Santo do Dia, 10 de janeiro de 1970
A D V E R T Ê N C I A
O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.
Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:
“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.
As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

São Pedro Orseolo (928-987)
O Santo do Dia cuja vida nós vamos comentar é São Pedro Orseolo, confessor, cuja festa é celebrada dia 10 de Janeiro. Os dados que vou ler são extraídos de Rohrbacher, “A vida dos Santos”. A síntese biográfica é a seguinte:
“São Pedro Orseolo nasceu no ano 928, e teve uma vida agitada. Ele foi doge de Veneza, filho de importante família daquele cidade. Aos 20 anos comandou uma frota que lhe fora confiada, desbaratando a pirataria que então infestava o Mar Adriático. É de crer que tenha tomado parte no levante popular, havido em 976, que redundou na morte do doge Pedro Candiano IV, no incêndio do palácio dos doges que se propagou e destruiu parte de Veneza. O fato é que, alçado ao comando, sucedeu ao doge morto, sendo então um administrador enérgico, cheio de tato e incansável. Assim que se viu no poder, tratou de reparar os estragos causados pelo fogo quando do incêndio ateado no palácio, principiando pela restauração da Igreja de São Marcos.
“Personalidade complexa, arrebatada, causou admiração a todos quando, numa noite, a 1º de Setembro de 978, em segredo, deixou a cidade e demandou a abadia beneditina de Cuxa, em Roussillon, entre a França e a Espanha. Nem mesmo sua esposa, com a qual convivia há mais de vinte anos, soube de seu paradeiro durante muitos anos. Sob a direção do santo abade Guarinus, São Pedro Orseolo levou vida austera, dada toda ela à oração e à luta, até morrer para si mesmo. Faleceu no ano 987 e deixou um filho único, que foi um dos maiores e mais célebres doges de Veneza.”

Veneza – Basílica de São Marcos e o Palácio do Doge, que foram restaurados por São Pedro Orseolo após ter sido danificado por incêndio
Esse santo do dia nos reporta a uma época e a um quadro completamente diferentes desses que estamos habituados. Os senhores têm que se figurar a cidade de Veneza num mundo totalmente diferente do nosso. Creio que todos os senhores já ouviram falar da cidade de Veneza: uma cidade feérica e encantadora, que existe no norte da Itália, no mar Adriático, toda ela construída sobre uma laguna. Parece que primitivamente havia nessa laguna uma série de ilhotas. E quando os bárbaros, no século IV, invadiram o Ocidente, uma parte dos camponeses daquela redondeza, para fugir à invasão, fugiram para essas tais ilhotas.
Ali, começaram a fazer comércio com o Oriente, enriqueceram-se e sobre essas ilhas construíram uma cidade original, porque era toda ela sobre ilhas. Como dentro de algum tempo estas não bastaram mais para edificar o grande número de casas e de palácios que se foram levantando, eles – com uma arte arquitetônica extraordinária – foram aterrando algumas ilhas, construindo com estacas fundamentos para a construção de palácios sobre o próprio mar e com isso, ao cabo de alguns anos, ergueu-se a cidade de Veneza, que é uma verdadeira maravilha.
Para os senhores terem um pouco ideia de Veneza, os senhores precisam imaginar uma cidade que não tenha ruas, mas canais cheios de água do mar e em que as pessoas saem diretamente de dentro de casa e entram em barcos muito bonitos, com a proa e popa arredondados de um modo elegante, guiados por gondoleiros, que não têm as buzinas estridentes dos dias de hoje, mas que cantam quando chegam perto das esquinas, com um brado melódico muito bonito: ohhhh!… uma coisa que repercute ao longe, e se ouvem os remos que mexem aquelas águas e as gôndolas que passam… Hoje, gôndolas pretas; no tempo de São Pedro Orseolo, gôndolas douradas, com toldos bonitos, com almofadas, com tapetes que se estendiam sobre a água e que flutuavam, constituindo uma espécie de cauda da gôndola a qual deslizava lentamente pelos mares.

Os senhores precisavam imaginar Veneza toda iluminada à noite, com as luzes dos palácios refletindo no mar, ouvindo, para quem passava de gôndola, os risos, o aroma da comida, o tilintar das taças de vinho etc., dentro dos grandes palácios, para compreenderem qual era o prestígio, a beleza e a grandeza de Veneza. Para os senhores terem uma ideia disso, basta tomar em consideração que hoje ainda a cidade de Veneza está de pé com seus palácios, suas ilhas e vai gente do mundo inteiro para visita-la e que fica verdadeiramente extasiada! Eu mesmo, foi uma das mais fortes impressões que tive em minha vida, foi minha chegada à Veneza.
A basílica de São Marcos de que fala a vida de São Pedro Orseolo, estava toda iluminada, a partir de uma torre construída no tempo de São Pio X para restaurar uma antiga torre, e iluminava a basílica com luzes de colorido diverso. E embaixo, na praça pública, havia um grande concerto, com uma das maiores orquestras europeias. E vendiam-se lugares em cadeiras postas na praça, ao ar livre. E à medida que o concerto ia tocando, um artista colocado na torre ia mudando as cores das luzes que incidiam na basílica.
De maneira que quando a música era mais triste, a luz ia ficando mais escura e os tetos metálicos da basílica iam ficando de um azulado profundo. Quando a música ficava mais alegre, aparecia uma luz dourada e a gente tinha impressão de que a basílica acompanhava o concerto… Lembro que eu cheguei, vi aquilo, não disse uma palavra, fiquei extasiado assistindo aquilo até o fim. Prestando ainda mais atenção nas cores e na basílica do que na música. Porque a música, apesar de ser tocada por uma grande orquestra, acabava sendo um acessório dessa feeria que era o desenrolar das luzes sobre a basílica…
Não posso deixar de me lembrar de tudo isso lendo a vida desse doge, e recordando que era um doge de Veneza. A palavra “doge” é uma forma italiana arcaica para dizer “duce”, chefe. Era o chefe de Veneza, o duque de Veneza. Tinha que pertencer a uma família nobre, era eleito por um famoso Conselho dos Dez, e vestia-se com uma roupa de púrpura, que formava uma espécie de túnica em torno dele, uma espécie de auréola, que ia se arrastando em torno dele, e com um barrete que ocupava a cabeça, com uma ponta para a frente e que tomava todo o rosto assim. Era um traje imponentíssimo.
E todos os anos os doges de Veneza saíam para uma festa que eles chamavam “os desponsórios com o mar”; era o casamento simbólico de Veneza com o mar. Numa nau dourada, chamada “Bucentauro”, o doge, seguido de centenas de pequenas embarcações douradas da nobreza veneziana, ia até o alto mar e lançava um anel, que simbolizava o casamento com o mar Adriático. Depois ele voltava quando todos os sinos de Veneza repicavam, o povo fazia festas na praça pública; assavam bois inteiros, distribuíam-se vinhos, era a alegria popular pela festa de Veneza.
É nesse ambiente que os senhores têm que ver esse futuro santo. Considerem então que ele era um homem extraordinariamente precoce: aos vinte anos comandava navios que iam combater os piratas que infestavam o mar Adriático no litoral de Veneza. Naquele tempo isso era uma obra de grande importância. Seria mais ou menos como combater os sequestradores terroristas que atualmente procuram levar aviões para Cuba. Porque os piratas se aproximavam de navios de nações organizadas, de Veneza por exemplo, roubavam toda a carga, tomavam a tripulação católica, reduziam a escravos e vendiam no Oriente.
De maneira que um passageiro de um navio desses corria o risco de nunca mais ter os sacramentos, nunca mais se confessar, por exemplo, e iria passar a vida inteira como escravo de um paxá, de um sultão, num lugar que ele nunca tivesse conhecido, que podia matá-lo de um momento para outro. Porque o escravo era propriedade de seu dono e este podia fazer dele o que quisesse. Era, portanto, uma alta obra de apostolado combater a pirataria. Era uma obra de coragem. Aos vinte anos, esse rapaz estava dirigindo esquadras de guerreiros venezianos que combatiam os piratas. Não era uma tarefa fácil. Porque em geral os que remavam nas esquadras eram também piratas que tinham sido escravizados por não piratas.
De maneira que quando chegava perto o navio pirata, a ralé embaixo, embora acorrentada e, portanto, não podendo fugir, começava a torcer pelos piratas do lado de lá. E era preciso meter medo nos que estavam fora. E esse duplo medo a ser incutido, interno e externo, soube fazer não só por sua presença no navio que comandava, mas em toda sua esquadra.
Ele se tornou tão famoso – os senhores considerem um rapaz de vinte anos… – ele se tornou tão famoso nesse combate que ficou uma das principais pessoas de Veneza. A ficha biográfica é muito omissa sobre o assunto que ele teria dirigido uma revolução que queimou quase toda Veneza. Não sei por que essa revolução, não me lembro qual foi sua causa. Porém é estranho vermos esse homem chefiar essa revolução. Porque um santo não deve ser revolucionário, mas deve ser do partido da lei.
A revolução – salvo casos raríssimos, definidos por São Tomás de Aquino – é ilegítima. Não se tem o direito de fazer revolução. Ele vence uma revolução com riscos tremendos. Porque quem nela fosse derrotado, de acordo com os hábitos do tempo, ou era morto imediatamente sem julgamento, ou então passava por suplícios tremendos. Um dos quais era esse: na entrada do palácio dos doges havia uma gaiola enorme aonde o prisioneiro ficava preso, sem poder sair, enjaulado, exposto à chuva e vento, bom tempo, mau tempo e sol, sem toldo nem nada, e vivendo do que dessem lhe ou não…
Passavam os adversários políticos, diziam desaforos e ele não podia dizer nada porque estava longe. Se passasse um amigo, desde que estivesse de bom humor, conversava com ele. Mas se estivesse de mau humor, dava um adeusinho, ele não podia correr atrás, porque estava preso… E isso podia durar cinco anos, dez anos… Homens fortíssimos que resistiam a tudo e que ficavam às vezes todo esse tempo naquela gaiola vivendo. Pois bem, esse homem enfrentou todos esses riscos, dominou, depôs o governo fez-se eleger doge de Veneza e imediatamente, com pulso de ferro, recomeçou a reconstrução da cidade.
Ele reconstruiu a Basílica de São Marcos, impôs a justiça no lugar, estava com a vida e a carreira feitas. Casado há mais de vinte anos, num dos lugares mais brilhantes da Europa e do mundo cristão daquele tempo. Chefe de um Estado dos mais ricos da Europa…
Aí vem o mistério da graça: um homem de uma têmpera de aço como os senhores estão vendo, habituado a vencer, a mandar, a dominar, de repente é tocado pela graça. Reconhece, provavelmente, o que havia de ruim numa vida onde muitos aspectos eram também bons, abandona tudo, foge de receio com certeza que o segurem no lugar, e vai como humílimo penitente a um convento longínquo. Naquele tempo era uma distância enorme de Veneza para aquela zona da Europa que fica mais ou menos entre a França e a Espanha – o Roussillon –e lá se faz frade nessa abadia…
É uma mudança de cenário completa. Aquele homem que fora um leão passa a ser um cordeiro; que fora um mandão, passa a ser um homem obediente, que faz tudo quanto seu superior lhe manda, que renuncia a tudo quanto a vida lhe dera e que como um anônimo, sob os trajes de mero monge, vai apenas rezar o ofício divino, trabalhar as terras, ler, pedir perdão por seus pecados, expiar e pedir a Deus que tenha pena dele. É uma mudança completa, o homem faz uma rotação total. Vemos então o perfil do monge que se delineia, vai apagando o perfil do doge e começa a nascer o santo.
Essa renúncia é abençoada por Deus. As graças começam a chover sobre ele. Sua virtude vai muito além de uma virtude comum. De um bom monge, torna-se um santo, expira cercado pela admiração e pela veneração geral. Hoje ele é um santo canonizado pela Igreja.
Os senhores vejam que imensa transformação, que imensa mudança nesse homem, mas agora vamos analisá-lo para compreendermos bem o que é um monge, pois o mundo de hoje tem ideias falsas a respeito.

Veja os comentários feitos por Dr. Plinio desta foto em “Paz de alma no Tabor e no Calvário”