Há 58
anos, na edição de 8-12-1935 do semanário católico Legionário, órgão oficioso da
Arquidiocese de São Paulo, o Prof. Plinio Corrêa de
Oliveira, então seu jovem diretor, escreveu o artigo reproduzido ao lado
[abaixo]. É impressionante o fato de o autor, ao descrever a crise do Brasil
naquela época, dias após a Intentona comunista de 1935, já apontar, com rara
clarividência, os mesmos defeitos e mazelas que estão na raiz da imensa crise
que assola hoje nossa Pátria. Estamos certos de que a reedição deste texto será
de grande proveito para os leitores.
* * *
Escrevendo a história de Dom
Quixote, Cervantes lhe associou um personagem secundário, que nunca abandonou o
herói da Mancha. Este homem se chamava Sancho Pança.
Que surpresa sentiria Cervantes, se um telescópio profético lhe pudesse desvendar os
acontecimentos futuros, e lhe mostrasse que, enquanto o valente Dom Quixote
entraria definitivamente para a galeria dos dementes inofensivos, com sua
lança, sua couraça e seu esquelético Rossinante,
Sancho Pança, o tímido Sancho Pança, o medíocre Sancho Pança, o desprezível Sancho
Pança, haveria de acometer dentro de alguns séculos uma grande nação, e
atirá-la, ele sozinho, às beiras do mais negro precipício?
Foi, no entanto, o que se deu com
o Brasil. Se nosso País não
estivesse sob uma proteção especial da Virgem Aparecida, não duvidaríamos muito
que, dentro de algum tempo, se lhe pudesse cavar sepultura em sua terra
fecunda. E, como justo epitáfio, poder-se-iam escrever no túmulo estes tristes
dizeres: “Aqui jaz uma Nação fundada por heróis, civilizada por Santos, e
destruída pelo comodismo imprevidente de alguns de seus filhos”.
Sancho Pança? perguntarão alguns
leitores, mas Sancho Pança não morreu? Que tem ele a ver, pois, com a crise
brasileira?
Não, Sancho Pança não morreu.
Sancho Pança revive em espírito, e inspirando milhares de mentalidades, dita as
atitudes de seus filhos espirituais nos Parlamentos, nas Cátedras, nos Bancos,
na alta administração.
Sancho Pança revive no comodismo
dos imprevidentes que fecham os olhos às nuvens de hoje, que serão tempestades
amanhã. Ele fecha os olhos, não por que confie na Providência, não porque tenha
qualquer motivo sério para negar o perigo, mas simplesmente para gozar em paz o
momento que passa. Não morando no Rio, em Pernambuco ou no Rio Grande do Norte,
julga que o perigo não existe simplesmente porque não lhe atacou o pêlo.
Sancho Pança revive no snobismo míope dos jovens plutocratas inscritos na ANL[Aliança Nacional Libertadora], que atiçam o incêndio que
ameaça sua classe, esquecidos de que o destino de Judas ou de Philippe Égalité será o fruto de sua
vaidosa mania de originalidade.
Sancho Pança revive no imediatismo
mesquinho e cúpido de certos políticos de oposição, ou de certos literatos
vaidosos que não se incomodam de proteger com um liberalismo de mau gosto, os
petroleiros [terroristas] que atacam as bases da Nação. Na imprevidência de sua
ambição só pensam em gozar de momentânea popularidade e... quem sabe,
assenhorear-se, por alguns minutos, do poder. Por alguns minutos, dizemos,
porque a onda imprudentemente levantada seguirá seu rumo. E ela tragará num
futuro bem próximo àqueles mesmos que lhe abriram caminho.
Sancho Pança revive na incúria
comodista de muitos cidadãos a quem o Brasil havia confiado a missão sagrada de
defender a Religião, a Família, a Propriedade, e que não se pejavam em designar
para cargos de máxima responsabilidade os mais encarniçados inimigos dos
princípios cuja custódia lhes incumbia como dever sagrado.