São Leão Magno (10/11), precursor da Inquisição

“Santo do Dia”, 10 de abril de 1967

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo“, em abril de 1959.

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São Leão Magno por Goya

Hoje, dia 10, não há Santo especialmente a comentar. Mas no dia 11 [N.R.: no calendário atual a festa cai no dia 10 de novembro], amanhã, nós teremos a festa de São Leão Magno, papa. E, no Pe. Rohrbacher [N.R.: Padre René-François Rohrbacher, Vidas dos Santos], se encontram os seguintes dados a respeito de “São Leão Magno e a condenação dos hereges”.

São Leão Magno, diz o nosso calendário, foi papa, confessor e Doutor da Igreja. Combateu Eutiques e Nestório, que foram dois grandes heresiarcas; e deteve Átila à porta de Roma. Século V. São Leão Magno, que viveu de 390 a 471, foi um dos maiores papas que a história registra. Lutou, em seu pontificado, contra numerosas heresias que então agitavam a Igreja, principalmente os maniqueus e os pelagianos. Enfrentou Átila, o flagelo de Deus, conseguindo que se afastasse da Itália. Impediu ainda a destruição de Roma pelos vândalos comandados por Genserico.

Agora o texto do Pe. Rohrbacher:

“Entre os que passaram para a Itália, dada a desolação da África e por causa de temor aos vândalos, havia grande número de maniqueus, que se refugiaram em Roma e lá permaneceram escondidos durante algum tempo. Mas São Leão os descobriu e, em vários sermões, advertiu o povo a respeito do fato, exortando a denunciá-los aos sacerdotes e aos curas.

“Os priscilianistas, que não se distinguiam absolutamente dos maniqueus, dos quais, aliás, se originavam, se multiplicaram novamente na Espanha, o que provocou distúrbios. Informado da situação por São Turíbio [Santo Toribio de Astorga], bispo de Astorga, São Leão lhe escreveu em 21 de julho de 447, longa carta. Descreve a heresia dos priscilianistas como «a sentina de todas as heresias anteriores». Insiste particularmente no fato de negarem eles o livre arbítrio do homem e atribuírem todas as ações a uma necessidade fatal da influência dos astros.

“É de boa nota que Pais, desde o começo, tudo fizeram para banir esse furor ímpio do seio da Igreja. Ainda mais que os príncipes do século tiveram tanto horror por essa sacrílega demência, que abateram o autor e vários de seus discípulos com o gládio das leis públicas. Viram, eles que seria arruinar o zelo pela honestidade dissolver todas as uniões conjugais, deturpar todas as leis divinas e humanas, permitir que pessoas semelhantes continuassem vivendo e professando semelhantes princípios. São Leão acentuou a conformidade dos priscilianistas com os maniqueus e enviou a São Turíbio as atas dos processos que havia formulado em Roma contra eles.

“Nesses processos, particularmente contra os maniqueus de Roma, vê-se o nome e a forma do que mais tarde se chamou Inquisição. O Santo Papa, que lhe dá o nome de inquisição mais de uma vez, a ela preside, assistido de bispos, sacerdotes, senadores e outras personagens ilustres. Declara aos fiéis que são obrigados, pela consciência, a denunciar os hereges. Faz com que, pessoas suspeitas, lhe sejam trazidas à presença, e procura obter que se retratem. Os que se voltavam para a Igreja recebiam a penitência; os que se obstinavam eram entregues às mãos seculares, para receberem a punição, de acordo com as leis do império, minando que estavam, pela adoção de tais princípios, as próprias bases da moral e da sociedade”.

Esta ficha é lindíssima, porque se trata de alguém que procede com a autoridade de Papa, mas também na qualidade de Santo. Quer dizer, uma pessoa que a Igreja, usando de seu poder de infalibilidade, declarou que foi heróica na prática das quatro virtudes cardeais, das três virtudes teologais e na prática de todas as virtudes.

É, aliás, uma pessoa cuja santidade foi confirmada por um colossal milagre. Pois foi ele que enfrentou Átila e, enquanto o enfrentava, apareceu São Pedro nos céus e fez Átila retroceder. Um dos maiores milagres da história da Igreja.

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Encontro de São Leão Magno com Átila, afresco de Rafael (1514), Museu Vaticano

Pois bem. Esse homem que agia dessa maneira, vejam os senhores como perseguia os hereges: vindos da África por causa de perseguição dos vândalos, vão ter à Itália, a Roma; ele toma conhecimento da presença dos hereges e, imediatamente, inicia a luta. Eram hereges maniqueus. Ele fez sermões, adverte o povo contra os hereges, e exorta o povo a denunciar os hereges aos sacerdotes e vigários, naturalmente para sofrerem as penas canônicas e, eventualmente, as penas temporais.

Aparece na Espanha a heresia dos priscilianistas. Os senhores estão vendo que ele presta todo apoio a São Turíbio, bispo de Astorga e elogia os chefes de Estado que mandaram matar esses hereges; porque esses hereges eram a ruína não só da Igreja como da ordem temporal.

Depois, pessoalmente, institui uma espécie de inquisição em Roma, à qual, às vezes, de passagem, chama inquisição. E é visto presidindo sessões da inquisição, assistido por bispos, sacerdotes, senadores e pessoas ilustres. Ele mesmo faz de inquisidor, e procura demover as pessoas, procura interrogá-las, procura perceber as heresias que praticam. E ele mesmo manda aplicar as penas para os hereges que se recusam a obedecer.

Os senhores estão vendo, portanto, que é a prática da mais extrema e sacrossanta intransigência contra os hereges. É a prática, portanto, de uma virtude que hoje seria muito pouco apreciada, e que é exatamente uma virtude oposta ao ecumenismo, no sentido mau da palavra. E que é uma confirmação de que se deve e se pode pensar como nós pensamos; por que o ensino contínuo da Igreja Católica é precisamente esse, corporificado por São Leão I.

São Leão I, o que diria das heresias soltas hoje em dia? Se, de repente, ressuscitasse e encontrasse a Santa Igreja Católica na situação tristíssima em que se encontra, o que falaria? Ele proporia imediatamente a restauração da inquisição.

Então, vamos pedir a ele que acenda, ou reacenda, na Igreja, esse espírito de vigilância; esse espírito de discernimento, esse espírito de intransigência, esse espírito de luta à outrance que seria suficiente para evitar ao mundo os terríveis castigos pelos quais o mundo inevitavelmente vai passar [N.R.: aqui o Prof. Plinio se refere aos castigos previstos por Nossa Senhora em Fátima, caso o mundo não se convertesse conforme suas advertências].

Vamos pedir a ele que, no raiar da aurora do Reino da Maria, esse espírito esteja imensamente aceso e que dure até o fim do fim dos tempos.

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