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Catolicismo Nº 43 - Julho de 1954
Continuamos ( 1 ) hoje nossos comentários sobre a importantíssima alocução Santo Padre aos participantes do 5º Congresso Nacional da União dos Juristas Católicos Italianos ( 2 ). A respeito da constituição de um organismo internacional abrangendo grupos de Nações, e possivelmente todos os países do globo, o Santo Padre Pio XII enunciou alguns princípios que assim se poderiam resumir:
No momento, paremos aqui. Antes da alocução de Pio XII, o problema Comunidade dos Estados estava intimamente ligado - pelo menos na prática - ao da República Universal. Como se sabe, numerosos pensadores e políticos influentes têm propugnado com insistência sempre maior, pela formação de grupos de Estados fundidos ou quase fundidos entre si, e tem preconizado que tais grupos constituiriam um primeiro passo para a realização de um só Estado em toda a terra, no qual se amalgamariam, dissolveriam e fundiriam todos os países. As condições políticas oriundas da última guerra favoreciam singularmente este plano, pois criavam - pelo menos na aparência - uma alternativa cruel: ou a realização de super-Estados absorventes para resistir ao Leviatan soviético, ou a capitulação diante do comunismo. Em boa parte, o drama da CED nasce deste problema. Em outra ordem de idéias, começou a aparecer como evidente para numerosas pessoas que um novo conflito internacional acarretará o fim da civilização, e quiçá da humanidade. Assim, pareceu-lhes que todos os sacrifícios seriam pequenos para evitar um tal desfecho. E nada se lhes afigurava mais racional, mais eficaz, mais definitivo neste ramo, do que suprimir todos os governos, todas as fronteiras, todas as pátrias, e estabelecer a República Universal. As circunstâncias conferiam assim forma, cor e vida em nossos dias, às cogitações dos revolucionários que, particularmente desde o século passado, vêm sonhando com o moloch de uma república universal, laica, socialista, igualitária, o plano bem conhecido das seitas secretas, que ontem ainda parecia quimérico aos espíritos "realistas". Nos meios católicos, muitos pensadores e estudiosos se tem preocupado com o assunto. E a generalidade deles se dividia em duas tendências. Uns, atraídos pelos aspectos filantrópicos e pacifistas da sonhada República Universal, pactuavam com ela segundo algum dos mil modos com que se pode pactuar com algo, desde a adesão declarada, até a aprovação tácita, ou a aceitação muito resignada, do fato consumado. Outros, entretanto, reagiam. Não que lhes parecesse ilegítimo ou inconcebível um organismo supra-nacional, cada vez mais fortemente reclamado pelas crescentes facilidades de comunicação entre os povos. Em seu espírito estava bem viva pelo contrário a admiração pela Cristandade e o Sacro Império. Mas parecia-lhes que os partidários da República Universal eram imensamente poderosos, e de outro lado a única resistência ponderável que tinham diante de si eram certos particularismos, explicáveis muitas vezes, exagerados e estreitos outras, mas em todo o caso muito vivazes. Qualquer passo que se desse no rumo da formação de blocos internacionais, embora fosse legítimo em suas modalidades iniciais, amorteceria esses particularismos, e em última análise reduziria as resistências psicológicas - imensamente mais importantes do que se pensa - que se opunham à realização do audacioso plano das seitas. Como se vê, havia a maior adesão à idéia de um organismo internacional que respeitasse e até defendesse a soberania de cada povo. Mas uma grave objeção estratégica contra a oportunidade desta medida. Objeção sábia, objeção criteriosa, objeção justa, inspirada na análise sagaz do horizonte político como ele se apresentava. Em tese, uma comunidade internacional seria excelente. Concretamente, e para evitar o mal maior da República Universal, era preferível esperar.
A Alocução do Santo Padre Pio XII aos juristas católicos da Itália veio alterar inteiramente este horizonte, nele introduzindo um elemento novo de substancial importância. Assim, a tática, cujo mérito está em sua adequação aos fatos, também tem de mudar. Esta modificação, poderíamos enunciá-la assim:
Esta intervenção doutrinária e diplomática do Santo Padre - já pronunciada quiçá, discretamente, em alocução anterior - destrói o primitivo quadro. Frente a frente há hoje em dia mais do que somente os partidários da República Universal e os particularismos, excessos entre os quais só cabia - taticamente - aos elementos moderados favorecer o mal menor, que era certamente o particularismo. Na liça está agora a Santa Sé, a guiar com seu prestígio, sua força, sua sabedoria, o poder das graças de Deus, os esforços em prol de uma solução equilibrada: nem particularismos exagerados, nem República Universal, mas particularismos legítimos, Estados soberanos e irmãos, sujeitos ao Direito Natural no seio de uma sociedade. O problema se simplifica pois enormemente, para os verdadeiros católicos. Trata-se para eles, não mais de escolher entre um mal menor e um mal maior, mas de agir e rezar a fim de que a atuação importantíssima do Sumo Pontífice produza para a maior glória de Deus todos os frutos que seu coração amorosíssimo deseja.
Comentadores superficiais exultaram com a alocução pontifícia, vendo nela uma tomada de posição a favor do "Estado vitalmente cristão" sonhado pelo sr. Jacques Maritain. Tal Estado admitiria em pé de igualdade a Igreja e todas as seitas. Ele alicerçaria o seu Direito, não sobre a Revelação - pois este é o ponto de divergência entre as várias religiões - mas sobre a lei natural, conhecida pela mera luz da razão, e, pois, aceitável pelos fiéis de todos os credos. Ora, dizem eles, o Santo Padre concebe precisamente assim a Comunidade das Nações. Ela não se estruturaria sobre a base da Fé, como outrora a Cristandade e o Sacro Império, mas sobre a base da lei natural. Ela não teria religião oficial, mas seria eqüidistante em relação a todas. Ficaria pois demonstrada a legitimidade de um estado de coisas tal.
É incompreensível que católicos cheguem a tais conclusões e com elas se alegrem. Quando se ama algo ou alguém - pessoa, instituição, doutrina - deseja-se-lhe todo o bem, toda a honra, toda a glória. Isto é verdadeiro a fortiori com Deus e sua Igreja. Se na ordem das possibilidades teóricas se pode pensar numa sociedade internacional em que todas as nações, convertidas a Cristo Senhor Nosso, reconheçam seu reinado e tomem como pedra fundamental de seu Direito - no campo internacional e interno - a Santa Igreja, a atitude do católico zeloso consiste em anelar com todas as veras da alma esta situação, e aceitar pesaroso qualquer outra. Pesaroso, sim: é bem este o termo. Pois o lugar próprio a Cristo-Rei é o trono, e qualquer outra situação que se lhe atribua é falsa, ilegítima, imprópria. Pode haver circunstâncias que levem o católico zeloso a aceitar para a Igreja outra situação. Ele a aceitará, pois o contrário seria estulto. Mas esta aceitação comportará três ressalvas:
Ora, tem-se a impressão de que muitos espíritos se portam de modo diametralmente oposto diante da dura contingência em que estão os católicos neste mundo em que a maioria ainda não é católica:
É preciso fixar bem a importância do que aqui fica dito. O ponto de divergência entre nós e tais católicos não é este:
O ponto de divergência é este:
Qual das duas posições é aprovada pela alocução pontifícia? Tem-se vontade de sorrir. Pois quem pode duvidar dos sentimentos de um Papa a este respeito? Quem pode duvidar de que Pio XII deplore com todas as veras de sua alma a divisão religiosa do mundo, máxime a existência de uma tão imensa ditadura atéia por detrás da cortina de ferro? Quem pode duvidar de que ele deseje a conversão de todos os povos à única Igreja de Jesus Cristo, e de que no dia em que tal se der ele quererá ver a Revelação como base do Direito? Em tudo quanto o Papa ensina e faz, isto é implícito e explicito de todos os modos. Em sua alocução, Pio XII, à vista da situação contingente de divisão religiosa, e da existência de povos ateus, aceita a idéia de uma sociedade internacional baseada no Direito Natural, e sem posição confessional oficial. Mas onde está dito ou insinuado que essa situação lhe agrada, lhe causa júbilo? Onde está afirmado que ele a reputa a situação ideal? Onde está dito que ele renuncia à situação ideal? E onde, pois, os títulos para o júbilo maritainista? O Santo Padre Pio XII agiu no caso como qualquer Papa da Idade Média, o que aliás é normal porque Pedro é sempre Pedro. A Cristandade medieval viveu sempre em guerra de legítima defesa contra bárbaros e sarracenos. Se uns e outros não nos tivessem atacado, se não tivessem violado nossas fronteiras, tivessem permitido aos missionários evangelizar em suas terras, e tivessem respeitado os Lugares Santos, se tivessem observado a moral natural, em suas relações com a Cristandade, não teria havido as Cruzadas. Se os ateus, hereges e cismáticos de hoje quiserem agir assim - levados quiçá pelo medo de uma hecatombe mundial - porque fazer contra eles uma Cruzada?
E assim nos fica só, para analisar, a tomada de posição do Sumo Pontífice em face do problema da liberdade religiosa no interior de cada Estado, inclusive dos Estados ateus. Fá-lo-emos em próximo número, não sem tocar em outra questão. Falando em "Lei imanente de desenvolvimento", e em "tendências inatas", o Santo Padre canonizou o evolucionismo? ( 1 ) O primeiro artigo desta série, subordinado ao título de "Desfazendo explorações maritainistas", foi publicado no número 42, Junho de 1954 ( 2 ) Publicada em "CATOLICISMO", número citado.
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