Reunião de 27 de setembro de 1967
A D V E R T Ê N C I A
O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.
Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:
“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.
As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.
Isto representa… O Caio vai dizer o que é que isto representa.
(Dr. Caio: Capítulo geral da Ordem de São João, em Rhodes, convocado pelo…
Ordem de São João é a Ordem de Malta
(… pelo Grão Mestre Fabrice Carret, 1514).
Bem, então aqui os Srs. estão vendo que é uma Ordem religiosa. Isto aqui, provavelmente, é uma pintura do século XIX representando o fato, não é? E, embora o acontecimento histórico se tivesse passado era 1514, entretanto a pintura feita no século passado situa a coisa num ambiente medieval, o que se compreende por todas as razões. É que a Ordem de Malta é uma instituição medieval e que conservou quadros medievais, estilos medievais muito depois de terminada a Idade Média. De maneira que se entende isto.
E, contra uma corrente modernista que acha que as reconstituições medievais do século passado são péssimas, eu acho que as reconstituições medievais do século passado, para pegar o espírito da Idade Média são simplesmente estupendas e que até mais: elas às vezes pegam melhor o espírito da Idade Média do que as próprias coisas medievais. Porque às vezes, fora da coisa e com o recuo da coisa, a gente pega melhor o que a coisa tem do que quando a gente está vivando dentro dela.
É um pouquinho o que se dá quando a gente olha uma sala quando a gente está num jardim. Várias vezes eu tenho feito a experiência aqui. Se os Srs. quiserem saber como a nossa Sede [referindo-se à então sede do Conselho Nacional da TFP, n.d.c.] é bonita, vão para o jardim e olhem a Sede – com a Tomé de Souza eu já fiz essa experiência também – olhem a Sede de fora para dentro e os Srs. percebem fora dela melhor a beleza que ela tem do que os Srs. estando dentro. Então os Srs. estão já… – são pintores que estão na época moderna, no século XIX e que, com o recuo de 400, de 500, 600 anos pegam melhor a beleza da Idade Média do que os próprios medievais.
Então, aqui os Srs. têm o espírito do que deveria ser a Ordem de Malta, perfeitamente bem apanhado e do que o espírito que ela teve difuso ao longo de sua história, o espírito da instituição representado num quadro simbólico.
Este quadro representa o Grão Mestre cercado de seus conselheiros num Capítulo Geral, como os Srs. estão vendo aqui, traçando planos. E o que ele tem aqui na mão é um mapa de uma fortaleza. É evidente que ele está deliberando a respeito de planos de guerra, de outras coisas, dentro do seu Capítulo Geral, que é o seu grande Estado Maior, que é o seu Concílio.
Bem, então os Srs. têm toda a composição que deve ser analisada e, antes de tudo, o cenário. O cenário representa uma sala que, pela configuração, parece ser uma sala de porão. Os Srs. estão vendo que as ogivas estão um pouco achatadas, que são coisas nitidamente com sabor românico – ogival meio de transição e um pouco baixas – o que se dá exatamente, com frequência, nas salas inferiores e salas de porão.
Entretanto, há uma certa profundidade que o quadro representa bem. Os Srs. têm aí uma série de três pilastras, três arcadas, essas arcadas já são ogivais, não é? E, aqui no fundo, os Srs. têm bem marcado uma ogiva, e o esfumaçado da coisa e a falta de luz natural no ambiente — os Srs. estão vendo que a luz vem toda de cá, no ambiente do fundo não há luz natural: dá uma ideia de que aqui não é janela, mas é um nicho, é uma janela condenada com um nicho, transformada em nicho em que vagamente se esboça um santo, que é o fundo de todas as deliberações.
Então, os Srs. têm aí o primado da ideia religiosa expressa em três símbolos e que foram colocados mais ou menos em linha reta: a Cruz, que é indispensável para marcar o ambiente – depois uma Cruz varonil, sem florões nem nada, a Cruz da dor, sem enfeites, sem prataria, a Cruz bruta que pesa mesmo nos ombros, que é a Cruz do guerreiro. Bem, depois a Cruz se repete bem no centro do peito do Grão Mestre. O Grão Mestre é a figura central e no peito dele está, enorme, uma Cruz. E, no fundo, uma imagem. Os Srs. estão vendo que estão em linha reta, formam um só eixo – alturas diversas de um mesmo eixo, que é o eixo central do quadro. E com isto, muito discretamente, o pintor, ao qual evidentemente não faltou inteligência, o pintor colocou esses símbolos no centro.
Os Srs. me dirão: “Mas, Dr. Plinio, ele explicitou isto quando ele fez ou agiu dirigido por um instinto?” É um problema que está à margem do nosso tema, mas eu creio que se ele agiu por um instinto ele tinha um instinto muito fino, um instinto muito bem apanhado. Só há, a meu ver, uma coisa fraca: ele deveria ter arranjado um jeito de colocar um discreto emblema religioso aqui. E há um enfeitezinho sem significado definido no gorro do Grão Mestre, que dá uma ideia de puro enfeite e não de símbolo.
E homem não se enfeita com enfeite. Enfeite de varão é símbolo. Este é um problema fundamental, exatamente nos tempos do Ancien Regime se esqueceu. Homem se enfeita com símbolo. Porque a força da alma do varão é tão grande que, ele se enfeitar só porque, por exemplo, ele tem olhos castanhos e ele arranja um topázio, ou se tem olhos azuis ele pega um anel de ametista para colocar assim, para ficarem vendo que os olhos dele são da cor do anel, a gente teria vontade de dar um pontapé e jogar na lata de lixo, porque isto não é para homem.
Agora, um símbolo não. Eu tenho alma e minha alma tem um sentido. Eu tenho missão e minha missão tem um sentido. Então, o meu símbolo é o adorno que realça em mim a expressão de minha missão, que dá em mim o significado do que eu sou, e que exprime a beleza de minha alma e não do meu corpo. E com isto, este símbolo eu uso – isso é adorno de homem. Os Srs. peguem todo adorno da Idade Média não decadente: é símbolo. E esta tese é uma tese… – para senhora não, para senhora a coisa muda de aspecto – mas adorno de homem é símbolo.
Os Srs. querem ver onde se vê isto com uma beleza muito bonita? Como a Igreja compõe a fácies de seus dignatários. Por exemplo, um Cardeal Merry del Val; não há o que não seja símbolo nele. Ele é um símbolo e tudo quanto ele traz, púrpura, anel, alva etc., são símbolos. É um lindo homem revestido de símbolos. É um lindo homem revestido de lindos símbolos, que espelham a beleza de sua missão. Aqui está a coisa como deve ser, e que é bonita, não é?
Bem, enfim, essa teoria do adorno é uma coisa que fica à margem.
(Dr. Luizinho: Como é que fica aqui, nessas representações medievais, um certo fundo meio romântico não existe também?)
Existe, mas aí entra todo o problema do romantismo. É que o romantismo da algum modo exprimia, vamos dizer, com uma certa hipertrofia do sentimento, o romantismo exprimia sentimentos; alguns veios do romantismo exprimiam sentimentos bons com uma certa hipertrofia do sentimento. De maneira que, para nós que ignoramos tudo do caso, e que temos mais facilidade em conhecer as doutrinas de uma época do que os sentimentos de uma época, as coisas do romantismo exageradas em si, entretanto têm uma vantagem de nos tornar muito sensível o tempo.
(Dr. Luizinho: Sei, mas sempre fica uma certa fumaça, não é?)
Ah, fica. Isto é indiscutível. Aqui, por exemplo, é claro que nenhum Capítulo, a não ser em raras ocasiões da História, teve essa beleza pictórica. E que aí há uma plenitude de sentimentos em cada um que o homem não alcança, que um grande grupo de homens não alcança. Por exemplo, ninguém aqui está com aridez, ninguém aqui está distraído, todo mundo está num uníssono com o Grão Mestre que é uma beleza de expressão de unidade religiosa, mas que assim não se alcança. Onde estava Santa Teresinha do Menino Jesus por aí dormindo de tédio, como ela dormia durante o Ofício?
(Dr. Camargo: Olha, tem dois ali que estão com soninho, heim?).
Aqui? Contemplação.
(Dr. Camargo: Ehhh?)
É, contemplação!
(Dr. Luizinho: Não tem um implicante aí também?)
Qual é o implicante, este aqui?
(Dr. Luizinho: Não, mais abaixo).
Muito, muito implicante. Ele está meio objetante. O velho aqui mais generoso, amplo etc. etc. e este está opondo contrafortes implicantes, isto é coisa evidente!
(Dr. Luizinho: não há um meio etéreo nesse quadro?).
Ah, tem, o meio ideal! Mas a questão é que eu justifico a existência de quadros assim, desde que a pessoa compreenda que isto é etéreo. Porque uma certa imagem do etéreo serve para compreender melhor o fundo da realidade das coisas.
(Dr. Luizinho: mas precisa fazer esforço, não é?)
Ah! Precisa fazer esforço. É preciso se defender, certamente.
Bom, continuamos? Então os Srs. têm colocado bem no centro do quadro é uma ideia de uma ordem religiosa que está toda ela colaborando para uma finalidade altamente sapiencial.
O quadro nos dá uma ideia de sapiencialidade em tudo. O ambiente é sapiencial, é recolhido, é sábio, é um ambiente feito para que os mais altos princípios sejam conhecidos e sejam tomados na devida consideração. Para facilitar uma posição ogival da alma, em que todos os aspectos da realidade e todos os aspectos da alma confluem para um mesmo ponto central. Bem, e por isto, há um ambiente de grande recolhimento e de uníssono total.
O Grão Mestre dá a diretriz – nós vamos daqui a pouco comentar a pessoa do Grão Mestre – o Grão Mestre dá a diretriz e essa diretriz é recebida a seu modo por cada um, inclusive por este — que você acentuou muito bem, é muito objetante. Objetante por natureza, mas não é um homem que está no momento fazendo fronda. É, é gênio de europeu, tem pilhas de europeu assim.
Agora então, aqui está colocado em plena luz, no meio, o Grão Mestre. A luz bate nele e é um símbolo muito bonito de mediação que esse pintor encontrou – tudo isso eu não sei se ele intuiu, se ele teve na mente, mas a intuição artística é cheia de coisas implícitas que carregam isso. Notem que a luz bate nele e não só é a partir deste ponto onde ele está que ela se refrata em graus desiguais para o resto. Mas, mais ainda, a gente tem a impressão de que da couraça dele, do branco do arminho dele, das barbas dele, da Cruz dele, do rosto dele — ele é uma espécie de espelho que aumenta a luz que bate nele. E essa luz vagamente insinua – o artista soube fazer a coisa – essa luz vagamente insinua algo que desce do Céu. Isto não é bem uma inspiração, mas é um auxílio divino, uma graça divina, se os srs. quiserem, um carisma. A tal ponto que, embora a gente perceba que a luz venha de cá, e bata nele e se reflita em todos os outros, a ideia vaga que fica é de que a luz irradia dele.
(Dr. Luizinho: o artista fez o próprio personagem mais claro que os outros)
Mais claro que os outros. Ele estudou tudo para simbolizar isto. Estudou com muito jeito. Eu acho que ele tinha um senso simbólico de muito valor, esse homem. E por isso também, muito dotada de percepções simbólicas a nossa Comissão do Movimento, sugerindo esse quadro aqui, não é?
Então, os papéis dele e a mesa também são de uma alvura enorme. Ele, os pensamentos dele, o raio de ação dele são mais claros do que todos os outros. Ele tem como poder uma certa irradiação divina, um certo carisma que enche o resto da sala de modos diferentes.
Também ele é o homem idealmente posto para representar esse papel. Poucas fisionomias eu imaginaria tão adequadas para isso. Porque ele é, no seu esplendor, o italianão. Pode ter querido representar o francês, mas não é. É no seu esplendor um italianão. Um italianão do tipo do Mediterrâneo. Os Srs. notem como ele é: ele é um homem possante, o corpo dele é um corpão, a cara dele é uma carona, mas os traços dele, por exemplo, o narigão, os olhos têm uma harmonia delicada, são traços que têm uma harmonia delicada, é incontestável. E há nele todo no conjunto um misto de delicadeza e de estabilidade.
Agora, o melhor são os olhos. Uns olhos grandões, atentos como olho de boi – olha assim, para ver como é e como não é o negócio: “eu não sei o que dá isto”, está compreendendo? “Mas é assim”… E depois tem uma espécie de esguelhar próprio do esperto de grande classe. O esperto de grande classe não tem olho vivo. O esperto de grande classe tem olhão morto e que, de vez em quando olha assim e percebe, dá uma “pescada” na realidade e volta para os seus antros interiores, está compreendendo? Quer dizer, pega o negócio e diz: “eu te colhi; agora vou te analisar na minha calma. Quer você se mexa, quer você não se mexa, quer você dê uma cambalhota, quer você não dê, o flash que eu queria colher está colhido, vai ser levado para os meus laboratórios interiores, para te analisar e para te julgar”.
Olhem a calma do Grão Mestre, a distância psíquica e o olhar meio oblíquo. Ele não está olhando para ninguém, mas ele tem uma difusa desconfiança desse grupo que está aqui. Difusa. É a desconfiança do chefe, que sabe que em qualquer lugar da muralha, de repente, vem o adversário. E que – me perdoem, eu vou dizer isto olhando para cá – e que, em qualquer colaborador, por mais bem amado que seja, de vez em quando o demônio faz um ataque e de vez em quando a muralha cambaleia. Isso é preciso reconhecer!…
Então, a carona dele é que está dizendo: “tu quoque? [você também?]… como é isto?”, está compreendendo? E a gente vê que o domínio que ele exerce sobre todo esse pessoal, é um domínio feito dessa distância psíquica e desses registros de personalidades diferentes. Ele é um tipo esplêndido!
Há uma teoria do mando aqui, e do mando de uma ordem militar e sacral, que é magnífica nesse velho. Os Srs. querem ver, por exemplo, outra coisa? É ou não é verdade que esse velho é inteiramente um militar? Não tem dúvida. Os Srs. podem imaginar esse homem combatendo a qualquer hora. Bem, mas não é verdade que o corpo dele é de militar, a cara é de um general, mas o olhar é de um homem de pensamento, um homem de ação, de um diplomata? O que é que descreve melhor um Grão Mestre da Ordem de Malta senão isto? Evidentemente. Não é?
Bem, agora o traje: a couraça, um colar com uma insígnia, hermínia, que é o principado, e um manto, que eu me comprazeria em imaginar de um violeta quase vermelho escuro, é como eu imaginaria bem esse manto. Bem, a hermínia é o principado. Ele devia usar uma coroa, ele não tinha uma coroa. O que é que isto, entretanto, lembra de coroa? Porque isto lembra alguma coisa de coroa, os Srs., sabem o que é? Aquela toucazinha interna das coroas de príncipe, não de rei, mas de outras exatamente de uma forma muito análoga a esta. E é o príncipe soberano, o Grão Mestre da Ordem de Malta que está com a “coiffure” que lhe convém – é um símbolo. Quer dizer, o personagem está magnífico.
Não sei se está bem objetiva a descrição do personagem ou se querem fazer uma pergunta ou qualquer coisa?
(Dr. Camargo: Esse segundo personagem está com hermínia também. Será de outra Ordem que foi confabular com ele?).
Não, deve ser outro homem que participa do poder da Ordem.
(Dr. Camargo: não, o terceiro, para cá)
Ah, não, este aqui? É uma estola; eu interpreto como sendo uma espécie de estola, ao menos é como interpreto.
Agora os Srs. estão vendo que a sala se compõe de três tipos de personagens: os Srs., estão vendo que há guerreiros, inteiramente armados a la medieval, eles estão um pouco esparsos por vários lados da sala. Depois os Srs. estão vendo que existem homens de governo, existem clérigos – os Srs. estão vendo aqui – e existem homens de administração. Bem, que compõem o conjunto da Ordem de Malta, e que não estão apresentados em bancadas distintas, mas estão representados meio misturados, para dar uma ideia de conjunto. E a gente vê que o Grão Mestre está traçando planos e que o que ele diz está sendo recebido com uma colaboração fantástica por todo mundo.
Os Srs. vejam esses guerreiros aqui, que estão numa atitude que é quase de oração. Esses aqui estão em profundo recolhimento e são uns velhinhos que estão um pouco babando, e que têm uma sabedoria quintessenciada, foram experimentados em cem coisas e que dão um ou outro conselho raro. Eles nem estão conseguindo acompanhar as coisas, mas têm um lugar da honra, porque as honras não se perdem. E eles estão percebendo a linha geral, estão profundamente recolhidos e comovidos. A atitude deles significa: a tradição continua, mais ainda, ela cresce! Eles estão embevecidos com as decisões do Grão Mestre, que para eles é um menino. Porque esse Grão Mestre tem uns setenta anos, e eles, embora pouco grisalhos, estão com estado de espírito de noventa.
Agora, aqui os Srs. então veem: esse aqui está colaborando com o Grão Mestre. É a “eminence grise”, é o Maquiavel, esperto, que está vendo alguma coisinha subtil que até o está preocupando um pouco – cara de conselheiro florentino, entende? – está preocupando um pouco e está cochichando: “olha tal coisa…” E o Grão Mestre olha para a mesma direção que ele, o que dá exatamente a ideia da consonância dos dois, não é?
Depois, olhem como ele nem fala, ele está se aprontando para falar, ela está acabando de olhar e já está cutucando para dizer qualquer coisa para o Grão Mestre. Notem bonitas relações entre ele e o Grão Mestre. Ele é um personagem de penumbra. Vejam como ele não está nem paramentado nem nada disso. Ele parece um religioso, porque aqui está uma cruz. Deve ser algum capelão da Ordem. Bem, mas notem de outro lado a intimidade! Como ele está junto do Grão Mestre, colado no Grão Mestre e a familiaridade com que ele pega no Grão Mestre. É o conselheiro íntimo, sujeito ao seu senhor, mas tão íntimo que tem com ele uma certa igualdade e, de um certo ponto de vista, uma certa superioridade. Porque ele é um especialista em subtilezas, em velhacarias. De maneira que aqui está ele.
Bem, aqui os Srs. têm uma outra cara que está como quem está aprendendo, surpresa, muito adulto, muito embevecida.
Este quadro podia se chamar, com o aspecto natural da coisa, não sobrenatural, quadro do enlevo.
Aqui os Srs. têm outra cara recolhida e como quem diz: “como isto confere com os princípios gerais que eu sempre contemplei, sempre amei.”
Aqui é mais poca, mas também italianão, heim? A Itália está muito bem… – Paulo, você e eu temos conversado sobre italianos, a Itália está aqui muito bem representada, não á? Italianos com cara dramática, tipo magníficos, não é? Aqui tem em quantidade, está compreendendo?
Aqui, italianão meio decrépito, com seu físico posto numa posição meio aérea que a gente não sabe bem qual é, teso ainda, e que concorda com tudo, sem saber mais muito bem do que se trata, é a fé cega. Aqui há lucidez. Aqui há uma semi-lucidez, mas diz: “não, eu topo a parada, porque eu vejo que em dois ou três pontos tudo está bom, e o resto… vou para frente.”
Aqui, o contrário, aqui é uma coisa assim: um homem, que aliás tem uma caixeta de segredos na mão – segredos naquele tempo se guardavam assim – e com uma cara misteriosa. E um ligeiro sorriso. É como se ele soubesse, está compreendendo, como quem diz: “essa turma toda não sabe, mas tantas coisas que eu tenho à mão como justificam isso!” Como isto está esplêndido! É uma outra forma de assentimento.
Este literalmente está rezando. Os Srs. estão vendo que inteligência compôs esse quadro, não é? E depois, meus caros, me permitam um parêntese, heim!
Como é agradável viver quando a gente entra nessa escola! A gente não precisa ligar o rádio quando está apreciando asse quadro. Tendo o quadro, a gente passa uma tarde. Mais ainda, sabem como é que é gostoso ter este quadro? É a gente se pôr tudo isto dentro da cabeça e de vez em quando encontrar um conhecido dentro do quadro. Na hora em que está assinando um papel, na hora em que está passando para atender um telefonema, dar uma olhada e consolar-se do corretor horroroso com quem vai falar, olhando para uma dessas caras. Isto é magnífico! Mas é magnífico! É assim que se vive, entretenimento é isso, a meu ver pelo menos. Os Srs. veem, uma pessoa que tem esse quadro pode passar horas. Isto alegra a vida de um homem, é fator de bem estar para um homem!
Bem. Então, este está literalmente rezando. Isto é uma cara confusa, num fundo confuso e meio exclamativa: “che bello!” – é meio medíocre este aqui.
Todos os níveis de pessoas estão misturadas dentro disso.
Aqui é um muito devoto, muito bom, um pouco bobão. O jeito dele é um pouco assim portuguesão no sentido pejorativo. A palavra comporta mil sentido ótimos, mas aqui está um pouco pejorativo, não é? Mas na hora de matar ele mata mesmo, está compreendendo? Ele aqui, ele está muito embevecido e quando chegar a hora de matar ele diz: “Não, tinha aquele plano. Eu agora vou furar e rachar”, está compreendendo? É o poder executivo, está compreendendo? Por isso, representado com barba mais preta, mais moço, ele é uma espécie de benjamim, depois, muito conservado, não é?
(Sr. …. Está com a espada na mão, não é?).
Ah, é verdade, eu não tinha notado. Ele está com a mão na espada. É o estado de espírito dele. Notem o enfeitão dele: o enfeitão dele prende uma capa, é um enfeitão pesadão, como ele é pesadão, ele é feito para esmagar, é tipo calcanhar de Nossa Senhora. Pega a serpente e lhe esmaga os miolos mesmo, está compreendendo? É ótimo! É o que é preciso, em última analise, no meio de mil vueltas y vuelteretas, é preciso pegar à serpente e acabar com ela, isto é que é preciso! É é o do que esse homem está cheio. Esse poderia dizer: “Zelo zelatus sum pro Domino Deo exercituum” [Eu me consumi de zelo pelo Senhor Deus dos exércitos].
Agora, este aqui está muito bem apanhado. Porque eu não sei se os Srs. notam que ele faz um pouco um bando à parte e, em relação a esses aqui, ele está como ele está em relação a todos os outros: ele tem um papel que está lendo, ele está um pouco isolado do conjunto e ele está como que conferindo o que o Grão Mestre diz, não é verdade? Ele está formando não um plano de oposição, mas é uma fórmula de colaboração que consiste em dar os contrafortes. Então, é o tipo do francês calvinista: todo esse cabelo dele para trás, com essas entradas grandes e depois o nariz que pende, uma barbinha que escorre: é fel, na ponta dessa barbinha tem um tantinho de fel, entendeu? Olhos muito precisos, uma dessas caras que dizem: “Eu não sei por que, nhênhênhênhê…” (risos) É o jeito dele.
Bom. E ele tem um papel que, até certo ponto pode apanhar o Grão Mestre em falso. Ele está conferindo tudo. Mas olhem a calma do Grão Mestre. O Grão Mestre nem te liga, deixa… Realmente parece, completamente. Não tem medo, mas nenhum! E ele também não está com vontade de derrubar o Grão Mestre, o Grão Mestre toma essa cara de oposicionista e o enfeuda no seu sistema como sendo um corretivo dele próprio. Está muito bonita essa forma feudal de colaboração.
(Sr. …. – Por que ele está sentado, Dr. Plínio?)
Parece exatamente que ele está fazendo um trabalho que é um trabalho de conferir o que o Grão Mestre comenta, ele dá notas etc. etc. É a função dele: o Grão Mestre tem um lapso de memória e ele corrige. Ele é o revisor do Grão Mestre, está compreendendo? Esta é a posição.
Bem. Dá uma rara firmeza de espírito, hein? Esse homem, rara firmeza da espírito, mas nas vias da santificação a mais perigosa é esta. Eu dou graças a Nossa Senhora por não ter me pedido que andasse nessa via…
(Sr. … – Como São Tome)
Como São Tomé, esse gênero da gente assim.
Mas esses dois aqui sofrem uma certa influência dele e estão acompanhando muito embevecidos a esta história e a atitude dele. E como quem quer ver como é que sai; eles estão testando o Grão Mestre. Agora, o que tem nessa figura de bom é que ela está entusiasmada pelo fato de o Grão Mestre estar acertando. Esse gênero de gente fica horrorosa quando fica desapontada porque não pode fazer uma objeção. Ele está entusiasmado porque o Grão Mestre está acertando. Caras muito pensativas, muito bem apanhadas na meditação.
Bem, o resto é galeria, não é? E os Srs. olham essas caras… este aqui é cara de galeria. Este não está “capiscando” [entendendo] grande coisa, está segurando a lançona dele e está acabado, não é? Bem, ele está cheirando o ambiente e concorda genericamente com o ambiente, mais nada. E aqui, mais ou menos as outras caras são assim. Estes são a mesma coisa que esses, mas com certo enlevo. E assim se perde o…
Bem. Numa sala sapiencial um verdadeiro conselho reunido, onde o homem arquitetônico, colocado na posição arquitetônica, diz a palavra arquitetônica, com a colaboração e, depois, o reflexo bem distribuído de tudo o que dizem todos. Todos estão participando de uma mesma sabedoria. Isto é a sala do Conselho recolhida, sapiencial e medieval de uma Ordem de Cavalaria. Eu acho este quadro soberbo!
Se alguém quiser fazer alguma objeção… ou uma retificação, qualquer coisa, eu estou inteiramente à disposição.
(Dr. Duncan: Dr. Plinio, o Sr. disse que o olhar do Grão Mestre era da desconfiança com um certo grupo lá. O Sr. nota em alguns fundamento para essa desconfiança?)
Não. É para gente que nem está no quadro, ouviu? A fisionomia do Grão Mestre e deste aqui olham para muito mais longe. E depois, este olha com olhar de detetive, de velhaco, meio assustado. Este olha com olhar de chefe, diz: “não, eu preciso ver, mas eu aguento a mão”. Não está assustado. Quer dizer, o quadro é um mimo de atitudes psicológicas!
(Dr. Camargo: Seria uma praça sitiada e dessa zona é que viria o ataque, alguma coisa mais séria por esse lado?)
Mas eles não estão com a atenção posta no cerco fora.
(Pergunta inaudível)
É guerreiro hospitalar, não é?
Bom, é ou não é verdade que a gente compreende o bem que isso pode fazer bem à Comissão do Movimento? Um bem enorme! É ou não é verdade que seria altamente desejável – e com isto a Comissão do Movimento dá um belo exemplo – seria altamente desejável que quadros assim existissem em todas as nossas sedes? Porque forma muito. Um quadro desse tipo, por exemplo – já que os meus olhos caíram no Duncan, no Paulo Eugênio, na Sede do Rio – como faria bem! No dia em que está daqueles calores, está compreendendo? Mas não acham que para qualquer sede seria uma coisa benfazeja? Qualquer um dos Srs. não gostaria de ter no respectivo quarto de dormir, para acordar ou para levantar, um quadro desse?
Nota: Dr. Plinio comenta este quadro, na linha de seus famosos artigos na seção “Ambientes, Costumes e Civilizações” no periódico “Catolicismo“.