a dos Alardos.

(A sede vista de fora)

Os senhores estão vendo que é noite. Pelo fuste de nosso estandarte – diga-se, entre parentes, bastante escalavrado – por uma duas pontazinhas de estandartes, sobretudo do lado de lá, aparece bem, os senhores percebem que se trata do Torreão da Bênção.

Os senhores olham para o prédio: está com todas as venezianas fechadas. Como casa, em comparação com um prédio de vários andares de hoje, ele não é nada como altura. Mas como casa particular de dois andares, ela é uma casa bem alta. Notem que se compõem, a fachada, olhando para essa parte avançada que fica na sala da Tradição e onde está o nicho dourado de Nossa Senhora do Carmo, olhando para isso notam os vários pisos: um porão alto, depois tem a sala do Reino de Maria – os senhores vejam como é alta – e depois ainda em cima está a sala onde eu trabalho. São três andares bem altos. O prédio é alto.

Todas as venezianas estão fechadas e com exceção da sala mais adiante, que é a Sala do Reino de Maria que está acesa com todas as suas luzes, o prédio parece dormir. Nunca se imaginaria que de dentro dessa sede se irradia toda a ação que irradia de lá! Nunca se imaginaria que número de telefonemas do mundo inteiro recebe esse telefone. Nunca se imaginaria que alegres e joviais ondas de enjolras entram ali e cantam… e vão correndo para a sala de cima. E sobretudo que todos, todos, todos piedosamente passam por uma sala que não está aí e que é a capela e rezam antes de entrar.

Nunca se imaginaria que naquela sala está o “Rex regnum, et Dominus dominantium”. O Rei de todos os reis, e o Senhor de todos aqueles que exercem um certo domínio, Deus Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento. Um relicário com santos das mais variadas épocas da história da Igreja, com relíquias vindas das mais variadas partes da terra; e tranquila e perpetuamente acesa uma lamparina discreta e bela, a atestar que “o Senhor está aqui”.

Não… O prédio parece dormir.

No meu modo de entender – não sei se será bem o dos senhores – o próprio ajardinamento tem qualquer coisa de velhote: é bem do tempo do prédio. São plantas um pouco disparatadas que não formam um conjunto ordenado, estão meio assim a la matagal, postas lá; todas plantas de boa qualidade, mas postas lá assim intencionalmente. É assim que elas devem estar para dar uma certa impressão especial.

Quem olha para esse prédio, que impressão tem?

Tem impressão do passado. De um passado que tem até coisas que ninguém compreende. Eu não sei se os senhores notaram à esquerda de quem olha para o Torreão da Benção uma janela murada. Os senhores podem olhar para o que quiserem em prédios de hoje, uma janela murada os senhores não encontram. Mas há mais: aquela janela em cima é murada também. Aquela janela dá para a sala que eu uso. Apenas o que tem é que eu mandei pôr uma veneziana inútil do lado de fora. Aquelas venezianas nunca ninguém abre, porque do lado de dentro tem parede. E isto é corrente neste estilo.

Este estilo do começo do século, época em que o prédio foi construído, era corrente. Por que eu não coloquei embaixo, então, a veneziana? Eu digo: vê-se muito menos para quem passa e, sobretudo, o que tem é que se os senhores imaginam uma veneziana ali fica demais veneziana e demais madeira.

Os senhores dirão: mas em cima não fica? Não fica, porque em cima, em geral estão abertas as venezianas e se veem os vitrais bonitos e luminosos da minha sala. De maneira que é só tarde da noite, quando isso se fecha – e quando se justifica que tudo esteja fechado – é que as venezianas se fecham também. O resultado é que não há inconveniente embaixo. E em cima aquela veneziana também não traz inconveniente. Então, ficou aquilo lá.

Qual é a impressão que a mim me dá, de fora, esse prédio?

A mim me dá a impressão de muita segurança. Um prédio firme que está bem forte sobre seus próprios alicerces e que dorme seguro. Não teme nada. Tem um sono digno e senhorial, tem o sono dos fortes. De quem não se incomoda com o mundo de automóveis, de ônibus e de modernidades que passam. Ele está de dentro de seu jardim, envolto na sua área e com os olhos fechados para o mundo, dormindo assim sobre o seu passado. É a tradição. Aí os senhores têm a tradição.

Embaixo os senhores notam uma outra janela acesa. Esta janela o que é que é?

É o terraço que dá para uma janela da Sala São Luiz Grignion e daí sai luz: No resto, o prédio parece dormir. Mas aonde sai luz, sai luz intensa. E no fundo deste aparente sono, há um brilho intenso de luz e uma grande ação que se desprende.

Esse passado tão ativo, mas tão seguro de si e tão superior como é que se chama esse passado? A tradição.

Eu tentei aí desvendar um pouco analisando parte por parte – porque numa fachada é como se deve fazer – este aspecto da fachada da Sede do Reino de Maria.

Agora, qual é a vantagem?

Agiria com muito acerto, um querido enjolras meu que tomando isto por escrito fosse à sede, de dia ou de noite, e a partir do Torreão relesse e re-olhasse, para ele mesmo degustar bem a coisa como é, entender inteiramente o prédio, ou seja, explicar para si mesmo as impressões que o prédio dá.

Os senhores devem notar o seguinte: este prédio – como qualquer obra de arte – nunca lá dá a mesma impressão, inteiramente, a todos. Cada um de nós tem uma individualidade, uma personalidade e o que chama muito a atenção de um, legitimamente pode não chamar a atenção de outro, e reciprocamente. Mas de qualquer forma, as linhas gerais podem ser as mesmas para todos. Aqui tem as linhas gerais que, sem a perda da individualidade, os senhores podem considerar e, eventualmente, lucrar alguma coisa analisando.

Vamos para a frente!

Os senhores olhem pela janela que está aberta. Quem tirou a fotografia teve o bom gosto de deixar entreaberta a janela para que soubesse o vidro como é e se tivesse uma ideia inteira da sala. Porque fotografado só daí com a janela fechada não se teria a ideia de como é essa vidraça que concorre para dar a fisionomia geral da sala.

Pela luz que entra, a gente pode imaginar que seja um dia ensolarado – os senhores estão vendo bem – e pela luz que entra pode tanto ser um sol matinal, quanto pode ser um sol até às quatro da tarde. A meu ver é raro que, depois das 4, quatro e meia, o sol de São Paulo ainda tenha essa energia, esse reluzimento.

Imaginem um enjolras que toca a campainha e entra na sala. O que se passa nele, sobretudo se ele entrar sozinho e se ele souber que está sozinho na sede e que ele tem que ficar, por exemplo, guardando a sede durante o dia, cinco horas consecutivas. Não trouxe livro, tem todas as suas orações feitas.

Ele vai direto por aquela porta à esquerda, entra no corredorzinho e vai visitar o Santíssimo Sacramento, vai rezar diante da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, das relíquias, sai e volta. E começa a andar pelo prédio. Não tem outra coisa que fazer.

No primeiro instante qual é a sensação que dão as várias salas que foram projetadas aqui? Mas imginêmo-las de conjunto, antes.

Imagine que todas estão com as janelas abertas ou com as luzes acesas. A primeira impressão que ele tem é vastidão. Outra impressão que ele pode ter é de uma atmosfera onde os seus passos reboam pouco. Ele anda, ainda que fazendo força no chão, a não se na capela aonde ele se ajoelha à la TFP e a genuflexão faz vibrar o chão, exceto nesse lugar, ele tem a impressão de que o som de seus próprios passos se esvai.

Ele entra por essas várias salas e começa a sentir-se um pouco pequeno e um pouco perdido nessas vastidões. As vastidões o envolvem e o agradam, mas ele não sabe conversar com elas, não sabe analisar nada; elas o enchem de impressões que ele não discrimina. E, por outro lado, como ele não sabe analisar as coisas, ele também não pode olhar muito tempo para aquilo. Então, ele vai de um lado para outro, de um lado para outro e em certo momento ele se senta numa dessas cadeiras e dorme. Dorme uma boa hora. E assim são as coisas, na alma dele o ambiente penetrou mais a fundo até enquanto ele dormia. Porque quando o homem dorme com a consciência de estar num certo ambiente, aquele ambiente impressiona o sono dele.

Os senhores imaginem que um homem dormisse naquela casa em forma de bola. Se fosse um homem equilibrado, afetava mal o sono dele. É uma coisa evidente.

Imaginem dormir no S. Bento, dormir no Praesto Sum, dormir em Jasna Gora ou em qualquer dos nossos eremos… a tranquilidade serena e recolhida, totalmente diversa de morar na bola.

Nosso enjolras ter-se-ia sentado ali ao pé de Maria Antonieta e teria dormido… Quando ele acordou, aquilo tudo ainda penetrou mais fundo nele. Ele querendo ou não querendo, aquilo teria “garoado” nele. Ou usando uma expressão mais poética, aquilo teria orvalhado nele. E ele, nesse estado de alma, abre os olhos de novo e sente aquele efeito de conjunto da Sede e sobretudo dessas salas debaixo da Sede.

O que é que ele sente? O soalho lustroso, grande, espaçoso; os lambris reluzentes; veludo de seda nas paredes; o teto, de novo lambri reluzente. A luz parece ser jogada de todos os lados, tudo é luminoso aí. Há uma discreta feeria de luzes, mas de luzes dentro da penumbra. Há uma certa penumbra dentro disso. A luz só entra por uma janela. Um pouquinho pelo postigo da porta. O resto, ela é objeto de uma espécie de pingue-pongue; ela está batendo naquela parede; da parede ela reflete no chão; um pouco aquela luz bate no chão também e parece escorrer como um líquido até as partes finais, cobrir até o leão. Tudo está ligado com uma luz agradável, discreta, penumbrosa.

Não há sensações? Há! Mas sensações que convidam a uma certa tranquilidade, a um certo repouso – e porque não dizer tudo de uma vez só – para um enjolras não habituado ao ambiente, também uma certa monotonia: a coisa é imponente, a coisa o intimida um pouco, e a coisa lhe parece – ahh! – um pouco acachapante, uma riqueza um pouco acapachante.

Os senhores dirão: mas há luz dos dois lampadários. Ou não está acesa ou está tão penetrada pela luz do dia, que o sol reduz à sua insignificância a lâmpada elétrica moderna. A verdadeira luz é a de um lampadário que Deus acendeu muito longe e que penetra aí.

Eu consegui descrever o ambiente de conjunto que a sala produz?

Esta impressão é reforçada pelo leão. É próprio desses prédios e dessas coisas antigas que o chão tenha neles muito mais papel do que tem nos modernos.

Os senhores vejam como o chão é bem trabalhado, forma um verdadeiro mosaico como um xadrez, e no meio um losango, e no losango dentro do qual partem raios de madeira brilhante, no chão, um leão!

O leão da TFP! Sério, grave, agressivo, jovem – mas não é bom brincar com ele! – bonito, ornado. Os senhores vejam, por exemplo, não sei se já notaram isso, o belo movimento da cauda do leão. É um movimento esguio, distinto. O belo movimento das patas do leão: deitar a unha, elas querem vencer! Na juba do leã; quase no peito do leão, está marcada uma pequena cruz, que é de pau-brasil, do próprio pau-brasil (de que veio o nome de Brasil para o nosso país), e cuja cor natural é esta. Quer dizer, abatido o pau, rachada a árvore, a madeira dentro tem esta cor. Aí está naturalmente envernizada e preparada, mas a cor da madeira é esta: é o nosso thau!

O leão parece condensar em si toda a mensagem da sala, porque tudo na sala fala alguma coisa, que se repete de mil modos. Esta coisa é um unum de impressões.

Qual é esse unum?

O unum é o seguinte: força, decisão, sabedoria, justiça e para a frente! Tudo é grave, tudo obriga a refletir. E uma vez que a gente refletiu, tem obrigação de tirar as conclusões. E uma vez que a gente tira as conclusões, tem obrigação de rugir para o mundo que não está de acordo com aquilo que a gente pensa. E depois de ter rugido, a gente tem obrigação de agir para não bancar um ridículo leão de granja. Ou é ser ridículo ou é ser herói! Este leão optou pelo heroísmo!

Essa nota que o leão dá à sala, marca todas as salas, sobretudo as do andar térreo. Em todas elas, no fundo, os senhores notarão isto: algo que conclui assim: então, vá para a luta!

Eu continuo claro ou não?

* * *

Podemos passar para a sala São Luiz Grignion.

Os senhores notam que aqui já é noite. Anoiteceu para o nosso enjolras. São oito horas da noite e ele ainda tem três ou quatro horas diante de si de andar sozinho, por dentro do prédio. E ainda que não queira, fazer [análises na linha] “ambientes-costumes”.

Ele entra nesta sala aqui e dá com um jarrão igual ao outro que está na sala dos Alardos. Maciço, seguro, nobre, de primeira porcelana e que dá a impressão, assim, de uma sentinela entre as duas janelas. A luz do lustre central quase nunca se acende. Duas lâmpadas nos potiches chineses que estão nesta mesinha e numa outra mesinha mais no fundo, em frente e dois plafonniers com uma espécie de lampadários especiais colocados ali no fundo.

Os senhores notam, tudo é análogo à sala dos Alardos, sem ser identifico em nada. Aqui há mais conforto. Há móveis de couro que convidam a sentar. Não existe aquele grande estandarte hierático que eu me esqueci de mencionar e que é um outro convite para o heroísmo, para as passeatas, para o desafio ao adversário.

Os senhores encontram aqui mais um ambiente de tranquilidade, de repouso, mas para pensar mais a fundo. Quando o espírito se concentra, depois de um primeiro momento de concentração, para pensar mais a fundo, ele quer não carregar o peso do próprio corpo. Para o quê? Para, por assim dizer, carregar o peso da própria alma. O glorioso peso da própria alma.

E por isso, os senhores têm que aí estão os móveis, por exemplo, aquele móvel, aquela cadeira no fundo colocada junto à lâmpada e que parece falar em leitura; à esquerda está a lâmpada; os senhores veem o chão todo ele lustroso que joga também de um lado para outro a luz que vem dos lampadários e que se reflete nas janelas de cristal “bisoté” [com acabamento especial], que se reflete nos lambris, na porcelana do jarro, no lustroso do couro da sede. Por toda a parte a luz é enviada de um lado para o outro e cria assim esta atmosfera meio de penumbra e meio de luz, que é o que há na mente do homem quando ele pensa. Para que o homem pense é preciso que as sensações façam um pouco de penumbra. Para que o raciocínio funcione, o homem tem que não estar constantemente sentindo. É preciso que as sensações baixem e a razão se levante nobremente e comece a examinar. Esta é uma sala para a reflexão.

A parede é feita de um veludo o veludo chamado “velours de Gênes”, veludo de Gênova, em que todos os desenhos são salientes. Não é assim um veludinho estampado ordinário, mas todos os desenhos são salientes. As altas janelas e portas com as cortinas enormes dão ideia da altura do teto alto.

Teto alto – diria o Conselheiro Acácio – é o contrário do teto baixo. Enquanto o teto baixo oprime, o teto alto leva para os pensamentos que constroem, leva para as altas abstrações e para os altos planejamentos. É uma sala em que, muito adequadamente, ficaria uma pessoa ou um grupo de pessoas quietas sem falar – esta sala não convém para conversar; para reunião sim, mas para conversar não (numa reunião se pensa, quando se conversa não se pensa, parlapateia-se!…. ao menos em certas épocas históricas…)

Então, nesta sala, os senhores têm o convite para um aprofundamento das impressões que houve na Sala dos Alardos: “Meu filho, pense mais a fundo. Descanse um pouco o corpo para que melhor trabalhe a alma.”

Nesse sentido, o móvel mais expressivo é a estante (que eu pediria, agora, ao Sr. para projetar) como os senhores vêm, com uma série de livros, e que é a rainha da sala. A nota dominante da sala é a estante.

De acordo com uma velha tradição que se retomou hoje, pelo meio da sala se puseram alguns bibelôs. Ali, há um bibelô do Dr. Paulo: um bispo, São Nicolau (o famoso bispo S. Nicolau das festas de Natal) e do lado de cá, o cavaleiro .

Aqui mais embaixo (na estante) os senhores têm um vitral em forma circular, que era a parte central de um vitral do século XVI. É do Dr. Luizinho e ele comprou este vitral para pôr em alguma sede nossa e nós o transformarmos em abatjour, dali se irradia uma certa luz.

O cavaleiro é aquele cavaleiro de prata, aquela armadura de prata medieval que está colocada lá e que pertence ao Dr. Adolpho.

Os senhores encontram coleções de grande valor. Por exemplo, aquela coleção que os senhores estão vendo ali embaixo é a “Histoire Genealogique de La Maison de France” (A História Genealógica da Casa Real de França). Encontram-se, não me lembro bem, se três ou quatro exemplares no mundo inteiro… É uma verdadeira raridade bibliográfica. As filhas do Dr. Azeredo, mais especialmente Dona Maria Henriqueta, que encadernam muito bem – uma verdadeira artista – restaurou esta encadernação, e está num primoroso estado. Ali, a gente se senta e pode ficar longas horas pensando. E quantas e quantas vezes eu lamentei que, desde que estamos nesta sede, eu nunca tive estas longas horas para pensar sozinho aí.

Os senhores veem que na prateleira de cima há uma outra coleção de livros bem menores. Eu creio que essa coleção (não me lembro bem) é uma do século XVIII e que deve deixar os senhores pasmos: “Dicionário de conversa” [Dictionnaire de la conversation].

É de uma época em que era bonito ser instruído e até era bonito ser inteligente… O “atraso” do mundo chegava a esse ponto: ser inteligente, exprimir-se bem, ser interessante, cortês, dava valor a um homem! Era uma época tão extravagante que era assim… Hoje é jogar na bolsa. E se tiver que funcionar os cinco dedos não faz mal também… [furto]

Os senhores têm os temas daquele tempo como eram tomados para uma conversa. É uma coisa muito curiosa.

E uma sala, depois da sala da acolhida, que prepara o espírito, entra na sala da meditação.

Mas o enjolras está sentindo que o tempo dele está acabando… Ele está com pressa. Ele esqueceu o relógio pulseira e está recomendando que se passe logo à sala da Tradição.

* * *

Tudo é diferente. Dourado, alegre, triunfal, descansa de tanto recolhimento. As salas da penumbra preparam para apreciar tanta luz. E é muito bonito que a porta que separa a Sala da Tradição da Sala de S. Luiz Grignion é uma porta vidrada, mas vidrada de cristal. Através daqueles cristais a gente pode ver esta sala acesa. Então, de dentro da reflexão, a vitória e o triunfo. E a imagem de Nossa Senhora (do Carmo) triunfante com o Menino Jesus, Virgo Flos Carmeli. Ali está como Regina Carmeli, Ela está com uma coroa na cabeça e segurando o escapulário na mão. É uma verdadeira maravilha!

Alguma coisa se alterou. Em cima daquela mesinha com um tampo de mármore cor de rosa está um quadro desenhado representando o Conde D’Eu quando era pequeno. Este quadro foi colocado numa parede lateral. Está um lindo presente que X. me trouxe da Europa: três mosqueteiros a cavalo dispostos ali e que dão uma vivacidade à Sala, que é especial.

Os senhores olhem a sala. Ela é dourada e viva. Ela tem toda a alegria do estilo francês. Vejam a forma das cadeiras. Tomem aquela poltrona que está ali em cima, na frente, e vejam o delicado dos braços da poltrona e sobretudo desta parte daqui [aponta com a mão na própria cadeira onde está sentado] que conduz do braço até ao assento: é tão frágil que se diria que se pousar ali um bração maior, aquilo quebra. Mas é fortíssimo e foi perfeitamente bem calculado e escolhida a madeira.

Os senhores têm uma mobília de uma rara proporção: entre o sólido dos medalhões, o frágil dos braços, o forte dos assentos, e o frágil dos pés.

Que efeito isto produz na alma?

Fortifica a esperança da vitória, valoriza o princípio axiológico, por onde as coisas são por onde elas são como elas devem ser mesmo e a ordem posta por Deus acaba triunfando.

* * *

Nós podemos passar para a Sala do Reino de Maria.

A meu ver, se poderia fazer uma pergunta: que impressão ela dá para a alma? Ela dá uma impressão triunfal como a Sala de Tradição? Ou ela dá uma impressão recolhida como a Sala de S. Luiz Grignion, que fica imediatamente abaixo dela?

Opinem os senhores. Os que acham que é a de ambas levantem o braço!

(Uma boa maioria)

É isso mesmo. É uma síntese dos dois! Ela tem qualquer coisa de vencedor, de vitorioso; mas ela tem qualquer coisa de meditativo.

Esta sala foi feita para as “Reuniões de Recortes”, no tempo em que a TFP era muito pequenina. Depois, cresceu muito o número dos participantes da reunião, com a graça de Nossa Senhora. Nós poderíamos instalar naquela sala de reuniões de Jasna Gora esta própria sala, mudar para lá estas boiseries e ampliar. Então, teria o número duplo, triplo ou quadruplo de cadeiras, teríamos um lambri muito maior, mas aproveitaríamos todos estes lambris, tudo o que está aqui, e teríamos uma enorme e magnificíssima sala assim.

Por que não se pode fazer?

Razão mais imediata: cresceu o número [de participantes] e não cresceu o dinheiro. O número gasta… e nós achamos muito melhor gastar e encher as salas, do que em ornar salas vazias. Resultado: preferimos conservar isto, assim como está.

Abaixo, vídeo com visita de TODA a sede.

 

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