Catolicismo Nº 98 - Fevereiro de 1959
AMBIENTES, COSTUMES, CIVILIZAÇÕES
Paganismo sombrio da massa, alegria cristã do povo
Os
rostos, em seus pormenores, variam quase ao infinito; as expressões
fisionômicas não. Dir-se-ia que um só desejo, uma só preocupação, um só
estado de espírito domina esta multidão. "Domina" é, no caso, uma
expressão insuficiente. Trata-se de um "dominar" tão radical, tão
escravizador, que essas almas parecem vazias de qualquer outro ideal ou
sentimento. Se é que se pode falar de ideal ou de sentimento, quando se
analisam almas assim. Fora do instante em que foram fotografados, como vivem
estes homens? No que crêem? A quem votam amizade? Têm uma esposa? Brincam com
crianças no lar? Amparam um pai velho, uma mãe enferma? Gostam de música, ou
de leitura, ou de passeios? Enfim, têm algo na vida em que se comprazem? Pensam
por vezes, pelo menos, que esta existência é transitória, e que para além da
morte os aguarda a justiça e a misericórdia de Deus?
Se algo disso lhes sucede, parece ser de modo muito fortuito, pois não deixa nestas fisionomias qualquer vestígio. São homens de aço, sem alma nem coração, tão frios, tão impessoais, e melhor diríamos tão inumanos, quanto as máquinas nas quais trabalham, e das quais são meros acessórios. Sua condição comum é a de trabalhar. Mas o trabalho que executam é pagão, opressivo, sem interstícios nem lenitivo. Sua preocupação é trabalhar para viver uma vida em que tudo não é senão trabalho.
Escravos? Sim. Proletários soviéticos num comício... O reino do ódio e do demônio na terra.
* * *
Chinon, Departamento de Indre-et-Loire, na França. Fundo de quadro popular e ameno. Casario modesto, variegado e pitoresco, quadro normal de uma existência afável, íntima e despretensiosa. Existência parcimoniosa de trabalhadores, por certo. Mas trabalhadores cristãos para os quais trabalho não é senão uma condição para viver, e o sentido profundo da vida é o cultivo dos valores do espírito, com vistas para o Céu.
A
rua tem a solidão dos amenos lazeres dominicais. Um cortejo nupcial lhe dá um
ar festivo, e por assim dizer a ilumina inteira com as castas e desanuviadas
alegrias do ambiente de família. No primeiro plano uma pessoa, apoiada a uma
bengala e alheia ao cortejo, caminha com o passo difícil dos artríticos.
Vê-se que trabalha, por certo, e durante toda a sua vida trabalhou. Mas é
acima de tudo uma trabalhadora? É de qualquer forma uma escrava, um acessório
da máquina? Não. Parece ser antes de mais nada uma mãe de família, vivendo
no lar e para o lar. O trabalho marca sua personalidade e a dignifica, sem
contudo a dominar nem excluir dela ou reduzir ao segundo plano valores
infinitamente mais altos.
* * *
Dois ambientes populares, duas formas de existência, duas concepções do trabalho. De um lado, o teor de vida calmo e digno, o ambiente modesto mas cheio de temperante louçania, a concepção batizada e afável do trabalho cristão. De outro lado, a vida opressiva e fatigante, o ambiente saturado de egoísmo e de ódio, a concepção materialista, brutal e mecânica do trabalho pagão.