O “Lembrai-vos”, famosa oração composta por São Bernardo de Claraval: uma argumentação advocatícia carregada de amor para com Nossa Senhora

Santo do Dia, 27 de setembro de 1980 (trecho final)

 

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo“, em abril de 1959.

 

 

Os senhores compreendem, então, facilmente, como esse exemplo de Nosso Senhor admirando as coisas, até as pequenas, e amando-as com uma ternura especial, é uma lição para nós termos a alma propensa à admiração, fácil à admiração. Não à admiração do mega [orgulhoso]. Aliás, o mega não admira. Mas, enfim, uma como que admiração do mega: “se algo se apresentar a mim, tão superior a mim que me obrigue à homenagem, eu então digo: “é justo; e dobro o joelho”.
Absolutamente não! Se algo se apresentar a mim, que em qualquer sentido manifeste Aquele que infinitamente é superior a mim, eu me inclino e digo: “eis aí”!
Há nisso uma flexibilidade da alma católica, há nisso uma doçura, uma suavidade que agora nos faz, então, pensar em Nossa Senhora. Quer dizer, os senhores tomem o Memorare [Lembrai-vos]. O Memorare os senhores sabem que foi composto por São Bernardo. Eu nunca vi um quadro de São Bernardo, mas eu imagino São Bernardo – é como ele está no meu espírito – quando ele teria mais ou menos uns 35 anos.
Eu o imagino “plutôt” [mais bem] alto, quase esguio, claro, com traços regulares do qual nenhum chamaria especialmente a atenção, com um cabelo rigorosamente rapado, com uns olhos firmes, transparentes e perfurantes. Capazes, entretanto, de uma doçura inimaginável, eloquente como fogo, mas uma chama de fogo que saísse de dentro desta “neve de pureza”, que era o corpo dele e a túnica alvíssima dele. A aura cor de neve, imponderável e meio prateada que o cercava.
Eu o imagino rezando aos pés de Nossa Senhora. E dizendo com uma ênfase na qual entra todo afeto, mas entra uma argumentação quase um pouco polêmica.
A gente vê, aos pés dele, junto a ele um pecador arrependido, alquebrado de tristeza pelo que fez, mas que ainda não se emendou, que talvez tenha recaído várias vezes depois de várias graças preciosas.
No altar está a Virgem Santíssima. Superior, puríssima, transcendente. E de tal maneira contrastante com aquele miserável molambo que está no chão que a gente se pergunta como é que ele teve a audácia de trazer aquilo para perto dAquela?
E ele reza com o corpo reto, o olhar confiante, mas a voz de advogado: “Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer”…
Já é uma argumentação! Porque o que está no fundo é a certeza de que Ela atenderá. Mas no seguinte argumento: “Vós não querereis, por amor à Vossa própria glória, que pela primeira vez se ouça dizer que Vós não atendestes!”
“Eu argumento com Vós, contra a transcendência de Vossa pureza celeste. E que vossa grandeza de Mãe de Deus nunca se ouviu dizer que algum daqueles que tivesse recorrido à Vossa proteção”.
Agora vem mais forte, como para comover: “implorado a Vossa assistência, clamado por Vosso socorro, fosse por Vós desamparado”.
A gente tem vontade, quando acaba de dizer, dizer: “que estrofe! Que voo de alma!”
A gente precisa parar um pouco para admirar a trajetória porque ele voou diretamente ao coração dEla: “Veja esse coitado, esse molambo, aqui ele está clamando, ele está implorando, está pedindo. É um molambo, mas nunca se ouviu dizer. Logo não há ninguém que fique fora do circuito! Ele é alguém; logo, oh Mãe, ele está dentro do circuito!”
Não sei se os senhores sentem a argumentação advocatícia, mas que vem carregada de amor, como quem diz: “Mãe, Vós sois tão boa, tão, tão boa que até isto aqui, se Vós sorrirdes para ele, ele se transforma. Lembrai-vos da água de Caná que se transformou em vinho! Dizei uma palavra para ele, e ele muda. Minha Mãe, menos que uma palavra, um sorriso. Menos do que um sorriso, um olhar, e já ele está mudado!
“Minha Mãe, admiremo-lo. Como ele seria admirável se ele fosse bom. E com um olhar vosso pode torná-lo admirável. Admiremo-lo juntos, ó Mãe!”
E Ela está admirando São Bernardo e dizendo: “Entre os filhos dos homens, como Bernardo me é amado!  Quanto admirável é o Bernardo! A quem Eu dei tantas graças e que de tal maneira as guardou porque ajudei a ele”.
E Ela diz a si mesma: “Eu estou deliciosamente presa na engrenagem das minhas misericórdias. Eu fiz bem a Bernardo, por misericórdia. E Bernardo se tornou tão bom que eu não posso recusar a ele o que ele me pede!
“E o bem que Eu não faria se não houvesse Bernardo, Bernardo me obriga deleitavelmente a fazer porque Bernardo existe!”
Os senhores imaginem o final. O Memorare terminou, e a graça foi concedida. O homem começa a sentir uma pulsação espiritual dentro de si, algo de um pouco novo, uma coragem para dizer “não” para sua própria imundície; uma vontade mais ativa de ser bom que não é uma coisa puramente platônica; uma deliberação que se vai tornando mais forte; uma esperança que começa a viver nele. Ele percebe que aquele homem disse algo àquela imagem imóvel e que a imagem deixa resplandecer algo do “sim” que Bernardo ouviu. Quem sabe se ele, com as mãos sujas dele, toca a ponta da túnica de Bernardo. E ele percebe que as mãos ficam alvas! E a esperança nasce na alma dele.
Os anjos estão vindo porque Nossa Senhora mandou para sobrevoarem esse homem e para levarem para algum lugar de remota penitência, aonde por toda a vida vai pedir perdão, até o momento em que sua alma se desprenda do seu corpo, pura como no dia da inocência e recebida pelos Anjos no Céu!
Terminou o Memorare de São Bernardo! Terminou também o ciclo da admiração.
Deus criou uma Mãe tão perfeita que Ele não pode negar nada a Ela. Esta Mãe, numa abundância de generosidade, obteve dEle que suscitasse milhares e milhares de almas que Ele e Ela admiram também e aos quais Eles nada podem negar. Essas almas pedem pelos medíocres. Pedem até pelos transviados.
E o olhar admirativo de Deus, o olhar admirativo de Maria pousa sobre o medíocre, o poca. Pousa sobre um sórdido e aquilo começa a viver como as águas de Genesaré. A admiração chegou ao mais baixo e chegou ao fim de sua própria história. A admiração que desce é o “pendant” da admiração que sobe.
Eu lhes dei, portanto, um complemento da “história da admiração”. E com isso está terminada a nossa reunião.

Nota: Para numerosos comentários de Dr. Plinio sobre o tema, consulte a coletânea MARIOLOGIA.

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