Catolicismo Nº 372 - Dezembro de 1981
Ambientes, mentalidades, universos
"AH!
NESTA SALA a gente não tem medo de morrer!"
Comentário singelo mas cheio de pensamento, que talvez muito intelectual
progressista não teria alma para fazer. A exclamação, no entanto, é de uma velha
mulher, simples empregada doméstica, ao ver pela primeira vez a sala apresentada
nas fotos desta página. Essa semi-analfabeta compreendeu como tal ambiente
predispõe para a eternidade.
Bem mais explícito e elaborado foi o comentário de um nobre francês ao visitar esta sala, em uma de suas vindas ao Brasil: "Nunca vi tanta austeridade no fausto!"
Muitas pessoas, dentre as numerosas que aí entraram, sentiram-se vivamente impressionadas pela sensação de maravilhoso que a sala produz. A perfeita harmonia do conjunto de móveis e objetos que a compõe, sua unidade possante dentro de uma variedade feérica, causam na alma reta um deleite interior que só a boa ordem pode oferecer.
Por que? Não pelo luxo, por certo. Pois os móveis que a compõem, todos de muito bom gosto, entretanto não são luxuosos.
A sala forma, contudo, determinado clima espiritual e simbólico, dentro do qual a alma se sente bem. O que há de ordenado no interior do homem se harmoniza com a ordem da sala. Esta não constitui um amontoado de móveis e objetos dentro de quatro paredes, mas um todo, um como que pequeno universo.
É sabido que ao se colocarem na mesa taças de cristal de vários tamanhos, tocando-se uma delas com algum metal, esta emite o som que lhe é próprio. Tal som, por sua vez, se reproduz nas demais taças, por semelhança. Dizemos então que os cristais são consonantes. Um faz vibrar os outros.
Assim são as almas perante os ambientes. Serão consonantes com eles, se lhes forem semelhantes — ou diferentes, mas harmônicos. Serão dissonantes, se não se harmonizarem com eles.
Os ambientes, por sua vez, são ao mesmo tempo frutos e formadores de determinadas mentalidades.
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Exemplifiquemos com a sala apresentada nesta página. Trata-se
da sala de reuniões da sede da Presidência e do Conselho Nacional da TFP
brasileira, em São Paulo. Bem analisada, vê-se que suas características são de
uma sala temporal. Não é capela. De especificamente religioso, só possui a
imagem de Nossa Senhora, ladeada por quatro pinturas representando Anjos,
inspiradas naqueles que figuram em quadros e afrescos de Fra Angélico. No
entanto, a sala convida à oração, à contemplação.
Na realidade, aí se fazem reuniões nas quais o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira costuma expor o curso dos acontecimentos do mundo de hoje, especialmente no que tange à Cristandade. E em seguida ele analisa tais acontecimentos do ângulo da Filosofia e da Teologia da História, tendo em vista o ensaio "Revolução e Contra-Revolução" ( in "Catolicismo" N° 100, abril de 1959, e N° 313, janeiro de 1977 ), da autoria dele, que é o livro de cabeceira da TFP.
Propriamente, no centro do panorama encontramos a luta entre a Cristandade e a revolução igualitária, esta em seus aspectos mais atuais, o comunismo e o socialismo autogestionário.
Compreende-se então a nota sui generis, imponderável, presente na sala. Destina-se a um fim temporal, sim, mas a uma sociedade humana constituída de batizados, tendo como centro a Nosso Senhor Jesus Cristo. Daí a nota de sacralidade. Esta sala é sacral.
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Para que estas considerações não pareçam por demais abstratas, vamos tentar explicitá-las mediante a análise das fotos aqui reproduzidas.
Em primeiro lugar, a visão de conjunto. Que ambiente superior! harmônico! envolvente! nobre! cheio de doçura! — São exclamações cabíveis num primeiro relance de olhos, num primeiro contato com a sala.
Depois, cada alma desdobrará sua primeira impressão em outras
considerações, de acordo com seu feitio próprio. E a impressão de unidade
brotará mais sólida no espírito.
Em um segundo movimento, a atenção recai sobre os diversos elementos decorativos da sala.
Os tocheiros, por exemplo, cuja luz se difunde pelos pequenos vitrais multicolores de suas cinco lanternas. Nenhum deles repete o outro. Os tocheiros irradiam assim uma luz especial, suave, matizada, a qual não procede da altura do teto, mas também não se localiza no plano baixo de um abajur. Ela paira acima dos homens e dos objetos, constituindo uma esfera própria de irradiação, a meio caminho entre o teto e o piso. Seu brilho não cai perpendicularmente, aos jorros, para suprimir o mistério — natural a seres contingentes e limitados como nós —, mas seu próprio colorido vem ele mesmo cheio de penumbra e delicadeza.
Os olhos fixam-se com muita naturalidade no tapete da parede,
cujo sedoso tecido causa admiração. Com seus arabescos coloridos, dominados ao
centro por um vermelho rubi, meio furta-cores, ele cria no observador impressão
cromática atraente e viva no conjunto cheio de serenidade da sala. É o tapete
manifestação de fantasia e variedade sem a qual a sala tornar-se-ia por demais
severa, contrastando ele com o equilíbrio suave proveniente do influxo da
Igreja.
Outra nota de fantasia encontra-se na gola de tecido vermelho. Onde se supunha que a parede iria terminar, verifica-se uma irrupção de alegria escarlate deitando chamas douradas. Dir-se-ia que a gola iluminada é o diadema da sala.
Embaixo, no entanto, o estandarte da TFP no qual figura o
leão rompante, a cátedra, o tapete, as poltronas revestidas de veludo de lã, de
cores variadas, conferem uma nota de dignidade, segurança e retidão ao conjunto.
E contrastam harmoniosamente com certa frieza do lambri e o metódico dos
pergaminhos nele entalhados, os quais, entretanto, conferem àquela nobre madeira
uma originalidade e um esplendor dignos de nota. A sala apresenta muitos
contrastes, nos quais os elementos desiguais completam-se, segundo um princípio
de unidade. O que não existe neste ambiente é a contradição, em que elementos se
opõem sem que um princípio de unidade os vincule num plano superior.
Em outro ponto da sala, os vitrais das três janelas derramam
luz dourada em seu interior. E a imagem de Nossa Senhora impera ladeada por
quatro figuras de Anjos que refletem aquela pureza celestial, característica do
estilo de Fra Angélico.
No conjunto, contrastes harmônicos que supõem unidade na variedade — a conhecida definição de ordem.
A alma reta que contempla o ambiente pode, no entanto, ir aprofundando suas considerações, subindo a patamares de panoramas cada vez mais vastos das regiões metafísicas, tocando no sobrenatural.
Não é, pois, sem razão, que a TFP decorou com esmero esta sala. Porque ela deixa ver de modo expressivo a mentalidade de uma família de almas, um universo de cogitações no qual os espíritos estão convidados a habitar, em função dos grandes panoramas históricos, centrados na noção de Cristandade. E neste local destinado a reuniões, mas onde cabem também meditações e orações, compreende-se que a graça divina possa penetrar e envolver todo o ambiente como os raios de sol que, atravessando os vitrais de suas janelas, projetam no piso as belas figuras e desenhos coloridos.