"Catolicismo" Nº 84 -
Dezembro de 1957
Hodie
in Terra Canunt Angeli, Laetantur Archangeli, Hodie exsultant Justi
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Anjo Gabriel - Igreja de
Saint-Pierre de Chauvigny |
Na Liturgia, a festa
do Natal ocupa certamente um lugar considerável. Não, porém, dos de
primeira grandeza. Páscoa e Pentecostes, por exemplo, têm rito duplex
de 1ª classe, com oitava privilegiada de 1ª ordem; ao passo que o
Natal é uma festa duplex de 1ª classe, com oitava privilegiada de 3ª
ordem. Entretanto, a piedade dos fiéis dela faz uma das datas mais
relevantes do ano. E isto por várias razões.
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O nascimento do
Salvador constituiu em si mesmo uma honra de infinito valor para o
gênero humano. Poderia o Verbo de Deus unir hipostaticamente a Si
algum dos Anjos mais santos e rútilos das alturas celestes. Pelo
contrário, preferiu ser homem, fazer-se carne, pertencer por sua
humanidade à descendência de Adão. Dom absolutamente gratuito,
nobilitação, para nós, de um valor inefável, ponto de partida
histórico, para nós, de outros dons, também eles insondáveis.
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Assim, na previsão de
que o Verbo se encarnaria, já a Providência criara um ser que continha
em si perfeições maiores que as de todo o universo reunido, e para ele
suspendera a sucessão hereditária do pecado original. Dos méritos
previstos da Redenção, se alimentara a virtude de todos os justos da
antiga lei. Mas essa multidão de eleitos estava sentada "às portas da
morte" ( Sl. 106, 18 ), à espera de que se imolasse por todos nós o
Cordeiro de Deus.
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E não eram só eles
que esperavam parados. Por assim dizer, parada numa muda expectativa
estava toda a história. No momento em que Jesus Cristo nasceu, o mundo
conhecido vivia num período de epílogo. Florescera o Egito e, chegado
a uma certa culminância, ruíra. O mesmo se podia dizer dos outros
povos, caldeus, persas, fenícios, citas, gregos e tantos mais. Por
fim, os romanos estavam também a ponto de entrar no longo ocaso que,
com períodos de decadência rápida, de estagnação mais ou menos
prolongada, de efêmera reação, conduziu de Augusto a seu remoto
sucessor e seu miserável homônimo, Rômulo Augustulo.
Todos estes impérios
tinham subido suficientemente alto para atestar a profundidade e a
variedade dos talentos e capacidades dos respectivos povos. Mas o
nível mais ou menos igual a que todos se haviam alçado não estava à
altura das aspirações das almas verdadeiramente nobres. Dir-se-ia que
essas magníficas civilizações haviam deixado patente, não tanto o que
tinham, mas o que lhes faltava, e a incurável incapacidade do talento,
da riqueza e da força dos homens, para construir um mundo digno deles.
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Tudo isto constituía
na Ásia, como na África ou na Europa, uma atmosfera irrespirável, que
acrescia o tormento dos escravos em sua vida já tão miserável, e
minava secretamente os lazeres e os deleites dos ricos. Opressão
imponderável mas onipresente, impalpável mas evidente, indescritível
mas muito definida. O curso da história encalhara num lodaçal de
corrupção, cheio dos escombros do passado, no qual só as formas
doentias de vida ainda se patenteavam. Assim, no terreno político, um
fim de luta entre duas expressões de demagogia: anárquica e
arruaceira, ou militar e despótica. No terreno cultural, o cepticismo
religioso, a devorar as idolatrias antigas. No terreno internacional,
as várias pátrias acabando de se deteriorar no recipiente do Império,
para constituir esse moloch cosmopolita anorgânico em que Roma se
transformou. No terreno moral, a depravação dos costumes dominando a
existência cotidiana. No terreno social, o ouro arvorado em valor
supremo. Para os bem-instalados, as coisas corriam aprazivelmente, na
aparência. Mas em épocas tais, os bem-instalados são habitualmente a
vasa moral e intelectual do país. E padecem, exatamente os melhores,
os mil tormentos das situações imerecidas e inadequadas.
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Haja vista o quadro
do povo eleito, no momento em que o Verbo se encarnou. Herodes cingira
o diadema de Rei. De foto era, porém, um celerado, dos piores do
reino, medíocre, cúpido, cruel, consciente instrumento do opressor
para iludir os judeus com as aparências de uma realeza vã. Os
sacerdotes eram, no que diz respeito ao espírito de fé, à sinceridade
e ao desprendimento, a ralé da Sinagoga. A casa real de David vivia
desprezada e na maior obscuridade. Os justos eram os "marginais" dessa
ordem de coisas tão fundamentalmente má que acabou por excluir de si e
reatar o Justo. Então, o que mais? Era o fim.
"A luz brilhou nas trevas"
Pois foi nas trevas
deste fim que, quando menos se pensava, e onde menos se esperava, uma
luz muito pura se acendeu. Nesta luz havia o anúncio da hora da
Encarnação, a promessa implícita da Redenção tão esperada, e da nova
era que começou para o mundo com o incêndio de Pentecostes. É o
esplendor desta luz inaugurando nas trevas uma aurora que
triunfalmente se transformou em dia, é o cântico de surpresa e
esperança diante dessa renovação sobrenatural, o anelo e o antegosto
de uma ordem nova baseada na fé e na virtude, que os fiéis de todos os
séculos se comprazem em considerar, quando seus olhos se detêm no
Menino-Deus, deitado na manjedoura, a sorrir enternecido para a
Virgem-Mãe e seu castíssimo Esposo.
Frisante analogia
Também hoje, uma
imensa opressão pesa sobre nós. É inútil tentar disfarçar a gravidade
da hora, pondo em ação as castanholas e os pandeiros de um otimismo já
agora sem repercussão. Com a única diferença de que temos em nossos
dias a Santa Igreja, a situação do mundo é terrivelmente parecida com
a do tempo em que ocorreu o primeiro Natal.
Também entre nós, o
comunismo marca um fim. É o epílogo da decadência religiosa e moral
iniciada com o protestantismo no século XVI. Nesse epílogo se esvai o
mundo burguês, cada vez mais intoxicado de sincretismo, socialismo e
sensualidade. E, como se isto não bastasse, a Rússia acelera este
processo de decadência, difundindo seus erros em todos os países.
Temos entre nos a
Igreja, é verdade. Mas essa augusta e sobrenatural presença não salva
senão na medida em que os homens lhe aceitam a influência. Se a
repelem, estão por alguns aspectos mais expostos ao castigo do que os
próprios pagãos. Os judeus tiveram entre eles o Homem-Deus.
Rejeitaram-no e foram punidos por uma ruína mais terrível e muito mais
próxima que a dos romanos.
Ora, qual é a
situação da Igreja em nossos dias? Temos vontade de sorrir, e mais
ainda de chorar, quando alguém nos diz pura e simplesmente que é boa.
É claro que, por
alguns lados, essa situação pode ser dita boa. Mais ou menos como se
poderia dizer no Domingo de Ramos que era grande o entusiasmo dos
judeus para com Nosso Senhor.
Mas dizer que a
situação da Igreja é boa hoje em dia, no conjunto de seus aspectos, e
tomados na devida conta os fatores positivos e negativos, há nisto uma
afronta à verdade.
Com efeito, só é boa
para a Igreja a situação em que a cultura, as leis, as instituições, a
vida doméstica e cotidiana dos particulares são conformes à Lei de
Deus. Que tal não se dá hoje, nada é mais notório. Então, por que
tapar o sol com uma peneira?
Que os bem-instalados
possam desejar a duração desta lenta agonia, é compreensível. Também
os micróbios, se pudessem pensar, prefeririam matar lentamente sua
vítima, pois a agonia desta é a opulência deles e a morte dela será
morte para eles também. Indivíduos que em geral não têm mérito para
estar onde os ventos do caos os levaram, têm todas as razões para
desejar que não volte a ordem: pois neste caso voltariam ao pó.
Mas eles próprios não
podem escapar ao mal-estar profundo do momento que passa, e não podem
deixar de estremecer com os relâmpagos que se desprendem, sempre mais
freqüentes, da atmosfera saturada.
A voz de Fátima
No alto, porém, dessa
montanha sagrada que é a Igreja, coroada pelo diadema régio com que
lhe cingiu a fronte o Legado - tão querido dos brasileiros - que a
piedade do imortal Pio XII para este ato constituiu, ergue-se a imagem
maternal e melancólica de Nossa Senhora de Fátima.
E de lá partem para o
mundo opresso as claridades de esperança que lhe veio trazer a Rainha
do Universo, claridades que suscitam entre nós esperanças análogas às
que a Boa Nova despertou na humanidade antiga. Análogas é dizer pouco.
São claridades que brotam da Igreja, e, pois, de Jesus Cristo.
Claridades que simplesmente prolongam e reafirmam as da primeira noite
de Natal.
"Por fim meu
Imaculado Coração triunfará", disse a Virgem em sua terceira aparição
na Cova da Iria.
Oh neopaganismo, mil
vezes pior que o paganismo antigo, teus dias estão contados. Cairá o
poderio soviético, e ruirá também a influência da Revolução no
Ocidente. Nossa Senhora o disse. E diante d’Ela são impotentes todos
os grandes da terra e todos os príncipes das trevas.
O Triunfo do
Imaculado Coração de Maria, o que pode ser, senão o Reinado da
Santíssima Virgem, previsto por São Luis Maria Grignion de Montfort? E
esse Reinado, o que pode ser, senão aquela era de virtude em que a
humanidade, reconciliada com Deus, no regaço da Igreja, viverá na
terra segundo a Lei, preparando-se para as glórias do Céu?
Neste conturbado ano
de 1957, não pensemos em "sputniks" nem em bombas de hidrogênio, na
noite de Natal, senão para confirmar nossa convicção de que Jesus
Cristo venceu para todo o sempre o demônio, o mundo e a carne, e
prepara dias da mais alta glória para sua Mãe Imaculada, que
resplandecerão depois de Provas terríveis.
Título: "Hoje
na terra cantam os Anjos, rejubilam os Arcanjos, hoje exultam os
justos" - Antífona das segundas vésperas do Natal