Presidente da TFP nega vinculação entre a obra de Dom Lefebvre e a entidade – Jornal do Brasil, 18-8-1977
Jornal do Brasil, Quinta-feira, 18/8/1977 – 1º. Caderno
O presidente da TFP, Sr. Plinio Correia (sic) de Oliveira, negou ontem a existência de qualquer vinculação entre a pessoa e a obra do Arcebispo francês Marcel Lefebvre, “e a vasta família de associações autônomas e coirmãs”, e entidades congêneres das Américas e da Europa que são as TFPs. Isso não impede, obviamente, que eu tribute à pessoa de Monsenhor Marcel Lefebvre uma velha simpatia e um sincero respeito”.
Essa explicação foi dada “para afastar os equívocos que certa imprensa, em toda a América Latina, tem tentado criar a respeito das relações entre Monsenhor Lefebvre e a TFP”. O Sr. Plinio Corrêa de Oliveira esclareceu que conheceu o Arcebispo no Concílio Vaticano II, quando formava, ao lado de outros bispos, “o valoroso coetus antiprogressista e anticomunista, cuja atuação constitui a grande página luminosa da história daquele Concílio”.
Caso teológico
“O caso Lefebvre é essencialmente teológico” – afirmou o Sr. Plinio Corrêa de Oliveira – acrescentando que “não posso dissociar minha pessoa da qualidade de presidente do Conselho Nacional da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. Um pronunciamento meu sobre esse caso teológico importaria, automaticamente, em uma tomada de atitude da entidade. Ocorre que esta última não é uma sociedade teológica, mas cívica, inspirada, aliás, na doutrina social católica. As partes desta que versam sobre assuntos cívicos dizem, portanto, respeito à TFP”.
As demais partes, segundo ele, “a entidade as acata com a mais profunda e enlevada adesão. Porém, não constituem matéria em que lhe seja dado manifestar-se ou agir. Daí o silêncio que devo guardar, precisamente sobre aspectos mais nobres e mais essenciais que o caso Lefebvre põe em foco, isto é, os teológicos”.
Contatos
O presidente da TFP lembrou que, no Concílio, Dom Lefebvre formava ao lado, entre outros, de D. Antônio Castro Mayer, Bispo de Campos, D. Geraldo Sigaud, Arcebispo de Diamantina, e Monsenhor Luigi Carli, Bispo de Segni. Em seguida, esteve com ele mais de uma vez no Brasil:
“A TFP teve a honra de ouvir-lhe a palavra em 1967 e em 1974 , em conferências feitas para nossos diretores, sócios e cooperadores. Tivemos até o privilégio de lhe oferecer hospedagem nessas oportunidades. E aproveitamos até o ensejo para nos informarmos sobre a obra que ia sendo modelada, admirável, por suas mãos”.
A personalidade de Monsenhor Marcel Lefebvre, “profundamente eclesiástica em tudo e por tudo, piedosa, serena, distinta, é discretamente realçada pelo charme de espírito e de trato que a educação e a cultura francesas conferem”, disse o Sr. Plinio Corrêa de Oliveira.
Depois de lembrar que Monsenhor Lefebvre tem feito pronunciamentos doutrinários sobre os ensinamentos sociais da Igreja – “os que li me parecem irrepreensíveis” – o presidente da TFP revelou que lhe agrada, sobretudo, a tomada de posição do Arcebispo contra o comunismo, “lúcida, corajosa, oportuna”.
Acrescentou que “como ele, estou em inteiro desacordo com a Ostpolitik vaticana, acerca da qual, desde a tão marcante Declaração de Resistência de 1974, as TFPs vem movendo uma infatigável ação de esclarecimento da opinião pública”.
Estranho ecumenismo
Segundo o presidente da TFP, no México vigora a separação entre a Igreja e o Estado. Para ele, tal separação deveria implicar, em rigor de lógica, num escrupuloso alheamento do poder temporal em relação aos assuntos religiosos. “Contudo, anunciada a visita de Monsenhor Marcel Lefebvre àquela Nação, o Governo do grande – e tão simpático – país da América Latina mandou a todos os seus consulados que negassem visto ao passaporte dele. Na Argentina, algo análogo se passou. O Estado, embora ali unido à Igreja, não vetou a entrada de Monsenhor Lefebvre. Porém, deixou ver, claramente, o desagrado que essa visita lhe causava”.
Em seguida, o presidente da TFP levantou uma questão: “Esses episcopados que, influenciados pelo Vaticano II, se mostram abertos a um relacionamento ecumênico e cordial com todas as heresias, e em cujas fileiras há até quem pratique o ecumenismo com os vermelhos, por que atiram às urtigas esse ecumenismo quando se trata de Monsenhor Lefebvre? Por que chegam a mover contra este o poder do Estado, como se estivéssemos na Idade Média da qual, certamente, não tem a menor saudade?”.
Apertando ainda mais o cerco, o Sr. Plinio Corrêa de Oliveira fez outras indagações: “Se o ecumenismo de tais episcopados tem mão e contramão, de sorte que abre caminho para uns e não para outros, o que é ele então? Ecumenismo autêntico ou velada parcialidade em favor de uns, isto é, os hereges, os cismáticos, os comunistas, e escancarada parcialidade contra outros, isto é, os que atacam o comunismo, as heresias e os cismas?”
Chile e Colômbia
Na opinião do presidente da TFP, “o mesmo se deve dizer do recente procedimento, para com o Arcebispo francês, do Cardeal Silva Henriquez, Arcebispo de Santiago. Não houve aceno de amizade que o Purpurado não tivesse feito ao marxista Allende. Mas foi só aparecer Monsenhor Lefebvre em Santiago que o brando Pastor, amigo de rabinos e missionários protestantes, não lhe poupou manifestações de desagrado. Também o episcopado colombiano, apesar de menos iracundo do que o ex afável Cardeal chileno, mostrou a Monsenhor Lefebvre a sua carranca”.