Os Apóstolos só estavam bons para seguir um chefe bem sucedido, perpetuamente triunfante. Um chefe padecente e derrotado, não seguiram…

Sede da Rua Pará, 13 de abril de 1968, Sábado Santo

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

[Nota: Infelizmente, o texto abaixo está mais completo do que a gravação, que teve alguns trechos perdidos]

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[Leitura de um trecho de Sóror Maria de Ágreda]

O trecho é muito adequado, aliás, ao Sábado Santo, com o caráter ainda doloroso que ele tem no calendário litúrgico atual. Porque, como os senhores estão vendo, se trata da fuga e divisão dos Apóstolos com a prisão de seu Mestre e a notícia que teve a sua Mãe Santíssima, e o que Ela fez nessa ocasião. Então, diz aqui:

À toda capacidade humana e angélica excede a grandeza de Maria Santíssima nesta ocasião, e as obras que fez em plenitude de santidade que manifestou aos olhos e o beneplácito do Altíssimo. Porque soube [olhar] por cima das dores [sensíveis] e espirituais que padeceu pelos tormentos de seu Filho Santíssimo e das injúrias afrontosas que padeceu sua Divina Pessoa cuja veneração e ponderação estava no mais alto grau em Sua perfeitíssima Mãe. Sobre tudo isto lhe acrescentou a dor da queda dos Apóstolos que só sua majestade podia ponderar convenientemente”.

O pensamento é que a tristeza com a queda dos Apóstolos foi uma tristeza tão grande, que só o próprio Filho de Deus Humanado tinha os meios de ponderar convenientemente essa tristeza.

Aí os Srs. veem uma coisa que é o revés do que imagina o povo. As pessoas comuns imaginam o seguinte: que as grandes dores, por se basearem em razões muito evidentes, são compreensíveis por qualquer um. Mas que, pelo contrário, as pequenas dores e as pequenas provações, essas, por consistirem em algo de mais sutil e de mais imponderável, não podem ser avaliadas por qualquer um.

É não conhecer o espírito humano. O espírito humano é altamente perspicaz para bagatelas. E é profundamente cego para as coisas importantes. De maneira que a dorzinha pequenininha, a dorzinha banal, o homenzinho pequenininho, terra-a-terra e de espírito banal, compreende.

Mas medir até o fundo uma dor profunda, medir até as suas últimas consequências as razões de um grande sofrimento, isso é para os espíritos superiores. É por causa disso que no teatro trágico sempre se considerou o triunfona literatura trágicado literato, o ele ter sabido pôr em relevo o fundo das razões das grandes dores.

Quer dizer, aqui, sem entrar nessa cogitação, o segundo sentido da coisa é esse. E é um segundo sentido muito verdadeiro. Quer dizer, tal foi a desgraça desse fato, de que o Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós; que repudiado pela sua nação, Ele tomou uma minoria; que nessa minoria Ele escolheu uma minoria, que era apenas de doze pessoas, a quem Ele deu Seu Coração, a quem Ele deu Sua doutrina.

Em benefício de quem, de preferência a todos os outros, Ele fez os Seus milagres. A quem Ele deu ainda, na manhã da Quinta-Feira Santa, o Seu Corpo e Sangue, sob as espécies eucarísticas.

Que esses O tenham abandonado… E que o fracasso terreno de Sua obra tenha sido tão monumental e tão estrondoso que aqueles que eram d’Ele mais proximamente, esses O abandonaram…

Então a gente compreende o caráter pungente daquela afirmação de São João: que “veio para os Seus e os Seus não O receberam…” Ele veio e entre os que eram mais Seus, esses, em momento dado, não O receberam.

Não O receberam na hora mais sublime!

Não O receberam na hora mais dolorida!

Não O receberam na hora em que mais deveria ter sido recebido!

Não O receberam quando Ele mais implorou que fosse recebido!

Os Srs. ontem ouviram o coro cantar “Una hora non potuisti vigilarem mecum?Vós não pudestes estar vigilantes comigo, uma hora sequer? Não é verdade?

Então, isso é uma coisa tão trágica, é uma coisa tão triste, as razões de caráter histórico, de caráter universal, que se reportam à própria dignidade de Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto Homem-Deus, ao que há de mais profundo em Sua missão; essas razões são tão elevadas para explicar a tristeza disso, que só o Homem-Deus pôde devidamente medir essa tristeza.

Para um homúnculo ou para uma mulherica, isso se esgota em razões sentimentais: ele estava precisando de um amparo moral e Ele não teve quem lhe desse esse amparo… É claro que a realidade é essa! É claro que o fato é esse! Mas era preciso ver o seguinte: quem é esse Ele que estava precisando de um amparo moral? É o próprio Deus, que é a força de tudo quanto é forte, que quis – por amor de nós – colocar-se nessa situação de precisar de um amparo moral nosso!

E nós, que devemos tudo a Ele, e os Apóstolos que superlativamente deviam tudo a Ele, eles negaram! Aqui está a tragédia da coisa! Medir isso, só uma inteligência como a de Nosso Senhor Jesus Cristo – a mais perfeita de todas as inteligências criadas e iluminada pela torrente de graça que vinha da união hipostática com a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade – podia medir isso convenientemente.

Os Srs. estão vendo aí como a nossa Fé nos pede profundeza de reflexão. Pede que nós sejamos homens de pensamento. Pede que nós sejamos homens de profundidade. Capazes de e desejosos de – e sumamente desejosos – de subir ao mais alto das mais altas razões. Descer ao mais fundo das mais profundas investigações.

* O interesse pela microlice, pela bagatela… por nós mesmos!

E exatamente o que eu encontro da parte nossa é uma aversão a isso, uma microlice, uma pequenez de espírito por onde tudo quanto é bagatelinha nos interessa. E por onde as coisas verdadeiramente grandes, delas nós fugimos. Nós temos horror dos grandes céus, dos grandes firmamentos! E para nós, nós temos vontade de ver aquilo que divisaria os horizontes, que divisaria um inseto preso numa caixa de fósforos. Isso nos apetece.

É a caixa de fósforos de nossa pequenez, de nossa trivialidade. Isso nós queremos ver!

Nós… nossas pessoas… nossas coisinhas… nossa megalice… nossa preocupação… nós… nós e nós… E é porque nós só nos interessamos por nós, que nós ficamos com essa forma miserável de miopia, que nós não somos capazes de nos interessar pelas coisas mais altas.

Os Srs. veem neste documento de Maria de Ágreda, logo de início, que multidão de sabedoria cabe e que lição para nós! Na Morte de Nosso Senhor na Cruz, um convite para altíssimas meditações, para profundíssimas consequências.

Os Srs. entram numa igreja: está todo mundo recolhido, está o coro cantando, está o Crucifixo ostentado e o povo vai fazendo a adoração da Cruz.

Quantas são as almas ali, que se aproximam sedentas dessa alta visão? Nada! Tudo se cifra num sentimentalismo. Nosso Senhor tem que receber, depois do beijo de Judas, o beijo dessa superficialidade, esse ósculo melado e frio de um sentimentalismo que não esgota o fundo das coisas. E que fica apenas numa compaixão fácil e superficial.

Os Srs. veem como isso é errado, como isso é vulgar. E, entretanto, como isso é frequente.

Sirva isso de consideração para que nós saibamos bem como nós nos devemos pôr diante do Crucifixo. Como nós devemos preparar a nossa alma para ser parecida com a alma de Maria Santíssima, quando nós estamos diante do Crucifixo; uma alma profunda, da qual o Evangelho diz que Ela guardava todas essas coisas e as conferia em Seu coração”, meditava no Seu coração.

Então, aqui continua:

“Ele olhava a sua fragilidade e o olvido que haviam mostrado (sua, aqui, diz respeito aos Apóstolos), dos favores, doutrina, avisos e admoestações de Seu Mestre”.

Cada uma destas coisas mereceria uma palavra.

No trato de Nosso Senhor… é próprio da grandeza, da generosidade d’Ele, estar fazendo favores contínuos. A presença d’Ele era um favor. Cada palavra que Ele dizia era um favor. Cada olhar que Ele dava era um favor. Cada gesto era um favor. Ele não podia estar presente entre Seus Apóstolos sem estar, por assim dizer, irradiando favores a todo o momento e de todos os modos.

E, naturalmente, diante daquela ingratidão, Ele se lembrava desses favores. Mas que favores eram? Não era um favor de qualquer um que dá uma manta qualquer para um outro. Mas Ele tinha dado coisas eternas. Favores que eram frutos de vida eterna. E eram garantias de vida eterna. Ele tinha dado uma participação com Deus. E, entretanto!…

Além dos favores, fala aqui da doutrina que Ele deu.

Quão pouca gente compreende que a doutrina é um favor! Se a gente chegasse para muitas pessoas e lhes desse um remédio para passar a dor, quando estivessem com uma dor física, elas ficariam mais gratas do que com uma doutrina que se lhes dá. Entretanto, a doutrina vale muito mais do que qualquer carícia. A doutrina vale muito mais do que qualquer remédio. A doutrina vale muito mais do que qualquer milagre. Porque é depois de nós termos conhecido a doutrina, que nós somos capazes de amar. E a doutrina é a luz que torna possível o amor. Portanto, o dom da doutrina é um dom incomparável!

Quanta frieza – ao receber a doutrina – dos Apóstolos! Quanta coisa Ele tinha ensinado! Na hora do aperto, zero! Não vale nada!

Bem, depois acrescenta:

“…os avisos e admoestações”.

São Pedro, por exemplo. Ele admoestou contra a megalice: “Antes que o galo cante três vezes, tu me trairás”. – “Não, não vai acontecer”…

Como é que ele se atrevia a dizer “não” a Nosso Senhor? Como é que ele se atrevia a duvidar dAquele que ele sabia que era Deus? Que ele tinha proclamado como sendo Deus? Entretanto, a megalice tinha chegado a esse ponto!

Agora, por que era essa indiferença? A própria Paixão nos exprime bem isso. É porque eles se amavam muito a si mesmos. Na hora em que as pessoas deles estiveram em risco – mas não é o risco de morrer; é o risco de passar uma noite cacete, é o risco de aturar o convívio com um amigo que está sofrendonessa ocasião eles tiveram sono.

“Esse homem está “pau”! Não está me divertindo como me divertia. É pela primeira vez, é que Ele está precisando de mim. Eu estava habituado a viver pendurado n’Ele. Quando eu precisava d’Ele, tinha muito boa vontade de estar com Ele. Agora eis que dá n’Ele essa ideia extravagante de precisar de mim… Ora essa, não! Eu estava habituado a sacar n’Ele como num Banco.

Quer doutrina, dá!

Quer favor, dá!

Quer milagre, dá!

Quer paciência, dá!

Agora esse homem inverte a ordem das coisas. E é Ele que se lembra de pedir algo para mim? Ohhh, isso não! Eu vou dormir… Positivamente, esta noite está cacete!”

Ele vai e acorda. E o pessoal cai no sono… E Ele diz:

– “Vós não pudestes vigiar uma hora comigo?” Ahhh?! Sono pesado! É o sono do egoísmo. É o sono da preocupação com si mesmos.

Os Srs. podem imaginar como eram os microlôs, os Apóstolos antes disso? Quanto eles tinham preocupação consigo mesmos? As sandálias deles, as túnicas deles…

* Tenho a impressão que São Pedro tinha uma tentação medonha de voltar a ser pescador em Genesaré

Eu tenho a impressão de que São Pedro tinha uma tentação medonha de voltar a ser pescador em Genesaré! Eu tenho a impressão de que os outros Apóstolos tinham uma admiração pelos trabalhadores manuais, colegas deles, que era uma coisa tremenda!

Eu tenho impressão de que todos eles não se consolavam de não ser uns plebeuzinhos vulgares da Judéia, e de terem sido arrastados por Nosso Senhor Jesus Cristo, ao longo do Seu caminho.

Tudo isso aflorou nessa noite, em que pela primeira vez Nosso Senhor precisou deles. Chegou a hora de Nosso Senhor precisar, aconteceu o que aconteceu!

Os Srs. estão vendo bem o que é a miséria humana. Mas quais são as raízes da miséria humana? Essas raízes são a preocupação consigo mesmo.

Quando nós temos muita preocupação conosco, quando o grosso do nosso dia se passa em pensar em nós; quando a todo o momento nós temos vontade de sobressair; a todo o momento nós temos vontade de descansar; a todo o momento temos vontade de agradar-nos em algo, nós podemos estar certos, que quando Nossa Senhora precisar de nós, nós vamos ratear!

Porque não é possível uma pessoa ter um tão grande apego a si mesmo e na hora de dar, ela dá. Não dá nada! Ela se deseducou para o dar. Ela nem tem o amor necessário. Porque quem tem amor necessário, não é tão apegado a si mesmo, não tem perigo! Essa é a realidade.

E então Nosso Senhor está pensando na doutrina que foi negada. Deus é a própria Verdade. Negada a doutrina que foi dada, e que não despertou gratidão, negada a doutrina, foi negado Deus!

Ele está pensando nos favores que foram feitos. Mas Deus é a própria bondade. Negados esses favores, está negado Deus.

Ele estava pensando, naquela ocasião, nos avisos e admoestações, que como diretor espiritual infinitamente sábio Ele dava, e por cima do qual as pessoas passaram! Não se incomodaram! Não tiveram medo!

O que eu acho fantástico aí é o seguinte: (São João não esteve excluído disso) nessa noite, que foi a noite mais triste da História… eu creio que foi a noite mais triste ainda do que a noite primeira em que Nosso Senhor permaneceu no Seu Sepulcro. Nessa noite que foi a noite mais triste da história, São João prevaricou também.

Agora os Srs. vejam a bondade de Nosso Senhor. Ele que via a “poquice” de São João, Ele ainda chamava São João de discípulo eleito, e condescendia em fazer uma preferência dentro dessa charneca; condescendia em ter um bem-amado, no meio desses ingratalhões.

Esse bem-amado, depois, recebeu graças de Nossa Senhora e esteve ao pé da Cruz. Mas, depois de que vergonha! Depois de que miséria! Entretanto, esse tinha liberdade de colocar a cabeça sobre o peito d’Ele!…

E Ele sabia quão pouco valia aquela cabeça que Ele permitia que colocasse no Seu peito. Daí aquela queixa de Nosso Senhor no Evangelho, que antecedeu à Paixão, essa queixa. E Ele dizia aos discípulos: “Vossas cogitações não são as minhas cogitações. Nem os vossos caminhos são os meus caminhos”.

Eles ouviam isso à la microlô. – “Ah é, é? Que interessante… É. Olha, faça um milagre para eu ver, para ver se eu acredito. Me diga uma coisa bonita, porque eu estou cansado de andar”. Se Ele estava cansado, não tinha importância nenhuma! Mas eles queriam estar se distraindo… Como tudo isso é terrível! Como a miséria da natureza humana aparece aí de um modo tremendo! Não é?

Bem, mas só Ele media isso convenientemente. Daí a tristeza dEle, a enorme tristeza d’Ele vinha precisamente desse ponto.

 

* Nossa Senhora, sozinha, descendo ao abismo de cada infidelidade e, ali, rematando a meditação por um cântico de fidelidade

E depois continuava:

E isto tão breve tempo depois da Ceia, do sermão que nela fez e da Comunhão que lhe tinha dado”.

Os senhores compreendem que ninguém pode estabelecer um vínculo com alguém como dando-se em Comunhão com esse alguém. Ele tinha se condescendido em se dar em Comunhão para essa gente. Era o sumo da união! Pouco incomodava! À noite já vinha a traição!…

E a dignidade de sacerdote que tinha conferido e que os tinha levantado tanto e que constituía contra eles tantas obrigações. Conhecia também seu perigo de caírem em maiores pecados, pois a sagacidade com que Lúcifer e seus ministros das trevas trabalhavam para derrubá-los, e a inadvertência com que o temor tinha possuído os corações de todos os Apóstolos…”

Quer dizer, Ele não só via a ingratidão de todos os Apóstolos, mas Ele via os perigos em que os Apóstolos caíam. E Ele via os perigos por causa das tentações de Lúcifer. E Ele via a indiferença dos Apóstolos perante esses perigos. É o próprio do tíbio: o tíbio não tem medo de sua perdição espiritual, ele facilita, ele incorre em ocasiões, ele brinca com a tentação, ele namora a tentação, ele vive de braços dados com pontinhas de tentação. Para ele, nada disso tem importância.

O que tem importância para ele é levar uma vida agradável. E Nosso Senhor via isso e via o precipício em que os Apóstolos iam afundar. Da mais negra negação que possa haver.

E por tudo isto multiplicou e acrescentou os pedidos até merecer para eles o remédio. E que Seu Filho Santíssimo os perdoasse…”

Ah! foi Nossa Senhora que pediu.

“…e que Seu Filho Santíssimo os perdoasse e acelerasse Seus auxílios, para que logo volvessem à fé e à amizade da Sua graça. Que de tudo isto foi Maria o instrumento eficaz e poderoso”.

Quer dizer, Nossa Senhora media tudo isto, Ela rezou. E foi porque Ela pediu que eles voltaram à fé e à graça.

Os senhores estão vendo aqui a afirmação de que eles perderam a fé nessa noite. É a coisa mais sinistra que se possa imaginar no mundo é alguém ter perdido a fé. Pois bem, eles perderam a fé nessa noite, e foi preciso Ela rezar para que eles recuperassem a fé. E se Ela não rezasse, eles não teriam fé. Quer dizer, estavam eternamente perdidos.

Houve, portanto, para a cura deles, um milagre da graça, e esse milagre foi obtido por Ela.

Neste ínterim, essa grande Senhora rememorou no seu peito toda a fé, a santidade, o culto e a veneração da Igreja inteira que esteve toda n’Ela como numa arca incorruptível, conservando e encerrando ali a lei evangélica, o sacrifício, o templo e o santuário”.

Como todo mundo tinha perdido a fé, tudo estava nEla: o Antigo Testamento, ainda meio vigente, e o Novo Testamento nascente. Quer dizer, estava tudo nEla. E Ela, então, reunindo em si a fé de toda a Igreja Católica, pediu pelos Apóstolos. E aí Ela conseguiu aquilo que eles nunca mereceriam. Jamais, jamais, jamais!

E só Maria Santíssima era, então, toda a Igreja e só Ela cria, amava, esperava, venerava e adorava o objeto da fé por Si, pelos Apóstolos e por todo o gênero humano. E isso de maneira que recompensava, enquanto era possível a uma mera criatura, as insuficiências e a falta de fé de todos os restantes membros místicos da Igreja”.

É claro que era uma reparação superabundante. Mas ela acrescenta: “enquanto era possível”. Porque o pecado tem uma gravidade a bem dizer infinita. E nenhuma reparação meramente humana está à altura de resgatar o pecado. Nem a d’Ela. Só a de Nosso Senhor é que está. Enquanto possível, Ela resgatava.

Fazia heroicos atos de fé, esperança, amor, veneração e culto da divindade e humanidade de Seu Filho, Deus verdadeiro, e com genuflexões e prostrações O adorava, e com admiráveis cânticos O bendizia”.

Os Srs. podem imaginar que coisa magnífica os Anjos tiveram ocasião de contemplar nessa noite! Nossa Senhora em algum recinto, talvez no próprio edifício onde se realizou a Ceia, Nossa Senhora sozinha… E no silêncio daquela noite, a Terra inteira pecando e Ela cantando! Interrompendo as Suas orações para fazer cânticos que não se conhecem. Que só os Anjos conheceram e que nós conheceremos quando formos para o Céu. Cantando as Suas reparações. Ela, que compôs o Magnificat. Tomando ponto por ponto, descendo ao abismo de cada infidelidade, e ali rematando a meditação por um cântico de fidelidade!

Que cena tocantíssima deveria ser essa! Essa cena Ela passou sozinha. Porque ninguém era digno de ver. Só os Anjos eram dignos de ver. Mas que magnífica maneira de nós meditarmos a Paixão! Nós nos associarmos a esses cantos da soledade de Nossa Senhora. Inteiramente só!

Na noite do crime, o cântico da única virtude! Mas da maior virtude de toda terra elevando-se até o Céu! Ela sentia uma dor infinita, tanto quanto isso se pode dizer de uma criatura. Uma dor incomensurável, não é?

Sem que a dor infinita e a amargura de Sua alma lhe tirassem a têmpera, o instrumento de suas potências concertado e temperado com a mão poderosa do Altíssimo”.

Em outros termos, Ela sentia uma dor infinita, tanto quanto se pode dizer isso de uma criatura. Uma dor incomensurável. Mas essa dor não lhe tirava a têmpera. Ela estava lucidíssima! Inteiramente senhora de Si, e Seus raciocínios continuavam de uma lógica perfeita, a Sua fé de uma força inquebrantável, e Seu cântico de uma harmonia sem mancha nenhuma! Tal era o senhorio que Ela tinha sobre Si mesma e o domínio que tinha sobre si mesma. Isso é sofrer! Isso, sim!

Às vezes se costuma dizer que o auge do sofrimento é desmaiar de dor. Ou então, morrer de dor. Não é o auge do sofrimento. O auge do sofrimento é sofrer tão bem, que a gente sofrendo tudo quanto possa sofrer, conserva toda lucidez, toda vontade, todo acerto. Aqui é a dor perfeita. Sem moleza!

Não se referia a essa grande Senhora o que disse o Eclesiástico que a música na dor é importuna, porque só Maria Santíssima soube e pôde, em meio a Suas penas, aumentar a doce consonância de Sua virtude”.

Acho melhor não comentar esta frase… Ele excede ao comentário.

E vem aqui, então, a doutrina que Nossa Senhora deu a respeito desse assunto.

Na queda dos demais Apóstolos Eu quero, caríssima…” –

Ela se dirigia a Sóror Maria de Ágreda.

“…que advirtas o perigo da fragilidade humana, que ainda mesmo nos próprios benefícios e favores que recebe do Senhor, facilmente se acostuma a ser grosseira, tarda e desagradecida, como sucedeu aos onze Apóstolos quando fugiram de seu Mestre celestial e o deixaram com incredulidade”.

Vejam bem a expressão interessante: “grosseira, tarda e desagradecida”. É a descrição da alma do tíbio. O tíbio é muito suscetível. Mas muito! Por isso ele é grosseiro. Porque toda pessoa que é suscetível faz grosserias. Porque como ela é egoísta, ela só é suscetível a respeito de si mesma. Ela sente o que fazem para ela. Ela não sente o que ela faz para os outros. É o próprio da tibieza.

* O suscetível é capaz de todas as indelicadezas, não percebe os coices que dá nos outros, e de se julgar uma vítima sem mancha

E por causa disso, ela é capaz de todas as indelicadezas e de se julgar, da parte dos outros, uma vítima sem mancha. “Nunca” ela fez nada para ninguém… Porque todos os coices que ela deu, ela não percebeu que eram coices. Porque nem lhe passou pela cabeça perguntar se aquilo feria alguém. Era ela que estava fazendo! Era gostoso fazer… O que mais?! Então, é grosseira.

Depois, o segundo adjetivo, se não me engano, é “tarda”. É bem isso! Quer dizer, a lentidão. Tarda, quer dizer, recebe um incitamento à virtude, corresponde tarde e um pouquinhoNão tem pressa nenhuma! Acha que sempre é tempo para se emendar. Acha que há sempre tempo para praticar a virtude. Não acredita que a morte venha de um momento para outro. A morte também virá devagar. E ela terá ocasião de se penitenciar.

Quer dizer, ela é de carretão. É preguiçosa, é lenta. Leva anos e não se emenda, não se converte!

Depois, diz aqui: é “lenta, tarda e ingrata”. Ingrata, nem é bom falar! É a mais rara, talvez, das virtudes humanas e a mais frágil. Na melhor das hipóteses, as pessoas que recebem um favor ficam agradecidas no momento que recebem o favor.

Os Srs. dirão: “Bom, Dr. Plinio vai acrescentar o que todo mundo já disse: e depois disso, se esquecem”. Não é verdade. Depois disso não se esquecem: vingam-se! Porque ficam nodosas [ressentidas] do favor que receberam. Ficam nodosas de ter estado numa ocasião de ter tido de receber favor. Então procuram uma ocasião para escoicear seu benfeitor.

E, nesse sentido, o ingrato tem uma memória de ouro! Nada lhe é mais agradável do que cerrar de cima com seu benfeitor. E lhe fazer sentir a sua “superioridade”, para vingar-se dos benefícios que recebeu. Esse é o homem! E para isso o homem tem uma memória de ouro! Não tenham dúvida. O homem, de si, é um chacal! Não é outra coisa.

Então, Ela volta a falar da incredulidade:

Fugiram de seu Mestre celestial e o deixaram com incredulidade”.

* Só estavam bons para seguir um chefe glorioso, perpetuamente triunfante. Um chefe padecente e derrotado… não seguiram

Notem bem como isso é diferente da imagem comum dos Apóstolos meramente medrosos. Eles teriam tido medo e por causa disso fugiram. Não foi só medo. Faltou a Fé. Vendo Nosso Senhor perseguido, eles duvidaram. Porque eles só estavam bons para seguir um chefe glorioso, perpetuamente triunfante. Um chefe padecente e derrotado, eles não seguiriam. Eles duvidariam. E daí veio o que os Srs. viram.

Esse perigo se origina, nos homens, do fato de serem tão sensíveis e inclinados a tudo quanto é sensível e palpável…”

“Palpável”, aqui, no sentido de terreno.

“…e terem ficado essas inclinações depravadas pelo pecado e acostumarem-se a viver e obrar segundo o que é terreno, carnal e sensível”.

Aqui é um ponto muito importante. A maior parte dos homens se preocupa com o que é palpável, com o que eles veem. As realidades invisíveis, eles repugnam. Eles têm preguiça de deter o seu espírito no que é invisível. Eles gostam do que lhes fala ao corpo. Do que lhes fala à alma, muito menos. Então, por causa disso, vem não só o egoísmo, mas uma forma depravada de egoísmo, por onde o homem quer para si as coisas micro, as coisas pequenas.

E daqui nasce que ainda os mesmos benefícios do Senhor, os tratam e amam sensivelmente. E quando lhes falta por esse modo, logo se divertem [se distraem] em outros objetos sensíveis e se movem para eles. E perdem o tino da vida espiritual”.

Isso quantas vezes acontece na vida do Grupo! Estão numa reunião, quando a reunião é agradável, quando tem consolações sensíveis, prestam atenção. Logo que vem a aridez, logo que vem a provação, logo que vem um mal-entendido, que vem uma queixa, que vem um “nó”, começa a pensar em outra coisa…

Por quê? Porque vem a ingratidão. Aquilo se tornou desagradável, já não é mais a coisa sensível. Então, desaparece a atração.

E daí, em parte, a conduta com Nosso Senhor. Nosso Senhor sempre tão agradável! Ele era tão agradável que as multidões – por exemplo, a gente vê isso no Sermão das Bem-Aventuranças – as multidões iam atrás d’Ele sem pensar sequer no que comer. Enlevados pela palavra d’Ele. Ou, simplesmente, pela presença d’Ele.

Bom, naturalmente o que acontecia é que todo mundo, com essa atração, achava isso mais agradável do que a vida comum. Mas quando Ele deitou um véu sobre a Sua agradabilidade e apareceu a Cruz, os Apóstolos O deixaram… Por quê? Porque era preciso eles estarem sempre sensivelmente atraídos, sensivelmente agradados. Aparecendo outra coisa, fugiram! E fugiram completamente!…

Isso se dá na vida do Grupo enormemente. Aparecem as aridezes e dá a fuga. Por quê? Porque não estava divertido…

Reuniões: quando a gente trata de uma reunião séria, há muita gente que não se diverte. Há muita gente que tem muito mais atração sobre uma reunião a respeito da queda do dólar, do que sobre o Sangue que Cristo verteu do alto do Calvário.

Agora, por quê? Porque o dólar era uma coisa palpável, que diz respeito a outras coisas palpáveis. É fácil pensar no dólar. Então, a gente gosta mais de uma reunião sobre o dólar do que sobre o precioso Sangue de Cristo. Judas também gostava mais de dinheiro do que do precioso Sangue de Cristo…

Agora, acontece que às vezes a gente faz uma reunião e é uma reunião como esta aqui, que convida a pensamentos de tristeza; convida a pensamentos de compunção; apresenta a coisa debaixo da cor lúgubre. Eu insisto na palavra “lúgubre”. Lúgubre da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo é lúgubre! E só não é lúgubre para beatas e para bobinhos. Para gente séria, é lúgubre. A gente apresenta isso, a pessoa acompanha. Mas quando termina o comentário, sente uma espécie de alívio: “Ufa! Agora vamos poder falar a respeito do Vietnã”. Era gente que se se falasse antes do Vietnã, não prestava atenção. Porque gostaria de pensar a respeito de suas abotoaduras ou a respeito de seu sapato…

Mas sempre que se trata de uma coisa alta, elas estão ansiosas do degrau inferior. Então, quando a gente trata do altíssimo, elas pensam no Vietnã. Quando se fala do Vietnã, a coisa vai caindo, até cair sobre o problema de saber se convém ou não comprar outro tapete desse… Então a discussão é animada, conversas, opinião pró, opinião contra etc., etc. Entusiasmo, não é verdade? Micro! São as almas exatamente que têm horror dos grandes firmamentos! Por quê? Vem disso aqui. A coisa sensível cessando, o prazer sensível cessando, acabou-se…

Às vezes eu vejo isso na vida do Grupo. Eu vejo isso de gente que gosta muito das conversas que se tem coletivamente no Grupo, enquanto são conversas engraçadas. A gente conta um “fait divers”, um último fato, apimenta com dois ou três comentários irônicos, dá risada, a sala toda vibra!

Depois, quando a gente trata de uma coisa séria, os rostos vão se tornando longos…  a tal ponto que a gente tem que fazer certas reuniões de dia e não de noite. É um tanto parecido com os Apóstolos. Talvez de dia eles não tivessem dormido no Horto das Oliveiras, não é? Com o sol ardente, eles tinham começado a pensar nas formigas que andavam pelo chão, ou qualquer outra coisa. Não teriam dormido. Não é verdade? Mas essa é a criatura humana. E importa que nós nos vejamos assim para deixarmos de ser assim.

Eu sei que essa reunião é lúgubre. Mas se nós não somos capazes de uma reunião lúgubre nem no dia em que Nosso Senhor está na Sua sepultura, quando é que nós seremos capazes de uma reunião lúgubre? É um modo de fazer companhia a Ele no Seu sepulcro é nós entrarmos nesse sepulcro interior de nossa alma. Caiado, é bem verdade! Mas quantos vermes dentro!… É preciso ver bem isso. O que não for isso é conversa fiada! Não é sério!

“E quando lhes falta esse modo, logo se divertem [se distraem] em outros objetos sensíveis e se movem por eles e perdem o tino da vida espiritual, porque a tratavam e recebiam como sensível, com baixa estima das partes espirituais. Por essa inadvertência, ou grosseria…”

Aqui está o conceito de grosseria: espírito sem finura, grosso, que ama as coisas da matéria.

“…caíram os apóstolos, ainda que estavam tão favorecidos de Meu Filho santíssimo e de Mim, porque os milagres, a doutrina e exemplos que tinham presentes eram sensíveis; e como eles, ainda que perfeitos e justos, eram terrenos e afeiçoados somente ao sensível que recebiam; e faltando-lhes isso se perturbaram com a tentação e caíram nela, como quem tinha penetrado pouco os mistérios e espírito do que haviam visto e ouvido na escola de seu Mestre”.

Os Srs. estão vendo o que eu acabo de dizer. Eles viam milagres, eles viam coisas sensíveis. E eles iam acompanhando. A partir do momento em que isso faltou, eles caíram. Eles não tinham penetrado a fundo no que tinham visto! E caíram. Foi uma longa infidelidade anterior, uma longa superficialidade anterior que tinha determinado isso! Aí os senhores têm a coisa.

Com esse exemplo e doutrina ficarás, filha minha, ensinada a ser Minha discípula espiritual e não terrena e a não acostumar-se ao sensível, ainda que sejam os favores do próprio Deus”.

Nós podemos nos lembrar de São Tomé, e o que Nosso Senhor disse a ele, quando ele quis meter a mão no flanco de Nosso Senhor. Nosso Senhor disse: “Tomé, tu creste porque viste. Bem-aventurados os que não viram, mas creram”. Aí está verdadeiramente o espírito elevado, que por razões não sensíveis, por razões de ordem metafísica, de ordem sobrenatural, creem no que não viram. Mas esses espíritos não são esses que à toda hora precisam de agradinhos. Isso é uma outra têmpera de gente! É a verdadeira bem-aventurança. É a bem-aventurança de não ir atrás do que é sensível.

E quando os receberes, não te deterdes no material e sensível, mas elevar tua mente ao alto e espiritual, que se percebe com a luz e ciência interior e não com o sentido animal. E se o sensível pode embaraçar a vida espiritual, que será o que pertence à vida terrena, animal e carnal?”

Quer dizer, se as consolações podem embaraçar, quanto mais as coisas terrenas.

Claro está que de ti quero que olvides [esqueças] e canceles de tuas potências toda imagem de criatura, para que estejas idônea e capaz de minha imitação e doutrina saudável”.

Quantas vezes eu vejo isso na vida do Grupo! Eu vejo, sobretudo, com pessoas que são promovidas entrando para o Grupo. Porque existe uma promoção humana para entrar para o Grupo. Existem algumas pessoas que ocupam, aí fora, uma situação tal que, entrando para o Grupo, humanamente só têm que perder. Mas existem outras pessoas que ocupam uma situação tal que entrando para o Grupo só têm que ganhar. Eu vejo isso. Essas pessoas entram para o Grupo e são, literalmente, umas pessoas que nunca enxergaram dois dedos diante do nariz. Entram para o Grupo e começam a receber graças e consolações. E, com isso, muito entusiasmo.

Depois do momento de muito entusiasmo, depois das graças, começam a advertir também as vantagens humanas que têm por pertencer ao Grupo. E quando a gente começa a prestar atenção, estão tomando aspectos de pequenos senhores de arrabalde. Estão arranjando umas roupinhas, umas gravatinhas, uns terninhos, umas coisinhas… Eu já vi até aparecer um simulacro de chapéu gelot. Mas de gelot antigo, com aquela aba de seda. Não sei aonde esse meu amigo arranjou esse chapéu! Era tudo, menos um banqueiro… Mas usava chapéu de banqueiro. E usava também sapato pontudo, de banqueiro… E ares mega, de grande homem que estava numa ascensão social!

Quando eu começo a ver o guarda-roupa que muda e os ares de importância… e uma pessoa que começa a tomar jeito e a responder com estilo, eu já sei o que vai acontecer!

É, daqui a pouco, a mediocridade! E depois da mediocridade – pessoas com thau excelente – e que se apagam, e que ficam rolando… Por que? Por causa disso.

Começam a tomar gosto apenas no mel da doutrina e não no que tem no fundo da doutrina. Por causa dessa ingratidão, começam a tomar gosto nos valores humanos. Ficam megas e começam a querer fazer carreira dentro do Grupo e ser uma grande coisa dentro do Grupo…

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