Catolicismo Nº 30 - Junho de 1953
AMBIENTES, COSTUMES, CIVILIZAÇÕES
A verdadeira santidade é força de alma e não moleza sentimental
A
Igreja ensina que a verdadeira e plena santidade é o heroísmo da
virtude. A honra dos altares não é concedida às almas hipersensíveis,
fracas, que fogem dos pensamentos profundos, do sofrimento pungente, da luta, da
Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo enfim. Lembrada da palavra de seu Divino
Fundador, "o Reino dos Céus é dos violentos", a Igreja só canoniza
os que em vida combateram autenticamente o bom combate, arrancando o próprio
olho ou cortando o próprio pé quando causava escândalo, e sacrificando tudo
para seguir tão somente a Nosso Senhor Jesus Cristo. Na realidade, a
santificação implica no maior dos heroísmos, pois supõe não só a
resolução firme e séria de sacrificar a vida se preciso for, para conservar a
fidelidade a Jesus Cristo, mas ainda a de viver na terra uma existência
prolongada, se tal aprouver a Deus, renunciando a todo o momento ao que se tem
de mais caro, para se apegar tão somente à vontade divina.
Certa iconografia infelizmente muito em uso, apresenta os Santos sob aspecto bem diverso: criaturas moles, sentimentais, sem personalidade nem força de caráter, incapazes de idéias sérias, sólidas, coerentes, almas levadas apenas por suas emoções, e, pois, totalmente inadequadas para as grandes lutas que a vida terrena traz sempre consigo.
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A figura de Santa Terezinha do Menino Jesus foi especialmente deformada pela má iconografia. Rosas, sorrisos, sentimentalismo inconsistente, vida suave, despreocupada, ossos de açúcar cândi e sangue de mel, eis a idéia que nos dão da grande, da incomparável Santinha.
Como tudo isto difere do espírito vasto e profundo como o firmamento, rutilante e ardente como o sol, e entretanto tão humilde, tão filial, com que se toma contacto quando se lê a "Histoire d'une Ame".
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Nossos dois clichês apresentam por assim dizer duas "Terezinhas"
diversas e até opostas uma à outra. A primeira nada tem de heróico: é a
Terezinha insignificante, superficial, almiscarada, da iconografia romântica e
sentimental. A
segunda é a Terezinha autentica, fotografada a 7 de Junho de 1897, pouco antes
de sua morte, que ocorreu a 30 de Setembro do mesmo ano. A fisionomia está
marcada pela paz profunda das grandes e irrevogáveis renúncias. Os traços
têm uma nitidez, uma força, uma harmonia que só as almas de uma lógica de
ferro possuem. O olhar fala de dores tremendas, experimentadas no que a alma tem
de mais recôndito, mas ao mesmo tempo deixa ver o fogo, o alento de um
coração heróico, resolvido a ir por diante custe o que custar. Contemplando
esta fisionomia forte e profunda, como só a graça de Deus pode tornar a alma
humana, pensa-se em outra Face: a do Santo Sudário de Turim, que nenhum homem
poderia imaginar, e talvez nenhum ouse descrever. Entre a Face do Senhor Morto,
que é de uma paz, uma força, uma profundidade e uma dor que as palavras
humanas não conseguem exprimir, e a face de Santa Terezinha, há uma
semelhança imponderável mas imensamente real. E o que há de estranhável em
que a Santa Face tenha impresso algo de Si no rosto e na alma daquela que em
religião se chamou precisamente Tereza do Menino Jesus e da Sagrada Face?