Catolicismo,
n.° 409, Janeiro de 1985 (www.catolicismo.com.br)
"Lavagem cerebral" e "seita",
duas palavras-slogan de significado indefinível que
preparam no mundo inteiro a tirania total e a perseguição religiosa
MULTIPLICAM-SE POR todo o
mundo, mas sobretudo nos Estados Unidos, organizações extravagantes,
criadoras ou incentivadoras de mitos e maneiras de
ser exóticas, as quais destoam do modo de viver da sociedade atual. Várias
delas têm conduzido a crimes ao mesmo tempo abjetos e espetaculares.
Entretanto, muitas outras
organizações não conduzem necessariamente ao crime nem a práticas ilegais de
qualquer natureza. Servem simplesmente de caldo de cultura à eclosão de
sistemas filosóficos ou religiosos, padrões morais e culturais novos, muito
censuráveis, por certo, do ponto de vista cristão, mas normais do ponto de
vista da laicidade professada por todos os Estados do
Ocidente.
O intuito de pôr cobro à
criminalidade engendrada pelas primeiras, de um lado, e, em segundo lugar, de
preservar a atual sociedade da erosão de corpúsculos que, embora não
criminosos, dela se destacam freneticamente, querendo a todo custo construir
uma outra coisa, fez com que se constituísse, mais ou menos por toda parte, o
movimento anti-seitas, pujante particularmente nos
Estados Unidos em razão mesmo da assinalada proliferação de seitas criminosas
ou exóticas que lá se verifica.
Se esse movimento visasse
apenas reprimir a criminalidade, seria justificável e até louvável, pois onde
quer que ela apareça, é justo e necessário que encontre a repressão das
autoridades. E apoiando a esta, a barreira de rejeição de consenso geral, que
assim facilita às autoridades o cumprimento de seu dever.
Já é bem mais delicado
pensar numa repressão legal às seitas naquilo em que elas não são senão
simplesmente extravagantes, e que de si não tendem a engendrar a criminalidade,
pois ficam dentro dos limites da lei.
Dir-se-á que certo tipo
de extravagância conduz de si ao crime. E, portanto, é dever pedir, contra
ela, que a lei estabeleça proibições preventivas.
Se o legislador arvora
esse princípio — salutar sob vários aspectos — em norma para uma política
legislativa moderna, ele terá muita dificuldade em enfrentar a perfeita
impunidade com que vicejam, pelo mundo inteiro, fatores de corrupção
evidentemente responsáveis por crimes e perturbações sociais de toda ordem.
Além do mais, como
reprimirá o Poder Público algo que não transgrediu os limites permitidos pela
lei? Pensar-se-á talvez em promulgar uma lei anti-extravagância.
Mas o Estado, religiosa, cultural e filosoficamente neutro, no que se fundará
para fixar o critério demarcatório entre normalidade
e extravagância? E, suposto que ele encontrasse tal critério, como distinguir,
no domínio acidentado e viscoso da extravagância, o que deve e o que não deve
ser punido por lei?
Dentro da mentalidade
laica e neutra da atual sociedade, se alguém usar em local público um chapéu
de três bicos, normal no tempo de Luís XV, ou sair à rua com sapatos de
marajá, em que é que ofende, com isso, as atuais concepções do direito? E se
dois, três ou cinco indivíduos se vestem de algum modo anormal e, juntando-se,
resolvem cantar na rua cânticos adoidados, no que é isso reprovável, desde que
o canto não perturbe a ordem pública nem ofenda os bons costumes?
Pretendendo que o Estado
legisle no domínio de tais extravagâncias, o movimento anti-seita
levanta múltiplas questões legais delicadas. E muitas inextricáveis. Todas,
note-se, com implicações de ordem moral e religiosa por sua vez tanto ou mais
delicadas e indeslindáveis. Pois se se admite que o Estado tem o direito de entrar nessas
matérias, atribui-se-lhe tal amplitude de ação que — especialmente em vista
das tendências totalitárias hodiernas — se provoca inevitavelmente o
aparecimento de uma espécie de doutrina oficial: sobre chapéus, sapatos ou
casos do gênero, sobre maneiras de sentir e de pensar em tal ou tal matéria,
que se irá muito além, e muito mais a fundo, do que as leis suntuárias
da velha Bizâncio, ou da China imperial.
Sob o pretexto de
profilaxia antiextravagância, o Estado hodierno fica
detentor do direito de elaborar, definir e fazer prevalecer uma opinião oficial
sobre quase todos os aspectos da vida humana, com direito de reprimir todos os
que não viverem ou não pensarem conforme essa opinião oficial.
No que o regime em que
vivermos diferirá então do totalitarismo russo, ou chinês?
Objetará alguém,
eventualmente, que nos Estados ocidentais, essas atribuições não configurariam
uma ditadura tirânica, pois estariam em mãos de mandatários do sufrágio
universal. Objeção ingênua, pois se se dá ao corpo
eleitoral tal poder sobre cada particular, nem por isto o regime deixará de ser
tirânico.
* * *
A solução para a
proliferação da extravagância tem que ser buscada fundamentalmente em outro
campo.
Tais extravagâncias são
manifestações extremas da desordem quase geral de uma sociedade sem religião.
Em nome da verdadeira religião, não só se traça um código de moral perfeito,
mas é possível lançar no homem as sementes das quatro virtudes cardeais —
prudência, justiça, fortaleza e temperança — que fazem com que todo o agir
social e humano seja equilibrado.
São essas as quatro
virtudes que dão equilíbrio ao homem. Se elas se desestabilizam,
decaem ou desaparecem nos homens que compõem uma sociedade, pelo menos na
extrema ponta de seu procedimento acaba saindo alguma extravagância, alguma
aberração, quando não diretamente o pecado.
Ora, frutos daninhos como
estes, não se evitam senão pela emenda moral da sociedade. E não se moraliza
uma sociedade a não ser com base na única Religião verdadeira, apoiada pela
graça de Deus.
Esta é uma esfera que
escapa à ação do Estado. Se o Estado quiser corrigir por si, e de modo
laico, esses aspectos da vida humana, ele se transforma em uma espécie de
"Estado-Igreja", que em certo momento se
achará no direito de julgar a Igreja. E então julgará se os paramentos que
a Igreja usa em suas funções litúrgicas são
extravagantes, ou não... E daí por diante, faria a censura, não só do
paramento quanto do culto. Não só do culto como da Fé.
Por exemplo, no conceito
de extravagante, freqüentemente está contido o de antiquado. O chapéu de três
bicos, normal no tempo de Luís XV, não se usa hoje por ser obsoleto. Então,
quem pode dizer se determinado paramento litúrgico,
adotado há quase dois mil anos, usado por um sacerdote de nossos dias, é
antiquado ou não? Se é, pois, extravagante ou não?
Ora, o movimento anti-seita, cuja motivação anticriminal
originária é perfeitamente compreensível, em vez de se restringir à repressão
das práticas ilegais e criminosas a que dão origem certas seitas, cavalga celeremente rumo à tutela do equilíbrio social, e, mais, do
próprio equilíbrio mental e do bom senso de todos os homens, da modelagem de
todos os aspectos da vida humana. Mais uma vez, é o despotismo "orwelliano" que surge no horizonte.
* * *
Curiosamente, o movimento
anti-seitas lança seus ataques em todas as direções.
Menos em direção ao socialismo e ao comunismo. Por que tal movimento não vê a
estes como seitas filosóficas? Por que não qualifica de extravagante nenhuma
das aberrações do movimento hippie, do rock (não obstante confessadamente
satânico em vários de seus rituais)? Mais uma vez, por que?
Não é possível deixar de
concluir que, na ordem prática das coisas, esse movimento conduz ao
totalitarismo global. E com isto prepara para o comunismo. Além do mais, seu
silêncio favorece o comunismo.
E, muito
sintomaticamente, o movimento anti-seitas se joga
com freqüência contra os inimigos que o comunismo quer derrubar.
Assim, a hipótese de que
esse movimento, e o socialo-comunismo, são complementares,
parece difícil de ser recusada.
* * *
Nos Estados Unidos, a
controvérsia em torno das seitas — que por uma acomodação peculiar da
linguagem são também chamadas de "cults" (cultos)
— produziu uma imensa literatura, pois da parte de opositores e defensores,
houve recurso aos cientistas sociais, psicólogos, psiquiatras e outros
especialistas em temas conexos.
O público brasileiro em
geral não está a par dessa literatura, aliás recente. Em conseqüência, não
dispõe ele dos elementos mais atuais para ajuizar adequadamente o tema que vai
aflorando também em nossa imprensa, e desde logo com uma carga emocional, a
qual ameaça aturdir os espíritos e desvirtuar os julgamentos.
Segundo a terminologia teológico-canônica, o problema se põe em termos distintos
dos que vem circulando na linguagem norte-americana corrente. Com efeito,
segundo esta, uma seita se define como uma organização que adota uma doutrina
estranha e que no modo de ser de seus sequazes discrepa dos hábitos da
sociedade atual. Na linguagem teológica, a seita se configura antes de mais
nada pela dissonância de sua doutrina com a doutrina da Igreja, ou pela desobediência
às autoridades eclesiásticas legítimas. Numa palavra, pela ruptura com a
comunhão na Fé ou na obediência, da Igreja. Assim, por exemplo, são seitas as
"igrejas" protestantes, as igrejas greco-cismáticas
etc.
No mundo relativista de hoje, a Fé católica, infelizmente, deixou de
ser reconhecida como baliza comum de referência, e os espíritos desnorteados
procuram outros critérios para definir suas posições em relação às seitas.
Assim, em vez de o
critério ser o estado de união ou de ruptura com a Igreja Católica, em muitos
casos passou a ser, como foi dito, a conformidade ou a ruptura com os usos e
costumes vigentes em determinada sociedade, ou em determinado ambiente.
E a perseguição às seitas
é feita, então, com base num critério freqüentemente desvirtuado. Pois, com a paganização geral das mentalidades
e dos costumes, não é raro que as sociedades e os ambientes tomados como
padrão vão discrepando cada vez mais do que ensina e manda a Igreja.
* * *
Nos Estados Unidos,
causou profundo impacto sobre a opinião pública o termo "lavagem
cerebral", lançado por um jornalista norte-americano, Edward
Hunter Jr. Numa série de
artigos para o "The Miami
Daily News" e o "The Leader Magazine",
descreveu ele, em 1950, os processos de tortura a que foram submetidos seus
conterrâneos, quando caíram nas mãos do inimigo, na Guerra da Coréia. Como
esse processo visava obter confissões falsas e mudar as convicções ideológicas
dos prisioneiros, e parecia ter produzido algum resultado — embora durante
tempo limitado — o referido jornalista cunhou a metáfora da "lavagem
cerebral". Esta alcançou, pelo seu valor expressivo, grande sucesso não só
nos Estados Unidos, como em todo o mundo. A metáfora aplicava-se definidamente
aos métodos comunistas de comprimir a personalidade, para obter confissões falsas
e mudar a ideologia da vítima.
Com a proliferação das seitas,
é compreensível que setores muito sensibilizados da opinião pública
procurassem utilizar a expressão "lavagem cerebral" para tentar
explicar a mudança de comportamento dos seguidores de uma nova e estranha
doutrina. Os aspectos pretensamente lógicos que podem
ter atuado na "conversão" da pessoa para a seita, não entravam por
nada na análise do fenômeno. O aderente havia rompido com seu ambiente
doméstico ou profissional, ou com a sociedade em geral, e este rompimento era
indício suficiente de que ele havia sofrido um processo de "lavagem
cerebral". Porque ninguém rompe com o ambiente em que vive a não ser por
uma violência externa a que tenha sido submetido: essa era a tese. Aceita tal
tese, aliás gratuita, ninguém duvidava da validade científica dessa
conjectura.
E à noção de seita se
acrescia assim um novo elemento: seita é o grupo que pratica "lavagem
cerebral". De onde a definição inversa, cujo erro de petição de princípio
é evidente: "lavagem cerebral" é o que praticam as seitas para
conseguir aderentes...
Cientistas de renome,
professores em universidades norte-americanas de grande prestígio, puseram-se
a estudar o assunto, e chegaram à conclusão, muito surpreendente para o geral
da opinião pública, de que o conceito de "lavagem cerebral" é um
slogan jornalístico de grande impacto, porém completamente vazio de conteúdo
científico.
* * *
Publicando hoje este
trabalho sobre "lavagem cerebral", "Catolicismo" pretende,
portanto, reconduzir a matéria para o único terreno em que ela pode e deve ser
estudada adequadamente.
As extravagâncias inquietantes de tantas seitas, nas atuais circunstâncias,
devem ser combatidas de modo suasório, e seus infelizes seguidores reconduzidos
ao único e verdadeiro aprisco das almas que é a Santa Igreja Católica. Se
todas as coisas forem restauradas em Cristo — segundo o sublime e empolgante
lema do Pontificado de São Pio X, que é o de "Catolicismo": "Omnia instaurare in Christo" — as ovelhas
tresmalhadas encontrarão no regaço da família ou da sociedade que tenham
abandonado, o ar purificado que suas almas poderão respirar para o pleno
desenvolvimento de suas potencialidades.
Esse ideal pelo qual
lutamos conduz à consideração de outra razão de peso que levou
"Catolicismo" a traduzir e publicar o presente trabalho, preparado
pela Comissão de Estudos da TFP norte-americana.
Os comunistas, os
inocentes-úteis do comunismo, os esquerdistas de todos os matizes e em especial
os "esquerdistas católicos" se unem em coro para classificar de
"seita" vários grupos de católicos, fiéis ao Supremo Magistério
tradicional da Igreja.
E para carregar o seu
desprezo com uma injúria suplementar, acusam os católicos tradicionais da
prática de "lavagem cerebral" em seus prosélitos. Tal qual o coro anti-seita descrito nos Estados Unidos.
O presente trabalho tem,
pois, por objetivo desarmar a ofensiva dos comunistas, e sua calota de
"companheiros de viagem" e "inocentes-úteis" (sempre muito
úteis e freqüentemente pouco inocentes).
O recente estrondo publicitário
na Venezuela, cujo desfecho, por enquanto, é a proscrição da Associação
Civil Resistência, coirmã e autônoma das 14 TFPs, indicou que era o
momento adequado de publicar o presente estudo. Já o fez, num opúsculo de 60
páginas, em dezembro p.p., a TFP colombiana.
"Catolicismo"
apresenta hoje a versão em português, feita diretamente do original em inglês,
ainda inédito.
Apenas as ilustrações e
as legendas são deste órgão, bem como o texto da quarta capa.
Para o público
venezuelano que porventura tomar conhecimento deste estudo, sirva ele de
elemento de reflexão e de ponderação para vencer o clima carregado de
turbulência emocional e de infestação preternatural que propiciou às
autoridades do simpático país irmão tomar medida eivada de todas as notas de
irregularidade jurídica e de injustiça, numa autêntica clave de perseguição
ideológico-religiosa (cfr. Perseguição
ideológico-religiosa na Venezuela - Nuvem negra baixa sobre o país irmão, "Catolicismo", n°. 408, dezembro
de 1984).
"Catolicismo"
nutre a certeza — que é a de todas as TFPs — de que em tempo mais ou menos
breve será feita justiça à Associação Civil Resistência, e o decreto
governamental de 13 de novembro p.p., que suspendeu suas atividades, passará
para a História. Essa certeza é fundamentada na confiança que, como todos os
venezuelanos e todos os amigos da Venezuela, depositam na poderosa intercessão
de Nossa Senhora de Coromoto, Rainha e Padroeira do
querido país irmão.
Plinio Corrêa de
Oliveira