São Miguel Arcanjo e a honra de servir a Deus

Santo do Dia de 17 de janeiro de 1990

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

(No final do ano [de 1989], chegava às mãos do Sr., por meio do “Despachinho”, entre as incontáveis consultas, um texto do grande Cornélio a Lapide. Ao tomar conhecimento, o Sr. comentou “Seria muito bom fazer uma proclamação sobre São Miguel e a “Bagarre”. E, como estas coisas, o demônio as faz sumir, tire um xerox e guarde na pasta de estudos, escrevendo aí o título: “São Miguel organiza espiritualmente a Contra-Revolução“.

(Leitura do texto de Cornelio a Lapide:

Nesse tempo se levantará Miguel, o grande príncipe, protetor dos filhos do teu povo. Será um tempo de tal angústia, qual não houve desde que os povos começaram a existir até então. Nesse tempo o teu povo será salvo; (sê-lo-á) todo aquele que estiver inscrito no livro (da vida). (Dn. XII, 1).

“Porém neste tempo”, – o tempo do Anticristo, do qual pouco antes me ocupei, – “se levantará Miguel” – isto é, Miguel se levantará para lutar contra o rei do Aquilão, ou seja, contra o Anticristo, para proteger contra ele e contra Lúcifer, os fiéis e os santos em tantas perseguições. Vide sobre este combate de Miguel e o dragão, no Apocalipse.

“Acendeu-se uma guerra no céu; vindo Miguel e os seus anjos para guerrearem com o dragão, entrou em guerra também o dragão e os seus anjos. Mas estes não prevaleceram e não mais tiveram lugar no céu. O grande dragão, a serpente antiga, aquele que é chamado diabo e satanás, o sedutor de todo o orbe habitado, foi precipitado sobre a terra e, juntamente com ele, foram precipitados os seus anjos.

“E ouvi uma grande voz, no céu, que dizia: “Agora consumou-se a obra salvadora, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo, porque foi precipitado o acusador dos nossos irmãos, aquele que os acusava na presença de nosso Deus dia e noite. E eles o venceram graças ao sangue do Cordeiro e graças ao testemunho que deram: eles desamaram a própria vida até padecerem a morte. Por isso, alegrai-vos, ó céus, e vós que os habitais. Mas ai de vós, ó terra e mar, porque o diabo caiu sobre vós com grande furor, sabendo que lhe resta pouco tempo”. (Apoc. 12, 7-12).

Donde São Tomás e outros ensinarem que nessa batalha o Anticristo será morto por Miguel. Pois assim explica aquela passagem da II Epístola aos Tessalonicenses 11, 8: “O qual (Anticristo) o Senhor Jesus matará com o sopro de Sua boca”, i.e., por Sua ordem. Porque, diz, Miguel o matará no Monte das Oliveiras, onde Cristo subiu ao Céu.”

Portanto, Cristo confiará a execução de Sua sentença conta o Anticristo a Miguel, o qual é o supremo juiz depois de Cristo, e defensor da justiça divina. (…)

Pantaleão, diácono e “chartophylax” da Igreja-mor, esclarece a muitos essa passagem, em suas homilias sobre São Miguel:

1º) refere-se a Miguel aquele Salmo XXXIV, 8: “O Anjo do Senhor assentará sua guarda em volta dos que o temem, e os libertará. “Assentará” a guarda, pois em hebraico é “chone”, i.e., assentará o acampamento, e como traduziu São Jerônimo, “circundará em círculo”, para que Miguel se oponha ao demônio, do qual também se diz que circunda em volta como um leão rugindo. Dessa forma quer significar o Salmista que Miguel instruirá os anjos em estilo de acampamento e organizará a defesa dos fiéis. (…) Pois que também os demônios se organizam em acampamentos e em ordem de batalha contra os homens, prova Tertuliano comentando o evangelho de Lucas no qual o demônio, perguntado por Cristo qual era o seu nome, respondeu: “Legião”.

2º) Miguel foi quem comandou a expulsão de Adão do paraíso, e ensinou-lhe a cultivar a terra com a enxada, a semear, e a fazer a colheita de toda a plantação.

3º) Miguel foi quem conteve a espada de Abraão, para que não matasse o filho, e nele abençoou a todos os povos, Gen. XXII.

4º) Miguel apareceu ao legislador Moisés, quando apascentava as ovelhas, no meio de um arbusto ardente.

5º) Miguel foi quem apareceu a Balaão na estrada:

“E o anjo do Senhor pôs-se no caminho diante de Balaão, que ia montado na jumenta, e tinha consigo dois criados. A Jumenta, vendo o anjo que estava no caminho com uma espada desembainhada, afastou-se do caminho, e ia pelo campo. E, como Balaão a fustigasse e a quisesse fazer voltar à estrada, o anjo pôs-se numa azinhaga estreita entre dois muros, com que estavam cercadas as vinhas. E a jumenta, vendo-o, coseu-se com a parede, e apertou o pé do que ia montado nela. Porém ele tornou a fustigá-la. Mas o anjo, passando a um lugar (ainda mais) apertado, onde não era possível desviar-se nem para a direita nem para a esquerda, parou diante. E a jumenta, vendo o anjo parado, caiu debaixo dos pés do que ia montado, o qual irado a fustigava mais fortemente com uma vara pelas ilhargas. E o Senhor abriu a bôca da jumenta, e ela disse: “Que te fiz eu? Porque me feres? Esta é já a terceira vez! Balaão respondeu: “Porque tu o mereceste, e me escarneceste: Oh! se eu tivesse uma espada para te matar!” A jumenta disse: “Acaso não sou eu a tua besta, em que tu sempre costumaste cavalgar até hoje? Dize-me se te fiz jamais coisa semelhante”. E ele respondeu-lhe: “Jamais”.

De repente abriu o Senhor os olhos de Balaão, e ele viu o anjo que estava no caminho com a espada desembainhada, e, prostrado por terra, o adorou. E o anjo disse-lhe: “Porque castigas tu terceira vez a tua jumenta? Eu vim opor-me a ti, porque o teu caminho é perverso e contrário a mim e se a jumenta se não tivesse desviado do caminho, cedendo o lugar a quem se opunha (à tua passagem), eu ter-te-ia matado, e ela ficaria viva.” (Num., XXII, 22-33).

6º) Miguel, em lugar de Deus, outorgou a Lei aos hebreus no Sinai, xodo XX.

7º) Miguel apareceu a Josué com a espada desembainhada, quando este dirigiu o exército contra os inimigos, e animou-o para o combate:

“Encontrando-se Josué perto de Jericó, levantou os olhos, e, olhando, viu um homem de pé diante dele com a espada desembainhada na mão. Josué achegou-se-lhe e disse: “És dos nossos ou dos inimigos?” Respondeu: “Não! Eu sou o chefe do exército do Senhor; cheguei agora mesmo”. Josué prostrou-se como o rosto em terra, adorou-o e disse-lhe: “Que tem a dizer o meu senhor a seu servo?” E o príncipe do exército do Senhor respondeu a Josué: “Descalça-te, pois o lugar em que te encontras é santo”. E Josué assim fez”. (Jos, V, 11-15).

Miguel é “o general das hostes angélicas”, diz São Basílio na homilia De Angelis. Assim, o que Marte foi para os gentios, general e chefe das guerras, São Miguel o é para os cristãos. (…) Por isso, São Miguel é chamado pelos gregos Archistrátegus, isto é, Generalíssimo.

8º) Miguel apareceu a Gedeão e foi cultuado por ele. O mesmo ajudou-o a que, com trezentos soldados, desbaratasse 135 mil madianitas (conf. Juízes 11 a 14)

9º) Miguel foi quem matou 185 mil assírios no acampamento de Senaquerib, numa só noite, I Reis cap. XIX, 32 a 37:

“Eis o que, do rei dos Assírios, diz o Senhor: Ele não entrará nesta cidade, nem despedirá nenhuma seta contra ela: não a cingirá de escudos, nem a cercará de trincheiras. Ele voltará pelo caminho por onde veio, e não entrará nesta cidade, diz o Senhor. Eu protegerei esta cidade e a salvarei por amor de mim e por amor do meu servo David.

“Naquela mesma noite, veio o anjo do Senhor e matou no campo dos Assírios cento e oitenta e cinco mil homens. Senaqueribe, tendo-se levantado ao amanhecer, viu todos os corpos dos mortos, e, retirando-se, foi-se. Senaqueribe, rei dos Assírios, retirou-se e ficou em Nínive. Enquanto, certo dia, adorava no templo o seu Deus Nesroque, Adrameleque e Sarasar seus filhos, mataram-no com a espada e fugiram para a terra dos Arménios. Seu filho Assaradão reinou em lugar dele”. (II Reis, XIX, 32-37).

10º) Miguel desceu à fornalha com Azarias e seus companheiros fazendo cair o orvalho, preservando-os das chamas.

11º) Miguel preservou Daniel no lago dos leões.

12º) Miguel tomou Habacuque por um anel de cabelos da cabeça e levou subitamente da Judéia à Babilônia, para que alimentasse a Daniel:

“Estava então o Profeta Habacuque na Judéia. Tinha cozido um caldo e migado uns pães dentro duma vasilha, e ia levá-los ao campo, aos ceifeiros que lá trazia. O anjo do Senhor disse a Habacuque: Leva a Babilônia essa refeição que tens, para a dares a Daniel, que está na cova dos leões. Habacuque respondeu: Senhor, nunca vi Babilônia e não sei onde é a cova. Então o anjo do Senhor tomou-o pelo alto da cabeça, e, tendo-o pelos cabelos, levou-o com a impetuosidade do seu espírito até Babilônia, sobre a cova. Habacuque levantou a voz, dizendo: Daniel, Daniel, servo de Deus, toma a refeição que Deus te mandou. Daniel disse: Tu, ó Deus, te lembraste de mim, não desamparaste os que te amam. Então, levantando-se, Daniel comeu. E o anjo do Senhor reconduziu logo Habacuque ao seu lugar. (Dn. XIV, 32-38).

“Depois disse-me: “Daniel, varão de desejos, entende as palavras que te venho dizer, e põe-te de pé, porque fui agora enviado a ti. Quando proferiu estas palavras, pus-me de pé, tremendo. (…) O príncipe do reino dos Persas resistiu-me durante vinte e um dias: mas eis que veio em meu socorro Miguel, um dos primeiros príncipes, e eu fiquei lá junto do rei dos Persas. Vim para te ensinar as coisas que estão para suceder ao teu povo nos últimos dias, porque o comprimento desta visão ainda está para esses dias (longinquos). (…)

“Então disse-me ele: Sabes tu por que é que vim ter contigo? Agora volto a pelejar contra o príncipe dos Persas. Quando eu sair, virá o príncipe dos Gregos. Mas (antes disso) anunciar-te-ei o que está expresso no livro da verdade. Em todas estas coisas ninguém me ajuda senão Miguel, que é o vosso príncipe.” (Dn. X, 11,13-14,20-21).

13º) Miguel foi quem movia as águas da piscina probática e santificava-as como símbolo do batismo. (…)

Novamente, São Miguel apareceu e Constantino Magno, indicando naquele momento que ele conduzisse os argonautas para o tosão de ouro: “Eu sou Miguel, generalíssimo dos exércitos do Senhor, defensor dos fiéis cristãos, `qui tibi contra impios tyrannos belligeranti, fideli et germano illius ministro, auxiliaria arma contuli`”.

14º) Miguel tocará no final a tuba, e com ela despertará os mortos para que venham para o Juízo. (…) Pois, como diz Viegas sobre o Apoc. XII: “Acredita-se que Miguel exerce o juízo particular das almas ao se separarem dos corpos; e é por isso que ele é representado com o gládio e a balança, para que o seu sumo poder e equanimidade de justiça se declare em nossos méritos ou deméritos que serão pesados.”

Isto indica claramente o Ofício Romano onde é chamado `Praepositus Paradisi’ e lhe diz Deus: `Constitui te Principem super omnes animas suscipiendas’. (…)

Acrescenta Viegas que Miguel é chamado de porta-estandarte, porque levará a insígnia ou o estandarte da Cruz à frente de Cristo, que virá para o último Juízo. (…)

Por fim, diz Pantaleão, Miguel é “quem alegra as Igrejas dos povos fiéis, quem protege a república romana, quem arma o imperador contra os bárbaros, quem dá a vitória aos cristãos; ele liberta aqueles que o invocam nas imensas vagas do mar, reforça a fertilidade dos frutos da terra, conforta os pusilânimes, visita os doentes, convida à fé os pecadores, repele o ímpeto dos demônios, extingue a chama dos vícios.” (…)

Acrescenta ainda Pantaleão que São João Apóstolo foi grande pregador de São Miguel na Ásia, e que cuidou de edificar um templo em honra dele. Como também “o imperador Justiniano erigiu igrejas em vários lugares em honra de Miguel, príncipe máximo da milícia celeste, sabendo muito bem que aconselhando-se com tão grande general, que venceu os anjos rebeldes revoltados no Céu, tinha certa e segura confiança de que poderia vencer os vândalos”, diz Procópio, no livro I De Bello Wandal.

Narra Cromero, no livro X Histor. que Miguel Arcanjo apareceu a Lesco, Príncipe polonês (`cum parva manu insecutum multa Lithuanorum milia’) e prometeu-lhe seu auxílio, garantiu-lhe a vitória, e este, vencedor, ao voltar construiu um templo ao mesmo anjo em Lublin.

É famosa também a dedicação da igreja a São Miguel e sua aparição no monte Gargano, no tempo do Pontífice Gelásio, que celebr7a-se no dia 8 de maio.

“Esta festa prende-se a uma visão do bispo de Siponto, ao qual o Arcanjo, Príncipe dos Exércitos Celestes, convidou a erigir uma igreja em sua honra, no Monte Gargano, aquele que, mais tarde, recebeu o nome de Monte do Santo Anjo.

“Um rico homem, chamado Gargano, possuía, naquele lugar, grandes manadas. Um dia, um dos seus touros, apartando-se do rebanho, enfiou-se para as montanhas e desapareceu. Procurado, inutilmente, por muitos dias, encontraram-no, afinal, numa caverna. Atiraram-lhe, então, uma flecha que, voltando contra o atirador, feriu-o.

“Maravilhados com o sucedido, que julgavam misterioso e significativo, resolveram procurar o bispo de Siponto, o qual, ouvida a narração do acontecido, ordenou um jejum de três dias, seguido de orações, para que se descobrisse, por via divina, o motivo do prodígio.

“São Miguel, então, apareceu ao bispo, declarando-lhe que a caverna em que se ocultara o touro jazia sob sua proteção, e que Deus desejava que fosse consagrada ao seu nome, em honra de todos os anjos.

“O bispo, admirado, com todo o clero, procurou a caverna, encontrando-a já disposta em forma de igreja. Logo se principiou a celebração de ofícios e o erguimento do templo.

“Conta-se que, quando o imperador Otão III, faltando com a palavra, ordenou que se matasse por rebelião o senador Crescêncio, Romualdo, o fundador das camáldulas, impôs-lhe como penitência ir descalço até o santuário de São Miguel no Monte Gargano, o que se deu no ano de 1002. (Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Editora das Américas, São Paulo, vol. III, pp. 187-188).

 

Meus caros, é possível pensar-se seriamente numa Contra-Revolução sem tomar São Miguel por especial protetor?

Estão vendo bem o traçado da conduta da Providência em todos estes casos. Deus não precisava de São Miguel para fazer todas as coisas que fez. Todavia, estava na ordem das coisas que, sendo Deus ótimo e máximo, Supremo portanto, não fizesse tudo aquilo que lhe convinha fazer, mas que tivesse servidores que lhe fizessem o que devia fazer. Mais ou menos como um rei no seu palácio, que tendo sede, poderia ir à parte que corresponderia à copa e lá pegar um copo, no lugar onde se os guarda, encher de água e beber. O rei, tendo possibilidade física de o fazer, teria direito de fazer, uma vez que era dono da água e de si mesmo. Não convém, porém, à majestade real fazer coisas mínimas. Para isso, quer ter aqueles que o sirvam.

Em relação a Deus Nosso Senhor, tudo é mínimo, tudo é pequeno.

* A maravilhosa cascata dos servidores de Deus

Está na boa ordem das coisas que Deus tenha servidores para executar as ordens dEle. E, dentre estes, ocupa evidentemente o primeiro lugar os Anjos, que foram os que primeiros seres que criou. Começaram, historicamente, desde logo a servi-Lo. Foram criados, conheceram-No, amaram-No e começaram a servi-Lo. Então, Deus começou a contar desde logo com o serviço de seus Anjos.

Depois, a própria ordem das coisas exigiu que, como ser servidor de Deus é uma coisa tão alta, conviesse a estes servidores ter, por sua vez, seus servidores. E, assim, sucessivamente. Forma-se uma cascata de grandezas que vai diminuído gradativamente até os menores. Estes mesmos, como pertencem à natureza angélica – natureza elevadíssima, puros espíritos – convinha que fossem servidos por seres menores, que são os homens. Os homens devem, por conseguinte, servir os Anjos.

Por esta mesma razão, os homens devem servir-se uns aos outros. Tudo, em última análise, para realizar os desígnios de Deus Nosso Senhor. O que é verdade para o serviço comum, é evidentemente verdade para a luta. Deus, podendo por um decreto ou resolução de Sua vontade eterna e onipotente esmagar o demônio a qualquer momento, quis ter, por princípio de conveniência ou ordenação, gente que esmagasse seus inimigosNão quis autômatos, mas homens que livremente quisessem o que Ele queria, esmagando assim os inimigos de Deus.

De ponto em ponto, segundo a mesma ordenação, seres livres e santos por quererem o que Deus quer, fazem o que Deus faria e, deste modo, asseguram a vitória de Deus.

De alto a baixo desta narração [vide o texto acima, n.d.c.], os senhores veem isso. Por exemplo, Deus mandou Habacuque levar alimentos a Daniel que estava na cova. Pois bem, poderia ter dado uma ordem para esses alimentos terem voado até Daniel. Não precisaria de nenhum ser intermediário. Mas é tal a distância entre Deus e esses alimentos, que Deus não se poderia a fazer de transportador deles. Então, ordena a São Miguel que se desloque e vá servir Daniel desta maneira, isto é, que vá levar a Daniel aquela alimentação. O Anjo leva-a. Depois, Deus podia ter dito a Daniel: “Volta a pé que protejo-te!” Mas não o fez. São Miguel levou-o pelos ares e colocou-o no lugar devido.

Alguém objetaria: “Isso é um desmentido. Não podia levar a comida, e podia levar Daniel?” – Isso mesmo! Daniel é um ser de natureza mais alta que a comida. Era um homem. E mais do que um homem, era um profeta de Deus entre os homens. Razão pela qual estava menos distante da infinitude divina do que uma certa porção de alimento destinada a alimentar Daniel.

* A grande lição da mula de Balaão para a Contra-Revolução

Os senhores veem o episódio da mula de Balaão. Deus quis, em última análise, converter quem a montava. Para isso serviu-se de um Anjo e, também, da mula.

Deus pôs ali um Anjo, que movimentou a mula conforme Deus queria. A mula executou a sua missão, apertando a perna do homem uma, duas vezes e provocando-o a dar chibatadas. Até que em determinado momento Deus, agindo continuamente sobre a mula, por meio do Anjo, levou-a ao ponto de dar-lhe a possibilidade de falar, coisa que a mula por sua natureza não tem, já que é um animal irracional. Deus serviu-se da boca da mula para dizer o que queria. E de que maneira? Um Anjo agiu sobre a mula e fê-la pronunciar aquelas palavras que havia de converter Balaão.

Mas há mais. Deus estava servindo-se da mula e do Anjo para preparar a alma de Balaão para ver o próprio Anjo. Depois de ter feito a mula falar, fez com que o Anjo aparecesse a Balaão. Aqui revelou-se como Anjo de Deus e comunicou-lhe a mensagem, convertendo Balaão.

Deus desceu, nesta gradação de serviços, através de seres que foi utilizando, inclusive seres inanimados: um pedaço de muralha, a chibata que estava na mão de Balaão, para de alto a baixo produzir um efeito magnífico, que ficasse para a posteridade: o milagre que converteu Balaão.

* Sem ajuda dos Anjos não há Contra-Revolução

Ora, na luta também se dá isso. Na grande luta da Contra-Revolução, Deus poderia mandar lutar só os Anjos. Mas não foi assim. Deus quer que os homens se metam dentro dessa luta. Frequentemente, os senhores veem aí os Anjos ajudando os homens.

Deus poderia agir sem os homens. Às vezes agiu, quando, por exemplo, mandou matar oitenta e cinco mil homens do rei Senaqueribe. Porém, depois houve uma batalha dos homens contra o restante. Assim, Deus a ganhou. Deus quer vencer através e por meio dos homens as batalhas que se travam no domínio humanoPortanto, Deus quer o nosso concurso na luta da Contra-Revolução, quer que estejamos compenetrados que, por mais importante que seja a nossa palavra, não deixa de ser inteiramente verdade que o elemento decisivo é a ajuda dos AnjosSe é a ajuda dos Anjos, é a ajuda do maior deles: São Miguel Arcanjo!

Aquele que é que chamado o Generalíssimo, o Estrategista de Deus, deve ajudar-nos – e devemos a ele recorrer em todas as circunstâncias – de tal maneira que trace os planos de nossa batalha e nós os executemos.

Alguém dirá: “Mas como é cômodo! Não terei mais que refletir. Fico de braços cruzados e o Anjo faz…” – Se fizer força para pensar, Deus far-me-á pensar bem com a ajuda do Anjo. Por causa disso, ganharei a batalha. Contudo, não me dispensa de aplicar o que Deus me deu. Por cima disto entra a ajuda do Anjo. Mas sem a ajuda dele não conseguirei nada.

Assim devemos ser em toda a luta da Contra-Revolução. Um simples novatinho, que faz pela primeira vez uma abordagem junto a outro, que daqui a um minuto vai entrar e ser mais novo do que ele, esta operação mínima, que é para a TFP o que a respiração ou o piscar de olhos é para o homem – um homem enquanto fala, come ou dorme respira – tudo isto Deus faz com a ajuda do homem. Deus quer fazer com nossa ajuda. Mas também quer que saibamos e compreendamos que foi Ele quem fez tudo. Fez e fê-lo por meio de seus Anjos. Esta é a questão.

* Devotos dos Anjos, pensando num Céu de luta contra o Inferno

Devemos ser muito devotos dos Anjos. Seria até interessante, se eu tivesse tempo – quem sabe se algum dia aparecerá esse tempo – fazer uma Ladainha das principais dessas invocaçõespara que nos lembremos no momento de nossos apuros. Não poria apenas assim – se me lembrarem – “rogai por nós”, mas um pedido de algo que vem frequentemente na nossa vida, uma ajuda especial em nome de tal fato ou poder ou de tal ação, que Deus praticou por meio deles.

Seria um fruto, provavelmente feliz, da reunião que estamos fazendo aqui. Mas aí eu gostaria de ter um documento que deve estar nos meus documentos estudos e que é tirado do próprio Cornélio a Lapide, quando fala dos “Anjos Ferreiros”. Fala do gáudio que terão os habitantes do Céu ao responder às blasfêmias dos precitos, fazendo-os sofrer. Desta forma não pensemos num Céu preguiçoso e sem luta, mas num Céu que terá tudo o que tem o Céu, até o eterno e perfeito repouso – mas, numa luta!

Com isto, como já é bastante tarde, nosso expediente está encerrado.

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