Oração do paraquedista francês, alma verdadeiramente de escol – Espécie de comentário ao trecho do Padre-Nosso: “Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no Céu”

Santo do Dia, 29 de setembro de 1973, sábado

 

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo“, em abril de 1959.

 

 

A Oração do Paraquedista é um texto escrito por André Zirnheld em 1938. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele se alistou nos paraquedistas das forças francesas livres e tornou-se membro do Serviço Aéreo Especial. Ele foi o primeiro oficial paraquedista francês morto em combate. Quando morreu em 1942, durante uma operação de comando na África, seus companheiros descobriram entre seus pertences pessoais este texto que se tornaria a oração do paraquedista. Este texto foi adotado pelas tropas de paraquedistas do exército francês, mas também pelos paraquedistas portugueses. Ele também foi musicado e é cantado regularmente durante as reuniões de paraquedistas.
Tenho aqui um pedido para comentar a oração encontrada no bolso de um soldado francês. É uma oração do paraquedista, é uma coisa muito simpática, altamente simpática:
“Dai-me Senhor, meu Deus, o que Vos resta, aquilo que ninguém Vos pede. Não Vos peço repouso, nem a tranquilidade, nem de alma, nem de corpo; não Vos peço a riqueza, nem êxito, nem a saúde. Tantos Vos pedem isso, meu Deus, que já não Vos deve sobrar mais nada para dar. Dai-me Senhor o que Vos resta; dai-me aquilo que todos recusam; quero a insegurança e a inquietação; quero a luta e a tormenta. Dai-me isso, meu Deus, definitivamente. Dai-me a certeza de que isso será a minha parte para sempre, porque nem sempre terei a coragem de Vo-la pedir. Dai-me, Senhor, o que Vos resta, dai-me aquilo que os outros não querem, mas dai-me também a coragem, a força e a Fé.”
Acho que poucas vezes tem sido feita uma oração tão bonita. É uma espécie de comentário daquela parte do Padre-Nosso: “Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no Céu”.
Os senhores conhecem bem qual é a missão do paraquedista. É de se jogar de um avião em cima das posições inimigas, ou então por detrás das posições inimigas, em território adversário, e enfrentar toda a espécie de risco. O paraquedista pode ser metralhado enquanto cai, pode ser apanhado de surpresa quando ele toca no solo, pode ser perseguido enquanto foge, pode ser detectado pela polícia e pode ser preso e pode ser morto. Não há na guerra contemporânea missão mais arriscada do que a do paraquedista.
Nessas condições o paraquedista é o que era o soldado de cavalaria antigamente, que tinha a primeira posição, contra o qual se quebrava o primeiro impacto dos adversários, e corria, portanto, os maiores riscos.
A missão do paraquedista também tem isso da cavalaria: ela exige uma coragem individual. Não se trata, como na infantaria e outras armas, de avançar meio anônimo no meio de outros que avançam, meio diluído na massa, meio sustentado pela massa, meio esperançado de que o tiro caia no companheiro da direita ou da esquerda, mas não caia nele.
O cavaleiro avançava – mas que pela natureza do combate – podia avançar em fileira e era como se estivesse sozinho. Assim também deve-se dizer o mesmo do paraquedista. Sua coragem é uma coragem individual, singular, uma coragem pessoal, de maneira que, sob alguns aspectos pelo menos – não digo por todos – assim com a cavalaria era outrora a arma nobre, hoje a arma nobre deveria ser o paraquedismo.
Não conheço modo de combate mais adequado para um filho de nobre do que o paraquedismo. Foi por isso exatamente que Dom Bertrand fez paraquedismo porque me parece que nada é mais bonito que um príncipe descendo com todo o peso da tradição. Isto é o que convém para alguém que nasceu da mesma estirpe de Dom Sebastião de Portugal que se imolou em Alcácer-Quibir etc., etc.
Esta oração do paraquedista é de um soldado que lutou contra o nazismo. Mas também de outros que lutaram em Dien Bien Phu (1954), na Indochina, contra os comunistas no Vietnã. Lutou, portanto, numa guerra que era uma cruzada antinazista, lutou por amor de Deus. Ele poderia ter concepções patrióticas laicas, poderia olhar para o bem da França, poderia considerar o que o nazismo tem de execrável em si do ponto de vista natural. Mas as suas vistas eram elevadas, observa-se que era um patriotismo aceito por ele por amor de Deus, e era paraquedista por amor de Deus.
O que significa, no caso, ser paraquedista por amor de Deus? Quer dizer, as razões que o levavam a lutar contra o totalitarismo a favor da França eram razões de fundo moral, e como toda razão de fundo moral só é consistente quando tem um fundo religioso. E nós, católicos, sabemos que nenhuma razão de fundo religioso é consistente se não é de fundo católico. Assim chega-se à conclusão de que o paraquedista lutava por espírito católico. Quer dizer, sua luta era a de um mártir, era de um cruzado. Ele lutava, e morrendo, podia ir para o Céu como mártir.
Agora, então, ele faz um pedido que é comovedor. Diz o seguinte:
“Meu Deus, quanta coisa os outros Vos pedem; todo mundo Vos pede saúde, todo mundo Vos pede dinheiro, todo mundo Vos pede glória, pede êxito, pede diversões e Vós, bondoso e lhes dando, e lhes dando, e lhes dando… E do imenso tesouro de Vossa bondade quase que se diria – entra um pouco da brincadeira francesa na formulação da oração, porque de fato as bondades de Deus são inesgotáveis – quase que se diria que Vós não tendes mais nada que dar. Fica em Vossos tesouros os dons que os outros não pediram.”
Quais são esses dons?
“É o risco, é a insegurança, é a luta, é a doença, é a morte, é tudo aquilo que ninguém Vos pede porque quão poucos são aqueles que Vos pedem essas coisas, são raríssimos. Ora, a Vossa misericórdia pede que os homens peçam os dons dos quais todo mundo foge, os homens Vos pedem prazeres, os homens Vos pedem alegrias, os homens não Vos pedem a vossa cruz e a vossa cruz é o maior de vossos dons; o dom que Vós destes à Vossa Mãe, o dom que Vós destes a vossos Apóstolos. O dom que Vós destes a todos aqueles que se assinalaram no amor por Vós é a vossa Cruz. Eu paraquedista, venho pedir-Vos a vossa Cruz. Quer dizer, o sofrimento sob todas suas formas: não fazer carreira, ficar um anônimo, não ter saúde, ser um doente, não ter dinheiro, ser um homem pobre, não ter glória, ser um homem obscuro, não ter vida longa, morrer de repente numa vida curta. Eu Vos peço, meu Deus, todas essas coisas”.
Esta é a oração do paraquedista quando ele se joga, e ele então aceita aquela morte para a qual se atira por amor de Deus.
Os senhores veem o esplendor que tem dentro disso! Os outros homens não pedem a Deus que se faça a vontade de Deus, mas pedem a Deus que se faça a vontade deles. Esse aqui pede a Deus que se faça a vontade dEle e que se Deus quiser dispor de si para um fim doloroso qualquer, ou para uma vida cheia de dores, faça-se a vontade de Deus, ele pede.
Essas são as almas verdadeiramente de escol, estes são os verdadeiros heróis! Não é o herói que, portanto, vai para a frente com a vontade de voltar cheio de glória, mas é o herói que vai para a frente com a vontade de servir a Deus. Esta é a descrição perfeita da alma perfeita, colocada nos caminhos da vida e da morte.
Nós não temos – ao menos no momento em que as condições do país são normais e calmas, em que a paz parece assegurada no mundo -, nós não temos ocasião de dar o risco de nossa vida por nosso país. Entretanto, temos algo mais difícil para dar e – eu insisto -, é mais aceitar uma luta legal e doutrinária contra toda a sociedade contemporânea, em que aceitamos de ser postos de lado. Aceitamos de não fazer carreira, de não termos simpatias, nós aceitamos de sermos mal vistos até pelos nossos íntimos, nós aceitamos de passarmos pela rua e deixarmos um rastro de antipatias, nós aceitamos de sermos diferentes dos outros de tal maneira que eles evitam de se mesclar conosco.

 

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Conde Louis Marie de Narbonne Lara (1755-1813)

Havia no tempo de Luís XV, portanto bem antes da Revolução Francesa, um fidalgo que tinha o nome na França de Conde de Narbonne Lara. Lara era um ramo espanhol da família dele. Esse homem era extremamente forte, vigoroso, um atleta, de uma musculatura extraordinária e muito inteligente. Ele tinha aprimorado as suas maneiras de maneira que era elegantíssimo de maneiras, muito fino, muito distinto, e tinha uma prosa que deixava todo mundo maravilhado. Era, portanto, um homem muitíssimo bem dotado de alma e de corpo.
Arrebentou a Revolução Francesa e esse homem combateu contra a Revolução e depois se exilou. Napoleão então subiu ao poder na França e ele voltou. E teve o gesto, a meu ver censurável, de se inscrever no exército de Napoleão, nessa época ele já era então um homem de cinquenta anos, quando o vigor físico francamente está começando a declinar.
Ele era de tal maneira um homem forte que Napoleão tomou-o como ajudante de ordens, e ele fez daí por diante todas as grandes campanhas napoleônicas, inclusive a campanha da Rússia em que os senhores sabem que Napoleão foi progredindo pelo inverno adentro até Moscou, queimaram a cidade de Moscou, Napoleão teve que retroceder então num frio inclementíssimo e o que sofreram suas tropas foi uma coisa simplesmente inenarrável. Durante esse tempo inteiro, esse Conde, já um homem então de mais de cinquenta anos, aguentou privações físicas que faziam com que soldados jovens de vinte, vinte e cinco anos, sentassem em cima das armas e chorassem de frio, de fome, de medo e eram os famosos soldados de Napoleão…
O Conde de Narbonne passou durante todo o tempo sempre enérgico e batalhador como os mais moços. Mais ainda, tendo por toda parte uma palavra alegre, uma palavra amável, um dito que animava todo mundo, uma presença contente, satisfeita, ele, que tinha o direito de resmungar, porque tinha a tal ponto mostrado a Napoleão que a guerra da Rússia era uma loucura que este chegou a lhe aplicar uma punição. Mas depois que ele viu que Napoleão estava declinando, achou que não era mais o caso de resmungar, mas pelo contrário, de aguentar a mão e assim ele voltou até Paris, caminhadas a pé imensas, fome, tudo o que os senhores possam imaginar!
O seu biógrafo escreveu que ele desempenhou uma missão especial na França: Os soldados de Napoleão eram todos que tinham feito um curso muito primitivo e quase sem cultura, os generais dele eram generais improvisados no campo de batalha, eram homens corajosos, mas sem inteligência e sem cultura. E, diz esse historiador, que o espírito francês é todo feito de uma aliança entre a inteligência e a coragem, de maneira que a França deixará de existir no dia em que os homens de coragem não forem inteligentes, ou em que os homens de inteligência não tiverem coragem. Então numa época em que esses dons estavam dissociados, aonde os homens de coragem não tinham inteligência e os homens de inteligência já não tinham coragem, ele reuniu esses dons para que a França continuasse e foi no esplendor de sua pessoa que a França continuou.
Não é pouca coisa, é uma biografia magnífica, e os senhores estão vendo que esse era um homem que sabia lutar. O biógrafo conta tudo o que ele passou, mas depois cita um trecho do Conde de Narbonne que diz o seguinte: “os sofrimentos da vida civil, levados por um homem honesto, são muito mais duros do que o que sofri na retirada da Rússia, ou em todos os campos de Napoleão”. É a minha velha tese de que a nossa resistência é muito mais meritória do que os soldados de Lepanto. É um herói dos exércitos de Napoleão que afirma…
Alguém poderia dizer: “Napoleão era maçom”. Não deixa de ser verdade de que quando se tratava de atravessar o inverno, com maçonaria ou sem maçonaria, o inverno faz tiritar, a fome faz sofrer, e o risco de levar uma bala é muito pior para um homem que é maçom, e que sabe para onde ele vai depois, do que para um que tem a consciência tranquila como esse paraquedista. Está bem, esse se lamentava de que na vida civil ele tinha sofrido muito mais do que na vida militar.
Então os senhores podem oferecer a Nossa Senhora os sacrifícios de uma vida civil pura, sem megalice, despretensiosa e inteiramente entregue à Causa dEla. Eu volto a dizer: pura, sem megalice, e inteiramente entregue à causa de Nossa Senhora. É isto que os senhores devem oferecer.
Acho que essa oração poderia ser reproduzida na “Circular Boletim” para conhecimento de todos, com uma nota ao pé da página de que os termos dessa oração podem ser transpostos perfeitamente para os deveres e encargos da vida civil que é a dos sócios e/ou cooperadores da TFP.

 

(versão fanfarra, sem canto)

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