30 de outubro de 1961
Auditório da Escola de Medicina de Belo
Horizonte
Conferência promovida
pelos Diretórios Acadêmicos de Medicina, Engenharia, Odontologia e Farmácia da Universidade de
Minas Gerais
Despertou
assinalado entusiasmo a precisão de pensamento e a agilidade de espírito com
que o Prof. Plinio respondeu às perguntas de inspiração comunista e/ou
socialista, para as quais dera preferência entre as numerosas que lhe foram
formuladas. Com efeito, os mineiros (proverbialmente reservados), tanto nesta
Conferência como na do dia anterior, aplaudiram de pé o ilustre convidado (cfr.
“Catolicismo”, N.° 132, dezembro de 1961)
Exmo. Sr. Dr. Paulo Salvo,
Secretário da Agricultura e representante do senhor Governador do Estado,
Exmo. Sr. Herbert Francisco Hudson,
presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina da Universidade de
Minas Gerais,
Exmo. Sr. Josaphat Macedo, Presidente da FAREM,
Sr. Prof. Arnaldo
Vidigal Xavier da Silveira,
Sr. Milton Alvares
Cordeiro, presidente da U.E.E. (União Estadual dos Estudantes),
Senhor presidente,
meus prezados amigos.
É com muita satisfação
que agradeço a oportunidade que me dão de dirigir a palavra, nessa sessão
honrada pelo aparecimento de tantas personalidades representativas da vida
cultural, política e religiosa de Belo Horizonte. Satisfação que é realçada
pelo fato de que, no momento de extraordinária gravidade para o País, o tema
que constituirá o objeto da palestra de hoje está sendo debatido, quase nos
mesmos dias, por vários conferencistas em sentido oposto.
Há nisso uma garantia
do interesse que a opinião pública de Belo Horizonte toma pelo assunto, e que
como sempre sói acontecer, que um dos fatores mais dinâmicos, um dos fatores
mais vivos da opinião pública é precisamente a classe acadêmica, parece-me de
verdadeira importância que nesse momento, me seja dado dirigir algumas palavras
sobre esse magno problema da reforma agrária, a uma importante parcela de
acadêmicos de Belo Horizonte.
Ontem à noite, na
conferência que proferi na U.E.E., eu tive ocasião de desenvolver um esquema,
que não faço senão lembrar, para que se possa ter uma visão de conjunto da
problemática como eu a considero.
Na reunião de ontem à
noite eu tive oportunidade de mostrar que, segundo a encíclica Mater et Magistra, podem se considerar
dois tipos de reforma agrária: uma reforma agrária boa, que é precisamente para
a qual a encíclica Mater et Magistra dá os lineamentos com uma extensão e uma precisão
admirável, mas ao lado disso uma reforma agrária socialista e anti-cristã, que a encíclica Mater et Magistra repudia.
Dando primeiro os
lineamentos da reforma agrária boa, da reforma agrária cristã e caracterizando
em seguida os lineamentos da reforma agrária anti-cristã,
eu tive a oportunidade de mostrar que a grande característica da reforma
agrária anti-cristã e socialista é seu ataque ao
direito de propriedade. E tive ocasião de insistir no fato de que o direito de
propriedade é um princípio inerente à moral cristã, defendido pelos Papas em
todos os séculos, defendido pelo Papa João XXIII em nossos dias com particular
vigor, diante da imensa onda do Leviatã comunista que
se ergue no panorama político de nossos dias.
E eu tive ocasião
depois de mostrar como a ilusão de um socialismo católico, a ilusão de que
possa haver uma conciliação entre o socialismo que nega de modo direto ou
indireto a propriedade privada e a religião católica, a doutrina católica, a
sociologia católica, essa ilusão se dissipa ao lermos com atenção os textos
pontifícios, insofismáveis que há a respeito, especialmente do Papa Pio XI na
encíclica Quadragésimo Anno, corroborada em seguida pela encíclica Mater et Magistra, que repete e
reafirma expressamente a condenação do socialismo, feita pelo Papa Pio XI.
Nessas condições,
depois de fundamentar o direito de propriedade de acordo com a doutrina
católica e mostrar a extensão e também as limitações, eu tive a oportunidade de
concluir fazendo um apelo para que os meus ouvintes lutassem denodadamente em
favor de uma reforma agrária cristã, mas contra a deturpação das instituições
fundamentais da civilização brasileira, no sentido anti-cristão.
Foi para mim uma satisfação muito viva, quando
ao descer aquelas rampas do edifício tão novo e tão rico da Escola Politécnica,
eu me encontrei abaixo com uma comissão de agricultores da FAREM, que me
esperavam. E me esperava para dizer que a opinião desse órgão coincidia
exatamente com os propósitos enunciados na minha conferência, pedindo-me um dos
elementos da FAREM que ali se
encontrava, que aproveitasse a oportunidade de hoje – e eu o faço na preliminar
dessa conferência com muita satisfação – para esclarecer que a FAREM não se opõe de nenhum modo a uma reforma
agrária. Deseja apenas que ela não seja atentatória do direito de propriedade,
para a salvaguarda dos legítimos direitos dos proprietários, mas sobretudo para
a defesa dos postulados da civilização cristã e para a defesa dos interesses
mais fundamentais do Brasil.
E no documento que foi
estabelecido pela FAREM, do qual eu tenho aqui uma via, se declara inicialmente
que a classe rural mineira “aceita e recomenda uma reforma agrária evolutiva,
democrática e cristã”. Vejam que há uma distinção entre aceitar e recomendar. Aceitar pode-se aceitar até a
morte, quando não há remédio. Mas recomendar é promover, recomendar é favorecer, recomendar é simpatizar
com, recomendar é desejar e é essa atitude que está enunciada nesse documento.
Além disso se afirma,
e de um modo muito taxativo, que a classe rural mineira preconiza o
aproveitamento imediato e racional das terras públicas. E acrescenta: “toda e
qualquer desapropriação que se torne imperativa, face ao interesse social, se
deve processar com estrito respeito aos princípios da Constituição Federal
vigente”. Pode-se pedir menos? tem-se o direito de pedir menos do que isso? Não
me parece.
A isso eu devo
acrescentar, fazendo aqui o enunciado dessas proposições da FAREM, que o orador
que tem a honra de lhes dirigir a palavra no momento não é fazendeiro. Eu não
sou fazendeiro, não fui fazendeiro, não tenho jeito para ser fazendeiro. Eu não
defendo direitos próprios, não tenho nesse assunto o menor interesse privado,
mas eu defendo um patrimônio que vale muito mais do que um direito. Eu defendo
um patrimônio que vale incomparavelmente mais do que qualquer vantagem
patrimonial. Eu defendo algo que o homem honrado deve amar como a luz dos seus
olhos e como a sua própria vida. Eu defendo princípios, eu defendo os
princípios da tradição e da civilização cristã. É nesse sentido que eu lhes vou
dirigir a palavra nesse momento.
Eu vos falarei no
momento a respeito dos problemas rurais do Brasil. Mas falando dos problemas
rurais, evidentemente não vou falar daqueles, daquelas providências cujo
atendimento o Papa João XXIII recomenda. E das quais extensamente me ocupei
ontem como sejam: o problema da evasão do campo, a questão de se dotarem de
estradas, transportes e comunicações as zonas rurais, o fornecimento de água
potável, as habitações convenientes, assistência sanitária, escolas
elementares, assistência religiosa, assistência técnica profissional,
equipamentos, etc., etc., que longamente a Mater et Magistra consigna.
Mas eu pretendo tratar
de outros problemas rurais, dos problemas rurais que mais particularmente
caíram debaixo da alçada de minha observação, não como agricultor, não como
economista, mas como homem público que tem a sensibilidade dos problemas do seu
País, que conhece bem exatamente o seu País, que o observa com amor e com
dedicação, e que com autoridade de brasileiro pode dizer alguma coisa a respeito
do assunto.
Eu devo começar por
falar a respeito desses problemas rurais, acentuando um ponto que me tem
impressionado imensamente no debate da questão agrária. Eu sei muito bem que
nós temos no Brasil grandes técnicos a respeito dos assuntos rurais, eu não
desconheço que nós temos agricultores profundamente enfronhados nos problemas
do campo. Mas o que me impressiona de modo geral no debate da questão agrária –
e é isso que eu quero colocar como pórtico da conferência de hoje – é o
freqüente e desolador alheamento dos homens de responsabilidade, seja qual for
a sua opinião, no debate da questão agrária.
Poder-se-ia dizer, se
alguém folheasse o material publicado a respeito do problema agrário no Brasil,
até o momento, exceção feita de alguns discursos no Legislativo, que pouco
chegam ao conhecimento da massa popular - e ainda assim haveria o que descontar
- poder-se-ia dizer que a agricultura no Brasil é uma desconhecida. Realmente, Alexis Carrel escreveu, há um
certo número de anos, aquele livro que ficou famoso: “O Homem, Esse
Desconhecido”.
E nesse País rural nós
poderíamos dizer, a julgar por esse debate, que a agricultura é verdadeiramente
uma desconhecida. E nós vemos isso sobretudo pelo vazio, nós vemos isso
sobretudo pelo sentimental, pelo precipitado, pelo vago, pelo generalizado da
ofensiva do reformismo agrário socialista. E melhor do que ninguém, como
co-autor do livro “Reforma
Agrária - Questão de Consciência”, eu tive oportunidade de sentir isso pela polêmica
que o livro deu lugar.
Livro publicado com
uma larga difusão no Brasil, tendo dele saído, apesar do seu caráter técnico,
mais de vinte mil exemplares até o momento presente, e estando com uma quarta edição
no prelo para ainda sair, com uma aceitação muito grande, esse livro foi objeto
de que espécie de refutação? A história da refutação ou da impugnação do livro
se divide em dois períodos. Logo que o livro saiu, na imprensa – e eu tenho
isso cuidadosamente colecionado – apenas apodos. Nenhum artigo grande, nenhuma
refutação séria. Epítetos: “reacionários, advogados dos latifundiários,
inimigos do povo”, não sei mais o que.
Mas reacionários por que? E o que quer dizer reacionário? Reagir contra o quê? Não se
deve reagir contra nada? Um médico que dá um reativo a um doente é um reacionário?
Um homem que reage contra uma afronta é um reacionário? Um homem que defende a
honra insultada de sua mãe é um reacionário porque ele reage? Reagir é um mal?
Cruzar os braços é sempre um bem? Para que acusar alguém de reacionário, no
sentido pejorativo, é preciso primeiro mostrar que aquilo contra que se reage é
bom ou é mau. Porque contra o mal é preciso reagir e contra o bem é um mal
reagir. Então não basta atirar a alguém o apodo vago de reacionário, mas é preciso provar que aquilo
contra o que a reação está sendo feita é um bem, porque do contrário aquele que
reage não merece crítica, mas merece aplauso.
“Latifundiário”!...
Que palavra!... Se não fosse a solenidade da reunião, eu diria: que “bicho papão”!
Um homem que tem um latifúndio... Esse “úndio” parece
que dá um tom de monstruosidade à coisa... [risos] Que terrível! Ele é um “latifuuuuundiário”. Que coisa horrorosa! O que será? Será
um homem que tem uma propriedade grande; será um homem que tem uma propriedade
que ele está procurando valorizar; será um homem que dispõe de terras que ele
aproveita para o bem do Brasil, às vezes em gêneros de cultura que só comportam
propriedades grandes. Latifundiário!... Se a propriedade é grande demais, é um
mal ser latifundiário. Mas quando uma propriedade é grande demais? E é verdade
que toda propriedade grande é necessariamente um mal? Onde está o debate sério
da questão? Mas debate com números, debate com dados, debate com argumentos
filosóficos. Nada. Uma palavra vaga jogada ao ar: “latifundiário”.
E nosso povo, e todo
povo, que nas épocas de crise está superexcitado e se move muito por slogans,
olha espantado: “pode haver algo de mais terrível do que um advogado de
latifundiários?” Então, o direito de propriedade do latifundiário não existe?
Só existe o direito de propriedade do pequeno proprietário? Se só existe
direito de propriedade dos pequenos e dos médios e não dos grandes; se a
propriedade é algo que se pode tirar uma fatia sem mais nem menos, depois do
dia em que se corta o grande, cortar-se-á o médio; e quando se tiver cortado o
médio, acabar-se-á por cortar o pequeno. Porque se a coisa é cortável, então acabará sendo cortada até os pedaços.
O direito de
propriedade é uno; o direito de propriedade é um todo. Ferido num, ele é ferido
em todos. Se eu hoje souber que um homem inocente foi condenado à morte no
Brasil, eu estremeço embora nada tenha que ver com ele. Porque o direito à vida
de todos os homens é um só, grandes ou pequenos, ricos ou nobres, potentados ou
plebeus. E basta que eu saiba que um homem, seja ele até um latifundiário, foi
condenado à morte, para que eu sinta meu direito à vida abalado. E assim se dá
com o direito de propriedade. Ele é uno e o atentado feito contra ele é um
atentado que atinge a todos.
Nessas condições,
depois desse primeiro período de apodos, em que se chegou a fazer brincadeiras
pelos jornais - eu me sinto tão seguro disso que posso contar -, um dos jornais
dizia que eu era um homem riquíssimo e que era especializado - os senhores
estão me conhecendo agora e eu não tenho dúvidas em contar - era especializado
em guardar uma suntuosa coleção de gravuras pornográficas em minha casa: um
absurdo, um non sense.
Depois desse período
eu escrevi um artigo no “Diário de São Paulo” e convidava os adversários, os
impugnadores do livro a publicarem um estudo, uma refutação metódica do
trabalho.
Os apodos cessaram,
porque a demagogia é sensível. E ela que tanto faz careta, tem medo de cara
enérgica. Ela se recolheu. Os demagogos se recolheram e um homem, que não
merece o nome de demagogo, porque é um dos valores do Brasil intelectual, um
homem cujo nome deve ser declinado com consideração, um grande escritor, o Sr.
Gustavo Corção, saiu com três artigos contra esse
livro.
A esses três artigos
eu respondi com três outros, que se intitulavam o seguinte: “Reforma Agrária – Questão de
Consciência, o livro que o Sr. Gustavo Corção não
leu”.
Porque eu tive ocasião de demonstrar peremptoriamente que o livro absolutamente
não tinha sido lido por ele. E que por precipitação, por essas paixões que as
questões sociais causam – eu estou longe de falar da boa fé dele – ele saiu a
público para atacar algo que ele não conhecia. O resultado disso foi a mais
estrita e rigorosa das coisas, a mais absoluta: foi o silêncio. Mas um silêncio
completo, um silêncio de pedra e de chumbo. Depois de eu haver afirmado que
esse crítico não leu o livro, esse crítico ficou quieto.
Algum tempo depois, um
engenheiro de valor de São Paulo, o Sr. Plínio Xavier da Silveira, publicou um
artigo comentando que a parte econômica do livro, feita pelo distinto
economista Luís Mendonça de Freitas, infelizmente também não tinha sido
refutada. O artigo ficou como ficou, e outro silêncio absoluto seguiu-se a
isso. Quer dizer, aquela imensa massa de dados, aquela imensa massa de
informações em que tão facilmente o economista podia se enganar, em que são
sustentadas tantas teses e haveria alvo para tanto tiro, aquilo tudo está
incólume porque até o momento presente, das hostes agro-reformistas nenhuma
objeção se levantou.
Nessas condições e passando de lado uma outra
polêmica, que eu prefiro não mencionar, nessas condições me parece que tratar
de alguns aspectos pouco conhecidos do problema rural, mas aspectos
fundamentais sem os quais o problema rural não pode ser resolvido, tratar
desses aspectos é algo de fundamental para encaminhar a opinião pública do
Brasil para a consideração do problema e o encontro das suas verdadeiras
soluções.
Mas antes de fazê-lo,
eu gostaria de repetir convosco um pequeno exercício criteriológico,
que eu tive ocasião de fazer ontem na reunião da U.E.E. E que é de pedir-vos
que escapeis de um modo de ver o problema rural, agrário, que é o modo
simplista, segundo o qual nenhum problema se resolve. Nada é mais difícil e
nada é mais delicado do que resolver um problema social; mas nada é mais fácil,
nada é mais agradável do que simplificá-lo e conversar sobre ele. É um ótimo
tema para prosa, mas é um duro tema para estudo. E é exatamente porque eu
receio essa simplificação, tão característica da demagogia e que encontra um
eco tão grato no coração do brasileiro, é porque eu receio essa simplificação
que eu começo por evocar aqui, ante os vossos olhos, alguns dos argumentos que,
comumente, costumam ser dados para justificar a
reforma agrária, levantando uns tantos problemas do campo.
O modo mais comum de
argumentar consiste em criar uma espécie de atmosfera, que eu não sei como
chamaria e talvez chamasse de subliminal, na qual se evoca, aos olhos da pessoa
que trata do problema, um binômio falso: de um lado, o fazendeiro e de outro
lado o colono.
Mas o fazendeiro,
suposto sempre o fazendeiro do asfalto, e não só o fazendeiro do asfalto, mas o
pior tipo do fazendeiro do asfalto: um homem riquíssimo, que quase não vai à
fazenda, que possui um automóvel parecido com um foguete trifásico com várias volutas sucessivas, imponente, desses que não se sabe se
vão para frente ou para trás e que deslumbram os moleques na rua, que desce
rapidamente acompanhado de companhias elegantes e despudoradas do seu automóvel
sensação, para se enfurnar nas boites que estão próximas; que acumula
milhões sobre milhões num luxo fantástico.
E depois, na outra
ponta, o colono. O colono, então, é o colono esquálido, o colono pobre que mora
numa dessas casas de sapé, em que há buracos e tem pedaços de jornal colados
para que não entre o vento, cujo filho está cheio de [feridas], é uma criança
doente, que provavelmente vai morrer; que recebe um ordenado insignificante.
E então se estabelece
o binômio: aqui está esse que tem demais e tem um luxo assombroso e faz um uso
imoral do seu luxo; e além está aquele que vive na miséria extrema. Então,
remédio, justiça de Salomão: corta pela metade. Tira desse e dá para aquele. E
depois está tudo resolvido, a gente vai passear. Como se os problemas sociais
comportassem essa simplicidade, e como se fosse assim, com essa simplicidade,
que as coisas se podem ver.
Eu tive ocasião de
dizer ontem e me parece uma obrigação repeti-lo hoje, que se o Brasil está na
voragem dessa crise de inflação, deve-o precisamente a esse fato, a essa
superficialidade no conceituar os problemas, em que entra também o nosso bom
coração. Quem pode não sentir ver um lar operário que passa necessidades? A
vida está cara. Resultado: aumenta o ordenado. É tão simples. Ah, é simples! Queira
Deus que ficasse nisso. Mas depois sobe o custo de vida. Então, mais outro
golpe de simplicidade: aumenta mais uma vez o ordenado. E aí nós temos essa
espiral, ao cabo da qual nós estamos na situação que chegamos.
Não quero eu mesmo
simplificar, não quero dizer que a causa única da inflação seja essa, mas eu
quero dizer que isso contribuiu poderosamente para a inflação. E que é esse
modo simplista de resolver os problemas que nós devemos evitar. Antes de nós
analisarmos qualquer problema, nós temos que nos preparar para reconhecer a
complexidade do problema e para agir asceticamente diante dessa complexidade,
tomando-a como ela é, sondando-a nas suas profundidade, não tendo medo de a ver
na sua realidade objetiva, para só depois nós termos coragem de falar em
solução e em remédio.
Sei que pedindo-vos
isso, peço algo que está muito de acordo com o espírito mineiro. Eu me lembro
bem, o orador aqui se referiu ao tempo em que fui deputado, eu me lembro bem o
primeiro contato metódico que eu tive com mineiros, como me impressionou nesse
sentido. Eu era deputado jovem. Eu sou paulista, minha mãe é paulista, eu sou
filho de um pernambucano. Eu trago, portanto, no meu modo de ser, aquela
decisão rápida do paulista e aquele gosto pelo palavreado inerente ao pernambucano.
Eu era incumbido de fazer aprovar na Constituinte as emendas católicas. E
começo a procurar esses deputados, aqueles, aqueles outros, etc., e encontro
também com os deputados mineiros. Primeiras conversas, ótima disposição. Mas eu
falava, falava, falava, eles que eram tão agradáveis no trato, tão simpáticos,
oradores tão bons, tão distintos, quando eles percebiam que se tratava de uma
coisa séria, a primeira coisa eram vários diafragmas que se fechavam e uma
atitude de silêncio. A gente falava, falava e a resposta vinha amável: “vamos
ver”. Eu ficava desconcertado: como “vamos ver”? É ou não é!
Era a prudência
mineira, era a sabedoria mineira, era o senso de que as coisas não se resolvem
numa conversa, que não se resolvem de uma só vez, mas que é preciso dormir
sobre os assuntos por causa da complexidade inerente a esses assuntos. Era isso
que entrava em jogo no momento, para fazer com que tudo fosse ponderado, tudo
fosse pensado antes de ser devidamente resolvido.
E é para isso que eu
vos convido, meus senhores, nesse momento, começando por lembrar que essa
figura de fazendeiro é contra ela, que antes de tudo, que devemos investir. Se
é verdade que existe o fazendeiro do asfalto, é verdade também que existe outro
tipo de fazendeiro, que é o fazendeiro da fazenda. O fazendeiro que passa a
maior parte de sua vida na fazenda, passa em contato com os problemas locais da
fazenda. E que, mais do que ter contato com os problemas locais da fazenda,
forma como que um todo moral só com os
seus colonos, que vive neles uma sociedade humana e verdadeira.
E que, ao par do
colono esquálido, e cuja sorte tanto nos deve compadecer e cuja situação nós
devemos ter tanta e tanta pressa em corrigir e moderar, ao par dele existe
também o colono próspero muitas vezes, o colono às vezes em franco progresso e
franca ascensão, de tal maneira que há zonas inteiras, por exemplo, do Estado
de São Paulo, ou Estado do norte do Paraná, que nos mostram grande número de
fazendeiros, que não eram senão antigos colonos.
Diante de uma situação
econômica, diante de uma situação social imensamente complexa e que não pode se
reduzir a esses quadros simples e que deveria começar por ser estudada antes de
ser tratada assim com esse açodamento, nós encontramos um ponto fundamental. E
é esse que nós vemos a população do campo dividida em duas categorias. Uma é a
categoria dos colonos, outra é a categoria dos fazendeiros. E diante dessa
desigualdade de condições sociais, exatamente o agro-reformismo
socialista, brandindo um espectro, brandindo a arma de uma propaganda que
procura envolver com ares cristãos, procura fazer a seguinte afirmação: não
deve haver desigualdade de classes sociais; a desigualdade das classes sociais
é algo de ilegítimo e deve ser combatido; nós devemos, ao contrário dessa
desigualdade, ter uma igualdade absoluta, que foi aquilo que Nosso Senhor Jesus
Cristo pregou; e por causa disso é preciso acabar com os grandes e médios
proprietários e é preciso estabelecer apenas os pequenos proprietários.
Desse igualitarismo, o
que acha a Igreja? A respeito desse igualitarismo, o que pensam os Papas? Os
documentos pontifícios a esse respeito são dos mais taxativos.
Em primeiro lugar nós
temos Pio XI, na encíclica Divini Redemptoris, que tem essa
afirmação: “Lembrem-se
também os empregados das obrigações de caridade e justiça para com os
empregadores e que fiquem certos de que, dessa maneira, melhor ainda defenderão
os seus próprios interesses”.
Quer dizer, a
distinção entre empregados e empregadores não só é uma distinção legítima, mas
há uma unidade do corpo social, da qual nós falaremos daqui a pouco, que faz
com que o empregado e o empregador sejam ambos solidários na manutenção dessa
desigualdade, nos termos e nos limites que daqui a pouco enunciaremos.
Na encíclica mesma Graves de Communi, diz Leão XIII: “As classes superiores não são menos
úteis que as classes inferiores para conservação e melhoria da sociedade.”
Vede bem que não se
trata, portanto, de um privilégio injusto. Não se trata de uma desigualdade
odiosa, mas trata-se de uma desigualdade que, circunscrita nos termos que eu
narrarei daqui a pouco, é uma condição para o bem comum. E atentar contra essa
desigualdade é atentar contra o próprio bem comum.
E Leão XIII, na
encíclica Rerum Novarum mesmo diz: “O erro capital – notem bem que a expressão
“erro capital” é muito grave - na
questão presente, é crer que as classes sociais são inimigas uma da outra, como
se a natureza tivesse armado os ricos contra os pobres e os pobres contra os
ricos, para se combaterem mutuamente num duelo obstinado. Essa é uma tal
aberração, que é necessário colocar a verdade numa doutrina inteiramente
oposta. Porque, assim como no corpo humano os membros, apesar de sua
diversidade, se adaptam maravilhosamente uns aos outros, de modo que formam um
todo exatamente proporcionado e que se poderá chamar simétrico, assim também na
sociedade as duas classes estão destinadas pela natureza a unirem-se
harmoniosamente e a conservarem-se mutuamente em perfeito equilíbrio. Elas têm
imperiosa necessidade uma da outra. Não pode haver capital sem trabalho, nem
trabalho sem capital. A concórdia traz consigo a ordem e a beleza; ao contrário
de um conflito perpétuo, só pode resultar confusão e luta selvagem”.
Vós vedes, portanto,
como apresentar a distinção de classes como algo de anti-cristão,
e apresentar aquele que ocupa na sociedade, a qualquer título, uma situação
eminente, como inimigo daquele que ocupa uma situação modesta, é
intrinsecamente combater a doutrina católica para, professando aquele erro –
que é o erro capital na matéria, diz Leão XIII - não é um erro qualquer, mas é
o erro sumo, é o erro mais grave, é o erro mais direto, é o erro do
igualitarismo, é o erro de querer nivelar tudo, de querer reduzir tudo a uma só
categoria.
E o Papa São Pio X, no
seu Motu Proprio sobre a Ação
Católica, acrescenta: “Disto
resulta que, segundo a ordem estabelecida por Deus, deve haver - não é “pode”
haver, mas “deve” haver - na
sociedade príncipes e vassalos, patrões e operários, ricos e pobres, sábios e
ignorantes, nobres e plebeus, os quais todos unidos por um laço comum de amor,
se ajudam mutuamente para alcançarem seu fim último no Céu, o seu bem estar
moral e material na terra”.
Notem os senhores que não são opiniões minhas,
que pouco lhes interessariam e muito legitimamente, mas trata-se de outra
coisa: são opiniões daqueles que governam a Igreja em nome de Deus, que são os
vigários de Jesus Cristo na terra.
No que consiste essa
desigualdade e no que consiste essa igualdade? Os Papas – e eu tomarei a
liberdade de ler mais alguns textos aqui, porque é necessário que se ouça a voz
dos Papas e que nenhum orador se substitua ao Papa para dizer a palavra da
verdade - os Papas ensinam brevemente o seguinte: que nos homens, como Deus os
fez, nós notamos uma igualdade fundamental e uma desigualdade relativa. Todos
nós homens somos rigorosamente iguais enquanto homens. E se tomarmos o mais
alto, o mais nobre e o mais inteligente dos homens e se tomarmos o último e o
mais vil dos homens, eles entretanto são iguais debaixo desse ponto de vista:
eles são homens, são animais racionais criados à imagem e semelhança de Deus e
que têm a mesma natureza humana.
Mas ao mesmo tempo que
há entre eles essa igualdade fundamental, que é algo de sagrado, existe também
entre eles uma desigualdade profunda, que é acidental e não fundamental. Mas
apesar disso é enorme, por onde nós vemos que os homens diferem enormemente uns dos outros, não só pelo temperamento, não
só pela inteligência, não só pela vontade, mas por todos esses mil imponderáveis
que constituem a personalidade humana.
Eu falo aqui diante de
um auditório repleto, de um auditório que me distingue nesse momento, com uma
atenção que me impressiona. Eu vejo as reações ao que eu vou falando. Que
reações temperamentais diferentes... Que reações intelectivas
diferentes... Diante de caras todas compostas, afinal, de olhos, nariz, boca,
testa e queixo, quantas variedades em tudo! Que diferenças de tamanho! Cada
homem é um verdadeiro pequeno universo e nesse sentido todos nós somos diferentes
uns dos outros. Nós somos diferentes e nós somos desiguais. E nós somos
desiguais pela Providência Divina, de maneira tal que uns têm dotes
supereminentes e outros estão privados desses dotes.
Mas estabelecendo essa
desigualdade, Deus não quis, de nenhum modo, estabelecer algo de mal. Não foi
em conseqüência do pecado original que apareceu a desigualdade na terra. Esse é
um erro que já foi condenado por São Tomás de Aquino, há muitos séculos atrás,
na sua famosa Summa
Contra Gentiles. A desigualdade é um bem. A
desigualdade foi feita por Deus para que os maiores sirvam e protejam os
menores e para que os menores apoiem e sirvam os maiores. E para que nesse
serviço mútuo se firme o amor dos homens uns pelos outros e todos dêem glória a
Deus.
De tal maneira isso é
verdade, que se os senhores olham para o universo, os senhores encontram que a
ordem do universo é desigual. São Paulo diz muito bem stella difert a stella, todas as estrelas são diferentes umas das outras. Os
senhores olham para o universo visível e os senhores o vêem dividido em
categorias desiguais, em seres inanimados, em plantas, em animais, depois nos
homens. E a Fé nos ensina que acima de todos os homens existe um reino angélico
imenso, um número de Anjos maior - ensina Santo Tomás de Aquino do que todo o
número de homens que foram, que são e que serão criados até o fim do mundo; e
entre os Anjos, nessa ordem superior diáfana e perfeita, entre os próprios Anjos
uma desigualdade tão grande que a desigualdade é maior do que entre os próprios
homens.
A teologia nos ensina
que, enquanto nós todos somos iguais por natureza e por essência, a
desigualdade é em nós um acidente, mas que nos Anjos não, a desigualdade é de essência. De maneira que
nós chegamos à conclusão de que entre os Anjos as desigualdades são maiores do
que entre os homens. E que na ordem feita por Deus, a desigualdade é uma coisa
tão nobre, que quanto mais um ser sobe de categoria, maior é a desigualdade que
existe nesse reino dos seres.
Os senhores tomem, por
exemplo, no reino mineral, a diferença que há entre um brilhante rútilo e um
pedregulho do caminho; como é menor do que a diferença que vai de um leopardo
para um beija-flor. Mas como essa diferença é menor do que a que vai de um
homem genial para um homem sub-inteligente. E depois,
como essa diferença é menor da que vai de um Anjo para outro Anjo.
Essa desigualdade,
portanto, desde que ela seja feita de tal maneira que aqueles que têm mais não
tenham tanto que impeçam os outros de terem o que é de acordo com sua natureza,
essa desigualdade é algo de sagrado, é algo de legítimo que não se trata apenas
de tolerar, mas se trata de amar.
E eu insisto nesse
conceito. É necessário que aqueles que tenham a natureza humana, tenham tudo
quanto convém para se manterem como homens. E nesse sentido, os costumes, as
leis, as instituições, a Igreja devem concorrer para esse efeito. É preciso
mesmo que essa igualdade fundamental seja tal que o homem não tenha apenas com
que viver, mas que ele receba a honra e a distinção a que ele tem direito.
Mas feita essa
ressalva, meus senhores, a idéia possa agradar ou possa desagradar, ela está na doutrina católica. E
eu vou ler textos pontifícios a esse respeito. A idéia é essa: a desigualdade
foi estabelecida por Deus entre os homens. Ela deve ser amada e ela deve ser
respeitada.
Nesse sentido eu
passarei a ler um texto de Leão XIII, muito concludente. Diz ele: “Se considerarmos que todos os homens
são da mesma raça e da mesma natureza, e que devem todos atingir o mesmo fim
último, e se olharmos os deveres e os direitos que decorrem dessa comunidade de
origem e destino, não é duvidoso que todos sejam iguais”. É aquela igualdade
fundamental de que lhes falei.
“Mas como nem todos eles têm os mesmos
recursos de inteligência e como diferem uns dos outros seja pelas faculdades do
espírito, seja pelas energias físicas, como, enfim, existem entre eles mil
distinções de costumes, gostos e caracteres, nada repugna tanto à razão, como
pretender reduzi-los todos à mesma medida e instituir na vida civil uma
igualdade rigorosa e matemática.”
Notem a expressão:
“Nada repugna tanto à razão”. Nada repugna tanto à razão, portanto, quanto
querer suprimir a classe dos patrões, para reduzir tudo a operariado.
Mais adiante o próprio Leão XIII nos diz: “Os Pontífices Romanos tiveram sempre um
igual empenho em proteger e melhorar a sorte dos humildes, como proteger e
elevar as condições das classes
inferiores. Eles são, com efeito, os continuadores da
missão de Jesus Cristo, não somente na ordem religiosa, mas na ordem social. E
Jesus Cristo, se quis passar sua vida privada na obscuridade de uma habitação
humilde e de ser tido por filho de um artesão, se na sua vida pública
comprazia-se em viver no meio do povo fazendo-lhe bem de todas as maneiras,
entretanto, quis nascer da raça real, escolhendo por mãe Maria e por pai
nutrício José, ambos filhos da raça eleita de Davi. Ontem, na festa de seus
esponsais, podíamos repetir com a Igreja suas belas palavras: ‘Maria se nos
manifesta fulgurante, nascida de uma raça real’. Por isso, a Igreja pregando
aos homens que eles são todos filhos do mesmo pai celeste, reconhece como uma
condição providencial na sociedade humana a distinção das classes sociais. E
nada será mais subversivo do que a igualdade das ordens e das categorias sociais”.
Alguém me dirá: “está
bem; mas nós temos muitos necessitados, nós temos muita gente a quem falta o
essencial para a vida; e é portanto justo que se tire de uns para dar para
outros”. Ainda aí, esse princípio merece uma reserva e uma ressalva. Não diria
que ele é absolutamente falso, mas é preciso ponderar o que diz a esse respeito
a Rerum Novarum de Leão XIII, nos
termos seguintes:
“Ninguém, certamente, é obrigado a
aliviar o próximo privando do seu necessário e de sua família. Nem mesmo a nada
suprimir do que a conveniência e a decência impõe à sua pessoa”. Conveniência e
decência querem dizer o estilo de vida próprio a uma determinada categoria
social.
E ele acrescenta: “Mas desde que haja suficientemente
satisfeito à necessidade e ao decoro, é um dever lançar o supérfluo no seio dos
pobres”.
Os senhores estão vendo, portanto, que é um dever lançar o supérfluo no seio
dos pobres, mas não é um dever suprimir a classe dos ricos, tirando-lhes os
meios para se afirmar com o exterior e com o aparato, inerentes a uma classe
social distinta.
O ensinamento dos Papas
vai mais longe e aborda a questão da herança. É legítimo que um filho herde de
seu pai, embora ele não tenha trabalhado? Eu tenho aqui vários textos
pontifícios, dos quais vou apenas ler um, porque é muito rápido e direto, mas
que responde inteiramente à questão, embora depois, no período das perguntas
que eventualmente haja, eu lhes possa ler os outros textos. É um trecho do
mesmo Leão XXIII. Pio XII tem textos
magníficos a esse respeito.
“A natureza não impõe somente ao pai de
família o dever sagrado de alimentar e sustentar seus filhos. Vai mais longe.
Como os filhos refletem a fisionomia de seu pai e são uma espécie de
prolongamento de sua pessoa, a natureza inspira-lhe o cuidado do seu futuro e a
criação de um patrimônio que o ajude a defender-se na perigosa jornada da vida,
contra todas as surpresas da má fortuna. Mas esse patrimônio poderá ele criá-lo
sem a aquisição e a posse de bens permanentes e produtivos, que possa
transmitir-lhe por via de herança? Jamais.”
Quer dizer, a
hereditariedade dos bens de fortuna também está de acordo com a doutrina
católica.
Nessas condições, o
problema que à primeira vista parece mais impressionar no debate
agro-reformista, que é a questão das desigualdades sociais, resolve-se assim: fazer
tudo, fazer com a maior urgência, fazer com a maior generosidade para que
impere a justiça e a caridade nas relações entre patrões e empregados. Mas ao
fazer isso, tomar o cuidado de não caminhar para um nivelamento social, que
represente a abolição de categorias sociais que existem de acordo com a ordem
providencial.
Uma vez que isso é
assim, poderíamos considerar alguns outros problemas da vida rural brasileira,
que mereceriam uma análise especial. Muito sucintamente, me parece que alguns
devem ser mencionados.
E ao mencionar o
primeiro, eu não posso deixar de manifestar a minha admiração pelo povo
mineiro, que me parece estar em inteira conformidade com o que eu vou dizer, ao
contrário do que acontece em outros Estados do Brasil. É o dever de residência.
Parece-me que nada é
mais doloroso numa fazenda, onde o fazendeiro firma para si uma situação
especial, que é representada inclusive pela sua casa, pela sua moradia, pelos
seus objetos, que atraem a atenção de todos os colonos, nada me parece mais
triste, mas eu devo acrescentar que nada me parece mais perigoso, do que a
ausência sistemática e habitual do fazendeiro. O fazendeiro ausente, a casa
vazia e abandonada, a cessação das relações de contato, de convívio, de compreensão
entre patrão e empregado. O fato de que não só o fazendeiro está ausente, mas a
família do fazendeiro está ausente também. E que aquelas relações humanas se
reduziram inteiramente a relações econômicas, isso dá uma espécie de
confrangimento. E se é verdade que muitas circunstâncias podem obrigar um
fazendeiro a viver ausente de sua fazenda, é verdade também que é perigoso para
ele fazê-lo. Porque, à força de não o ver, é impossível que os colonos se
perguntem do que ele serve. E a partir do momento em que não compreendam do que
é que ele serve, é difícil que eles não pensem em o suprimir.
Eu não posso me
esquecer, quando nas atividades minhas de advogado, eu fui recentemente visitar
uma fazenda no Estado X. Cheguei à fazenda e encontrei o seguinte: a casa do fazendeiro era um apartamento com
dois ou três quartos e banheiro, apêndice da casa do administrador. Perto, um
campo de pouso pequeno. O fazendeiro morando numa cidade muito distante, indo
uma vez por mês – e às vezes nem isso – à fazenda, para fazer os pagamentos,
verificar as contas, conversando apenas com o administrador e com mais ninguém.
Depois, indo de automóvel para o campo de pouso e levantando vôo. Diretamente,
quando a gente abria as janelas, já encontrava os pés de café. Poder-se-ia
dizer que o café entrava janelas a dentro. Nem um jardim, nada que significasse
um pouco de comprazimento, um pouco de distensão. Uma capelinha
microscópica, construída para cumprir uma promessa e a mais econômica possível,
como gente ingrata cumpre promessa. Naquela fazenda faltava uma alma, faltava
um coração. Aquela fazenda estava reduzida a um negócio.
E ahi!,
meus senhores, das coisas que se reduzem apenas a negócio. Quando as coisas se
reduzem apenas a negócio e só há negócio de cá e negócio de lá, e se tira o
conteúdo humano dessas relações para transformá-las em cifrão, ali se
estabelece o reino da ganância. E onde se estabelece o reino da ganância, o
reino é do mais forte. E em nossos dias a tendência é para que a força maior
esteja em mãos da multidão.
Como é diferente isso
do convívio compreensivo, tão de nossa tradição, entre proprietário e colono.
Convívio compreensivo, que não é apenas o fato do proprietário entender o
colono e o colono entender o proprietário, mas é que o fazendeiro seja ele
autenticamente um homem do campo, compreendendo o campo e gostando das coisas
do campo.
Ontem me dizia, com
muita formosura, um dos representantes da FAREM presente à minha conferência,
que ele tinha outros negócios, e que não sabia verdadeiramente porque era
fazendeiro, porque sua fazenda não lhe dava muito lucro. E depois acrescentou
isso, que eu achei estupendo: “Eu sou fazendeiro por amor ao campo”. Eu tive
vontade de lhe apertar a mão. Porque eu não sou fazendeiro, mas é assim que eu
compreendo o fazendeiro.
Eu não compreendo o
médico que seja médico apenas para explorar. Eu não compreendo o advogado que
seja advogado apenas para ganhar. Eu não posso compreender também, pela mesma
razão, um fazendeiro que seja fazendeiro apenas pelo dinheiro. Ele precisa ter
a alma do fazendeiro, ele precisa compreender o campo e a terra. Porque é na
compreensão do campo e da terra que ele aprenderá a compreender o colono
também.
O fazendeiro
verdadeiramente fazendeiro evita de espantar e estarrecer a colônia com suas
modas extravagantes. O que dizer de um fazendeiro que diante de um homem
simples, sensato, que trabalha de sol a sol, como é o seu trabalhador manual,
que é um homem de espírito afeito às verdades gerais e sem complicação, aparece
de repente um homem, como eu conheço tantos fazendeiros em algumas zonas, um
homem de sessenta anos, lá sei de que idade, com uma calcinha amarela verde
canário, uma camisinha azul, uns braços de fora, com ar de playboy, com ar de quem vai tocar uma
guitarra, cantar de repente, em vez de trabalhar. O que é isso? E ao que fica
reduzido o princípio de autoridade quando ele é servido por exterioridades
dessas?
Por outro lado, ele
deve ser um modelo de virtude. Porque quando a virtude – e entre as virtudes eu
menciono principalmente a fé – quando a virtude não preside a vida da fazenda,
quando o colono não tem admiração pela moralidade de seu fazendeiro, é inútil
esperar estabilidade das coisas da fazenda.
Por fim, o camponês é
preciso que seja formado, mas formado em todo sentido, pelo seu patrão. Quer
dizer, como diz muito bem o Papa João XXIII na Mater et Magistra, é necessário que o
agricultor assuma o encargo de formar a si e aos outros nos valores da
civilização. E a esse respeito, eu creio que haveria algo a fazer.
Nós temos uma
literatura nacional e nós temos uma pintura nacional que insistem muito a
respeito do tipo do jeca, a respeito do tipo do caipira, mostrando o seu
pitoresco. É, por exemplo, Almeida Júnior com seus quadros excelentes, que põe
a nu a finura de espírito e inteligência do caipira. É por exemplo Monteiro
Lobato, com seu Jeca Tatu, que também pôs a nu, de algum modo, a finura e a
esperteza do caipira. Mas nisso entrou o estado de espírito de que o nosso
caboclo, para ser verdadeiramente ele mesmo precisa ser perpetuamente magro,
precisa ser perpetuamente subalimentado, precisa perpetuamente viver numa
choça. E isso, evidentemente, é um erro muito grave.
A ação do fazendeiro
deve exercer-se sobre o colono no sentido de o estimular a que tenha uma
habitação agradável, a que tenha um alojamento interessante, a que tenha
condições de vida humanas. Deve despertar nele essa apetência para o progresso.
Porque se não houver no próprio colono a apetência para o progresso, não
adianta nós pensarmos em progresso.
E com isso eu passo a
um outro ponto muito frisado pelo Papa João XXIII.
Os problemas rurais
não devem ser considerados exclusivamente como podendo ser determinados,
resolvidos pela lei. A lei pode pouco nessas matérias. Mais do que a lei, o que
é preciso haver são os costumes. Mais do que a lei, o que é preciso haver é o
esforço individual de cada um. E João XXIII frisa muito bem esse princípio,
declarando o seguinte: “Na
verdade, estamos persuadidos de que, quando se trata da agricultura, os
protagonistas, seja do desenvolvimento econômico, seja do progresso cultural e
social, devem ser os próprios interessados, ou seja, os lavradores. Lavrador
proprietário, lavrador trabalhador manual, de qualquer maneira, é preciso que
parta de dentro do lavrador, pela ação de exemplo do proprietário, o desejo de
uma melhora de vida, para que realmente o nível da fazenda possa levantar”.
Vós me direis,
naturalmente, que isso é muito difícil. E me perguntareis de que modo se
chegará a isso. E a resposta que eu vou dou é a seguinte: pode ser difícil, mas
é indispensável. E quando uma coisa é indispensável, ela tem que ser obtida.
Nós não podemos imaginar que a massa rural é algo de inerte e que nós podemos
impor progresso a essa gente mais ou menos como Pedro o Grande (da Rússia) fez.
Ele decretou progresso na Rússia, mandava agarrar as pessoas na rua, cortar a
barba, cortar as túnicas, obrigar a vestir uma roupa como ele queria. O
resultado deu uma monstruosidade.
Nós não podemos ter a
ditadura do progresso, como não devemos ter nenhuma outra espécie de ditadura.
E se nós quisermos um progresso verdadeiramente humano, a condição que nós
devemos ter é que esse progresso seja desejado. Nada mais anti-democrático,
no bom sentido da palavra, nada mais errado, do que o progresso imposto à
chibata, a decreto e regulamento. É um falso progresso, é uma coisa que o homem
não digere nem assimila.
O verdadeiro, o único
progresso é esse progresso que nasce de dentro para fora. É esse progresso que
nasce da apetência de todo um povo. E os líderes sociais, que são os
fazendeiros, devem assumir a si – como aliás tantas vezes já têm feito – devem
assumir a si a tarefa de organizar e de promover esse progresso. De promover
esse progresso e com a promoção desse progresso, fazer uma outra coisa. É indispensável,
para a solução dos problemas sociais, que as coisas não se resolvam nas
capitais, que as coisas não se resolvam no papel e na lei. Os problemas sociais
devem ser resolvidos pelos costumes, de acordo com os hábitos de cada região.
Os direitos dos operários, dos trabalhadores manuais, como assegurá-los? A
introdução de garantias para os trabalhadores manuais do campo, tão e tão
desejável e urgente, como introduzi-la, como fazê-la sem levar a uma verdadeira
catástrofe? Como é que se pode fazer tudo isso?
É preciso que em cada
região, todo mundo persuadido da necessidade dessas coisas, desejando-as
intensamente, se crie um estado de espírito por onde, por toda parte, todos vão
se movendo para que isso se realize. Sem que um grande povo tenha uma grande
convicção e um grande ideal, nada se pode realizar. As leis são impotentes e
frias. E eu seria tentado a aplicar aqui, com um pouco de abuso do texto,
aquela palavra de São Paulo: “A lei mata, o espírito que vivifica”.
Nós precisamente
precisamos ter esse espírito de desejar esse progresso, ordenadamente, sem
perturbação das categorias sociais, de maneira que todos queiram trabalhar, de
maneira que todos queiram subir, de maneira que todos queiram melhorar as suas
condições de vida, dentro dos cânones da doutrina católica. E se nós tivermos o
progresso organizado por essa maneira, os senhores sabem bem qual é o
resultado: nós seremos um dos maiores Países do mundo.
Mas se nós não
tivermos o progresso organizado por essa maneira, se continuarmos no regime da
estampilha, do decreto e do regulamento, quanto mais as leis se estenderem,
quanto mais tivermos regulamentos e decretos, mais o Brasil vai ficar parecido
com aquilo que é o produto típico da lei, do decreto e do regulamento: o Lloide brasileiro e a Central do Brasil. Nós vamos nos
transformando num imenso Lloide que não navegará.
Assim, com esse
movimento geral de todas as forças sociais para um mesmo fim comum, com esse
movimento geral de todas as forças sociais para a realização dessa civilização
cristã, as regiões autênticas vão se definindo, porque os campos de interesse
vão se especializando e as soluções regionais aparecerão. Nada me parece mais
absurdo do que falar de uma só lei agrária para o Brasil inteiro quando há, na
realidade, unidíssimos, fraternamente
unidíssimos, tantos e tantos brasis dentro do Brasil.
Um regionalismo sadio, um ardente movimento de
opinião para a melhora das condições do fazendeiro e do colono, um desejo de
realizar isso dentro das sendas da civilização cristã e de acordo com o
espírito de hierarquia e com respeito à propriedade privada inerente à
civilização cristã. Isso é que me parece que está na raiz da verdadeira reforma
agrária. Não há reforma nenhuma sem um movimento de alma, sem um impulso de
coração, sem algo de humano. É esse fator humano, nos termos em que acabo de
descrever, que me parece indispensável para a solução do problema agrário.
E aqui, dessa Minas
Gerais que tanto significa para o Brasil, porque muito mais do que estar no
centro do Brasil geograficamente, ela é o centro do Brasil pelas suas
qualidades de brasilidade intensa, pela sua
estabilidade, pela sua seriedade, pelo seu bom senso, pela sua subtileza de
espírito e, sobretudo, pelo fato de ser tão e tão ardentemente cristã, a
Bretanha do Brasil, o baluarte católico do Brasil. Dessa Minas Gerais eu tenho
o prazer de vos fazer a vós e a todos aqueles que depois vão ouvir essa
conferência gravada, que vai ser distribuída em vários círculos do Brasil, eu
tenho o prazer de fazer uma elevação de coração e de olhos para o nosso grande
Brasil.
Meus senhores, nós
estamos numa bifurcação: de um lado, as forças da demagogia hiantes e sedutoras
nos convidam para uma luta que será nossa morte. Mas, de outro lado, a voz de
Nosso Senhor Jesus Cristo nos convida pela voz do Papa, para uma solução
efetiva, séria e urgente dos problemas do campo, mas dentro das vias da
civilização cristã. Não faltará muito em que, o aproveitamento integral de
nossos recursos estupendos, junto à força de alma que nos terá vindo da solução
desse grande problema em termos cristãos, fazendo nascer no Brasil uma
sociedade verdadeiramente agrícola, orgânica, viva e católica.
Essas energias de
alma, dadas a um povo que eu o posso dizer, porque nas minhas viagens eu o
verifiquei com toda certeza, é dos mais inteligentes e ágeis de espírito da
terra, a esse povo que tem um tão grande território, a esse povo a quem Deus
deu uma tão grande inteligência, a esse povo a quem Deus deu uma felicidade
maior do que essa, que é a posse sincera e quase unânime da verdadeira fé, a
esse povo estará fadado o maior destino da história nos séculos a vir. E para
isso Deus nos proteja e nos abençoe e nos guie Nossa Senhora Aparecida, Rainha
do Brasil.
[Aplausos]
Eu cumpro um dever [de
gratidão para com o] Secretário da
Agricultura e a gentileza que teve o senhor Governador de se fazer representar
e as digníssimas autoridades aqui presentes.
* *
*
Pergunta:
Interessa-nos saber porque V. Sria. não fala sobre a
reforma agrária independente de religião. É possível?
A essa pergunta devo
responder o seguinte: a reforma agrária é, à primeira vista, um assunto de
caráter técnico, é um problema de produção. Mas quando se analisa um pouco
melhor, a gente percebe que há uma porção de problemas de justiça que estão
envolvidos na questão agrária e até questões de caridade. Quer dizer, é preciso
saber até onde um homem é co-responsável pelo destino de outro. Até onde um
homem tem o direito e tem o dever de ir para defender os seus próprios
direitos.
Ora, quando se fala em
direito, em dever, em justiça, em caridade, é a moral que está envolvida, que
está implicada. E quando a moral está implicada, o assunto entra para o domínio
da Igreja Católica que, por instituição divina, é a única verdadeira Igreja de Nosso
Senhor Jesus Cristo. Que Ela seja a única verdadeira Igreja de Nosso Senhor
Jesus Cristo é fato que eu creio com uma certeza maior do que qualquer outra
certeza que possa haver em minha alma. De maneira que, se o mundo inteiro
pensasse de outra maneira, eu, com toda convicção e com toda a tranqüilidade,
ainda pensaria assim. E eu não conseguiria tratar de questões de reforma
agrária em seu aspecto de justiça e de caridade, sem as tratar debaixo do ponto
de vista religioso.
Mas acontece que a
reforma agrária é para ser feita para o Brasil e o Brasil é um povo quase
unanimemente católico, para o qual, portanto, os problemas dessa natureza são
vistos debaixo do ângulo da doutrina católica. E, nessas condições, uma reforma
agrária que abstraísse do ponto de vista religioso poderia ser feita para
qualquer outro povo, não, porém, para o povo brasileiro. O que tem como
conseqüência que é do ponto de vista religioso que os aspectos morais da
reforma agrária devem ser considerados.
Pergunta:
O senhor baseou-se na desigualdade dos Anjos para defender a desigualdade dos
homens. Mas eu não acredito em Anjos. Qual argumento concreto que o senhor pode
apresentar para sustentar essa afirmativa? A realidade atual brasileira?
Certamente não a
realidade atual brasileira, como nenhuma realidade atual de nenhum País. Não se
trata de fundar o direito à desigualdade no aspecto que um País tenha nessa
época ou naquela. Trata-se de fundar na própria natureza humana que é a mesma
para todos os Países. Eu mencionei os Anjos como um argumento muito válido, mas
colateral. O argumento essencial que eu apresentei é esse fato evidente, até
mesmo para quem não tem convicções religiosas, e que é que todos os homens são
iguais enquanto homens. Quer dizer, eles têm a mesma natureza, a mesma inteligência,
a vontade, sensibilidade, alma, corpo. Mas que eles são desiguais em todos os
seus acidentes. E que se as relações entre os homens quiserem tomar em
consideração essa ordem natural, devem considerar os homens fundamentalmente
iguais e ao mesmo tempo profundamente desiguais. Qualquer outra estrutura de
relações sociais seria feita para entes que não fossem humanos. Seria uma
estrutura de relações sociais inumana.
Pergunta:
A Igreja não é infalível apenas nos assuntos religioso?
A palavra religiosos não está empregada aqui com
precisão. A Igreja é infalível em matéria de fé e de costumes. Quer dizer, no
ensinamento da moral Ela é infalível e esses princípios sociais que eu acabo de
enunciar são princípios incorporados e pertencentes à moral católica. Nessa
matéria a Igreja tem autoridade para ensinar e inclusive para ensinar em grau
infalível, de maneira infalível ex cathedra, se assim Ela entender.
Pergunta:
Por que sempre que se fala em socialismo, toma-se essa palavra como sinônimo de
comunismo?
Eu não tenho visto
isso e se isso fosse feito, não seria justo. E, ao mesmo tempo, seria justo. Os
comunistas se intitulam socialistas. Eles se dizem socialistas marxistas. Há
outras correntes que se intitulam socialistas também, mas que não professam a
integridade das teses comunistas. Elas desejam uma limitação do direito de
propriedade e uma ampliação da esfera do Estado, sem querer eliminar
inteiramente esse direito e sem querer, ao mesmo tempo, levar o Estado a tudo.
Elas estão portanto para o comunismo, mais ou menos como a gripe está para a
pneumonia, ou como a cor de rosa está para o vermelho. Os senhores me dirão: o
senhor confunde uma gripe com uma pneumonia? Eu digo: não. Mas eu digo que
gripe mal tratada dá em pneumonia e que socialismo mal refutado conduz ao
comunismo. [Aplausos]
Pergunta:
O direito ao uso da terra é anterior ao direito de propriedade. O que o ilustre
conferencista nos diz a essas palavras?
O direito ao uso da
terra é, de fato, anterior ao direito de propriedade. Quer dizer, quando Deus
criou a terra e criou o homem na terra, Ele criou a terra para todos os homens.
Daí se deduz o fato de que qualquer sistema de repartição da terra que seja tal
que uns não tenham nada e outros tenham muito, tenham demais, é um sistema
injusto e que é preciso caminhar para a reforma desse sistema, de maneira que
todos ganhem o suficiente.
Assim portanto, o direito
ao uso da terra autoriza não uma reforma para dar terra a todo mundo, mas uma
reforma como eu tive ocasião de explicar ontem à noite – e seria um pouco longo
demais desenvolver agora, porque tenho consciência de que minha conferência foi
um pouco longa – autoriza o fato de que se deva intervir para que todos os
homens ganhem o suficiente para se manterem dignamente, manterem a sua família,
manterem num valor proporcionado ao seu trabalho e poderem ter ainda um pecúlio
para formar modestas economias. É preciso, portanto, absolutamente chegar a
isso.
Mas isso não quer
dizer divisão de terras e muito menos divisão sem justa e adequada indenização.
Eu gostaria de dizer mais uma coisa. É que o Papa Leão XIII, segundo um texto
que eu li ontem à noite e que se meu amável interpelante quiser conhecer, eu
terei muito gosto em mostrar depois, porque tenho na minha pasta, mas não quero
ter a trabalheira de tirar aqui e tomar tempo de todos os outros, o Papa Leão
XIII diz esta coisa curiosa: que o homem, pelo fato de ser homem, tem o direito
de ser dono não só dos frutos da terra, mas da própria terra. Quer dizer, ter
um direito de propriedade não só sobre o uso da terra, mas sobre a terra. E
dizer que é o animal que só usa a terra e que é o homem que apropria, querer,
portanto, reduzir a propriedade do homem sobre a terra ao uso, parece
democracia, é demagogia e reduz o homem à categoria de animal.
Pergunta:
Existe diferença entre a concepção da Igreja e a concepção socialista do
capitalismo? Qual?
A diferença essencial
– eu me desculpo também de dar apenas o traço essencial, para não me tornar por
demais longo – a diferença essencial entre a doutrina da Igreja e do socialismo
consiste na seguinte. De acordo com a doutrina da Igreja, o homem pode
tornar-se dono da terra, dono do que colhe, dono do que planta, dono do lugar
em que planta, dono do instrumento de produção que ele faz para plantar. E ele
pode - porque ele se torna dono - pode convidar outros para trabalharem no
lugar. E do produto do trabalho do operário, [ele pode] tirar uma parte que
corresponde à terra, quer dizer ao capital.
Pelo contrário, pela
doutrina socialista, o direito de propriedade não sendo legítimo, é preciso que
o operário ganhe todo o produto daquilo que ele trabalha. As correntes
mitigadas do socialismo atenuam isso de um modo ou de outro, mas a essência da
coisa é essa. Os senhores estão vendo que a diferença é um problema de moral.
Se o direito de propriedade é legítimo ou não.
Pergunta: Muitos atribuem os males do
Brasil à estrutura tida como capitalista em que vivemos. Seria realmente um mal
de estrutura o mal do Brasil? Há realmente necessidade imperiosa de reformar as
estruturas sociais e econômicas, inclusive a estrutura agrária?
Respondo por partes.
“Muitos atribuem os
males do Brasil à estrutura tida como capitalista em que vivemos”. O senhor
Luiz Mendonça de Freitas, na segunda parte do livro “Reforma Agrária – Questão
de Consciência”, mostra exatamente que a agricultura brasileira vive em
condições imensamente sacrificadas, que ela carrega o peso da industrialização,
que ela carrega o peso pesadíssimo da burocracia e, muitas vezes, da burocracia
supérflua. E que enquanto as outras atividades do País são altamente
protegidas, a agricultura não só não tem proteção, ou uma proteção magérrima, mas ela sofre medidas que têm quase o caráter de
uma repressão. Nessas condições, como provar que nossa deficiência de produção
[tenha como causa isso]?
Além disso, é verdade
que temos deficiência de produção? Pelo contrário, não se pode provar que a
produção agrícola é proporcional às necessidades do País e que há apenas a ação
de atravessadores que tornam os produtos realmente
caros e apodrecendo nos lugares de origem? O Sr. Luís Mendonça de Freitas
afirma muito documentadamente que sim.
Por outro lado, há um
outro problema: nossa estrutura é boa? Qual é a solução para o problema? é
dividir terras já usadas? ou usar duas terças partes incultas do território
nacional? Nós costumamos raciocinar a respeito do problema como se não
tivéssemos terras devolutas. É um verdadeiro absurdo. Eu soube exatamente com
satisfação, que o governador Magalhães Pinto está estudando uma reforma agrária
em que a primeira idéia é de aproveitar as terras devolutas do Estado, o que é
uma necessidade evidente.
Quando eu estive
recentemente em Brasília, na Câmara dos Deputados, eu soube que um deputado
tinha sintetizado o problema da reforma agrária de um modo muito pitoresco, que
eu tive ocasião de referir ontem. O problema do Brasil não é de “joão sem terra, mas é de terra sem joão”.
Não é preciso dar terra para o joão, mas é preciso
dar joão para as terras.
E realmente para mim é
esse o elemento capital do problema agrário. Se a estrutura não é boa, por que
ficar aqui? Por que não emigrar? Em todas as épocas da história o povoamento do
mundo deu-se assim. Há um lugar que é habitado, as terras começam a tornar-se
insuficientes, então vão para outro lugar. Do contrário, o mundo não teria sido
habitado.
Inclusive os
portugueses não teriam vindo cá. Porque se Portugal tivesse todas as terras que
havia no Brasil, eles não teriam atravessado o oceano. Eles teriam feito o que
fizeram os nossos antepassados: teriam feito as bandeiras. E se os paulistas,
de alguns séculos atrás, tivessem mentalidade agro-reformista, eles não teriam
povoado Minas Gerais. Eles teriam ficado em São Paulo, se matando e discutindo
questões sociais. E Minas Gerais não existiria.
Agora, por que esse
processo não se desenvolve? Por que não ocupamos essas terras, em vez de nos
matarmos a nós? Quer dizer, eu acho verdadeiramente absurdo, me permitam a
trivialidade do termo, mas eu acho estapafúrdio que, havendo um latifundiário
que é dono de dois terços das terras, que é o Estado, o Estado queira dividir
terras dos outros para resolver o problema agrário. Enquanto eu viver, eu não
hei de compreender isso. Se Deus quiser, pois no dia em que eu tiver
compreendido, é sinal que eu estou louco.
Pergunta: Crê o senhor ser possível
infundir no colono o desejo pelo progresso, como afirmou? Quando esse mesmo
colono ganha, em muitas regiões do País, menos de cem mil réis por dia? É
possível progredir com tal ordenado?
Eu me lembro de uma
conversa que D. Sigaud, um dos autores e tão ilustre do livro “Reforma Agrária
- Questão de Consciência”, teve há pouco tempo com um norueguês. D. Sigaud
ainda era Bispo de Jacarezinho, no norte do Paraná.
Esse norueguês se referia aos problemas do norte do Paraná, sobre o surto magnífico
que tem, etc., a Noruega muito parada. E ele dava uma explicação, ele dizia:
aqui existe exatamente o contrário da Noruega. Na Noruega os salários são tão
altos que ninguém quer progredir; aqui, apertados pela vida, os senhores que
não têm salários tão altos, se esforçam de todos os jeitos para progredir.
Os senhores estão
vendo que é a visão oposta da questão: é o salário muito grande tendendo à
indolência. A verdade é que o salário não é o elemento fundamental do problema.
O problema é o problema moral. Quando o homem não tem o hábito do trabalho, ou
perde o hábito do trabalho, se ele é rico, ele não trabalha porque é rico; e se
ele é pobre, ele não trabalha e diz que não trabalha porque ele é pobre.
Eu me lembro de uma
canção popular, que eu não sei se os senhores ouviram aqui em Minas, cujas
primeiras estrofes são assim: “ó vida malvada, não adianta fazer nada, para que
trabalhar...” etc., é isto. É a canção da indolência pobre, como na Noruega é o
sono narcotizado da indolência rica. Não é o salário que resolve o problema
humano, é o homem que resolve o problema do salário. [Aplausos]
Pergunta: O senhor defende o sistema das
castas existente verbi gratia
na Índia?
Outra pergunta muito
relacionada: quando diz que a desigualdade dos homens é acidental,
isso quer dizer que ela é secundária?
Houve uma vez um
egiptólogo famoso, diretor do museu de egiptologia do Cairo, que encontrou um
arquivo, um arquivo um pouco incômodo e pouco portátil, como eram os do tempo –
porque os arquivos das relações exteriores do Egito eles faziam em ladrilho –
os senhores podem imaginar o que era uma correspondência. Então, havia nesse
arquivo um ladrilho que era uma lousa, que era uma carta de um agente comercial
do Egito na Assíria dirigida ao faraó. E a carta começava assim: “Fulano de
tal, teu escravo, e indigno de beijar os teus pés, e indigno de beijar as patas
do teu cavalo, beija o pó em que essas patas pousaram”. E depois vinha a carta.
Esse era o sistema de
todos os povos pagãos, que acabavam de dizer que seus reis tinham origem divina
e que adoravam os reis como semideuses. Os senhores tiveram ainda em nossa
época a cerimônia do imperador do Japão, comparecendo diante do povo do Japão
para afirmar essa coisa terrivelmente velha para nós, e parece que nova para
ele, que ele não descendia de Deus nenhum. Os senhores estão vendo, portanto,
qual é a idéia da divinização do poder.
Veio Nosso Senhor
Jesus Cristo e afirmou o contrário: nenhum homem tem nada de divino. Todos os
homens são iguais pela sua natureza. Eles apenas são desiguais em seus acidentes. E, portanto,
tanto é homem o rei, quanto é homem o plebeu. E por isso os historiadores nos
contam que o mais representativo dos reis do Ocidente, aquele que mais encarnou
a idéia da realeza no seu esplendor e na sua majestade, o rei Luís XIV, que se
chamava a si próprio o Rei Sol, o rei Luís XIV, quando passava pelas galerias
do castelo de Versailles, quando ele encontrava uma
senhora, ele tirava o chapéu para cumprimentar, fosse ela qual fosse, ainda
quando fosse sua lavadeira. Desse rei que tira o chapéu para a lavadeira, sem
deixar de ser rei – porque se alguém no mundo não foi demagogo era ele – para o
pobre do escravo que diz que não é digno de pousar os lábios na pata do cavalo
do faraó, há uma imensa transformação e essa imensa transformação foi
exatamente o Evangelho que introduziu.
Essa transformação que
fez com que no regime da civilização cristã, por mais distantes que os homens
fossem e por mais que essa distância devesse marcar, era uma distância sempre
feita de homem a homem e nunca uma distância feita de homem a escravo, nem de
homem a bicho. E por isso uma das glórias da civilização cristã foi de ter
acabado com a escravatura.
Por isso mesmo, os senhores encontram no mundo pagão
antigo uma diferença muito grande com o mundo de hoje e mesmo com o mundo
medieval, no que diz respeito às classes. No mundo pagão antigo, por exemplo,
na Índia, quem nascia de uma classe nunca podia passar para a classe superior.
Na Idade Média era a coisa mais freqüente a pessoa mudar de classe social. Quer
um plebeu que prestava grandes serviços à pátria, por exemplo, no campo de
batalha e que era promovido a nobre; quer o nobre que era degradado a plebeu
por causa de crimes que praticava. Ou por causa de uma tal decadência que
acabava, ao cabo de algumas gerações, nem mais conseguindo viver como nobre.
Quer dizer, se o
regime de castas é um regime estagnado em que a água apodrece porque nunca se
muda e o regime demagógico é de uma torrente que nunca pára, o regime cristão é
intermediário. É como de uma piscina que parece parada, mas cujas águas são
sempre frescas, porque há sempre um sair de água usada e há sempre um entrar de
água nova. Não sei se respondi bem a pergunta feita.
Há uma pergunta a
respeito de socialismo católico que é a seguinte, diz o professor Arnaldo
Xavier da Silveira que ela resume todas as outras.
Pergunta: Não é aceitável um socialismo
cristão visando a eliminação dos monopólios? Em caso negativo, o que é possível
adotar?
Eu acho que é melhor
responder pelos lábios do Papa Pio XI, cujo ensinamento foi repetido e
confirmado por João XXIII na encíclica Mater et Magistra. Eu sei que a leitura
de textos é enfadonha, mas eu quero que os senhores saiam daqui com a sensação
de que não afirmei apenas, mas que eu documentei. De maneira que eu leio.
Pio XI começa dizendo
o seguinte. Houve tempo em que os socialistas eram a mesma coisa que os
comunistas, depois evoluíram. Ele explica que essa evolução levou os
socialistas a terem várias reivindicações em comum com os católicos. E ele
pergunta, se uma vez que há isso, se pode haver um socialismo católico. E ele
responde nesses termos:
“Por esse caminho
podem os princípios desse socialismo mitigado vir, pouco a pouco, a coincidir
com os votos e reclamações dos que procuram reformar a sociedade segundo os
princípios cristãos. Esses com razão pretendem que certo gênero de bens sejam
reservados ao Estado, quando o poderio que trazem consigo é tal que, sem perigo
do mesmo Estado, não pode deixar-se em mãos de particulares”.
Agora vem a resposta
específica à pergunta. “Tão justos desejos e reivindicações em nada se opõem à
verdade cristã e muito menos são exclusivos do socialismo”. Como o senhor fala
ali, a luta contra determinados monopólios.
Vem o Papa: “Por isso,
quem só por eles luta não tem razão de se declarar socialista”. A resposta é
luminosa. Se a luta contra certos monopólios não é própria só do socialismo,
por que vou dizer que lutando contra os monopólios sou socialista? Não há
razão. Isso não é típico deles, não é privativo deles. Por que?
Ele continua: “E se o
socialismo estiver tão moderado que no tocante à luta de classes e à
propriedade particular, que já não mereça nisso a mínima censura, terá
renunciado por isso à sua natureza essencialmente anti-cristã?
Eis uma dúvida que a muitos traz suspensa”, inclusive ao meu amável consulente.
E o Papa responde, com
sua autoridade, o seguinte: “O socialismo – ouça bem meu amável consulente – quer se considere como doutrina, quer como
fato histórico, ou como ação, se é verdadeiro socialismo, mesmo depois de se
aproximar da verdade e da justiça nos pontos sobreditos, não pode conciliar-se
com a doutrina católica, pois concebe a sociedade de modo completamente avesso
à verdade cristã”.
Como pode, então, ser
socialista cristão? Quer dizer, eu sou cristão anti-cristão,
sou um preto-branco, sou um ser não-ser,
eu sou um monstro. E se esse erro, que é o socialismo - como todos os demais -
encerra algo de verdade, o que os Sumos Pontífices nunca negaram, funda-se o
socialismo, contudo, numa concepção da sociedade humana diametralmente oposta à
verdadeira doutrina católica. Diametralmente oposta. “Socialismo religioso,
socialismo católico – eu continuo a ler a encíclica – são termos con-tra-di-tó-rios. Ninguém pode ser ao mesmo tempo bom
católico e verdadeiro socialista”. [Aplausos]
Pergunta: Se a propriedade é um roubo,
com que direito o homem possui a terra em detrimento dos demais?
Eu respondo: como a
propriedade não é um roubo, ele possui. Quem disse que a propriedade é um
roubo? Foi Proudhon. Onde está a prova? De acordo com
a doutrina católica, prova nenhuma. É claro que, admitido que a propriedade é
um roubo, não se pode ter roubo, não é? Mas então eu digo também o seguinte: se
dois mais dois fossem igual a quatro e meio, o que o senhor diz do cinco? É
igual a dez mil. Pronto.
Pergunta: Se a revolução social está em
marcha e, consequentemente, o capitalismo e a burguesia em decomposição, não
desaparecerão?
É claro. Se está em
marcha e nós não reagirmos, sim. Se está em marcha e nós reagirmos, não. Vamos
reagir e está acabado. [Aplausos]
Uma pergunta deliciosa: Por que só agora a Igreja
despertou para a questão social efetiva?
A “questão social
efetiva”… Qual é a questão social inefetiva? E
depois, com que direito se vem dizer que a Igreja só agora despertou para a
questão social efetiva? Meu caro amigo, o senhor nunca passou em frente de um
convento de vicentinas? O senhor nunca passou diante
de qualquer hospital onde freiras cuidam dos pobres? O que está sendo feito ali?
É não cuidar da questão social? Está sendo posto arsênico naquelas feridas?
Está sendo posto veneno naquelas bocas? Ou, ao contrário, está sendo feito todo
o possível em favor do pobre? Eu desafio um só demagogo que possa apresentar
diante de Deus e dos homens maiores provas de serviço a favor dos pobres do que
a mais humilde das religiosas.
[Aplausos]
Pergunta: É possível falar de reforma
agrária à beira de uma guerra atômica?
Enquanto a bomba
atômica não explodir, é... [Risos]
Pergunta: Qual a origem do capital, em
sua opinião? Qual sua opinião sobre a plus valia?
A origem do capital é
a origem da propriedade privada. O que vem a ser o capital? Há duas formas de
propriedade privada. A propriedade privada que eu uso para meu próprio uso e a
propriedade privada que eu uso para dela tirar uma renda, ou para transformar
em elemento de trabalho e de produção para mim. Por exemplo, minha casa é uma
propriedade privada que não é fruto de vantagem econômica para mim. A terra ou
o dinheiro que eu emprego em ações, é fruto de vantagem econômica para mim,
além do trabalho que eu ponho, e pelo simples fato de eu ser dono daquilo. E
aquilo seria chamado capital.
Eu começo a negar a
autenticidade dessa distinção. Porque se eu tenho uma casa e não sou obrigado a
pagar aluguel, ou eu tenho uma casa que alugo para outro e sou locatário de
outra, qual a diferença de situação? Absolutamente nenhuma. Quer dizer, não é
consistente isso. Eu ser dono de uma casa não é capital, eu ser dono de um
lugar que eu exploro, aquilo é capital. Isso é inconsistente. Eu ser dono de
uma casa não é uma vantagem que se traduz numa economia para mim? Não é a mesma
coisa que o lucro de um aluguel? Quer dizer, eu nem vejo bem a consistência
dessa distinção. Mas vamos utilizá-la para argumentar.
Se é verdade que a
natureza humana confere ao homem o direito de ser dono, o homem quando
trabalha, quando ele tem uma terra, ele pode obter um lucro que não é só de seu
trabalho, mas é da propriedade da terra. Mas, pelo contrário, se ele trabalha,
se ele não é dono, então essa atitude dele é uma atitude extorsiva.
Ele é dono ou não é? Eu não posso entrar aqui na exposição que fiz
pormenorizadamente ontem na UEE. Mas eu poderia dizer, em duas palavras, que
Leão XIII prova que está na natureza do homem, por ser ser
inteligente e livre, prover ao seu próprio destino com seu trabalho e que,
portanto, o direito de propriedade que tem sobre seu trabalho é o direito que
ele tem sobre sua própria pessoa. E que querer negar o direito de propriedade
ao salário, ou o direito de propriedade às economias que são o capital e que
Leão XIII chama muito bem de “salário condensado”, querer negar isso é querer
negar a propriedade do homem sobre si mesmo, bem tipicamente a posição de quem
nega todos os direitos individuais para afirmar uma ditadura que se esconde
atrás da Cortina de Ferro.
Pergunta: O que o Sr. nos diz a respeito
da distribuição de terras no Estado, proposta pelo secretário Paulo.... [não
está claro o sobrenome] ?
Eu digo o que eu acabo
de dizer. Eu creio que se trata de alguém que estava no fundo da sala e talvez
não me tenha ouvido. Eu disse exatamente que a divisão das terras pertencentes
ao Estado me parece algo de excelente, porque favorece a pequena propriedade,
sem atacar o direito de propriedade. E porque cumpre a obrigação que está no
Gênesis: “Povoai a terra”. Ninguém tem o direito de ser dono de terras enormes
no Estado brasileiro e não as franquear ao povoamento.
Pergunta: O projeto de reforma agrária
do governador de Minas é, de fato, uma reforma agrária ou apenas uma revisão
fiscal?
Depende de saber o que
é uma reforma agrária. Se a reforma agrária... aliás, eu passo a palavra ao
Secretário aqui ao lado...
Não, V. Excia. é que é o autor da lei, pode exprimir-se melhor do
que eu.
O Secretário: Em primeiro lugar, eu agradeço a oportunidade que o
Professor me concede. Amanhã eu irei
falar sobre a reforma agrária. De maneira que hoje vou falar muito pouco, senão
acaba o meu assunto para amanhã. O que eu posso dizer em matéria...
[Pede o bilhete onde está a pergunta e relê]
A revisão fiscal é um aspecto importante da reforma agrária, mas a
reforma agrária que o eminente governador Magalhães Pinto pretende realizar e
irá realizar em Minas Gerais, inclui os mais variados aspectos, tendo por ponto
principal o homem e, em segundo lugar, a parte propriamente econômica da
questão. Envolverá não somente uma remodelação completa na estrutura agrária do
Estado, mas também incluirá aspectos de fundo humano interessantíssimos, como
por exemplo, esse da localização em Jaíba de quatro
mil famílias, que ali serão assistidas sob todos os aspectos de ensino, de
saúde, técnica, agronômica, enfim, em todos aqueles aspectos que não podem
faltar numa reforma agrária realmente correta, realmente eficiente.
O programa que irá ser realizado em Jaíba é
um programa que eu classifico emocional, em relação à vida de Minas Gerais. E é
um programa, como eu falei, da maior amplitude, um programa que será dado a
conhecer em seus detalhes dentro de dez dias, porque a programação para Jaíba constará de mais de duzentas páginas datilografadas –
numa exposição de apenas vinte páginas mas os demais adendos técnicos serão
consubstanciados em quase duzentas páginas. Não é uma aventura, não é um
financiamento de fracassos, mas sim uma tentativa honesta de se financiar
resultado e de se financiar vitórias, para o homem e para a economia do Estado.
Por ocasião de ter
ouvido a palavra do Sr. Secretário da Agricultura, eu interrompo a seqüência
normal da exposição, para responder à pergunta de um médico, que manda me
afirmar que tem um chamado médico e que precisa sair logo. Eu acho que a
precaução dele é muito boa de se fazer ouvir já, porque os senhores calculem
que o professor Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira computou em 50 as perguntas
que ainda estão para ser respondidas. Se eu consagrar 3 minutos a cada
pergunta, nós teremos, portanto, duas horas e meia... Eu estou disposto, duvido
da disposição...
Pergunta: Não acha o senhor que o
problema se agrava quando há a associação agrária-industrial,
ou melhor, quando há agricultura-indústria?
A conjugação da
indústria com a agricultura é algo de muito vantajoso debaixo de vários pontos
de vista. Descongestiona os grandes centros, dá para o operário industrial um habitat mais humano, como é o
próprio campo; estabelece condições mais fáceis para o transporte da
mercadoria, porque a usina ou a fábrica se estabelece no lugar onde existe a
produção da matéria prima. Mas, naturalmente, conjugando, multiplica os
problemas, porque aparece ao lado do problema industrial o problema rural. Mas
se isso é verdade, também de outro lado os dois problemas de tal maneira
diminuem de gravidade, que realmente me parece muito bem inspirado João XXIII,
quando preconiza para muitos casos essa conjugação.
À vista do grande número
de perguntas que existem e me parecendo realmente impossível responder a todas
as cinqüenta, porque é uma pletora, eu dou preferência àquelas que parecem
provir de um quadrante ideológico inteiramente diferente do meu, porque assim
tenho oportunidade de dar um esclarecimento que talvez outra circunstância não
apresente. Portanto, vou resolver essas perguntas.
Pergunta: No princípio a Igreja não era
uma sociedade comum? Não repartiam os cristãos tudo o que eu possuíam entre si?
Não havia, portanto, socialismo?
Realmente, no começo,
nos primórdios da Igreja, quando a Igreja era um grupo muito pequeno ainda, os
seus membros viviam entre si como uma ordem religiosa. E, portanto, praticando
entre si a comunidade de bens que nas ordens religiosas se praticava. Mas isso
não era um ideal para a humanidade inteira. Era um ideal para um grupo de
fervorosos que queriam viver como vivem os frades. Eram os precursores dos
frades.
Mas à medida que a
Igreja foi crescendo tanto, que foi se identificando com o gênero humano, foi
se transformando em toda a sociedade, o regime de propriedade privada nasceu
naturalmente, porque ele está na ordem natural das coisas para o gênero humano,
para os Países e não para pequenos grupos de fervorosos. Assim mesmo, a
comunidade de bens nunca foi obrigatória, mesmo entre os primeiros cristãos.
Eles a praticavam na sua maioria, não porém na sua totalidade. E os senhores
têm um exemplo nítido disso no fato de Ananias e
Safira. Eles ocultaram os bens que tinham e fingiam que deram tudo. A resposta
que lhes foi dada é: a mentira era um grande pecado e que, além disso, não
precisavam ter ocultado porque não eram obrigados a dar. Os senhores estão
vendo bem que não havia obrigatoriedade. E é esta a resposta que se deve dar.
[Dirigindo-se ao Dr.
Arnaldo Xavier da Silveira: Eu preferia perguntas de elementos presumivelmente
não católicos. Vamos dizer a palavra, sem explodir demais, de origem comunista
ou para-comunista, aos quais eu me dirijo
cordialmente. Eu lhes dou uma preferência que é uma preferência no desejo
cristão de lhes comunicar essa verdade inefável, que eu tenho a certeza que
todo católico possui. Bem..., então, próximas, cheirando a...
Pergunta: Dr. Plínio, sendo que o
direito de propriedade privada abrange propriedades de qualquer tamanho, seria
então direito um só dono para todas as terras de um País?
Não, de nenhum modo. A
pergunta é muito matemática. Os franceses dizem que para resolver os problemas
é preciso ter os dois espíritos de que falava Pascal: espírito geométrico e esprit de finesse. A pergunta é muito
geométrica, mas lhe falta finesse. Pela razão seguinte: a grande
propriedade tem como limite o ponto em que ela começa a ser prejudicial para o
bem comum. Ora, quando ninguém é proprietário, há nisso um grave prejuízo para o
bem comum, que é o próprio prejuízo do regime comunista, que é a
impossibilidade das pessoas progredirem na vida, de alcançarem situações e de
serem donos de coisas. De maneira que esse regime se identificaria com o
comunismo. Quer dizer, o regime desse tipo de propriedade seria a morte do
regime de propriedade.
Pergunta: Dr. Plínio, não acha que a
terra tem uma finalidade especial que deve ser cumprida?
Perfeitamente. A terra
tem uma finalidade social que deve ser cumprida. E qual é? É de dar alimento para
o País todo, em primeiro lugar. E em segundo lugar, também para que um número
grande de cidadãos possam ser proprietários. E daí vem exatamente o fato de que
a Igreja, preconizando o regime de propriedade privada com propriedades
desiguais, recomenda expressamente que seja possível que o número de
proprietários vá crescendo, que seja bastante ponderável sem absorver as outras
propriedades. A propriedade deve, portanto, ter essa função de organicamente ir
se dividindo, e isso dá.
Eu, uma ocasião, tive
um negócio de um convento em São Paulo, do qual eu era advogado, e pediram uns
títulos de propriedade. Eu fui procurar o frade e ele me disse com uma
simplicidade que me pareceu maravilhosa: “Título de propriedade eu não tenho, mas
é [algo de] tão antigo que é histórico: é Brás Cubas, fundador de Santos, que
nos deu essa propriedade”. Peça de museu. Mas então já tinha o usucapião, o
título não valia nada, tinha interesse só histórico.
Então eu fui ver como
era essa propriedade. Era uma faixa de terra que ia de São Paulo até Santos. No
tempo de Brás Cubas era compreensível. Foi se dividindo espontaneamente sem
nenhuma reforma agrária, como por todo o Estado de São Paulo, por todo o
Paraná, as terras vão se dividindo sem reforma agrária.
O progresso da agricultura
e a valorização das terras vai estabelecendo uma divisão, que não é o
empobrecimento dos ricos, e é o enriquecimento dos pobres. E isso é uma coisa
fecunda, que atende à função social da propriedade. Quando a propriedade por
qualquer razão não atende a isso, ela então deve ser desapropriada. Por justo
preço, mas deve.
Por exemplo, a Europa
superpovoada tem partes de caça. Há, por exemplo, proprietários que para
caçarem faisões mantêm zonas de terras enormes, sem utilização agrícola, com
prejuízo para o País. Essas terras têm sido desapropriadas. Nada de mais justo.
Porque não é possível estar criando faisões, enquanto o País sofre fome. Mas
nós temos tanto onde criar faisão no Brasil…
Veja esse meu amigo,
por exemplo, que pergunta faz:
Pergunta: O senhor admite a existência
de imensas fazendas - isso faz parte do
dono da cadillac, essas tais miragens... imensas
fazendas, com dois ou três por cento das terras cultiváveis, realmente
aproveitável? Que solução propõe?
Eu acho que essas
fazendas com dois ou três por cento cultiváveis, não podem deixar de existir
realmente em certas zonas do Brasil, porque são as cabeças de ponte da
penetração colonial. Quando um homem sai de São Paulo, ou de Belo Horizonte, ou
do Rio, para ir ser fazendeiro no fundo de Goiás ou Mato Grosso, e encontra
muita terra inabitada e barata, o regime que ele tem de colonizar é de comprar
uma terra bem grande e colonizar aos poucos. E há um período em que dois ou
três por cento só estão colonizados. E sem isso uma colonização não começa.
Se se
trata de terras que estão em zonas densamente povoadas, eu distingo. Para os
tipos de cultura em que isso é o melhor – e os há muitos – está bem. Para os
tipos de cultura em que isso não é o melhor, ainda distingo. Se não produz
prejuízo para ninguém, pode. Se produz prejuízos para outros, então é o caso de
uma desapropriação, por justo preço. Alguém dirá: “é um absurdo supor que não
produz prejuízo para ninguém”. Depende: muitas vezes não produz, porque há
terras incultas ali, mas há terras que estão à espera do joão.
Então, o joão não tire o que é dos outros e vá para
as terras.
Pergunta: Pela reforma agrária cristã,
então não há reforma, continuando tudo do mesmo modo? O senhor não acha algo de
muito certo nessa afirmativa: a terra é de quem a trabalha?
Eu li ontem tudo
quanto propõe o Papa João XXIII para uma reforma agrária. Os senhores vêem a
esplêndida declaração dos bispos do Vale do rio Doce sobre a reforma agrária.
Se feito aquilo, se puder dizer que tudo continua como está, então realmente eu
não sei o que significam as palavras. Mas é preciso ler.
Agora, se “tudo como
está” quer dizer que continua o regime de classes sociais hierárquicas, eu digo:
continua e Deus nos livre, para o interesse dos pobres, quer dizer, daqueles
que trabalham com seus braços, que deixe de continuar.
Agora, pergunta-se se
é verdade que a terra é de quem a trabalha. E eu pergunto o contrário: alguém
que trabalha não tem o direito de adquirir a terra? Tem. Se alguém que trabalha
tem direito de adquirir a terra e convida alguém para trabalhar lá, ele perde a
terra? Aquela terra não é o salário dele que está condensado ali? Quem trabalha
é dono da terra? Não é verdade.
Pergunta: Para que não houvesse luta de
classes, o senhor não acha que seria melhor que se pedisse que os ricos não
explorassem os pobres, o que acontece muito nessa estrutura podre em que
vivemos?
“Estrutura podre em
que vivemos”. Aqui está bem o eco – eu não quero dizer que seja demagogia – mas
está o eco da demagogia. Por que é que essa estrutura é podre? Vamos ver
porque. Por que há gente pobre nessa estrutura? Há, há injustiças, é preciso
melhorá-las. Mas isso prova que é podre? Se fosse podre, essa casa não teria
direito de existir. Porque entra um homem com uma doença, eu olho e digo: “Tipo
podre; não vale a pena que exista!” É um doente, algo nele não vai bem, ele
inteiro é podre e tem que ser liquidado? Uma estrutura social apresenta
defeitos, então se forma o slogan: “essa estrutura podre”. Por que podre? Com
defeitos, sim. Vamos corrigi-los, porque tudo que vive deve ser corrigido e
deve ser salvo.
Agora, a outra
pergunta: se eu acho melhor, para não haver luta de classes, que os ricos não
explorassem os pobres. Onde houver pobres explorados por ricos, é preciso que
isso cesse, ainda que não nasça daí a luta de classes. Porque o que nos deve
fazer amar o pobre, e o que nos deve fazer amar a justiça e a caridade não é o
medo do comunista, mas é o medo de Alguém infinitamente mais alto,
infinitamente mais poderoso e diante do qual os comunistas não são senão um brinquedinho: é Nosso Senhor Jesus Cristo, Juiz de nossa
consciência cristã. [Aplausos]
Como é possível que
depois de uma conferência, que pode ter tido todos os defeitos do mundo, mas
curta não foi, uma conferência tal, tão longa, um ouvinte que enquanto me
ouvia, ouvia outros ecos, me pergunte depois o seguinte:
Pergunta:
Reforma agrária é pôr uma capelinha em cima dos
morros, com uma cruz apontada para o infinito?
A essa ironia eu
pergunto o seguinte: ouvir uma conferência é estar prestando atenção no que
disse um outro conferencista e não ouvir o que se disse na sala onde se está? [Aplausos]
Pergunta: O que acha da reforma agrária
de Fidel Castro? Ela não se adaptaria bem em nosso País?
Não, porque se é
verdade que ela é um roubo, o roubo não se adapta num País verdadeiramente
cristão. Não e não. [Aplausos]
Eu fico confrangido de
que a mão de um jovem e de um jovem brasileiro, bastante educado para ter
formulado as suas pergunta em termos polidos, me faça a pergunta seguinte: os
senhores vejam por detrás desse meu jovem patrício agro-reformista, e sem que
ele talvez suspeite, o que está:
Pergunta: Qual será a sua posição após a
próxima revolução socialista brasileira? Pois sendo o senhor a favor da luta
pela vida, terá que se adaptar.
Eu vejo bem qual é a
pergunta que está por detrás disso. Eu vejo que nessa pergunta não é a luta
pela vida. Eu estou fazendo aqui, meu jovem amigo, muito mais do que uma luta
pela vida, eu não estou ganhando um tostão, eu não estou tirando vantagem
nenhuma. Eu estou consagrando uma noite afanosa de minha existência para fazer
algo de infinitamente mais nobre de que a luta pela vida: é a luta por um
princípio. Eu estou lutando por muito mais do que a vida.
Mas por detrás dessa
pergunta, o que está naturalmente é o paredón. E eu devo dizer: se algum dia,
algum paredón deve ser salpicado
com meu sangue, morrendo eu por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, eu antes de
morrer direi de mim mesmo o que dizia Jó de si mesmo: “Bendito o dia em que me
viu nascer e benditas as estrelas que me viram pequenino”. [Aplausos prolongados]
Pergunta: Pela sua exposição, vê-se que
o senhor não conhece o problema de nosso camponês. O Jeca Tatu é o protótipo do
camponês brasileiro. Gostaria que o senhor enfrentasse a realidade, pois fazer
reforma agrária em gabinetes com ar refrigerado, qualquer um faz. [risos]
Vejam os senhores a
leveza, a inconsciência, a superficialidade. Eu não queria por nada de
agressivo no que vou dizer, mas o playboismo sociológico dessa pergunta... [risos] “O senhor não conhece”… Eu tinha
vontade de dizer: meu amigo, o senhor conhece? O senhor conhece, por exemplo, o
trabalhador rural de várias zonas de São Paulo? Ou então de Santa Catarina, por
exemplo? Ou do Rio Grande do Sul? O senhor conhece o trabalhador rural de várias zonas de sua nobre e querida
Minas Gerais para poder falar? Quem é que lhe disse e onde é que o senhor
encontra alguém que afirme que só existe o Jeca Tatu como colono brasileiro?
Admitamos que ele exista. Que argumentos se tiraria daí? Eu mesmo em minha
conferência afirmei que muitas vezes ele existe, e que é preciso exatamente
criar nele, antes de tudo, o desejo de não ser Jeca Tatu, o desejo de
progredir. É o que foi dito há pouco nessa sala. No que possa haver nisso um
desconhecimento da realidade brasileira, eu não sei. Eu sei o seguinte: que o
primeiro passo a gente conhecer a realidade brasileira é a gente conhecer bem
as conferências que ouve.
[Aplausos]
Pergunta: No início da conferência o
senhor disse que a reforma agrária demagógica não usava termos concretos. Como
que o senhor não disse um dado concreto?
Eu não disse
propriamente que a reforma agrária demagógica não usava termos concretos. Eu
disse que ela não dava argumentos concretos. O que quer dizer, evidentemente,
argumentos definidos, argumentos palpáveis, argumentos que se possa responder
com argumentos, e não exclamações, uivos e aliciamentos de demagogia. Isto que
eu... Eu tenho certeza que aqui não houve nem exclamações, nem uivos, nem
aliciamentos de demagogia.
Pergunta: O senhor falou em propriedade
privada, mas não considerou a divisão entre bem de produção e bem de consumo.
Será certa a propriedade privada de bens de consumo. Será certa a propriedade
privada de bens de produção? Em caso afirmativo, não ficaria ao arbítrio
individual o progresso agrícola do País, mesmo considerando a necessidade das
classes ricas continuarem como estão? Em caso negativo, a terra é bem de
produção?
Eu me exprimi em
termos genéricos abrangendo tudo. Aliás, eu não tive por objeto demonstrar isso.
Eu disse apenas que demonstrei ontem. De maneira que é preciso se reportar à
conferencia de ontem. Eu não posso encaixar duas conferências numa só. Mas,
enfim, o que eu disse é o que eu disse ontem: que Leão XIII sustentava que o
homem, sendo dono do seu corpo, é dono do esforço do seu corpo. Sendo dono do
esforço do seu corpo, ele é dono do seu trabalho, e portanto, ele é dono do
produto do seu trabalho. E sendo dono do produto do seu trabalho, tanto ele
pode ir trabalhando para viver cada dia, como ele pode trabalhar mais e
acumular mais do que o necessário para cada dia, constituindo para si um
pecúlio. Ele pode também, para isso, apropriar-se não só de um instrumento de
produção que ele faça, como apropriar-se da terra, ou transformar seus bens em dinheiro
para colocá-los. E nessa justificação, tanto os bens de consumo quanto os bens
de produção entram indiscriminadamente. Quer dizer, a distinção não vinha como
tal ao caso, porque a justificação abrange todas essas categorias.
Os senhores me dão licença
de uma coisa: eu estou muito disposto, muito alegre em responder a todas as
perguntas que representam um grande interesse pelo assunto. Mas eu tenho receio
de que alguns dos senhores estejam aqui por cerimônia e gostassem de se
retirar. Nesse caso, eu considero a coisa mais natural do mundo que se retirem,
inclusive as autoridades aqui presentes, que se quiserem retirar eu
considerarei a coisa mais explicável do mundo. Eu realmente tenho prazer em
estar aqui e responder a essas perguntas.
Pergunta: O senhor falou em
desigualdade, determinismo que marca todas as coisas que nos cercam. A
desigualdade condena o homem a ser inferior. Possibilita ao nosso homem
humilde, sem condições econômicas para se realizar humanamente, desde que a
desigualdade o condene a ser inferior? E se houvesse uma divisão eqüitativa dos
bens econômicos, esse homem símbolo de uma população não se realizaria
igualmente, a exemplo do que o corre nos Países abastados?
Em primeiro lugar,
quais são esses Países abastados? Já que se trata de um exemplo, quais são? Eu
gosto de saber quais são os Países abastados. É abastado um País onde se está e
do qual não se quer sair. Não é abastado um País do qual se foge de todos os
jeitos, como gato foge de uma fornalha, por todas as frestas e por cima de
todos os muros... [risos] Então eu devo concluir que esses famosos Países
abastados não são os Países que ocultam sua abastança através de uma muralha de
ferro e berram daqui: “eu sou riquíssimo!”, mas são aqueles que permitem ser
visitados e que a gente vê quais são.
Então eu imagino que
os Países abastados aqui sejam os Países principais do Ocidente e que a
pergunta se refira, por exemplo, aos Estados Unidos, por exemplo à Alemanha
Ocidental, por exemplo, à Itália de após guerra ou à França de após guerra que
se reergueram extraordinariamente, digamos o Canadá, etc. Então admito por
hipótese que nesses Países e, de um modo geral pode-se dizer que se realiza,
nesses Países realmente haja um grande nível de vida para aos trabalhadores
manuais.
Então eu tomo a
pergunta assim e eu a relaciono com a primeira parte. Então esses homens,
apesar de terem bom nível de vida, são obrigados a serem inferiores? Isso é
justo? E eu digo: ou isso é justo ou é injusto? Porque se Deus fez homens mais
inteligentes e homens menos inteligentes, ele estabeleceu nisso uma
desigualdade muito mais dolorosa para o orgulho humano do que a desigualdade de
dinheiro. Porque ser rico é muito pouco em função de ser inteligente. Eu
conheço muita gente, não só rica, mas riquíssima, mas quando a gente vê
acompanhar as coisas: um olho parado, marasma... [Mas]
sempre que se fala de um veleiro, de um automóvel... [sái
do marasma]. Se
considera pouco o médico, se considera pouco o advogado, se considera pouco o
engenheiro.
Um médico dos mais
ilustres de São Paulo contou-me precisamente esse fato - os senhores me desculpem o parênteses, mas
era uma coisa que era preciso ser dita -
contou-me que ao cabo de alguns anos de atividade profissional, ele
acumulou laboriosamente “x” milhões de cruzeiros. Ele falou com um amigo que
lhe disse: “Fulano, você sempre nessa medicina, história que não acaba mais,
cura esse, enterra aquele, etc., você não sai do lugar, eu não vejo você ficar
rico. Você deve dar um pontapé nessa medicina e entrar nesse ramo de comércio,
ou nesse outro de indústria e fica rico de uma vez.” E esse homem muito
respeitável deu essa resposta muito respeitável também: “Eu não quero, porque
eu gosto de minha medicina”. Resposta: “Rapaz, você é um poeta. Então vamos
fazer uma coisa: você me dá seu dinheiro, eu aplico”. O amigo, no ano seguinte,
devolveu a quantia multiplicada por dois. Esse homem disse: “Eu ganhei em pouco
tempo, tanto quanto ganhei em toda a minha vida profissional. Como eu fico
diante desse homem que maneja milhões assim à vontade? Fico apequenado”.
Exatamente o que me
alarma é isso. Eu falo que desigualdade social não se entenda que é
desigualdade sobretudo de dinheiro. Dinheiro é um complemento. A desigualdade
social é a desigualdade de uma sociedade de homens, onde há desigualdade de
homens muito mais que desigualdade de dinheiro.
Pergunta: Considerando-se a um fato no
Brasil a existência de fazendeiro de asfalto, que tem a fazenda somente para
lhe dar dinheiro ou passar um agradável fim de semana, qual a solução que o
senhor propõe nesse caso?
Eu sei que vou
exasperar meu consulente, mas sei que sou obrigado a
ser verdadeiro, mesmo quando se desespera. O Padre Antônio Vieira, com aquele
seu talento oratório excepcional, falava a respeito de Deus numa certa situação:
“Deus de tal coisa processou de tal modo, Deus de outra coisa processou de
outro modo e tal outra coisa Ele providenciou não providenciando”, quer dizer,
deixando correr as coisas. Muitas coisas em sociologia e política a gente
providencia de um modo, outras providencia de outro modo e outras a gente
providencia não providenciando.
Por mais antipática
que seja a figura de fazendeiro de asfalto enquanto [indo à] boite, enquanto [indo a]
lugar perdido, enquanto não tendo contato com o povo, etc., etc., é o caso da
gente estabelecer uma lei para reprimir isso? Isso faz parte de nosso estado de
espírito pelo qual a lei deve resolver tudo. Então, se se
bebe demais, vem a lei seca, se se mente, vem o
departamento policial de mentiras, DPM, para reprimir todas as mentiras que
possa haver. Se alguém dorme demais, vem a delegacia dos dorminhocos, que manda
todo mundo acordar. E assim por diante. É o [estado de espírito] de achar que a lei deve corrigir tudo.
Ora, os senhores notem
que a lei é necessária, e que o País sem leis seria o País mais desgraçado do
mundo. Mas na ordem das desgraças, logo depois do País sem leis, o País mais
desgraçado, quer dizer, o mais próximo a esse, seria o País com leis demais. E
eu conheço um País chamado Brasil, um pouco parecido com isso. As leis não
resolvem tudo. É a moralidade, são os costumes, é o espírito cristão, é preciso
pregar, é preciso fazer apostolado, é preciso dizer as verdades. E as verdades
podem transformar o mundo. Nosso Senhor Jesus Cristo disse: “Veritas liberabit vos - A verdade vos
libertará”. Não é a polícia que nos libertará, nem é a lei. São as verdades que
nos libertarão. Mas é preciso dizê-las.
Pergunta: Como se cumpririam, no caso do
campo, os princípios da co-gestão operária e participação nos lucros,
defendidos pelo Papa João XXIII na encíclica Mater et
Magistra?
Eu acho a palavra
“defendidos” pouco precisa. A participação nos lucros, na gestão da empresa
etc., são coisas desejadas pela Igreja em certas circunstâncias. De nenhum modo
próprias para serem impostas pela lei obrigatoriamente. Esse é o ensino de Pio
XII e esse é o ensino de João XXIII na Mater et Magistra. Agora, voltando ao
caso, como é que se cumpriria? Eu acredito que certo tipo de cultura, com certo
tipo de relações muito boas entre patrões e empregados, isso poderia surgir
como um produto natural e favorável da ordem espontânea das coisas. Eu não
acredito de nenhum modo que seja possível impor isso pelas leis. Entra mais uma
vez aqui a legomania, que é tão
inconveniente para o bem comum.
Pergunta: Realmente, é lógica a
impossibilidade de igualdade de classes. Mas o senhor acha cristão que uma
classe use de todas as prerrogativas que lhe são dadas e até crie algumas
outras, enquanto outras classes não gozam dos mínimos direitos da pessoa humana,
como o direito à constituição da família, direito à vida, direito ao repouso,
direito à educação, etc.?
Eu diria o seguinte: deve
haver uma certa proporção no corpo entre o bom aparelhamento
da cabeça e o bom funcionamento de todo o corpo. De maneira que é melhor ser um
homem bem constituído do que ter, por exemplo, um olfato prodigioso, olhos penetrantíssimos, um ouvido incomparável, uma dicção
maravilhosa, mas ser paralítico. Quer dizer, realmente deve haver uma proporção
das excelências distribuídas por todo o corpo.
Mas quando há
concentração das excelências de um lado e há deficiência do outro lado, o que a
gente faz? O remédio consiste em dividir em pedacinhos a parte mais sã e fazer
uma reforma cabeçária? Ou o remédio consiste em
difundir esses bens, estimulando o progresso de todas as partes sociais? Vem
sempre a idéia da divisão. Mas trata-se realmente de dividir? Ou trata-se de
fazer uma política de salários, uma política de trabalho, uma política de
produção para todas se enriquecerem. O problema é tirar de uns para dar para
outros, ou fazer colaborar todos para que todos tenham tudo? É evidentemente a
segunda solução.
Pergunta: Pergunto ao senhor o que
existe mais no Brasil: fazendeiros que lutam pelo bem-estar de seus agregados,
ou fazendeiros que são, como o senhor falou, fazendeiros do asfalto? Se existe
mais o tipo fazendeiro do asfalto, como faríamos para mudá-los?
Bem, uma resposta da
pergunta está dada, mas eu gosto muito da pergunta: que tipo de fazendeiros
existe mais? Eu acho que o fazendeiro do asfalto é uma minoria, mas por que não
se estuda isso antes de fazer reforma agrária? A precipitação: vê-se um
fazendeiro do asfalto, já se fica elétrico: “é o caso de todos os fazendeiros!...”
Por que não estudar? Por que esse medo do estudo do agro-reformismo
socialista, que me dá a impressão de medo de criança quando vai tomar banho de
mar. Ao mesmo tempo fica atraída pelo mar e tem medo das ondas. Então, fica
pulando na entrada do mar.
Assim também começam
com afirmações: bem, é, não é, palavras vagas. Se são mais numerosos, apresente
uma prova. Vá, estude! Faça como nós. Tivemos o trabalho de fazer. Eu que não
sou fazendeiro, nenhum dos quatro autores é fazendeiro. Aqui está o livro. Por
que não se faz um contra-livro provando que está tudo
errado, provando que há uma multidão de fazendeiros do asfalto, etc.? Aqui
estão os prelos; eu pago a tinta.
Pergunta: O senhor não percebe que os
homens da política atual, ambiciosos, opulentos (os senhores não levam a mal),
ligados a grupos econômicos, jamais tentarão uma reforma agrária concernente à
situação lamentável dos oprimidos, dos escravos, isto é, pequenos fazendeiros e colonos?
“Escravos, isto é,
pequenos fazendeiros e colonos”. 2, isto é, 4 ou 5. Escravo o que é? É o que
não tem direito a nada, nem à vida e que o Direito Romano definia como sendo
tratado como um objeto, isto é, que a gente quebra à vontade, isto é um
escravo. Depois ele diz: “um outro que tem direito à vida e que até tem direito
a salário, tem direito a mudar de patrão e até pequeno fazendeiro”. Isso tudo é
igual nessa sociologia agro-reformista. E vai a galope: escravo, isto é,
pequeno fazendeiro e trabalhador manual.
2 = 5 ou 8... Matemática nova...
Pergunta: Não surgindo líderes honestos,
o senhor não acha que ao camponês compete fazer a sua reforma?
Há grupos econômicos
que oprimem, etc., etc., eu não tive tempo de estudar isso. Mas eu faço um
convite. Se há, escrevam, digam que há, denunciem, provem, protestem. Agora,
não é ficar sentado sussurrando: queimar isso, matar, escangalhar… Não senhor,
arraste os outros brasileiros ao ataque. Dê as suas provas. Fale alto. E antes
de destruir e de queimar e de injuriar, pense em argumentar.
Pergunta: Os colonos reduzidos a isso
deveriam agir?
Estão “reduzidos a
isso”? É fato que são todos desonestos? Eu protesto, não posso aceitar essa
afirmação assim.
Pergunta: O problema não é existir terra
sobrando. É que se morre à fome e com carência de luz de espírito, porque nossa
lavoura é trabalhada com métodos de Idade Média. Não havendo riqueza, não
existe ensino, alimentos ou habitação decente. Que sugestão o ilustre
conferencista sugere?
Eu sugiro verificar
essas afirmações. Como é que o problema é não existir terra sobrando... Meu jovem amigo. Aqui está afirmado que dois
terços do território nacional não são cultivados. Ou isso está falso e o senhor
então dê a prova que é falso. Então, até esbandalho esse livro, porque era o
caso. Ou se isso não é falso, não diga que o problema não é que haja terra
sobrando. Por que como pode ser isso: numa casa, dois terços do pão existente
não está sendo comido, a gente pode dizer que não há pão sobrando? Então, o que
é sobrar? E como é, meu caro amigo, que levado por impressões, o senhor,
provavelmente ainda tão jovem, afirma todas essas coisas com esse desembaraço
precipitado?
Então, diz que “se
morre à fome com carência da luz do espírito, porque nossa lavoura é trabalhada
com métodos da Idade Média”. Em primeiro lugar, eu sou um obscuro professor
universitário de História e a Idade Média está no meu distrito. Se esse meu
jovem amigo quiser me fazer uma visita, eu terei oportunidade de provar a ele
que a agricultura conheceu na Idade Média uma das maiores épocas de progresso
relativo daquele tempo. Não havia de fato motor diesel
naquele tempo, mas não era preciso o motor diesel
para que a humanidade tivesse algum progresso e produzisse homens muito
notáveis. Aristóteles e Platão existiram apesar de não haver motor diesel e a agricultura se estendeu por toda a Europa apesar
de não ter motor diesel.
Alguma coisa eu lhe
posso dizer, meu amigo, sobre a Idade Média. É uma coisa que com os
conhecimentos que o senhor tem de ginásio, o senhor já pode verificar o que é.
O senhor sabe, com certeza, que a Idade Média começou quando os bárbaros
invadiram o Império Romano e que, em conseqüência disso, as estradas se
romperam, a civilização se desfez, os homens morreram em boa quantidade e as
terras cultivadas passaram a ser mata. Então havia na Europa duas matas, ou
dois tipos de mata: as matas que eram cultas romanas, que voltaram a ser mata e
a mata dos lugares selvagens nunca habitados: Alemanha, Hungria, Polônia,
Suécia, Dinamarca, Noruega, Bélgica, Holanda, Áustria etc. Os romanos tinham do
sertão alemão e dinamarquês tanto medo, que eles diziam que eram habitados por
bárbaros que tinham orelhas tão grandes que se embrulhavam nas próprias orelhas
quando fazia frio. Como se a orelha não sentisse frio. Eu não compreendo bem
essa concepção térmica, mas era o que eles achavam.
Quando a Idade Média
acaba, vamos dizer que ela tenha acabado com a queda de Constantinopla nos
meados do século XV, os senhores encontram toda Europa plantada. Não só a
Europa ex-romana que está plantada também, mas os
senhores encontram toda aquela zona da Alemanha, etc., que está plantada
também, até seus últimos confins. Um jovem amigo meu, amigo por ser brasileiro,
amigo por ser jovem, me fala com essa despreocupação: “métodos da Idade Média”...
Pensar um pouco, não?
Pergunta: Não havendo riquezas, não
existe ensino, alimento ou habitação decente. Que sugestão o ilustre
conferencista sugere?
O conferencista,
infelizmente, não é tão ilustre, mas tem uma sugestão. E essa sugestão se reduz
a uma objeção: “não havendo riqueza não existe ensino, habitação ou alimento
decente”. Está bom. Então, façamos riqueza. Façamos como fizeram os nossos
maiores. Quando Cabral veio para cá, não havia ensino nem alimentação decente.
Isso foi tirado a braço de dentro da terra. Nós vamos para o nosso interior e
tiramos isso a braço de dentro da terra. Aparecerá riqueza, alimentação decente
etc., etc. Aí está minha sugestão.
Pergunta: A reforma agrária não é um
meio de tirar ao rico e dar ao pobre, mas sim um meio de impedir o acúmulo de
riquezas nas mãos de uns em detrimento de outros. No início, talvez, seja
necessário tirar dos ricos e dar aos pobres. Mas as leis devem ser feitas de
tal maneira a limitar o latifúndio.
Os senhores me
perdoem, mas me escapa da boca. Não sei se os senhores viram certos gramofones,
certas vitrolas em que o disco está com defeito e repete então: tão, tão, rão, tão, tão, tão, rão, tão...
Porque mais uma vez nós voltamos ao caso. A reforma agrária não é um meio de
tirar ao rico e dar ao pobre. Não é, mas depois nós vamos ver que é. Porque ele
diz o seguinte: “no início talvez seja necessário”. Então, é porque nós estamos
no início. Nós estamos no fim? Mas os senhores não me levem a mal, digo isso
com muita cordialidade. Sabe por que eu friso isso? É para mostrar uma espécie de hipnotismo que a
demagogia exerce e que é muito interessante.
Porque se isso fosse
dito por rapazes sem inteligência, sem boa fé, se fosse sem inteligência, eu
diria: coitado! E ficaria quieto para não desiludir. Se fosse sem boa fé, eu
não responderia. Mas estão hipnotizados. A gente diz uma coisa, eles ouvem, mas
depois, disco [riscado]... Está colocado assim num labirinto, volta e vem todo
o problema. Nós acabamos de falar da nossa imensa reserva de terras. Por que
então a necessidade de tirar de uns para dar para os outros, se tem algo que
não é de ninguém? Esse argumento nem entra nessa problemática. É virgem dessa
problemática.
Pergunta: Em que sentido existe o termo “socialização”
na Mater et Magistra?
Como já respondi isso
ontem, e quero abreviar o mais possível, o consulente
tenha a gentileza de vir aqui e eu lhe dou o pormenor do assunto.
Mas o assunto em linhas gerais é esse: os senhores sabem
que todo documento pontifício tem um texto latino, que é o texto oficial, e
depois tem as traduções que não são oficiais. Embora feitas até pelo Vaticano,
não são traduções oficiais. Oficial é só o texto latino.
É mais ou menos como
uma lei. Uma lei pode ser publicada no “Diário Oficial” e no texto oficial. O
que for publicado depois num jornal do governo, que não é o “Diário Oficial”, é
um jornal oficioso, é um texto oficioso, mas não goza das garantias do texto
oficial.
Isso mesmo se dá com a
encíclica Mater et Magistra. Foi publicada em
latim. E eu a estudei diretamente no seu texto latino. E verifiquei o seguinte:
várias traduções da Mater et Magistra falam de socialização, mas no texto latino a palavra socialização não existe. E não só a palavra socialização não existe, mas cada vez que a
tradução fala em socialização, o texto emprega um
sentido que nada tem que ver com socialização, ou melhor, que nada tem que ver com socialismo. A palavra socialização foi empregada num sentido que
não insinua socialismo nem de longe.
Quais foram os textos
do documento oficial que foram traduzidos como socialização? Primeiro sentido de
socialização: socialis rationes incrementa,
foi traduzido por socialização. Ora, o que dizer, socialis rationes
incrementa?
Quer dizer, o “incremento das relações sociais”. Então as pessoas têm relações
sociais, intensificam isso. Isso é socialismo? Pode ser chamado socialização,
se quiser, derivado da palavra sociedade. Mas então é uma
socialização que nada tem a ver com socialismo. Uma senhora de muitas relações
sociais é uma senhora muito socialista...! Socialis vitae processus, foi traduzida por socialização. Ora, o que é Socialis vitae processus? É o “progresso na vida social”. Isso é socialismo? Não,
pode-se chamar de socialização, derivando-se a palavra de sociedade, talvez.
Mas não tem nada que ver com socialismo. Outro trecho: increbrescentibus socialis vitae rationibus, ou seja, as “crescentes
relações da vida social”. Não tem nada com socialismo. Outro trecho: socialis vitae
incrementa, isto é, o incremento da vida social. E outro
trecho ainda: Socialium rationum progressus, isto é, o “progresso
das relações sociais”.
Se isso tem alguma
coisa que ver com socialismo, então é o caso de dizer que eu não sei mais
latim, não sei mais português, não sei mais pensar. Não cheguei até lá ainda.
As perguntas, agora,
são de natureza mais delicada. O prof. Arnaldo diz que há 31 perguntas que são,
de um modo ou de outro, a repetição disso. E eu confesso aos senhores que
começo a me cansar. E os senhores, muito amáveis, devem estar muito mais
cansados ainda. Não aconteceu isso, não acontecerá, mas se algum dos senhores
me fizesse alguma pergunta sobre minha vida de família, eu responderia, porque
eu acho que a vida de um homem deve ser um livro aberto. Mas eu responderia com
o respeito devido às pessoas de minha família e à instituição de minha família.
Ora, foram-me feitas –
eu não censuro, não vejo a menor censura nisso, acho perfeitamente natural –
perguntas que dizem respeito à vida de uma família muito mais alta, à qual
todos nós pertencemos e que é a Santa Igreja Católica. As perguntas que me
foram feitas, eu as vou responder com o respeito devido também. Mas eu não
quero deixar nada sem resposta.
Pergunta: Fala o senhor em nome da
Igreja cristã? Como explica o senhor a oposição de tantos bispos ao livro
escrito por V. Excia.? É de seu conhecimento a
campanha pró-reforma agrária encetada pelos senhores
padres Viegas e Lages? Parece-nos que o movimento
encabeçado por esse sacerdote é revolucionário e do ponto de vista cristão
difere do que prega V.S. Usariam esses padres a batina como uma camuflagem ao
seu comodismo? Qual o seu ponto de vista a esse respeito?
Dr. Plínio, considerando que a
conferência aqui mesmo feita pelo eminente padre Viegas
foi fundamentalmente diversa da vossa; que diversos arcebispos do Brasil se
manifestaram em desacordo com o livro “Reforma Agrária - Questão de Consciência”;
que no próprio Antigo Testamento vê-se o repúdio da propriedade da terra como
inerente ao homem, considera o senhor vossa opinião como de toda a Igreja una?
É socialista a reforma agrária paulista?
Se é socialista, por que tem a aprovação de grande parte do episcopado
nacional?
Respondo primeiro com
um preito de respeito ao episcopado nacional inteiro, sem divisões, nem
distinções, vendo neles, no seu conjunto, aquilo que se poderia chamar, sob a
direção e a autoridade do Papa, a Igreja brasileira. E nesse preito de
respeito, envolvendo uma afirmação da fundamental unidade da Igreja brasileira,
dentro dos limites e do âmbito sagrado da Santa Igreja Católica Apostólica
Romana.
Eu na Igreja sou
leigo. E eu, que acabo de falar a respeito do princípio da hierarquia e a
respeito da desigualdade, eu devo tomar em consideração o princípio enunciado
por São Pio X, que é o seguinte: que na Igreja há duas classes; uns foram
feitos para reger, para ensinar e para santificar; e outros foram feitos para
serem regidos, serem ensinados e serem santificados. Eu sendo leigo, não tenho
atribuição nem para reger, nem para ensinar, nem para santificar. Eu sou um
súdito da Igreja Católica e não tenho, muito menos ainda, funções para
corrigir, para retificar ou para polemizar com qualquer sacerdote, a fortiori com qualquer
arcebispo, com qualquer bispo ou qualquer mais alta autoridade.
Eu afirmei a minha
doutrina. Afirmei-a em consonância com dois ilustres arcebispos. Eu justifiquei
com textos pontifícios a doutrina que está firmada aí e estou disposto a
derramar por ela o meu sangue. Além disso, estou disposto a dar todas as
explicações que se queira a esse respeito. E quando há uma opinião divergente
entre bispos, o fiel tem o direito de, obedecendo ao seu bispo, formar a sua
consciência estudando os documentos dos Papas como eles são.
Eu estou certo de que
nesse livro está a verdadeira doutrina católica. Não recebi nenhum argumento
que me convencesse do contrário. Enquanto não receber esse argumento, eu não
mudarei de opinião. Mas eu quero fazer aqui uma declaração e nessa declaração
vai minha alma inteira: Se porventura algum dia, eu que estou disposto a
derramar o meu sangue por qualquer letra desse livro, [se se
provar] que esse não é o pensamento do Santo Padre o Papa, eu imediatamente
desdigo o que está aqui. Porque mais certo do que isso e mais certo do que tudo
na vida, eu estou certo de que a Igreja é una e de que o Papa é o Vigário de
Jesus Cristo na terra e é infalível. Com um hino de amor ao Papa eu desejo
terminar a reunião dessa noite.
[Aplausos prolongados]