Auditório São Miguel, Santo do Dia de sábado, 8 de dezembro de 1984
A D V E R T Ê N C I A
O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.
Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:
“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.
As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.
A matéria do Santo Dia de hoje, leva à uma cena das mais belas e das mais augustas da história! Os senhores devem imaginar o alto do Monte Sinai, no deserto, o monte, e ali Moisés rezando sozinho para Deus. Do alto do monte se divisa uma extensão enorme, tudo são planícies. Para cima o céu, um homem sozinho reza: é um homem bem-amado de Deus! É o homem eleito dentro da nação eleita; é o homem que levou os judeus para fora do Egito; é o homem que guia o povo eleito para a realização do seu destino.
Fulgurações! Deus aparece e lhe dá os Dez Mandamentos. Estes Dez Mandamentos, dos quais os senhores todos viram uma representação simpática, imaginativa, aquelas duas tábuas, e dentro esculpidos os vários Mandamentos. Imaginativo porque não há documentação de que a forma material tenha sido esta. Mas, serve tão bem, e de tal maneira na nossa infância entrou aquela imaginação, que nós ficaríamos espantados de ver que não foram exatamente assim as pedras… E quem sabe lá se foram assim? O que é que se pode lá saber?
Bem, os Dez Mandamentos estão esculpidos, estão dados ao homem.
Eu creio que é possível que algum homem se tenha feito a pergunta que eu mesmo, aluno de Catecismo, me fiz a mim mesmo também, quando aprendi os Dez Mandamentos. Não sei se os senhores se fizeram esta pergunta, mas ela paira no ar, e ela está na raiz da temática tratada hoje.
De tal maneira as grandes cogitações dos homens imergem fundo na religião, imergem fundo na história, que é no tema histórico e religioso da revelação dos Dez Mandamentos por Deus a Moisés, é nesse tema que cravam raízes todos os assuntos que se prendem ao tema de hoje à noite.
Com efeito, eu era aluno de catecismo aqui na igreja de Santa Cecilia, e o vigário dava aula particular para minha irmã e para mim, creio que para uma prima também, depois voltávamos para casa e tínhamos que decorar. Depois, na reunião seguinte, ele tomava a lição, para saber se estava tudo direito. Habitualmente estava, e com isto chegamos ao tempo da primeira Comunhão.
Que idade eu tinha naquele tempo? Uns 8, 9 anos. Quando ele foi lendo os Dez Mandamentos, eu achei os Dez Mandamentos muito bonitos. Eu não entendia bem o que eles queriam dizer, mas eu… alguns [Mandamentos], qualquer um entende: “Honrar pai e mãe”, qualquer um entende; “Não matar”, qualquer um entende. Mas havia outros que eu não entendia. Por exemplo, “não pecar contra a castidade”, eu não sabia o que era. Soube mais tarde, e não muito depois. Mas, não sabia. Mas de modo geral me pareceram muito bonitos.
Mas, depois também me pareceram muito difíceis de cumprir. Por exemplo, não mentir. Qual é a criança que não solta uma pequena mentira a propósito de uma coisa e outra? Ou para tornar mais agradável uma história que está contando para um companheiro, ou para ocultar uma travessura que fez… às vezes nem é uma travessura, é uma inabilidade. Eu, por exemplo, tinha as mãos, desde pequeno, meio tremulas, às vezes deixava cair as coisas. Mas não sabia explicar como tinha deixado cair. “Foi você que deixou cair?” vontade de dizer “não”! Porque eu não tenho culpa… caiu, não foi culpa minha! “Não mentirás!” Então aguenta com o castigo na cabeça, quando era tão fácil escapar, por exemplo, escondendo os cacos… “Onde foi parar o vaso?” – Também não sei, está acabado! Está acabado!
Passar pela geladeira, tem alguma coisa apetitosa dentro… o apetite permanente, ninguém está olhando… tan, tan! “Plínio, você comeu?” Não! Tão simples! Eu sabia bem que ninguém ia contar na geladeira quantas coisas disso e daquilo tinham. Eu tinha certeza … “Não comi.”
“Não mentirás!” E daí para frente.
Assistir – aí são os Mandamentos da Igreja, agora – assistir Missa aos Domingos. Nem sempre eu tinha vontade. Às vezes eram domingos lindos, nós íamos passar no Parque Antártica. Saía de casa louco para ir ao Parque Antártica, tinha que passar pela igreja e assistir à Missa. E ficar sentado, rezando, numa hora que a gente não tinha vontade de rezar, eu não entendia bem o que era Missa, não me tinham explicado bem o que era a Missa, e eu ficava ali parado meia hora, quarenta e cinco minutos, para só depois poder me jogar para o bem-amado Parque Antártica.
Por quê? E me vinha ao espírito esta pergunta, que algumas vezes, ao logo do tempo, se apresentou de novo, e que era esta: que grande dom fez Deus aos homens dando os Dez Mandamentos. Mas que dom difícil! Seria um pouquinho como quem olhasse uma pista de corrida, e dissesse: “Eu vou fazer um benefício para esta pista. Eu vou por umas traves e umas porteiras para o cavalo e o cavaleiro terem que pular. A pista adquire mais méritos. Quer dizer, os cavaleiros aprendem a saltar melhor, os cavalos se tornam mais destros, é um presente. Mas que “abacaxi”! Como seria mais agradável ir trotando por lá, não ter aquela amolação toda, descer e cumprimentar o público e acabou-se! Vou descansar” .
Quer dizer, o que é que foram estes Dez Mandamentos? Estes Dez Mandamentos que, de um lado, são tão belos, tão sábios que entusiasmam a gente, mas que de outro lado tornam a vida tão difícil, que todo homem tem que fazer uma força permanente sobre si, para não infringir algum dos Dez Mandamentos. Isto é contínuo, isto é assim, todo homem tem tendência para pecar: ou é num ponto, ou é noutro ponto, mas ele tem tendência para pecar. Os Dez Mandamentos proíbem.
Agora, por que Deus fez os Mandamentos tão difíceis? Por que razão, qual é a vantagem desses Mandamentos tão difíceis? Deus teria feito isto como exercício para os homens, como uma prova de amor pôr Mandamentos bem difíceis, para os homens de fato cumpram aqueles Mandamentos e provarem de fato que amam a Ele? É esta a razão, ou há alguma razão mais profunda para explicar a sabedoria dos Dez Mandamentos?
É uma questão que várias vezes eu me pus. Pus-me sem angústia, porque há uma coisa chamada o bom senso, que vale mais do que muito raciocínio explicito. Quem lê os Dez Mandamentos os ama; e quem os ama tem bom senso para compreender que eles são perfeitos. Ama-se, tem-se simpatia pelos Dez Mandamentos, independente de qualquer análise mais detida. Deitando os olhos sobre eles, a gente os ama.
Na hora “h” é difícil. Como é bonito dizer de alguém: “tem uma boca não mendaz”, que nunca mentiu. Está deitado no caixão, olhar para aquela boca e dizer: “Vou fazer um elogio deste homem: está vendo aquela boca? Nunca contou uma mentira na vida!” Morre virginal de mentiras! Que lindo elogio!
De outro lado, como é difícil às vezes não mentir. Para eu exemplificar só com o casinho da mentira, não mencionar mil e mil outros casos.
Deus, por que pôs então estes Mandamentos assim, tão belos e tão difíceis? A bondade dEle não O levaria a revelar alguns outros Mandamentos, também muito belos mas menos difíceis? Mais uma vez: Por quê? Por quê? Por quê?
Eu tinha mais ou menos 21 anos quando estava lendo um livro que me interessou muito, me deslumbrou até: “Tratado de direito natural”, de Albert Valencent – e um outro que em li mais ou menos simultaneamente: “Saggio di diritto naturalle”, de Taparelli D’Azeglio. Os senhores estão vendo que é a mesma matéria, de um autor italiano e um autor francês. E eu aprendi então a razão de ser dos Mandamentos.
Ambos os livros tratavam da questão, e punham o problema assim: há teólogos e filósofos protestantes que afirmam que Deus poderia ter feito os Mandamentos proibindo exatamente o que eles mandam, e mandando exatamente o que proíbem. Que os Mandamentos não têm nenhum valor intrínseco. Deus que é onipotente, tem o direito de mandar, e mandou fazer assim. Mas, Ele poderia ter mandado fazer o contrário, que daria igualmente bem.
Tese, de si monstruosa, mas atribuível por exemplo, a um teólogo alemão [Samuel von] Pufendorf, que foi, se não me engana a memória, foi o mais célebre desta escola. Então, o Mandamento diz “Não matarás”, mas Deus poderia ter dito “Matarás”. Ele só proibiu de matar, porque Ele quis assim, mas Ele poderia ter mandado matar. “Honrarás pai e mãe”, O Mandamento poderia ter dito “Odiarás pai e mãe”. Poderia fazer o revés dos Mandamentos, acabava dando tudo certo.
Os senhores estão achando monstruosa a tese! A tese é completamente condenada pela Doutrina Católica, é oposta completamente à Doutrina Católica, mas esta tese tem relação com estas miseráveis fotografias que os senhores tiveram ocasião de examinar aqui.
Qual é a relação?
A relação é a seguinte: Por que motivo Deus ordenou estes Mandamentos e não outros? É que se nós vamos examinar estes Mandamentos, a doutrina católica nos ensina, São Tomás nos ensina, que estes Mandamentos foram revelados por Deus. Mas que estes Mandamentos de tal maneira são a consequência da própria natureza do homem, são de tal maneira deduzidas da própria natureza do homem e da natureza das coisas que cercam o homem, da ordem natural do universo, que são leis deduzidas da ordem natural do universo. Os homens poderiam ter conhecido os Dez Mandamentos se Deus não os revelasse, porque a razão justifica cada um desses Mandamentos.
Apenas o que tem é que o homem tendo caído no pecado original, tendo-se tornado sujeito a erro, tendo estado exposto a tanta cegueira, a tanta fraqueza, a tanta maldade, perde facilmente a noção de qual são todos os Dez Mandamentos, porque contrariam demais os seus defeitos e ele então não quer ver tudo inteiro. Ele teria inteligência para ver, mas não quer ver. Então, Deus para ajudá-lo, revelou. Mas estes Mandamentos são deduzidos da própria natureza do homem; da própria natureza, antes de tudo, de Deus; depois, da natureza do homem e de tudo aquilo que Deus criou em trono do homem.
Por exemplo, “Amar a Deus sobre todas as coisas”. É evidente: sendo Deus quem é, Ser sumamente perfeito, criador de todas as coisas, dos seres visíveis e dos seres invisíveis, quer dizer dos Anjos – sendo Deus criador deles, quem cria tem o todo o direito sobre aquilo que criou. E deu a vida, deu o ser àquele que criou; e aquele que recebe o ser de alguém, recebe tudo e deve, portanto, amar aquele que lhe deu o ser. É evidente.
Nós recebemos o maior dos benefícios de Deus: em um determinado momento de nossa gestação, nós recebemos uma alma. Está cheio de seres humanos neste auditório. Cada um de nós recebeu, em um determinado momento da gestação, uma alma imortal! Que dom maravilhoso, que nos coloca tão acima dos animais e de todas as criaturas inferiores. Cada homem em comparação com todos os animais é um rei, de tal maneira é grande a sua dignidade. Nós recebemos isto porque recebemos uma alma, capaz de pensar, capaz de querer, capaz de amar, capaz de odiar – de odiar o mal! – que dom maravilhoso! A quem nós devemos este dom?
Eu estou falando aos senhores, eu estou tendo a graça e a alegria de lhes expor uma boa doutrina, os senhores estão tendo a paciência e a graça de ouvir esta doutrina e de tentar aproveitá-la. Que coisas maravilhosa! É porque Deus me deu uma alma, que eu sou capaz de pensar e de falar; é porque cada um dos senhores recebeu como eu uma alma, que é capaz de ouvir e de raciocinar, que maravilha!
Isto aqui seria um curral se não tivéssemos uma alma, se Deus não a tivesse dado a cada um. Se fosse só isto, como nós deveríamos amar a Deus. Que outras razões há para amar a Deus acima de todas as coisas. Porque se Ele é mais do que todos, é bem que se ame a Ele mais do que tudo. Então está traçado o primeiro Mandamento.
Segundo Mandamento: Não tomar o seu santo nome em vão é uma consequência. Não tomar o nome de Deus em vão, é proceder, é falar a respeito dEle com tal consideração, com tal respeito que só se fala quando há necessidade ou conveniência, e quando há um motivo sério para isto, e que se fala adequadamente. Quer dizer, com o respeito adequado. Por quê? Porque o nome é o símbolo da pessoa. E alguns nomes são tais que não podem ser mencionados a não ser raramente, por veneração àquele que tem esse nome. É natural. Quanto mais o nome de Deus!
O nome de Deus que não é preciso ser mencionado raramente. Pode ser mencionado frequentemente, desde que mencionado com inteiro propósito, com inteiro cabimento, com inteira razão de ser, com inteiro respeito. Aí não foi tomado em vão. Por exemplo, quantas vezes se diz “graças a Deus”? É muito bem, porque todo dom vem de Deus. E à menor graça, a gente pode dizer a respeito desta graça “graças a Deus”. Está bem.
Mas, quantas pessoas dizem “graças a Deus”, sem nem perceber que estão dizendo “Deus”. Isto não é direito. A gente tem que ter a noção de que está pronunciando o nome santíssimo dEle. Donde é que vem esta veneração para com o nome de Deus? Vem da natureza do que é um nome, e vem da natureza de Deus, que deve receber todo o respeito de nossa parte.
Guardar domingos e dias de festas, é o terceiro Mandamento. O que Deus manda é que se destine uma parte do tempo do homem à oração. Precisa destinar uma parte do tempo do homem à oração. Por quê? Porque Deus nos tendo dado tanta coisa, tal será que nós não demos uma parcela do nosso tempo só para Ele. É preciso isolar, parar e dar para Ele uma parcela do nosso tempo. Aconteça o que acontecer, aquilo foi dado a Ele. Donde é que vem isto? Vem do fato de que nosso tempo é um dom de Deus, por natureza nós devemos agradecer este dom, e é a Deus que nós devemos agradecer. Da ordem natural nasce o preceito.
“Honrar pai e mãe”. Este “honrar pai e mãe” importa, de acordo com os moralistas católicos, importa em honrar não só o pai e a mãe, que são os superiores imediatos de cada um, e no honrar entra o amar – não é só prestar respeito, mas é também querer – então honrar pai e mãe, é também honrar todos aqueles que por um título qualquer exercem sobre nós a autoridade.
Então, o aluno deve honrar seu professor; o militar deve honrar seus superiores; o indivíduo que trabalha numa administração qualquer, pública ou privada, deve honrar seus chefes. O que é honrar? É prestar o respeito correspondente à superioridade deles. Mas, prestar este respeito com amor, prestar este respeito com afeto, porque eles têm esta superioridade, está na natureza das coisas. A função que eles exercem, os coloca sobre nós. Nós devemos honrá-los, a hierarquia das coisas pede isto.
Mais, e a título particular mais o pai e a mãe porque nos geraram, nos deram a vida. Deus se serviu deles para nos dar a vida. O corpo, foram eles que geraram; a alma, foi Deus que deu. A ação deles, portanto, gerando, é uma ação sagrada, é uma ação bela, respeitável. Nós devemos tomar em consideração, devemos respeitá-los.
E assim nós poderíamos percorrer todos os Mandamentos, e nós veríamos que cada Mandamento ensina com perfeição aquilo que cada ser, cada homem deve fazer em relação a Deus e a cada um dos outros homens.
De maneira que tratar um homem de acordo com os Dez Mandamentos é agir eu, tratar eu, um homem de acordo com os Dez Mandamentos, é agir eu de acordo com a minha natureza e com natureza dele. E daí sai a ordem perfeita.
Os senhores tomem um relógio. De onde decorre a ordem perfeita do relógio? É que cada peça tem a sua finalidade. Porque tem sua finalidade, tem sua forma. E porque tem sua finalidade e sua forma – eu vou imaginar aqui, porque não sei se é verdade, que nem todas as peças sejam do mesmo mental, umas sejam de metal mais precioso, outras menos, mais valioso e outras menos, portanto tem naturezas diferentes – se faz funcionar tudo isto em conjunto dentro do mesmo relógio, então a gente tem a ordem perfeita do relógio.
Por quê? Porque decorre da natureza de cada peça. Cada peça estando disposta em relação às outras peças como deve, o relógio anda bem.
Uma nação o que é? Uma nação, uma família, uma escola, uma fábrica, não sei, um salão onde pessoas conversam, qualquer lugar onde estejam homens reunidos, pode ser comparado a um relógio. Se todos agirem em relação a todos de acordo com a natureza de cada um, e de acordo com a natureza da atividade que estão exercendo juntos, ainda que essa atividade seja um mero prazer; se todos agirem de acordo com esta natureza, decorre daí a perfeição das relações humanas.
Então, vamos dizer, uma pessoa vai a uma reunião, uma reunião social. É, por exemplo, um aniversário de família. Mas, ela percebe que pelo papel dela na família, ela tem uma posição chave. Se ela se divertir, se ela estiver alegre, satisfeita etc., acontecerá que a família terá uma noite feliz. Se, pelo contrário, ela estiver casmurra, aborrecida, triste, preocupada, a família terá uma noite infeliz.
A pessoa deve dizer: “Eu vou a uma reunião. A natureza da reunião pede que todos estejam alegres. Eu, ali dentro devo colaborar para esta alegria. Se eu tenho uma preocupação muito grande, eu devo agir de acordo com a natureza dos outros, com a minha natureza e com a natureza do que está sendo feito ali, que é o distrair-se. Eu devo pôr o pé sobre a minha preocupação, apresentar uma fisionomia prazenteira e ajudar os outros a se distraírem. Ainda que meu coração possa estar sangrando, eu devo distrair os outros”.
Resultado: saio e deixo atrás de mim uma alegria. Vou sozinho pela rua à noite. Entro na minha dor. É a minha vez. E ali eu posso estar à vontade. E eu deixo atrás de mim um bem feito. A natureza da reunião pedia isto de mim, eu fiz!
Os senhores imaginem que todo mundo vá a uma reunião social com a preocupação de ser agradável aos outros. Os senhores podem imaginar que reunião deliciosa decorre daí? Como a vida social se torna agradável? Não é como se ensina hoje em dia. A pessoa não vai para tornar a reunião deliciosa aos outros. Vai para tornar deliciosa para si. E, portanto, escoiceia dentro da reunião quanto quer. São as maneiras do século XX… nós falaremos daqui a pouco a este respeito.
Mas, no tempo em que havia cortesia, em que havia gentileza, em que havia a velha “douceur de vivre”, a velha doçura viver, quantas e quantas vezes o coração estava sangrando, mas a dona da casa recebia exemplarmente a todos!
Eu conheço um caso – eu não sei de quem é, mas sei que o caso se passou no Rio Grande do Sul -, de um senhor que ia festejar, não sei se as bodas de prata ou de ouro, mas creio que as de ouro. E é uma coisa rara, poucos casais vivem o tempo necessário para festejar 50 anos de casado. Poucos dias antes de festejar isto, este senhor sentiu uma perturbação qualquer na vista, e foi ao oculista. Voltou para casa, festejou-se dentro de dois ou três dias as bodas de ouro, ele estava muito alegre, a família toda estava alegre etc., etc.
À noite, quando ele se deitou feliz, a esposa disse a ele: “Meu caro, o médico encontrou um câncer num dos seus olhos. Você não sabia, e nós quisemos que você passasse este dia inteiramente alegre. Por isso todos nós comprimimos a nossa dor, mas amanhã cedo parte um avião para os Estados Unidos, e nós estamos com passagem reservada. E vamos os dois para os Estados Unidos para examinar o caso e, conforme for, extrair a sua vista. Extrair a sua vista para salvar a sua vida”.
Deram a este homem, com o sacrifício de todos, riram durante a noite, conversaram, brincaram, estiveram alegres, para proporcionar a este infeliz um dia satisfeito. Só no extremo do fim do dia, na necessidade de avisá-lo do dia seguinte, ele tinha providências a tomar antes de partir, que lhe foi dada a notícia. Todos sangravam, um estava alegre. Mas, que linda homenagem ao pai de família! que lindo reconhecimento que a condição de pai de família comporta isto! comporta um sacrifício deste! E para ele quanta consolação na hora de receber uma notícia destas, ele ver todo o afeto com que ele foi acompanhado pelos seus.
É ou não é verdade que isto pode adoçar as amarguras mais pungentes? As amarguras mais extremas? Por que esta doçura? Porque se agiu de acordo com a ordem das coisas. Cumpriu-se um Mandamento excelentemente: o honrar pai e mãe inclui o respeito que a mulher deve ao marido. É o superior dela. Todos colaboraram para realizar esplendidamente este afeto, este respeito. É ou não é uma bela página da história de uma família?
Bem, aí os senhores examinam todas as ações bonitas que os senhores tenham ouvido dizer que jamais homens tenham praticado, os senhores encontram que elas têm fundamento num Mandamento.
Mesmo pagãos que não conheceram ou que negaram os Mandamentos, se eles praticaram ações bonitas, a gente vai ver, tem um fundamento nos Mandamentos, poder-se-iam explicar pelos Mandamentos. Por quê? Porque está é a ordem das coisas criada por Deus. Quando a gente age de acordo com os Mandamentos, a gente age do modo perfeito.
Há um caso famoso de Alexandre, rei da Grécia, grande conquistador, os senhores já devem ter ouvido falar dele nas apreciadas aulas da história do curso secundário: chegou até o fim da Pérsia, até Índia, e venceu ali um rei hindu. E vencido o rei caminhou… o hábito antigo era, quando vencia um país, o rei vencido era tratado como escravo pelo rei vencedor, e muitas vezes era morto. Mandam trazer o rei vencido para vir falar com o rei vencedor, o imperador Alexandre.
O rei vencido se apresenta com toda dignidade, e o imperador vencedor pergunta a ele: “Como queres ser tratado?” Ele disse: “Como rei, porque sou rei!” A natureza das funções que ele exercera, marcara a sua personalidade, e lhe dava direito a isto. Alexandre compreendeu a coisa e deu ordem: tratem-no como rei!
Há um caso de um rei vencido que foi tratado assim pelo rei vencedor. O rei vencido foi de tal maneira um bom conselheiro do rei vencedor, que se tornou para o rei vencedor um ministro indispensável, e participou do poder real!
Os senhores acham isto belo. São pagãos que não conheciam os Mandamentos. Mas vão procurar: é um rei respeitando a dignidade real de outro rei. E com isto praticando o respeito que deve às autoridades a própria autoridade. Muito bem, os Mandamentos.
Bem, agora se nós nos perguntamos o que quer dizer “bom”, e o que quer dizer “ruim”… tal homem é bom, tal homem é ruim. Na linguagem corrente estas palavras estão completamente conspurcadas em nosso século. Entende-se que bom é uma pessoa que é acessível à comiseração, que tem pena de alguém e, portanto, faz algum benefício a alguém. Ruim é aquele que é pouco aberto à comiseração, que não gosta de ter pena dos outros, e, portanto, não faz coisas agradáveis ou benfazejas para os outros. Este é o bom, e este é o ruim. Não vai mais longe a consideração.
Então, ter uma certa ternura e ter uma certa sensibilidade, este é o bom. Quem não tem ternura nem sensibilidade, este é o homem ruim.
Então, deduz-se daí a impostação completamente superficial que as pessoas tomam diante da vida. Entra num ônibus, num trem de metrô, num lugar coletivo qualquer, e passeia os olhos assim por alto. Vê algumas pessoas que têm naturalmente uma certa tendência a uma posição imediata benfazeja. Olha com simpatia para os outros, a gente percebe se a gente pedisse um pequeno favor àquele senhor, ou àquela senhora, àquele rapaz, àquela moça, fariam de bom grado, até responderiam sorrindo, etc., etc., a gente diz: este é bom.
Para outro que tem por exemplo, uma cara mais carrancuda a gente olha e diz: “Aquele é ruim!” É ou não é o critério comum da análise? Já era no meu tempo, quanto mais tem que ser no tempo dos senhores. É natural. E acontece que muitas vezes isto engana.
Há pessoas que têm uma certa afabilidade de trato, por onde elas naturalmente gostam de fazer bem para os outros. Mas isto é por causa de uma feliz disposição da sensibilidade. Mas, de fato, elas são pessoas ruins. E há outras pessoas que têm uma dificuldade de trato, mas que são pessoas que são sérias, que na ocasião necessária são capazes de fazer um sacrifício.
A gente não pode, portanto, reduzir tudo a uma simples aparência de trato afável. O conceito de bem e de mal vai muito mais fundo do que isto. Um modo de ser é um modo de ser.
Os senhores viram aqui este pobre cantor que se jogou de um “x” andar de um prédio, numa segunda tentativa de suicídio, conseguiu matar-se. Eu tenho certeza pela cara dele, tenho certeza, pelo êxito dele na TV, etc., que ele tinha assim uma forma de ser comunicativa, e que os outros estando com ele tinham a sensação de que ele tinha vontade de ser benfazejo. Do contrário não faria carreira nenhuma na TV. O que se quer na TV é gente assim.
Bem, este homem era, entretanto, incapaz de fazer esta coisa fundamental: carregar o peso da vida, qualquer que sejam as circunstâncias. E não atentar contra sua própria vida, matando-se.
Alguém dirá: “Mas, Dr. Plínio, ele não tinha direito se matar?” – Se ele tem o direito de se matar, por que não mata o outro? Porque a mesma razão pela qual é mal um homem matar outro homem, torna mal o assassínio. E se é legitimo matar-se a si próprio, é legitimo o assassínio. Por que razão eu não tenho direito de matar outro homem? Não tenho direito de matá-lo porque ele foi criado por Deus, existe para Deus, e só Deus que lhe deu a vida pode lhe tirar a vida! Acabou-se, não posso matar.
Então, o argumento vale para mim. Deus me deu a vida; eu não posso arrancar de mim uma vida que Deus me deu. Só Ele que pode tirar. E o suicida é um assassino, é um assassino de si próprio. Não sei se está claro o raciocínio?
(Sim)
Este pobre miserável era um assassino. E o pior dos assassinatos, que é o assassinato de si mesmo. Porque se quanto mais próximo o homem, mais culpável é o assassinato, então o pior dos assassinatos é o que homem pratica contra o mais próximo de si, que é ele próprio.
Bem, mas era um homem que tinha essa afabilidade de maneiras, essa afabilidade de trato, que pode dar a impressão de que se é bom. Isto este homem tinha. Mas ele não era um homem bom, ele cedeu ao mal, quando se jogou janela abaixo. Já antes disso ele devia estar, presumivelmente, atormentado por toda espécie de crises morais, das quais ele teria culpa, para chegar a querer matar-se. E os senhores compreendem o mal que ele fez.
Então, bom e ruim não é esta noção corrente que se tem. Bom e ruim o que é no fundo? O que é, no fundo, um homem bom? Uma senhora boa? O que é um homem ruim, uma senhora má? A resposta os senhores podem remexer na coisa como queiram, a resposta é só uma: aquele que cumpre os Mandamentos é bom; aquele que viola de modo grave os Mandamentos é mau, está acabado! Não tem conversa. É o código de toda bondade humana.
Bem, se este é o padrão, então nós temos o seguinte: que as nações estão tanto mais em ordem, quanto mais os homens cumprem os Mandamentos. Lembrem-se do que eu falei das peças do relógio. Se isto é assim, quanto mais as nações violam os Mandamentos, tanto mais as nações estão em desordem. É uma coisa evidente. E se a gente visita uma nação e percebe que ali, com frequência, se violam os Mandamentos, a conclusão que se tira é que aquela nação está em decadência.
Por quê? Porque as peças da engrenagem, porque se peca muito ali, estão cada vez mais em desordem umas com as outras. E, portanto, haverá um momento em que a máquina pára. Se cada peça do relógio está sujeita, por condições climatéricas, por poluição, ou por qualquer outra coisa, a um processo de deterioração, há de chegar um momento em que o relógio pára.
Os senhores podem imaginar o melhor relógio do mundo, o mais fino, o mais delicado, o relógio suíço mais primoroso, de um lado – ou o maior relógio do mundo, o mais vigoroso, mais sólido, mais sacudido – se algo há no ar que vai enchendo de ferrugem as peças, processivamente, pode o relógio ser forte como for, pode de vez em quando entrar um relojoeiro dentro do enorme relógio e acertar tal coisa, tal outra coisa, a ferrugem entortou a peça para cá, ele ajeita a peça de maneira que a peça possa funcionar mais algum tempo, colocada de modo um pouco diferente, e o relógio continua a funcionar, em determinado momento o relógio todo está tão deteriorado que pára. Se é um processo de enferrujamento progressivo, o relógio pára.
Ora, isto mesmo se dá com as nações. Se os homens dentro das nações, vão progressivamente se afastando dos Mandamentos, quer dizer, vão ficando piores – vão deixando de ser bons, e ficando cada vez mais ruins – ou num português melhor, vão cada vez mais ficando ruins – isso quero dizer -, bem, se isto é assim, acabará havendo um momento em que a nação entra em caos.
Nós temos, numa ponta a civilização cristã, que é a ordem de coisas em que todos cumprem os Mandamentos; na outra ponta nós temos o caos, que é a ordem de coisas em que ninguém cumpre os Mandamentos, em que todos pecam, todos são egoístas. Uma é a cidade de Deus, outra é a cidade do demônio.
E Santo Agostinho, o grande bispo de Hipona, que é um dos maiores luminares que a Providência tenha suscitado dentro da Igreja, Santo Agostinho diz que há dois amores que explicam as duas cidades. Uma cidade é a cidade da ordem, onde todos têm o amor de Deus, a ponto de se esquecerem de si mesmos. Na outra cidade, todos têm o amor de si mesmo a ponto de se esquecerem de Deus. É a cidade do demônio.
E é forçoso que, quanto mais um povo vai ficando pagão, vai abandonado os Mandamentos, tanto mais ele vai caindo. E isto nós o observamos de modo impressionante nesse nosso século XX.
Se os senhores comparam – nós estamos em 1984, mas já com os olhos voltados para 1985 – se os senhores comparam com o ano de 1984, o ano de 1904, portanto há 80 anos atrás, portanto, quase um século atrás, quanta coisa melhorou a vida humana. Basta os senhores pensarem nos progressos assombrosos da medicina. Quanto à medicina [Dr. Plinio vê que horas são em seu relógio] – a medicina manda a gente poupar os outros, portanto respeitar o princípio fugite!…
Se os senhores considerarem quanto a medicina tem aliviado dores, quanto a medicina tem curado doenças, quanto a medicina tem prolongado vidas, quanto ela, enfim, tem espalhado bem pela terra, é uma coisa simplesmente assombrosa. Basta os senhores pensarem o seguinte: em 1904, há 80 anos atrás, a anestesia do homem para as operações, fazia-se de modo difícil, era por meio de injeções de clorofórmio. A pessoa tomava também certas coisas para anestesiar. Era uma anestesia complicada, lenta, e às vezes não era completa. De maneira que o indivíduo dormia, mas com uma certa dor apesar de tudo, e quando acordava, náuseas, náuseas e náuseas porque o clorofórmio era tóxico, e a natureza rejeita o clorofórmio.
O indivíduo inalava aquele clorofórmio para evitar a dor da operação. Mas, depois o organismo, por uma reação saudável, punha fora o que tinha dentro de si, todos os líquidos orgânicos, porque estava nauseado. E muitas vezes, quando eram operações no abdômen, que consistiam em cortar e depois costurar, as náuseas eram tais que arrebentavam a costura. Então era preciso operar de novo, ou seja, dar outra dose de clorofórmio!
Os senhores comparem isto com as injeções de hoje, os senhores compreendem quanto bem a medicina fez. Mas, mas, as desordens morais, as desordens da economia e da organização social criaram uma vida de corre-corre, uma vida de excitação que estabeleceu uma neurose no mundo inteiro. E hoje é frequente os senhores andarem na rua, e os senhores verem pessoas que salta aos olhos que são nervosas, sofrem dos nervos. Os senhores devem encontrar gente na rua falando sozinha, por exemplo! Por dá cá aquela palha, os senhores têm alguém falando sozinho! É evidente.
Bem, os senhores vão ver o número de pessoas gagás, hoje é tão grande, que os médicos – me disseram, não posso garantir – que os médicos psiquiatras não admitem mais nos hospitais deles a não ser gagá que agride. Porque gagá que não agride não pode caber nos hospitais, porque é de tal maneira o número que não há quem aguente. Ouvi dizer que há lugares onde os criminosos de crimes, pequenos não são punidos, porque não há cadeia que comporte todos os criminosos que aparecem. E tem que ser, tem que acabar que ser.
E os senhores notam a sociedade inteira de hoje se contorcendo num mal-estar, se contorcendo numa aflição, numa angústia, que leva os homens a fazerem verdadeiras aberrações.
Os senhores querem maior aberração do que o aborto? Em que a mãe concorda em expurgar de si, expelir de si o filho que está nascendo nela por uma riqueza da natureza, e que talvez já tenha recebido uma alma de Deus? Ninguém sabe qual é o momento da gestação em que a alma é infundida por Deus no corpo. A mãe que deve gerar aquele filho, ela expele o filho ou ela evita que o filho se forme nas suas entranhas…
Quer dizer, é um pecado contra a natureza, é um pecado de homicídio quando a criança já nasceu; é um pecado contra a natureza se a criança nem sequer se formou ainda, mas se evita a gestação.
Pois bem, pecado horroroso! Que brada aos céus pelo [ensinamento do] Catecismo, e clama a Deus por vingança! Os senhores estão vendo a quantidade enorme de abortos que se espalha por aí, os senhores veem a raridade de uma família com 10, 12 filhos, aí … Eu vou fazer um teste: quem conhece concretamente 5 famílias de 10 filhos, levante o braço… Aí está um felizardo! 5 famílias o senhor conhece nessas condições?
Sr. Felix Borsato. Eu não levanto minha mão, porque eu não conheço. Todo o resto do auditório ficou com as mãos abaixadas. Entretanto, o normal é uma família ter 10 filhos, ter 12 filhos, esta é a lei da natureza.
Muitas vezes, muitas vezes os pais não geram estes filhos por defeito da constituição física, enfim, por mistérios da natureza. Muitas vezes. Eu não quero dizer que toda família pouco numerosa o é com base no aborto. Mas o fato concreto é que muito frequentemente é o aborto. Olha em torno dos senhores, quanto entrou o aborto aí!
“Não pecarás contra a castidade.” Quantos são os jovens castos que os senhores conhecem fora da TFP? Quantas são as jovens castas que os senhores conhecem fora da TFP? Vão se tornando bem raras, infelizmente, mas bem raras. Bem, os senhores conhecem casos em que os pais exigem que os filhos pequem contra a castidade! Os senhores conhecem casos desses…
Quer dizer, quanto se peca pelo mundo afora só nisso. E o adultério? O adultério se tornou tal, que o que se alegou em favor do divórcio, é que é insuportável a indissolubilidade do vínculo! Ora, Deus manda que o marido e a mulher sejam fiéis um ao outro a vida inteira, que o vínculo do casamento seja indissolúvel. Deus manda isto.
Agora, eu pergunto aos senhores: nessas condições, o vínculo do casamento é indissolúvel? Eu pergunto: nestas condições, o que é dizer de um país que não aguenta mais a indissolubilidade? Quer dizer, não aguenta mais a ordem. Não aguenta num ponto grave. Os resultado são as desordens; o resultado é o arrebentamento de todas as coisas.
Quer dizer, não tenham ilusão! O mundo de hoje progrediu maravilhosamente debaixo de muitos pontos de vistas – basta os senhores pensarem no avião para os senhores compreenderem os progressos do mundo de hoje. Mas de outro lado, a falta de observância dos Mandamentos não só faz com que este mundo caminhe para o precipício, mas faz com que todos os progressos que ele fez, revertam para ele em ruína!
Por exemplo, o avião. O avião concorre para tornar a vida mais agitada. O telefonema internacional concorre para tornar a vida mais agitada, e com isso a complicar a vida de todo mundo. Progressos, em si maravilhosos, mas postos nas mãos de uma civilização em que pode ser que não seja cada um nevropata, mas que é uma civilização nevropática, uma civilização da neurose, tudo isso começa a vacilar. É claro. Quem não compreende uma coisa dessas?
Daí o aviso de Nossa Senhora de Fátima em 1917. Ela apareceu para os pastorezinhos, e Ela declarou na cova da Iria, que o mundo vivia na imoralidade, e que com isso a cólera de Deus estava com a medida cheia, e que se o mundo não se emendasse e não se consagrasse ao Imaculado Coração de Maria em certas condições postas por Ela na revelação, que viria um castigo. E este castigo seria um castigo tremendo, no qual desapareceriam muitas nações, em que haveria muitas desgraças, e só depois disso o mundo voltaria aos seus gonzos.
Isto foi o que Nossa Senhora disse. Nossa Senhora disse uma coisa brutal? Ela disse uma coisa cruel? Ela disse uma coisa errada? Ela constatou um fato. O mundo estava em estado permanente de grave ofensa a Deus, e cada vez mais continuou nisso.
Se nós formos comparar as modas de hoje com as de 1917, 1917 era um paraíso em relação às modas de hoje. Nossa Senhora indicou qual era o castigo. Ela falou no comunismo. Aqueles pastorinhos não sabiam o que era o comunismo. Nossa Senhora mencionou o comunismo. Pouco depois o comunismo faz cair o tzarismo na Rússia. E logo o comunismo começa a espalhar-se pelo mundo inteiro, como Ela disse.
E Ela disse: se os homens se convertessem, e se consagrassem ao Imaculado Coração de Maria, aconteceria que a Rússia se converteria. Quer dizer, deixava a I.O. e passava a ser católica, apostólica, romana. Caía de podre o comunismo.
Se, pelo contrário, os homens não se convertessem, o comunismo seria o açoite do mundo: caía de podre o Ocidente. Uma das duas coisas havia de cair. Pois bem, o homem chegou a uma tal cegueira em nossos dias, que ele vê que o comunismo é o flagelo do gênero humano.
Ele vê que em vez da guerra, o remédio seria a Consagração, e que a tal alternativa “ou vermelho, ou morto”, não é a alternativa verdadeira. Nem vermelho, nem morto, ponha a sua alma em estado de graça! Se não puser sua alma em estado de graça e continuar a pecar como está, quer vermelho, quer morto, não evitará o castigo que Deus previu!
Quer dizer, os poucos homens que restarem, ainda sofrerão este castigo, porque o homem tem que se converter, do contrário ele não viverá sobre a face a Terra.
Não sei se está claro?
(Sim)
Então, então, nós temos que aprender, em vista destas razões profundas, nós temos que aprender de não sermos bobos, e de não andarmos de um lado para outro olhando todo mundo com cara de bom quando tem jeito assim, e com cara de ruim quando tem jeito assim… Isto é o papel do bobo. Não!
A pergunta é: ele cumpre os Mandamentos? Se ele ama a Deus, seja irmão dele. Se ele não ama a Deus, reze para que ele ame a Deus, trabalhe para que ele se converta, mas cuidado com ele!
Porque se ele não ama a Deus, ele também não te ama. O carinho do pecador é uma mentira! O afeto do homem ou da mulher que está em pecado, só vai até o limite da sua própria sensibilidade. Em determinado momento, ponto afinal, acabou!
Por quê?
Porque quem não ama a Deus acima de todas as coisas, não se imagine que vai amar a um outro mais do que a si mesmo. Quem não ama a Deus acima de todas as coisas, ama-se a si próprio acima de todas as coisas. E pode querer um outro ou uma outra, apenas enquanto é instrumento de prazer. Mais nada.
Então se diz por aí: “Fulano é muito meu amigo, eu o quero muito, estou disposto a fazer benefícios a ele”. Quer dizer, ele me é de uma companhia agradável, eu tenho sincronia com ele, e, portanto, me é vantajoso tê-lo junto a mim. Então, se eu tiver que fazer algum favor para atrair a presença dele, eu faço. No fundo o que é que tem? Eu, eu, eu! Por isso estou fazendo com ele”.
Não é absolutamente o amor pelo qual a gente faz a coisa para os outros, ainda que os outros não nos amem, e só porque nós amamos a Deus. Este é o amor desinteressado ao próximo, esta é a verdadeira seriedade.
E que, portanto, esta teologia do que foi dito há pouco é o que eu disse aqui. Nós devemos aprender a não ser bobo, mas devemos aprender a desconfiar.
A desconfiar do que? Do pecador. Porque só assim nos defenderemos. É só assim que nós saberemos em quem confiar. Quem não sabe de quem desconfia, não sabe em quem confia. Nós seremos injustos porque não confiamos em quem merece.
Por quê?
Porque somos bobos e não sabemos analisar os outros. Nós somos injustos porque confiamos em quem não merece. E é uma injustiça que fazemos para conosco. Eu não posso ser injusto comigo, confiando em quem não merece.
Então os senhores veem que uma reflexão mais aprofundada, talvez um tanto monótona, ao cabo de uma longa reunião, nos conduz pelo menos a esta coisa inapreciável: uma convicção lógica e séria que resiste a qualquer análise a respeito de nossa impostação na vida.
Eu não posso me impedir de por isso dizer aos senhores o seguinte: nós devemos saber governar as nossas simpatias. Nós, pelo defeito que temos – todos os homens são assim – nós somos levados de vez em quando a simpatizar enfaticamente com uma pessoa, seja lá quem for. Naturalmente, sobretudo, os senhores entendem bem, uma pessoa do outro sexo. Mas, mesmo pode ser uma pessoa do mesmo sexo, e com a qual nós não tenhamos nenhuma possibilidade de cogitação sexual. Mas, de repente é um professor, de repente é um empregado, de repente é um funcionário, qualquer coisa, e a gente de repente simpatiza muito. E aquele a gente é levado a querer bem porque simpatizou. E depois temos fobias, e com outro a gente fica com birra, porque não simpatizou.
Cuidado com as nossas próprias simpatias e as nossas próprias antipatias! O mais das vezes não são senão caprichos. Nós devemos saber desconfiar da nossa simpatia. E nos perguntar a nós mesmos: “Aquele com quem eu simpatizo, aquele vive na graça de Deus? Ele ama a Deus? Se ele ama, a minha simpatia tem uma razão de ser. Se ele não ama, cuidado! Porque se ele é um inimigo mortal de Deus, ele é um inimigo mortal meu! Não quer dizer que eu não faça o bem a ele. Mas, quer dizer, que eu tenho que estar com pé atrás a respeito dele. Isto é ter a inocência da pomba e a astucia da serpente!
Também, cuidado com as antipatias. Às vezes a gente tem antipatias inteiramente gratuitas, e para com pessoas que merecem afeto. Nós devemos saber analisar as nossas antipatias, de tal maneira que as julguemos bem e saibamos tratar bem as pessoas para as quais temos antipatias estúpidas. Às vezes é por um cacoete, porque aquele… não sei, qualquer coisa, tem um queixo assim, qualquer coisa assim, a gente antipatiza. Um verdadeiro absurdo!
É um modo de evitar muita injustiça, e evitar muita bobagem. E levar uma vida verdadeiramente cristã, onde tudo é regulado pela Fé e pela moral!
Meus caros! Fugite irrepabile tempus!
Notas:
1) Para aprofundar o tema sobre “Curso de Direito Natural” de Taparelli d’Azeglio, clique aqui.
2) Ilustração: MaelBathfield, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons