Chá, Sede do Reino de Maria, 26 de setembro de 1993
A D V E R T Ê N C I A
O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.
Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:
“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.
As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.
Meu filho, a idéia que preside a hipótese que eu levantei, que é uma hipótese, eu não posso dar como provado isso. Mas é uma hipótese, a meu ver muito atraente – não só isto – mas é uma hipótese muito parecida com o que é lógico, portanto, uma hipótese a meu ver muito provável.
A questão é a seguinte: é que se diz que o homem toma conhecimento da realidade pelos sentidos e pela razão. Quer dizer, o homem vê, por exemplo, os objetos que estão nessa sala, e ele conhece os objetos. Mas ele, com o que a vista lhe diz, é de pequeno alcance em comparação com [o] que diz a razão.
Depois de ter visto aquele objeto, aquela cortina vamos dizer, depois de ter visto aquela cortina entra o jogo da razão: a cortina é bonita? Ela está bem colocada? Ela é adequada ao papel que deve ter uma cortina numa sala? Vale a pena ter cortinas em sala ou é melhor, a la comunista, simplificar a vida e não ter adornos dessa natureza? Aliás, a cortina é um mero adorno ou ela é um objeto útil? Aliás, os meros adornos são inúteis ou são úteis?
É uma série de considerações feitas pelo meu intelecto e que me levam a conhecer melhor o juízo que eu devo fazer sobre essa cortina que está ali em frente.
Então nós temos a razão e temos o sentimento que nos leva a formar um juízo sobre a cortina.
Bem, sobre a cortina e bem entendido mil outros objetos, toda a realidade que nos cerca.
Agora, qual é o papel que desempenha aí, não mais a razão, não mais a inteligência, mas uma terceira coisa.
Eu vou entrar com uma comparação que diz um pouco demais porque é de um objeto que diz tanto a respeito disso que quase pode se tornar um pouco perigoso. Mas, às vezes é bom empregar um exemplo muito “dicedor” [significativo] para que se compreenda já de uma vez aquilo que a gente quer dizer. A lua.
A lua, eu olho a lua e os meus sentidos captam… no sentido de que todo mundo capta a respeito da lua.
Bem, depois disso vem os conhecimentos que a ciência põe à minha disposição a respeito da lua. Depois desses conhecimentos entra mais um dado que é aquilo que a ciência lança como hipóteses sobre a lua, o que mais poderá ser, poderá haver etc., etc. São todas coisas intelectivas sobre a lua.
Mas a lua é só isso?
A lua, diz a canção do caipira: “quando a lua nasce como um sol de prata atrás da verde mata”, uma coisa mais ou menos assim.
(Sr. Gugelmin: “Quando a lua nasce por detrás da verde mata, mais parece um sol de prata…”)
“… a brilhar na solidão.”
Bem, nesta afirmação sobre a lua está contida alguma coisa que é mais do que o que diz a razão, do que dizem os sentidos. É um conhecimento de natureza simbólica.
A pessoa olhando para a lua é tocada numa porção de maneiras, de maneira tal que pode despertar até um excesso de sentimentalismo.
Então há canções para a lua… eu creio que em todos os idiomas há canções sobre a lua, e essas canções ora são exageradamente meladas e adocicadas, ora são meio misteriosas e meio suspeitas etc., mas de toda maneira canta-se a lua de mil formas. Porque a lua representa, simboliza alguma coisa que é mais do que simplesmente o que diz o intelecto ou o que diz o sentimento.
Esta afirmação está bastante clara ou não?
(Sim!)
Agora, qual é o conteúdo deste conhecimento intelectivo simbólico? Quer dizer, a lua simboliza o quê?
Por exemplo, a lua pode simbolizar Nossa Senhora, sim ou não? Certamente. Até Ela é representada pelo Apocalipse como uma senhora que está pisando a lua, mas pisando no sentido de uma dominação harmônica e não de uma vencedora que está esmagando; está pisando a lua e brilhando no meio dos fulgores da lua.
A lua pode representar o amor materno? Pode representar.
A lua pode representar coisas “fassuras” [más]? No extremo oposto, pode representar.
Há uma porção de coisas que a lua representa.
A lua representa a bondade? Representa a bondade.
Mas qual é o sentido mais profundo, simbólico disso? A palavra “simbólico” aí o que quer dizer?
O que é que é um símbolo?
Nós chegamos ao ponto central do que me parece ser a sua pergunta.
Bem, o que é que é um símbolo?
Vamos dizer, por exemplo, a espada. A espada é um símbolo do heroísmo. Mas nós não poderíamos dizer, por exemplo, que o facão de cortar carne usado por um cozinheiro é um símbolo do heroísmo. Um cozinheiro pode até fazer um uso heróico dessa faca de cortar carne na cozinha que ele tem nas mãos. Ele pode impedir um crime que alguém queira cometer na cozinha; pode impedir um sacrilégio que um herege penetrado na cozinha queira fazer contra uma imagem que ali se encontre; pode fazer um uso muito nobre da faca de cozinha, [mas] um símbolo não é.
Ou então, a espada de um guerreiro é um símbolo? Ela é um símbolo.
Por que é que a espada do guerreiro é um símbolo e o facão do cozinheiro não é um símbolo?
Eu estou claro ou não?
(Sim!)
A espada do guerreiro é um símbolo porque ela tem uma finalidade elevada, a forma dela tem uma certa analogia com esta finalidade de ser elevada. A espada fina, adelgaçada, pontuda, rutilante tem uma analogia com o estado de espírito do guerreiro, que é penetrante, agudo, que quer ir para a frente, que penetra, que corta, que é heróico. Isso tem relação com a espada.
E como também o guerreiro usa a espada para matar numa ação em que ele está expondo a sua própria vida, compreende-se que a espada seja um símbolo do heroísmo.
O que é que é o conhecimento simbólico ali?
É a analogia que existe entre certos estados de alma e certos objetos, que faz com que as almas vendo os homens, vendo certos objetos pensem em certos estados de alma por essa analogia. E por aí conheçam o sentido da coisa, melhor do que se conhecessem apenas por uma descrição impressa num livro ou por uma palavra dita num discurso.
Eu continuo claro ou não?
(Sim!)
Bem, então nós chegamos a esse ponto: que há analogias, há semelhanças entre certos objetos e certos conhecimentos, certos estados de espírito; e que essas analogias nos dão melhor conhecimento da coisa que é focalizada.
Quem vê uma bonita espada fica com uma melhor idéia do heroísmo do que quem nunca viu espada nenhuma.
Bem, uma bandeira, por exemplo, o nosso estandarte. O nosso estandarte é um símbolo da TFP, mas ele é um símbolo porque há uma analogia entre os ideais da TFP, as virtudes que membro da TFP deve praticar, de um lado; e as formas e cores usadas no estandarte, de outro lado.
Logo que a TFP começou a usar o estandarte, alguém veio me procurar dizendo: “Olha, eu queria lhe dar um recado da minha sogra – eu pensei, ahahah! o que é que vem me dizer essa sogra aí? Ela viu vocês de estandarte na rua e ela achou que o estandarte é bonito, mas que o estandarte seria mais bonito, seria mais adequado a vocês se fosse azul.”
Bom, se o estandarte fosse azul, para mim seria um… não sei se os senhores concordam comigo, mas nem sei… é um desmilingue [desfibramento, enfraquecimento, n.d.c.] simplesmente! Para usar a palavra porque não tem outra.
É um desdouro para o estandarte ser azul.
Alguém dirá: “Mas para Nossa Senhora a quem se dirige todo o nosso amor, para daí subir ao trono eterno de Nosso Senhor Jesus Cristo, para Nossa Senhora o azul não convém tão bem?”
Sim, para Ela perfeitamente bem.
Mas, por exemplo, para o culto do Sagrado Coração de Jesus, não; usa-se o vermelho. Porque convém melhor às circunstâncias do culto do Coração de Jesus o vermelho do que o azul.
E para nós, o azul despertaria estados de espírito que o estandarte não deve despertar! O estandarte deve despertar os estados de espírito próprios à luta: o vermelho, com aquela ponta alongada… Os senhores imaginem que em vez de ser um estandarte comprido, fosse uma bandeirinha quadrada pequena. Os senhores não ficariam desapontados?
Se viesse, por exemplo, uma lei – de repente vem, hem! – proibindo os símbolos de tecido usados pelas associações, de terem um comprimento maior do que tanto, uma largura maior do que tanto e proibindo de ter outras cores do que essas: para as associações culturais, o vermelho; para as associações esportivas, o pardo; e para as associações do tipo da TFP, por exemplo – vamos qualificá-las por exemplo de associações patrióticas –, o cinzento.
Eu estou certo que os senhores não reconheceriam nesse estandarte novo, o estandarte da TFP. Os senhores diriam: “Isso é uma sabotagem, é uma traição que estão fazendo querer nos impor isto.” É, mas, mandando pendurar lá ou fecha a TFP, é melhor pendurar lá. Mas para mim aquilo é um trapo!
Donde se pode chegar à conclusão de que se as almas dos homens fossem mais sensíveis para os altos ideais e para as altas coisas, elas perceberiam muito melhor o alcance do símbolo. E que os homens falariam muito mais a linguagem dos símbolos do que falam. E que no Reino de Maria se pode imaginar que as virtudes e os vícios, e a santidade e o mal, e a verdade e o erro etc., se exprimirão de um modo muito mais “dicedor” [significativo] precisamente porque no arrojo da batalha, da luta, o conhecimento dos símbolos ficou maior, e os homens usarão mais esse símbolo para se entenderem.
Seria exatamente este conhecimento dos símbolos, pelos quais Ela é o símbolo de Deus. Ela é como a mais alta das criaturas – toda criatura é um símbolo de Deus – é o mais alto dos símbolos de Deus. E quem conhece Maria, conhece Deus como melhor ou igual não se pode conhecer. Mas aí, vendo Maria, vê o que Ela simboliza de Deus, e isso é quase ter uma visão beatífica.
E o ser sensível, portanto, a essa linguagem dos símbolos seria o caminho para uma nova “interlocução” com Deus Nosso Senhor que é diferente da interlocução comum.
Eu terei alcançado de ser…?
(O homem não seria o melhor símbolo do que os objetos materiais?)
Muito melhor, não tem comparação! E por isso também o número de figuras simbólicas seria muito maior – de caras – de pessoas simbólicas, seria muito maior do que hoje em dia.
Hoje em dia o Sr. abre a janela e olha um pouco aí na rua, tem símbolo do quê?
(Massa.)
O homem é diferente. Ele é indivíduo, é pessoa e pessoa não forma massa, forma povo. E nós teríamos outra expressão etc., etc.
Eu… pela reação dos senhores eu vejo que os senhores entrevêem que há todo um firmamento que se abre atrás disso.
(O aspecto de Nossa Senhora, o símbolo de Nossa Senhora que a Revolução quis esconder mais, não é?)
Tanto quanto pode, tanto quanto pode. Como lutou enormemente para esconder Nossa Senhora, Ela mesma.
Vocês não alcançaram a época de normalidade da Igreja para ver como se cultuava a Nossa Senhora, a todo propósito, a todo momento, em todas as igrejas etc., etc., como se cultuava Nossa Senhora.
Isto foi apagando porque a Revolução quis. No “Em Defesa [da Ação Católica]” foi denunciado aos clamores, mas eles não se incomodavam e era para onde eles queriam andar, não é?
O símbolo dos símbolos que é a Virgem Santíssima, não é?
Eu tenho a impressão, eu não me lembro assim individualmente, mas tenho a impressão de que quase todos os senhores que eu vejo aqui na sala, desfilaram no Desfile da Fidelidade, do Pátio do Colégio até a Escola Caetano de Campos e passaram, portanto, pelo Vale do Anhangabaú. Quer dizer, pelo mesmo parque onde foram feitas ontem aquelas infâmias.
Bem, vocês, quando passaram por lá, não podem deixar de ter tido a impressão que tem uma pessoa quando passa numa hora favorável, e que o desvirtuamento da modernidade não conspurca muito aquilo – pelo Anhangabaú – uma certa idéia de grandeza.
Não sei se os senhores chegam a sentir isso, mas tem uma certa idéia de grandeza. Idéia que estava muito visível quando passou por lá o Desfile da Fidelidade. Quem viu o desfile do viaduto como eu vi, podia ter disso uma impressão emocionante.
Quer dizer, aquele vale bastante largo, depois aqueles gramados etc., etc., tudo muito raso, muito chato, de maneira que o espaço vazio era muito grande. E nos bordos de um lado e do outro, um casario feio, mas que tem alguns prédios antigos ainda tradicionais pelo meio, e que dão uma certa idéia do que é que aquilo foi; aquilo foi muito tradicional e muito bonito. Depois veio a modernidade e fez a porcaria que os senhores conhecem.
Bem, agora, o passar por lá dava, portanto, uma certa ideia de amplitude, de grandeza, de vocação para uma civilização onde as almas estivessem constantemente nas mais altas claves.
Mas o que é que é? São símbolos. Tudo isso é a voz do símbolo que fala.
Entre o clero e os fiéis haveria um terceiro braço que seria esse tipo de organização meio leiga, meio religiosa do tipo para onde nós tendemos a ser, e que é uma coisa nova que a Igreja na sua fecundidade engendrou no momento em que Ela estava nas dores das piores provações.
Bem, e que é uma espécie de traço de união entre o poder civil e o poder eclesiástico, entre o poder do Estado e a sociedade civil de um lado, e a sociedade eclesiástica de outro lado. Porque é o civil e o religioso.
E isto nasceu no momento em que era mais feio ser assim, era mais ridículo ser assim. E nós tínhamos que suportar sobre nós a chuva de lama do ridículo, da incompreensão. E quisemos isso e entramos na chuva de lama.
E nós estamos todos dourados e resplandecentes porque nós suportamos por amor a Ele e a Ela, nós suportamos tudo aquilo de que o homem tem mais medo: ser caçoado, de ser incompreendido, de ser posto de lado, de ser isolado dos seus etc., etc., é do que o homem tem mais medo.
Nossa Senhora nos deu graças para suportar isso.
Até o fim do mundo ficará assim: esses foram os que não tiveram medo da gargalhada… Desde que os que nos continuem sejam fiéis e não tenham medo eles mesmos da gargalhada. Aí será o símbolo de uma coisa magnificíssima!
É o auge da coragem que suportou o auge daquilo que é temível, e que é a gargalhada…
Notas: No que diz respeito à afirmação do Prof. Plinio de que “esse tipo de organização meio leiga, meio religiosa do tipo para onde nós tendemos a ser”, consulte o que já foi postado em “Qual é o papel do Clero e dos leigos? O que a TFP é e pretende ser no futuro? – Dr. Plinio responde” (com áudio e texto)