Um católico fazer apostolado sem a graça de Deus é uma impossibilidade! Uma mentalidade em duas grandes pessoas: Dom Chautard e o Marechal Foch

Continuação do Santo do Dia de 22 de maio de 1976 – Sábado

 

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

 

Os Srs. sabem que há um livro – e eu pergunto quantos dos Srs. já o leram – a “Alma de todo apostolado“, de Dom Chautard.

É possível que eu desenvolva metodicamente à noite aqui a “Alma de todo apostolado” de Dom Chautard em vez de estar tratando de tanta coisa aqui, lá ou acolá.

Nessa “Alma de todo apostolado” Dom Chautard desenvolve ideias que são baseadas na Revelação, e que têm uma analogia muito grande com as de Foch. Mas, naturalmente, todas elas embebidas de fé e de espírito católico.

De maneira que é o momento de eu fazer uma transposição dessa experiência de Foch para a de Dom Chautard, no livro “A alma de todo apostolado”.

Quem foi Dom Chautard? Eu li uma vez uma biografia de Dom Chautard (1858-1935). Ele era filho de um pequeno tabelião, uma coisa assim, de uma cidade pequena, se não me engano da região dos Alpes (Briançon). São pormenores que eu não gravei bem.

Ele sentia que era um moço de muito valor, seu pai sentia isso também, e entendia que ele tinha que fazer a carreira dele fora, em outro lugar, porque o lugarzinho era muito pequeno, não estava nas proporções da personalidade dele.

E ele foi não me lembro bem se foi para Lyon ou para Marseille, alguma grande cidade do interior da França e ali começou um trabalho de contador ou de uma carreira burocrática desse gênero. Mas de fato ele aspirava a coisas mais altas.

Ele fazia estudos etc., relaxou um tanto na prática da religião, mas sem deixar de ser católico praticante durante a mocidade. E ainda nesse tempo da mocidade dele, a graça o tocou e ele quis ser trapista.

Os trapistas, como os Srs. sabem, são uma ordem religiosa fundada por São Bernardo, um ramo da Ordem beneditina. Quer dizer, a regra seguida pelos trapistas é uma velha e imortal regra de São Bento, datando ainda do tempo do Império Romano, mas que foi sendo interpretada de várias maneiras e dando origem a várias ordens religiosas inspiradas pela mesma Regra, com aplicações diferentes.

E São Bernardo, no fim da Idade Média, considerando que a ordem beneditina estava em decadência depois dos grandes dias de Cluny, São Bernardo resolveu fundar um ramo novo, que é um ramo extraordinariamente austero e que até há pouco existia. Hoje, com essa autodemolição da Igreja, eu não sei o que é que existe…

Mas os monges, vestindo-se perpetuamente de branco, vivendo em grandes conventos, com extensões de terra enormes que eles mesmos trabalham com suas próprias mãos, levam uma vida extraordinariamente austera: jejuns, penitências.

O seu duplo trabalho é correspondente à máxima de São Bento: “ora et labora”. Aqueles dos Srs. que passaram pela igreja de São Bento, em São Paulo, no Largo de São Bento, terão notado no ângulo entre a Rua São Bento e a Rua Florêncio de Abreu, um personagem trabalhado em granito que tem um dístico na mão: “Ora et labora – Reza e trabalha”. Esta é a norma dada por São Bento aos seus filhos: a vida é uma oração e um trabalho. Um trabalho para dar glória a Deus e uma oração para dar glória a Deus também.

Nós vamos ver daqui a pouquinho o que é que se entende por “trabalho” e o que é que se entende por “oração”.

O que sempre me causou, por causa, talvez, do meu temperamento muito expansivo… A minha família materna é paulista, mas ao contrário do que costuma acontecer com os paulistas, muito expansiva. E meu pai era pernambucano, portanto, nordestino. Os senhores sabem que os nordestinos são exuberantemente expansivos. Eu, portanto, por natureza – os Srs. veem – falo muito, falo aos borbotões e é evidente que gosto de falar.

E eu me lembro o choque que eu tive quando pela primeira vez eu li uma referência à particularidade da vida dos trapistas, que eu vou narrar agora, os trapistas passam a vida quietos, não falam nunca, a não ser nos casos de extrema necessidade, quando a Regra dá ordem. E eles têm aquele dia marcado pela Regra que eles também não podem interromper, a não ser em caso de extrema necessidade.

Numa das trapas da França – eu já não me lembro qual – se vê na parede essa coisa maravilhosa: a parede da igreja está rachada. Foi um terremoto que se produziu enquanto os trapistas rezavam o Ofício. Nenhum interrompeu o Ofício e nenhum saiu das estalas da igreja porque, segundo a Regra, era hora de rezar. Também não consertaram a parede. É claro! Aquilo é uma glória. Consertar aquilo seria uma gafe irremediável! Ficou ali para lembrar a fidelidade trapista à Regra de São Bernardo.

Acordam – não me lembro mais se duas ou três vezes à noite, (inclusive) no frio europeu – para ir rezar na igreja e voltar pare a dormir de novo.

Portanto, grandes sonos gostosos nas camas macias, onde a gente mais desmaia do que dorme horas seguidas, não existem para os filhos de São Bernardo… Pelo contrário, interromper o sono aquela hora…  jejuns de espantar… Em uma refeição, vem ovos duros e um pouco de peixe, está acabado! Lá vai a coisa para frente.

E a alternativa para a oração e para o trabalho é o estudo, que é uma forma de trabalho. Em geral eles têm boas bibliotecas, mas assim mesmo não são bibliotecas sobre qualquer coisa, em que um trapista pode, por exemplo, abrir um livro “As viagens maravilhosas do Sr. Fulano”, e ficar vendo como é o Ceilão, como é o Alasca, como é Paris, como é a nossa bela Espanha. Nada disso. Mas é no duro! Só sobre assuntos de vida espiritual: ascese e mística, ou altos assuntos de contemplação teológica. Mais nada. Nisso o trapista que entra jovem ainda passa vinte, trinta, quarenta, cinquenta anos, até que Deus colha sua alma.

Ele não tem nem cela. Ele dorme em grandes dormitórios comuns. A sua vida está posta ali, na presença de Deus.

O silêncio, ao meu temperamento expansivo, causou uma surpresa enorme! Porque quando eu era moço – hoje menos – me teria custado enormemente, mas enormemente!

Eu me lembro que a primeira vez que eu caí no silêncio foi quando eu era bem moço, tinha ainda 20 ou 21 anos, fui convidado para um retiro de congregado mariano em Santos. E eu estava pouco familiarizado com os modos de ser do Movimento Católico daquele tempo. Me falaram de Santos e eu pensei no mar. O mar é um perpétuo espetáculo! Não há como o mar, não é? Eu chego a dizer que nem o céu físico que nós vemos daqui – não digo o Céu empíreo, onde está Deus – mas o céu físico que nós vemos daqui é bonito como o mar. Eu tenho encanto pelo mar!

Diante do mar é uma conversa contínua porque a gente ferra prosas com o mar! O mar conversa para a gente ver: ele se faz grandioso, ele se faz pequeno, ele se faz caprichoso, ele vai, ele vem, ele remexe, ele sussurra, ele brilha, ele fica opaco… Uma das melhores prosas é a gente olhar para o mar… aí sim sem conversa (com outros). Porque o companheiro quer que a gente descreva o mar para ele… Não. Agora você espera, você tem seus olhos, olha o mar para você… Chegou a hora de eu olhar o mar para mim… Depois, quando estivermos lá dentro, talvez comentemos o mar. Mas agora é hora de… olha aquela ondinha… – Qual ondinha? Agora, não… Afinal chegou minha vez, não é? Eu vou olhar o mar sozinho.

Bem, eu pensava que o retiro era umas pregações, mar magnífico e uma cela para mim… Me levam para um porão onde tinha três camas em uma só cela e eu vejo com horror que era proibido falar…! E eu: como?! Três dias sem falar?! – Ah! Aqui não se fala. É a regra de Santo Inácio de Loiola. – Mas como?! Existe a possibilidade de uma pessoa ficar três dias sem falar? Eu não consigo não falar! – Não! Domine-se!

Eu me lembro que eu fiquei tão desanimado que quando o Padre saiu da minha cela, eu deitei na minha cama, mas de atravessado, com a cabeça e os braços para um lado, e as pernas de outro, e achava que ia desmaiar. Três dias foram três séculos…

Os srs. podem imaginar o que me parece, ao menos a mim, a vida de um trapista. Bem, essa é a vocação que teve o grande Dom Chautard.

Homem dotado de uma tal personalidade que – não preciso dizer outra coisa ao Srs. – uma vez em que esteve no Extremo Oriente para fundar uma trapa por lá, estava em um lugar onde desembarcavam mercadorias, uma espécie de alfândega e tinha um leão numa jaula. Ele era dotado de muitos talentos, entre outros era um hipnotizador exímio. Ele então fez a experiência – para se distrair com algumas pessoas que estavam com ele, porque fora da trapa o trapista pode conversar – de hipnotizar o leão. Daí a pouco o leão estava mansinho, deitado no chão… Dom Chautard tinha hipnotizado o leão. Pode-se imaginar o domínio que precisa ter um homem para ser hipnotizador de leões…

Os senhores deveriam procurar uma fotografia de Dom Chautard: uma cabeça grande, enorme, possante; olhos serenos e profundos, uma espécie de firmamento; a cabeça apoiada na mão, como que ao peso do pensamento; o traje branco, imaculado, expressão da pureza dele, e ele pensando… É uma coisa magnífica! É pena eu não ter pensado que trataria de Dom Chautard hoje com os Srs., do contrário eu teria arranjado uma projeção de Dom Chautard. Creio que alguns dos Srs. já viram a fotografia dele e não é necessário estar projetando.

Mas de qualquer forma, Dom Chautard chamou a si o seguinte apostolado: de, — numa época que era depois da I Guerra Mundial, mas sobretudo depois da II Guerra Mundial, em que a influência da civilização mecânica, comercial, material de nossos dias estava também atacando e fazendo devastações no clero — ele convencer os padres de que o principal da vida do padre não é de estar cuidando das almas, não é estar cuidando da própria Igreja Católica, Apostólica, Romana: é de estar cuidando da sua própria alma.

O padre que se santifique a si mesmo – vamos ver daqui a pouco o que é se santificar na concepção de Dom Chautard – e procure ser um modelo de padre, implacavelmente destinando a esse fim todo o tempo necessário; depois disso, o padre que faça o seu apostolado.

Então ele terá um apostolado que tem verdadeira alma, porque ele formou a sua alma na oração. Formando sua alma na oração, ele tem o que dizer aos outros. Quer dizer, ele é, portanto, um homem capaz de impressionar os outros com aquela forma especial de impressão que o padre deve exercer, ou, não sendo padre, o leigo católico deve exercer sobre aqueles com quem trata.

Ele conta de um santo que viveu no século passado e do qual os senhores com certeza já ouviram falar, o bem-aventurado Cura d’Ars – é santo hoje, São João Batista Vianney. E ele conta que um advogado de Paris foi fazer uma visita à cidadezinha de Ars, de que São João Batista Vianney era vigário, para conhecê-lo, porque ele era um homem de quem falavam muito. Quando voltou a Paris, perguntaram a esse advogado:

– O que o senhor viu lá em Ars?

– Vi uma coisa: Deus num homem.

Porque era só ele começar a falar, que as almas se comoviam e se modificavam; e as conversões que ele fazia eram espantosas e numerosíssimas!

Dizia bem Dom Chautard: qual é a razão dessa conversão? Por que ele conseguia converter – era um homem pouco inteligente o Cura d’Ars – enquanto outros padres tão inteligentes, muitas vezes, não convertem ninguém? A resposta era: ele tinha uma grande vida de pensamento, uma grande vida de meditação, uma grande vida interior. E porque tinha essa vida interior, estava imbuído e compenetrado das doutrinas que ensinava. E quando ele ensinava, as pessoas tinham a sensação de ter um contato vivo com as verdades das quais ele era o arauto. O resultado é que a pessoa se convertia como se visse Deus num homem.

Às vezes a voz dele era fraca e nem conseguia ser ouvido bem por todo mundo. Não havia alto-falante naquele tempo, não conseguia fazer-se ouvir por todo o mundo. Mas de vê-lo, e de vê-lo falar sem ouvi-lo, muitas pessoas já se convertiam.

Ele possuía internamente isso que vemos no Foch, de outra maneira.

Quer dizer, um homem muito pensativo e que pensava a respeito do que tinha que pensar. Nós veremos daqui a pouco no que ele tinha que pensar e como é que pensava. Ele pensava a respeito do que tinha que pensar e como devia pensar. E por causa disso, tinha um amor profundo às verdades da Doutrina Católica a respeito das quais pensava. Por causa disso, contagiava com esse amor os outros, convertia as pessoas em grande quantidade.

Como é que pensa um católico? E é só esse contágio a força de conversão do verdadeiro católico?

A esse respeito cabe-me dizer aos Srs., como uma pequena introdução à “Alma de todo apostolado”, alguma coisa de muito rápido, de muito sumário por causa do horário; pelo meu relógio são 23:50.

Mas o verdadeiro sacerdote, o verdadeiro católico leigo que consagra sua vida à causa católica – e assim desejamos ser todos nós – tem um modo de pensar em que ele relaciona tudo quanto vê, tudo aquilo com que trata, ele relaciona com Deus.

Como relaciona com Deus? Veremos daqui a pouco.

Mas ele vê todas as coisas em função de Deus. E pelo fato de ver em função de Deus, ele percebe o que é o bem e o que é o mal, o que é verdade e o que é erro. E ele deve ter uma alma profundamente admirativa.

A alma incapaz de admiração é incapaz de verdadeira vida de piedade.

Ele toma, então, aqueles vários aspectos da Doutrina Católica a respeito de Deus, do pecado, da Redenção, do Verbo Encarnado, da Maternidade Divina, dos sacramentos, da Igreja, da Lei de Deus, vai analisando, vai se enlevando, se entusiasmando com aquilo, aprofundando cada vez mais e admirando cada vez mais.

Porque as coisas da Igreja porque são divinas, de tal maneira são aprofundáveis que, ainda que se passe uma vida pensando sobre uma delas, ainda haverá alguma coisa que se tirar de dentro, de tal maneira são ricas e são até inesgotáveis.

E ele, conforme as apetências de sua alma, vai pensando nisso, relacionando com aquilo e à medida que relaciona, conhece mais. É o ver.

À medida que ele conhece mais, admira mais: julgar. A admiração é um julgamento. A admiração é a conclusão de que certa coisa é admirável e, portanto, ele admira.

Só depois é que vai agir: faz apostolado.

Mas que apostolado faz uma alma assim imbuída de meditação e de admiração!

Ora, essa meditação e essa admiração é que se chama oração.

Oração não é só rezar – é também e é em larga medida, em venerável medida. Oração é a elevação da mente a Deus. Quer dizer, não ficar pensando apenas no palpável, mas sai do palpável e pensa em Deus. Aí se tem a elevação da mente a Deus. E é o relacionar tudo assim, com a mente posta em Deus, isto  é fazer oração. Imbuir-se do espírito católico para difundir o espírito católico em torno de si.

Numa palavra, como é que se faz isso?

Os senhores têm aqui atrás de mim duas criaturas de Deus: uma é um paredão de pedra; e os senhores têm depois um estandarte de couro, com o leão rompante.

Como é que do paredão de pedra a gente eleva a mente até Deus? Como é que do leão rompante, a gente chega até Deus? Eu falaria demais tempo se fosse pegar todas essas coisas juntas – tem ainda uma alabarda, e há uma imagem de Nossa Senhora – que nos podem falar de Deus… Não sei de qual delas os Srs. gostariam mais que eu fizesse a aplicação.

Vão levantando o braço… O leão ganhou. E eu não censuro. É explicável. Não é necessariamente a imagem de Nossa Senhora — nem sempre uma imagem é aquilo que mais nos toca — mas é outra coisa que Deus criou para tocar a nossa alma de mil modos.

Os senhores vêm ali o leão – eu não o tenho diante dos olhos, mas eu o tenho melhor do que diante dos olhos, na retina – o leão dourado, que intencionalmente a pessoa incumbida da decoração da sala quis de um tamanho um pouco descomunal.

O próprio estandarte é de um tamanho um pouco descomunal que é para impressionar quem vê. Não sei se pensaram como essa sala seria diferente se o estandarte fosse pequenininho. A baixa de nível que seria. E uma alabardinha assim, onde o estandarte estivesse pendurado… a tristeza. Mas precisava ser uma alabarda de bom tamanho e, pendurado nela, um estandarte pesado, de couro. Nada de sedas farfalhantes. Couro resistente, curtido, capaz de levar golpes, pintado de vermelho e, nele, um leão áureo.

O que o leão áureo, que impressão esse leão causa à alma? Evidentemente causa a impressão estilizada do que a fera leão costuma causar. Quer dizer, o rei das selvas no exercício dos seus direitos, de sua soberania. O ordenador da selva, diante da qual todos se curvam, e que se encontra um adversário que se opõe ao bem, à reta ordenação da qual ele é símbolo. Então ele se levanta com todo o seu vigor, com toda a sua decisão e ataca de garras de fora, como quem diz: “Se isso está torto, eu acerto. Se está errado, eu esmago. Mas nada pode existir diante de mim que seja torto ou errado. Só tem direito aquilo que é conforme Deus!”

O que é isso? É evidentemente uma rememoração, um símbolo das almas que Deus suscitou na Igreja Católica, símbolos da coragem, símbolos do direito, símbolos do heroísmo, de um grande Carlos Magno, por exemplo, que poderia ser chamado “o leão coroado”, de Godofredo de Bouillon, de quantos outros ao longo da História.

É só isso? O leão é o símbolo do homem; o homem é símbolo de Deus. Por detrás do homem majestoso, régio, pleno como foi Carlos Magno, por cima dele, infinitamente por cima dele, nós podemos ver Deus Nosso Senhor, que não é só majestoso, mas é ‘A Majestade’; não é só régio, mas é ‘A Realeza’; não é só forte, mas é ‘A Força’; não é só colérico contra o mal, mas é ‘A Cólera’ contra o mal. E que possui, então, de modo personificado e inimaginável, todas essas coisas que no leão de tal maneira eu admiro.

Então, eu olho esse leão e penso: “Quantas coisas a Igreja pôs na vida parecidas com esse leão! Que admirável a Igreja Católica! Nosso Senhor Jesus Cristo é chamado pela Escritura o Leão de Judá; e quando o ódio do mundo inteiro se levantou contra Ele, Ele enfrentou de peito aberto e generoso, desdenhando até de entrar em luta com aquela gente.

Perguntaram se Ele era Jesus de Nazaré, Ele disse: ”Eu o sou.” Todo mundo caiu de cara no chão! Depois Ele se entregou. Como quem diz: “Eu tenho uma missão muito maior do que vocês! Vocês o que são? Instrumentos, vá lá! Agora eu vou sofrer pela humanidade.” Coisa maravilhosa!

Nós pensamos mais ainda na própria essência divina!

Então, do leão subimos ao homem; do homem, subimos ao Homem Deus, do Homem Deus subimos a Deus Nosso Senhor. Essa é a meditação: elevar-se até Deus através das coisas sensíveis.

O verdadeiro católico faz isso.

Por exemplo, munido de “Revolução e Contra-Revolução”, ele tem o espírito contra-revolucionário e odeia o espírito revolucionário. Ele se perguntará em torno dele o que é Revolução e o que é Contra-Revolução; o que é conforme à Revolução e conforme à Contra-Revolução.

Ele vai admirando ou vai detestando. Mas subindo até Deus, que é a personificação de todas essas perfeições. Isto é fazer oração, isto é elevar sua mente a Deus.

Por um pouquinho que os Srs. façam, os Srs. compreenderão que isso é viver. A vida assim é interessante de observar, é bonita até quando é feia.

Porque a gente fica espreitando o castigo de Deus ao longo do caminho para ver como Deus é magnífico até quando castiga. Por exemplo, nos terremotos que estão havendo agora na Europa: a terra treme… Muitas vezes – nem sempre – a cólera de Deus se manifesta aos homens: raio, relâmpagos… que coisas lindas! Aquela fulguração símbolo da cólera de Deus magnífica. E a gente acompanha tudo isso subindo até Deus.

É ou não verdade que isso abre os horizontes?

É ou não é verdade que isso une a Deus Nosso Senhor e que esta é a vida do verdadeiro católico?

E o católico faz com sua vida o que Foch fazia com sua guerra: ele tem horas em que ele pensa nesses assuntos e não pensa em outros. São as horas de seu isolamento, de sua solidão, de sua meditação. Dessas horas ele sai para o campo de batalha. É a vida quotidiana.

Mas levando no espírito as recordações dessas coisas e observando. De maneira que qualquer lugar onde ele deite os olhos, ele observa sobretudo a Revolução e a Contra-Revolução, os contrastes, o que a Igreja – que é a alma da Contra-Revolução – pôs de lindo no mundo, ou o que a Revolução pôs de feio, de asqueroso. E se afia para isso.

Esse pode ser um homem só que seja como uma TFP inteira, se é um homem inteiramente assim. E o “segredo” para nós ganharmos as nossas “batalhas”, o “segredo” principal é nós sermos assim.

Se Foch não tivesse sua vida de pensamento de militar, ele teria perdido a guerra. E ele ganhou a guerra menos indo ao campo de batalha do que aproveitando sua solidão; ficando só e aproveitando sua solidão.

Nós também. Nós menos ganhamos as lutas do apostolado fazendo apostolado, do que ficando só e pensando nas coisas de Deus.

Sobretudo porque há um ponto que eu deixei intencionalmente para o fim, e sobre o qual direi uma palavra, embora seja um ponto de uma importância transcendental: é o papel da graça.

Nós, quando fomos batizados, recebemos a graça de Deus que é posta em nós, para fazer uma comparação, mais ou menos como se enxerta uma planta na outra – toda comparação é claudicante, mas digamos, é uma comparação. E nós passamos a viver de uma vida que não é só nossa, mas é uma verdadeira participação da vida de Deus, nós passamos a participar da vida de Deus. É pela graça de Deus que nós temos a fé; pela graça de Deus é que somos capazes dessa admiração, cujo nome é amor e da qual falei há pouco aos srs.

Essa graça, essa vida, nós podemos comunicar a outros. Pelo nosso contato um outro pode receber a graça de Deus. Fazendo circular a graça, nós fazemos circular a vida de Deus pelo mundo, porque sem a graça de Deus não tem nada feito; e com a graça de Deus é tem tudo feito.

Então, os srs. estão vendo que eu tenho uma intenção fazendo os senhores meditarem a respeito do Foch.

É através do exemplo de um grande soldado – e agora através da palavra de um grande monge – preparar o espírito dos senhores para essa consideração: nossa vida deve ser, antes de tudo, essa vida de pensamento, alimentada, no caso de nossa vocação, pelas reflexões baseadas em “Revolução e Contra-Revolução”.

Aí os Srs. poderão conceber, ver a beleza da Doutrina Católica, da qual temos a honra imerecida de sermos porta-vozes particulares – não oficiais, porque não somos da Hierarquia, mas “quand même” [mesmo assim], porta-vozes. E aí os srs. compreenderão bem como tudo isso diz respeito à vocação dos senhores.

Muito mais no caso dos senhores do que no caso de Foch. Porque um general que queira ganhar uma batalha sem refletir é um homem menos louco do que um católico que queira fazer apostolado sem a graça de Deus. É uma impossibilidade! E para ter essa graça de Deus ele precisa ter esse recolhimento.

Assim, meus caros, terminou a reunião. Eu quis intencionalmente colocar o exemplo do monge junto com o do guerreiro porque ainda há – creio eu – restos de impressão de que o verdadeiro católico – e sobretudo o monge – é mole, é efeminado, não é um herói, não é um homem enérgico.

Aí os Srs. têm os dois grandes homens conjugados, para introduzirem no espírito dos srs. essa noção: vida interior é a alma de todo apostolado.

Não há Contra-Revolução sem vida interior.

Se os Srs. pudessem saber até que ponto é deleitável a vida interior, até que ponto a vida é cassete sem vida interior, e como a vida interior é agradável para tudo, seria uma verdadeira maravilha!

Está nos meus planos remotos, depois de terminado o Foch, depois de ter visto Foch e Dom Chautard, sobretudo se o Sr. Leo não me deixar esquecer dessa sequência de temas, quando se fizer a exposição sobre a RCR, fazer cada vez a aplicação da parte da RCR a um ponto da vida concreta, para vermos como se vê o lado R e CR da coisa, para a gente amar ou detestar; para irmos todos juntos habituando a esse discernimento católico-anticatólico; amar a verdade e o bem, execrar o erro e o mal. E ficarmos assim verdadeiros filhos de Nossa Senhora, que essa é a nossa vocação. Com isso está terminada a reunião de hoje.

Notas:

Continuação do Santo do Dia de 22-5-1976, em que Dr. Plinio Corrêa de Oliveira aponta como a vida de dois grandes homens católicos, Dom Jean-Baptiste Chautard e o Marechal Foch, constitui o verso e o reverso do mesmo espírito da Santa Igreja.

Vide sobre o mesmo tema: “Sem o livro de Dom Chautard, eu teria perdido a minha alma”.

Para ler os comentários mais extensos e diferentes dos acima, consulte os textos das Reuniões abaixo, feitas em 1965:

* O estilo do vitorioso Marechal Foch: luta contra a confusão e a ingenuidade. Sábias lições de vida para as mais diversas atividades civis / Trabalhar constantemente sem febricitação, sem perder o fôlego, sem barulho e sem vaidade. Sempre com os olhos postos em Nossa Senhora e com espírito sobrenatural.

* Marechal Foch e o relacionamento exemplar entre superior-inferior. Vários pequenos compêndios para o saber viver.

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